Revista Trip

 

Ah não!

Arthur foi a Itabaianinha (SE) conferir como vivem os moradores da cidade dos anões
icone postado
04.02.2009 | Texto por Arthur “Gulliver” Veríssimo Fotos Nelson Mello

Seu Dodi­nha, 85 anos e 1,20 m, recebe com todo o decoro nosso repórter excepcional em sua casa

Seu Dodi­nha, 85 anos e 1,20 m, recebe com todo
o decoro nosso repórter excepcional em sua casa

A luz do sol se filtra através do arvoredo. Todos os raios parecem apontar para o ginete, que cavalga com desenvoltura. Falta apenas uma moldura barroca para enquadrar a pintura. O cidadão se aproxima e, num movimento cadenciado, salta de supetão diante dos meus olhos. Com extrema habilidade, deixa o cavalo ao lado de um pé de mandacaru e me recebe com muito decoro. Estamos falando de um senhor de 85 anos cheio de vida e com a estatura de 1,20 m. Sim, isso mesmo, não é erro de digitação. “Nasci pequeno e nunca precisei de nada de ninguém. Sei resolver tudo sozinho com o meu tamanho. Corto no machado, trabalho com enxada, torro poste, monto cercas e ainda faço uma comida apetitosa”, conta seu José Francisco dos Santos, que todos chamam de seu Dodinha, com uma lucidez prodigiosa e uma polivalência para sobreviver que lembram o grande herói Dersu Uzala (1975), do cineasta japonês Akira Kurosawa.

A figura de seu Dodinha está longe de ser uma raridade naquele cenário. Conhecida como a cidade dos anões, Itabaianinha, encravada na região sul de Sergipe, a 120 km da capital, Aracaju, é o local que possui mais casos de nanismo no mundo. Vamos aos números: o Brasil tem em média um anão para 10 mil habitantes. Em Itabaianinha, com 80 anões entre seus 32 mil moradores, o índice é 25 vezes maior. Segundo o dr. Manuel Hermínio de Oliveira, professor da Universidade Federal de Sergipe (UFSE) e especialista em endocrinologia genética, o índice sobe para 400 vezes a média nacional no povoado de Carretéis. Esses dados trouxeram para essas bandas pesquisadores e médicos da USP e da UFSE. Mas foram cientistas americanos da Universidade John Hopkins que primeiro detectaram a razão do problema: uma mutação genética no fator liberador do hormônio de crescimento (GH).

Com o isolamento geográfico que transforma vilarejos em espécies de ilhas e os casamentos consangüíneos (primos e primas, tios e sobrinhas) tão comuns em certas regiões do Nordeste brasileiro, o índice de nanismo explodiu em Itabaianinha, gerando um grupo de pessoas com altura entre 1,05 m e 1,35 m. No caso dos pequeninos da cidade, a deficiência do hormônio do crescimento ocorre quando a pessoa recebe um gene mutante tanto da mãe como do pai. A mutação genética não se manifesta quando se herda apenas um dos genes, mas a deficiência permanece incubada. Basta o cidadão se engraçar por uma prima distante não necessariamente baixinha para que ocorra a probabilidade de nascer um filho anão. O dr. Hermínio esclarece que a saga dos anões de Itabaianinha começou há oito gerações, isto é, há 250 anos.

“Nunca precisei de nada de ninguém. Resolvo tudo sozinho. Corto no machado, monto cercas e ainda faço uma comida apetitosa” - Seu Dodinha

Páginas: « anterior | 1 | 2 | 3 | próximos » 
TAGS