Revista Trip

 

Rááá! Pegadinha do Mallandro

Sergio Mallandro, o garoto da praia de Ipanema, transcendeu os anos 80 e virou um clássico
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13.07.2009 | Texto por Fernando Luna Fotos Marcelo Bormac

Sergio Neiva Cavalcanti, yeah-yeah!, é Sergio Mallandro.  o garoto da praia de Ipanema vendeu 1 milhão de discos  com “Vem fazer glu-glu”, virou fenômeno nacional com programas infantis, escorregou na baixaria com as pegadinhas, voltou no revival dos anos 80 e transcendeu tudo isso  para virar um clássico da palhaçada – com direito a homenagem de Caetano Veloso, Lázaro Ramos e Wagner Moura

Sergio Neiva Cavalcanti, yeah-yeah!, é Sergio Mallandro. o garoto da praia de Ipanema vendeu 1 milhão de discos com “Vem fazer glu-glu”, virou fenômeno nacional com programas infantis, escorregou na baixaria com as pegadinhas, voltou no revival dos anos 80 e transcendeu tudo isso para virar um clássico da palhaçada – com direito a homenagem de Caetano Veloso, Lázaro Ramos e Wagner Moura

Certo mesmo é que o carioca Sergio Neiva Cavalcanti nasceu em 12 de outubro. Nesse caso, mais para Dia das Crianças do que para Nossa Senhora da Aparecida. Em que ano aconteceu, ele prefere não revelar.

Esconde a idade. Pelos registros que circulam por aí, a data mais provável é 1957. Deve estar com 50 e poucos. Jura que, na balada, dão no máximo uns 45. Enfim. Na dúvida, pediu um cuidado especial com as fotos em que aparece sem camisa.

Sergio cresceu na zona sul do Rio de Janeiro. Dinheiro não era problema, a família do pai tinha. Bastante. O avô, tabelião, morava numa mansão no Leblon, grande o bastante para, hoje, dar lugar a dois prédios. O pai preferiu se virar e fez carreira na Caixa Econômica Federal. Dirigia um Gordini e vivia num apartamento de três quartos na Lagoa – Edgard, Leila e seus três filhos, Claudio, Sergio e Carla. Isso numa época em que apartamentos de três quartos tinham realmente três quartos, e não três depósitos.

Mas tinham também um único banheiro. A mania de suítes da classe média é recente. E, sim, o detalhe imobiliário é importante. Esse único banheiro seria o assassinato do arquiduque Ferdinando, detonando, se não a Primeira Guerra, sete anos de conflito. Acontece que Edgard sofreu um infarto fatal. Sergio tinha 11 anos: “Era o herói morto. Meu pai era meu herói, meu melhor amigo”. Três anos depois, sua mãe se casaria novamente, com o general Caio Marcos Ovale de Lemos.

O veterano de guerra, capitão na Força Expedicionária Brasileira, agora dividia o solitário banheiro com o enteado, expulso de quatro colégios e de um clube. Logo na primeira manhã de convívio, Sergio deu com a cara na porta do banheiro. “Ô, general, abre rapidinho, tô atrasado para o colégio”, implorou. Lá dentro, a voz da caserna gritou: “Aguarde no local!”. Dia seguinte, Sergio ajustou o despertador para tocar mais cedo. Quando o oficial meteu a mão na maçaneta, ouviu o deboche: “Aguarde no local, general!”. Uma declaração de guerra.

É claro que o general perdeu a guerra.

Não tinha como. Nem se juntasse Napoleão Bonaparte, Duque de Caxias e Douglas MacArthur. O moleque era ligeiro, pós-graduado em praia e outras mumunhas. Conversa solta, vendia parafuso sem saber como bater um prego. “Todo mundo falava que eu tinha que ser artista”, lembra Sergio Mallandro.

Foi.

Abandonou a faculdade de comunicação para defender o Rio de Janeiro no programa Cidade contra cidade, do SBT – ao lado da igualmente desconhecida Xuxa Meneghel. Em vez dela, foi ele quem Silvio Santos convidou para ser jurado do Show de calouros e participar do popularesco O povo na TV. E ainda estava em cartaz com Menino do Rio. Tudo em 1981.

 

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Não bastassem TV e cinema, logo no ano seguinte gravou um disco. "Vem fazer glu-glu" vendeu 1 (hum!) milhão de cópias. De lá pra cá, embalou. Passou pelas principais emissoras do país com seu próprio programa infantil (Show do Mallandro, na Globo, Programa Sergio Mallandro, no SBT, Festa do Mallandro, na Manchete). Esteve em um cinema perto de você com Renato Aragão (O Trapalhão na arca de Noé), Xuxa (Lua de cristal) e Faustão (O inspetor Faustão e o Mallandro).

 

Acima de tudo, Mallandro inaugurou uma escola de pantomimas e onomatopeias que lapidou uma geração. “Rááá!”, “Yeah-yeah!” e “Glu-glu!”, sempre acompanhadas por pulinhos acrobáticos e mãos pinçando o ar, redefiniram praticamente todos os sentimentos catalogados desde Aristófanes. Para mais informações, consulte o YouTube.

Nos anos 90, trocou as crianças pelos adultos. Com o quadro “Pegadinha do Mallandro” e afins, liderou índices de audiência e de baixaria – numa ocasião, um ator disfarçado oferecia açúcar como se fosse cocaína para o dependente químico Rafael Ilha, ex-Polegar. Ele faz o mea-culpa. “Quando você está lá, disputando audiência, você quer ganhar”, concede. “Mas Sergio Mallandro é família.” Até que funcionou – levou a modesta CNT/Gazeta ao primeiro lugar do Ibope. Mas não por muito tempo.

Aos poucos, telespectadores mudavam de canal e Mallandro escorregava para o ostracismo. Quando parecia que a piada havia perdido a graça, chegaram os anos 2000. E, com eles, o revival dos anos 80. Pronto. Como na canção, eis o Mallandro na praça outra vez – ao lado de Bozo, Fofão e Alf, o ETeimoso. Velho? Vintage!

Na hora em que o trash 80’s passou, graças a Deus, veio a Ópera do Mallandro. Um musical de 20 min dirigido por André Moraes, autor das trilhas de Lisbela e o prisioneiro e Meu tio matou um cara – e que, agora, prepara um documentário sobre Mallandro. Em cena, Lázaro Ramos, Wagner Moura, Taís Araújo, Lúcio Mauro Filho e cia. dançam e cantam músicas que Mallandro gravou – além do “Glu-glu”, “Faro-fa-fá”, “Bilu Teteia” e “Capeta em forma de guri”. Há uma única canção inédita, cantada por Caetano Veloso: “Ele é Mallandro/Mas é também um cara muito legal/Quando chegar vai levantar seu astral”. Fácil encontrar na rede.

Não é pegadinha, não.

O curta Ópera do mallandro tem Lázaro Ramos e Wagner Moura, além do Caetano Veloso cantando uma música em sua homenagem. A Orquestra Imperial toca “vem fazer glu-glu”. Quando você se deu conta de que tinha virado um clássico?
Quando fui no Largo São Francisco [faculdade de direito da USP], fazer uma palestra pros universitários. Quando vi a multidão eufórica, pensei: “As crianças cresceram”. Viam meus programas quando eram mais novas, e hoje têm 20 e poucos anos. Foi a consagração. Disseram que nem quando o Lula foi lá juntou tanta gente.

Você se incomoda com o papel meio bizarro de ícone dos anos 80?
Nunca me senti assim. As pessoas querem se aproximar de mim, riem, fazem glu-glu, pedem abraço... Uma barato, uma alegria. Sergio Mallandro é moda, tô na moda.

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