Revista Trip

 

Calibre 12 versículo 2

A Polícia Militar da Zona Norte de SP convoca os PMs de Cristo para combater a violência
icone postado
04.02.2009 | Texto por Endrigo Chiri Braz Fotos Fernando Cavalcanti

O tenente-coronel Osvaldo Sorge em sua sala no 18o. batalhão da PM:

O tenente-coronel Osvaldo Sorge em sua sala no 18o. batalhão da PM:
"É a primeira vez que seguro minhas duas armas juntas"

“Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado.” Não estava exatamente nos planos de Osvaldo Luiz Sorge encarar um dos cargos mais perigosos da Polícia Militar, mas o versículo 2 do capítulo 42 do livro de Jó, um dos preferidos desse tenente-coronel de 49 anos – 29 de PM, 10 de Igreja Evangélica –, com certeza serviu de incentivo. Sorge foi convocado pela alta cúpula – a militar e a religiosa – para assumir o comando do 18o Batalhão, à época metido em sua pior crise e longe de ser uma tropa exemplar. Mas a trajetória militar, a crença inabalável e o modus operandi do tenente-coronel o levaram para lá, em setembro de 2007.

O coronel José Hermínio Rodrigues, comandante do CPA-M3, responsável por toda a região da zona norte, fez um pedido prontamente atendido por Sorge, seu ex-colega (estudaram dois anos juntos na Academia da Polícia Militar do Barro Branco): retomar o trabalho dos PMs de Cristo, uma associação evangélica com 15 anos de existência, nas cinco companhias que formam o 18o Batalhão. Quando Sorge empunhou a Bíblia e a calibre 12 para a foto que abre esta matéria, soltou: “É a primeira vez que seguro minhas duas armas juntas”.

Antecedentes criminais
Para entender o tamanho da encrenca que Sorge assumiu, é preciso voltar para janeiro de 2007, quando começou na zona norte uma onda de chacinas e homicídios – e junto com ela surgiu a suspeita de envolvimento de policiais do décimo oitavo. O coronel Hermínio começa a tomar providências: afasta soldados do serviço para serem investigados, combate a chamada máfia dos caça-níqueis e monta operações intensivas nos focos de violência. Na condição de comandante do 18o, Sorge participa das operações, acompanha de perto o trabalho de seus soldados e incentiva o trabalho dos PMs de Cristo.

Em um ano, ocorreram 13 chacinas que resultaram em 55 mortes na zona norte, além do assassinato do coronel Hermínio, comandante da PM na região

Todo o trabalho de Hermínio, Sorge e de outros comandantes da zona norte surte efeito, incomoda os envolvidos e culmina em mais tragédia. Dessa vez, não contra um civil periférico, criminoso ou não; mas contra o próprio coronel Hermínio. Dia 16 de fevereiro de 2008, de férias, ele andava de bicicleta numa manhã de quarta-feira quando foi assassinado com cinco tiros à queima-roupa. Três policiais do 18o Batalhão são suspeitos de envolvimento e estão presos e sob investigação – também, por outros dois crimes anteriores.

Quase 16 horas depois de Hermínio, oito pessoas são assassinadas na primeira chacina do ano na capital, também na zona norte. Ao todo, do dia 14 de janeiro de 2007 ao dia 17 de janeiro de 2008, acontecem 13 chacinas que resultam na morte de 55 pessoas na região. Parte delas com indícios de atuação de um grupo de extermínio formado por policias. “Os Matadores do 18”, como batizou a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, que vem acompanhando de perto as investigações do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa) e da Corregedoria da Polícia Militar.

Páginas: « anterior | 1 | 2 | 3 | próximos » 
TAGS