Blog O Tranca Rua
icone postado
Postado em 18.12.2008 | 12:26 | por Joćo Wainer
diviso

CEMITERIO SAO LUIZ


Estacionei na avenida Fim de Semana, no Capão Redondo. Dava pra ver um muro branco do outro lado da rua e um portão enferrujado. Sobre o muro, crianças brincavam empinando pipa. Faltam áreas de lazer na zona sul então a solução é brincar aqui mesmo no cemitério São Luiz. Só que hoje não é um dia comum, é dois de novembro, dia de finados e o cemitério está lotado de gente. Famílias inteiras carregando velas e flores disputam espaço com a criançada que se diverte sobre as covas de terra batida.
Entre os visitantes a maioria é formada por senhoras de meia idade e crianças. Andando pelos caminhos do cemitério, fica claro que a maioria dos poucos túmulos que possuem lápides são de jovens. Dá pra sentir algo errado no ar.
Contrariando a lei da natureza, ao invés dos filhos enterrarem os pais, aquelas mulheres são mães visitando os filhos mortos na guerra civil velada que acontece todo dia na periferia de São Paulo e as crianças são os filhos dos mortos que vão com as avós conhecer os pais que não tiveram. Pai é artigo raro na quebrada. Ou foge, ou é preso ou morre.
Sentei em uma das calçadas observei. A letra de “Fórmula Mágica da Paz” do Brown batia feito o badalo de sino na minha mente.

“Dois de novembro era finados
Eu parei em frente ao São Luiz do outro lado
E durante uma meia hora olhei um por um
O que todas as senhoras tinham em comum
A roupa humilde, a pele escura
O rosto abatido pela vida dura
Colocando flores sobre a sepultura
Podia ser a minha mãe, que loucura”

Aquilo me abalou. Por que filho pode morrer antes de pai? Acho que nada pode ser mais cruel que isso. É a única dor insuperável.
O Julio, amigo que me acompanhava e morador da área diz que já perdeu a conta de quantos parceiros estão enterrados ali. Ele tenta forçar a memória, mas depois do décimo nome desiste. Sua mãe e seu pai também estão ali. É muita dor concentrada em poucos alqueires de terra.
Passamos perto do local onde os corpos são velados e Julio se lembra do dia em que foi ao velório de um amigo assassinado numa treta entre grupos rivais. Estavam todos reunidos perto do caixão, quando os assassinos do amigo voltaram armados metendo bala em todo mundo. Eles voltaram pra terminar o serviço e mataram mais um do grupo. Barato loco, tipo filme mesmo.
O São Luiz fica numa ladeira enorme. Nas laterais, junto ao muro que circula toda a área estão as gavetas com restos mortais. Nas áreas nobres ainda sobra um pouco de grama e os túmulos tem lápides com nome, mas no ladeirão ficam as covas de terra batida identificadas apenas por números. As covas são rasas, e na época das chuvas é comum que ossos sejam levados pela enxurrada que desce pelo valão. Pobre se fode até depois de morto.
O cemitério São Luiz é um símbolo da periferia de São Paulo. É pra lá que vão as vitimas de uma guerra suja, causada pelo descaso e incompetência dos políticos. Enquanto em Brasília eles brigam por seus próprios interesses, no São Luiz mais e mais jovens são enterrados com tiros na cara em covas rasas dentro de caixões lacrados. As crianças pequenas continuam brincando de pipa sobre a terra batida dos túmulos e os mais velhos aproveitam o dia de finados pra faturar um troco vendendo velas, flores, e pintando lápides desgastadas pelo tempo com pincel e cal por apenas um mísero real.
diviso