É nóis: Adriana Verani
Por onde passa, ela chama atenção. Sorrisão sempre estampado no rosto, franjinha na altura dos olhos, jeito informal. Gentil e bem-humorada, na boca de Adriana Verani palavras como “amooor”, “déli” e “suuuper!” são comuns. Poucas coisas a tiram do sério, e “carão” – gente com cara amarrada – é uma delas. Dri retornou à Trip cerca de um ano atrás – uma década depois de sua primeira experiência na editora – para produzir a revista Trip. Vinda diretamente de Piracicaba, aos 18 anos, para cursar publicidade na ESPM, sempre soube o que queria da vida. E é bem difícil convencer a taurina do contrário.
Adriana já morou em pensionato de freiras, com a única irmã – e melhor amiga, que hoje vive na Itália –, e, atualmente, divide uma casinha linda de vila com o namorado. Ela sempre se virou. Da Trip, para Nova York, para a gravadora independente ST2, para a produtora O2, de volta à Trip. Ela acredita que trabalho só se faz de um jeito: com amor. E isso se estende a todos os aspectos de sua vida.
Com vocês, Adriana Verani, uma querida:
1. Camila, Paula Wehba, Joana e Adriana - depto de marketing Trip 2001 na caverninha da rua Lisboa. 2 No Favela Chic em Paris, durante um festival de música em 2002. 3. Adriana e sua irmã em Praga em 2007. 4. Ronaldo Bressane comemorando final de ano na Trip, rua Mário Guastini, em 2000. 5. Adriana e Els Pynno da banda Vive La Fête - primeiro show internacional que produziu aqui, em 2006. 6. Adriana e Henrique em Bologna / Itália visitando a irmã de adriana em 2007
Sua história na Trip é antiga. Você começou dez anos atrás, saiu e voltou. Conte um pouco sobre o seu começo aqui.
Eu entrei por indicação de uma amiga que trabalhava com a Paula Wehba. Estava me formando em publicidade na ESPM e nunca quis trabalhar em agência. Já conhecia a revista, adorava, e comecei como estagiária do marketing, em 1998, e fiquei por três anos, até me tornar assistente. Fazia os CDs da Trip, que vinham encartados com a revista. Todo mês descobria uma banda nova, produzia um disco, coletâneas de bandas de reggae, rock, de música brasileira. Fizemos uns 20 discos, e era a parte de que eu mais gostava. Isso, os eventos e o Big Trip, concurso de ondas grandes, que era bem legal de produzir. Aí acabou a história dos CDs e a Paula perguntou se eu queria ir pra Tpm, revista que eles iam lançar. O diretor de redação era o Fred, a Rê Leão era repórter, mas fiz o primeiro número, não curti muito e resolvi sair. Eu queria mais experiência em música. Tinha uma amiga no Rio, a Adriana Pena, que tinha feito um curso na NYU, em Nova York, e indicou uma especialização em Music Bussiness. Fui em julho de 2001 e fiquei até dezembro.
Como foi sua estada em Nova York?
Fui fazer o curso de Music Bussiness, queria entender do negócio para trabalhar em gravadora. Chegando lá liguei pra um amigo fotógrafo que me apresentou uma turma que trabalhava com música. Entre eles, estava o Mauro Refosco, que é percussionista do David Byrne. Ficamos amigos e ele me indicou para trabalhar na gravadora do David, a Luaka Bop (http://www.luakabop.com/), que lançou um monte de coisa brasileira, como a discografia dos Mutantes, Tom Zé, Moreno Veloso. Adorava, porque a gravadora era na casa do David Byrne, tinha tipo dez pessoas, só ouvindo música o dia inteiro... Foi uma puta experiência, onde descobri que gostava mesmo de gravadora e era onde queria trabalhar. Voltei para o Brasil e fui procurar emprego, e me chamaram na ST2, gravadora independente.
Qual era a sua função na ST2?
Eu era gerente de produto de áudio, cuidava dos lançamentos dos CDs. A gente produzia os CDs, escrevia os releases em português, marcava entrevistas com banda, fazia pauta do disco, negociava com a MTV para passar videoclipe, levava artistas novos para a gravadora. E eu coordenava tudo isso.
Como você fazia, dava uns rolês em casas de show pra descobrir bandas novas?
É, tipo olheira. Eu via se a banda era boa ao vivo e o tamanho do fã-clube. A ST2 produzia eletrônica e rock. O Edgar Scandurra tinha um trabalho eletrônico, e lançamos seus discos lá. Eu acompanhava tudo – contratos, levava artista para o estúdio, fazia orçamento de produção do disco, escolhia produtores, a capa, a música de trabalho, o videoclipe, produzia o show de lançamento – tudo. Era uma equipe superenxuta de uma gravadora independente. Durante os cinco anos que fiquei lá, fui pra um festival de música em Cannes, o Midem, onde vendia nossos artistas para lançar no exterior e vice-versa. Nessas eu lancei Juliette Lewis, Carla Bruni, Vive La Fête. Enfim, vivia de música, amava, era demais.
Qual a banda mais legal que você lançou?
Ah, foi o Vive La Fête, porque a banda cresceu muito no Brasil, deu certo. Eu e o Cláudio, diretor da gravadora, ouvimos a banda pela primeira vez juntos e achamos demais. A gente lançou cinco discos deles, e fizeram um fanbase legal no Brasil, lotaram a The Week, tocaram na rádio. E o Vive La Fête não existia aqui. Outra coisa que adorei produzir foi o Botinada, que é o DVD da origem do punk no Brasil, que fiz com o Gastão. O projeto durou três anos para editar. Foi muito trabalho e deu um puta retorno, saiu em tudo quanto é lugar. É um DVD histórico que me orgulho de ter feito.
E depois dessa época de ST2, você foi pra O2...
É, conheci muita gente na ST2, e um dos caras foi o Hank Levine, diretor do departamento internacional da O2. Ele me chamou para fazer marketing no seu departamento. Só que cheguei lá e fazia mais pré-produção de longa-metragem, o que era uma loucura para mim. Fazia de tudo um pouco, desde assistir a um roteiro alemão até dar entrada de documentação para ver se a gente conseguia apoio e verba. Para mim, era muito desorganizado, e fiquei seis meses. Nunca fiquei num lugar em que não estivesse feliz profissionalmente. Dois dias depois que eu saí a Carlinha, que trabalha na Natura e com quem eu já tinha trabalhado na Trip, me ligou para fazer um freela da Natura. Em uma semana, a Jadi, coordenadora de produção da Trip, perguntou se eu não queria ficar no lugar dela, pois estava saindo. Eu aceitei. Foi super no susto, nada programado. Sempre gostei da Trip, sempre me senti em casa.
Quais são as diferenças mais marcantes entre a Trip de dez anos atrás e a de hoje, na sua opinião?
Ah, hoje tem gente na Trip que eu nem sei que existe. Antes era impossível não conhecer alguém, era uma casinha na Mario Guastini, e a gente se relacionava com todo mundo, era muito mais próximo. A empresa está mais profissional. Na minha época a Tpm não tinha nem carro pra trabalhar. Ainda não posso elogiar muito meu borderô, mas tem mais verba do que na época. Tá tudo mais organizado, tem contrato pra tudo... a estrutura melhorou muito, sabe? Antes era muito mais informal.
E o conceito editorial da Trip ? Gosta das mudanças?
Minha impressão – porque eu trabalhava no marketing e não na revista – é que antes tudo era mais livre para ser falado. Agora a revista é pautada em temas. A Trip cresceu muito, antes eu tinha que soletrar: “Aqui é Adriana, da revista Trip, T-R-I-P”, e hoje tem posição importante no mercado. Empresários, diretores de cinema, de agência, todo mundo lê a Trip.
Você é de Piracicaba, veio pra fazer faculdade, tem um namorado com quem vive junto... Conte um pouco sobre sua vida pessoal.
Sou de Piracicaba, e vim para cá para fazer faculdade. Meu sonho sempre foi fazer comunicação na ESPM. Então vim com 18 anos, morei no pensionato do Sion, com as freiras, era superengraçado. Hoje, moro com meu namorado, com quem estou há 12 anos. Quando falo ninguém acredita, fazem cara de assustados... Mas passou super-rápido e a gente é muito feliz juntos. Ele é de um meio que também me traz bastante informação, que eu gosto de circular, que é do skate.
Já arriscou dar uma “skatada”?
Já arrisquei uma vez em Pira [Piracicaba], caí, me dei mal, bati a coluna, fiquei com medo e nunca mais tentei. Mas skate sempre fez parte da minha vida. Adoro assistir a programas de skate, ir a campeonatos, dessa cultura alternativa, sempre fui a show de rock, de hardcore, eu adoro.
Bandas preferidas? O que não sai do seu iPod?
Gosto muito de Jorge Ben dos anos 70, Tim Maia Racional, Mutantes com Rita Lee, jazz, Billy Holiday. Também adoro ouvir as mulheres da nossa geração, como Feist, Cat Power, Camille, Carla Bruni. Reggae do Studio One e Peter Tosh. Sou fã de punk e rock desde muito nova, e ouço de vez em quando para relembrar dos old times, como Fugazzi, Jane´s Addiction, The Clash, Velvet Underground, Rage Against the Machine. Dos atuais, tenho ouvido TV on the Radio, Little Joy, Spoon e Foals.
Você parece superzen, tá sempre sorrindo, falando com todo mundo. Alguma coisa te tira do sério?
Coisas do trabalho, tipo falta de organização, gente muito mole, que demora para tomar uma atitude. Não gosto de pedir alguma coisa e a pessoa não fazer na hora, porque quando me pedem qualquer coisa eu tento resolver na hora. Quando mando um e-mail e não tenho uma resposta na hora me irrito. Sou superchata com falta de feedback, de organização. No pessoal, me irrito com gente com carão, que passa e não cumprimenta. Gosto de gente humilde, por mais alto cargo que a pessoa tenha, se ela for humilde, simples, já me ganhou.
Quais produções que fez para a Trip de que se orgulha?
Foram duas. No meu trabalho, o que é mais levado em conta é o ensaio de Trip Girl, que é difícil produzir. Me orgulho do ensaio das funcionárias deste ano, que ficou lindo. Tem temperatura, mas ao mesmo tempo está clássico. Me orgulho também do ensaio que fizemos com a Vera (http://revistatrip.uol.com.br/171/especial/vera/home.htm), uma mulher de 72 anos, atriz do Zé Celso, e as fotos ficaram superbonitas, de bom gosto. Tinha medo de ficar vulgar ou tosco, pois é uma senhora pelada. Gosto do ensaio da Natasha (http://revistatrip.uol.com.br/168/tripgirl/home.htm), um dos primeiros que produzi e um dos mais bonitos.
Uma noite perfeita pra você?
Assistir a um show bacana, é uma das coisas que eu mais gosto de fazer. Uma noite perfeita foi o festival Planeta Terra, tinha um monte de bandas de que eu gosto. Adoro chegar em casa cinco, seis da manhã, quase amanhecendo, e ter gastado todas as energias. Gosto de sair e encontrar todo mundo, trocar idéias. Também adoro ficar em casa, assistir a um filme, chamar os amigos para jogar tranca.
Música da vida?
“Como Nossos Pais”, interpretada pela Elis. Eu cantava essa música abraçada com minhas três melhores amigas, em Piracicaba, na rua do porto. A gente era super-rebelde, então me marcou muito essa música.
Filme da vida?
Puta, aquele italiano que eu amo, Cinema Paradiso. A Vida dos Outros também me marcou muito. Adoro filme que você sai do cinema pensando. Elsa e Fred adorei, porque mostra pessoas mais velhas que ainda têm história para viver, é uma puta lição de vida.
Uma palavra?
Ah, amor. A gente tem que amar tudo que faz. Gosto de gente de bom humor, eu acordo e dou bom dia. Passando coisa boa, recebemos coisa boa.
Uma pessoa?
Minha irmã é uma pessoa incrível. É mais nova, mas aprendo muito com ela. Minha paixão é minha irmã.
Pra finalizar, seu voto popular para o Troféu Shoiti vai para
Elohim Barros, diretor de arte da Trip.
*Fernanda Paola, 27, trabalha na revista da Gol. Já passou por algumas outras revistas, entre elas a Cult. Ama música quase tanto quanto a Dri – amiga recente que simplesmente adora.
