Uma vida em muitas

O escritor Luiz Mendes tinha 19 anos quando entrou com duas pistolas em um posto de gasolina em São Paulo e declarou que era um assalto. Nervoso, não viu quando o segurança se aproximou apontando uma arma para o grupo dele, que reagiu com tiros. O segurança caiu sangrando, e assim ficou até morrer. Luiz foi condenado a 78 anos de prisão, pena agravada quando ele, poucos anos depois de ser detido, esfaqueou um preso que queria estuprá-lo. Dessa vez, ao contrário do que houve quando atirou no segurança, foi capaz de ver a vida saindo dos olhos do homem que matou.

Luiz era um rebelde, alguém que desde pequeno via glamour na bandidagem. Aos 7 anos já roubava por farra. Cansado de apanhar todos os dias do pai alcoólatra e violento, saiu de casa aos 11 anos e foi morar nas ruas, onde encontrou outros que, como ele, estavam dispostos a viver de crime. Desde os 12 anos foi preso muitas vezes, mas acabava fugindo. Aos 19 foi preso “para a vida”, como explicaram. Sabendo que não sairia nunca mais da penitenciária, decidiu seguir cometendo todo tipo de crime lá dentro e ria quando diziam que sua pena tinha ultrapassado cem anos. Havia sido jogado dentro daquele universo de seres humanos abandonados e condenado a viver como um bicho. “Prisão é uma monstruosidade. Isso de recuperação social é conversa fiada. Te colocam em uma jaula e não oferecem nada em troca.”

Até que uma epidemia transformou sua vida. Era a década de 80 e presos com Aids começaram a ser levados para a penitenciária em que ele estava – eles eram isolados no sanatório penal e não havia médicos ou enfermeiros dispostos a frequentar o ambiente. Os doentes tiveram que começar a se ajudar uns aos outros porque os poucos profissionais de saúde que se dispunham a trabalhar ali não davam conta do número de pessoas. Luiz ficou curioso e quis ir ver o que acontecia por lá. Ao chegar foi nocauteado com a imagem de pessoas morrendo, gemendo, cuspindo sangue e zanzando perdidas pelos corredores. Eram zumbis, seres humanos esvaziados de sua própria humanidade. Só havia duas atitudes possíveis: sair correndo dali ou tentar ajudar. Em pouco tempo estava trabalhando com os infectados ainda sem saber que a decisão salvaria sua vida. “Aquela desgraceira toda me atraía e eu não conseguia mais sair de lá”, conta. Michele Caolha, uma travesti portadora do HIV que trabalhava como enfermeira, mostrou a Luiz a realidade do lugar e os dois ficaram amigos. Michele gostava de ler, e foi a primeira pessoa a falar a Luiz sobre livros.

A vida dos outros
Uma enorme transformação estava agora em andamento; ajudando aqueles homens, Luiz entendeu que estava também ajudando a si mesmo. Foi quando começou a gostar de gente e a se desenvolver como gente. “Tinha dias que eu saía de lá e não sentia mais o chão sob meus pés. Eu flutuava de tanta satisfação com as coisas que havia conseguido fazer naquele dia.” Em pouco tempo estava lendo dez horas seguidas sem parar. Leu tudo o que conseguiu: os clássicos, muitos mais de uma vez, Freud, Marx, Proust, Joyce. Passou a dar aulas na prisão e percebeu que o preso é o melhor aluno do mundo. “Os livros me transportaram e me libertaram, mas não foram os livros que me salvaram. O que me salvou foram as pessoas que me enviavam os livros”, diz. Tanta leitura o fez querer escrever e assim nasceu Memórias de um sobrevivente (Cia. das Letras), criado de dentro da cela e lançado em 2001, quando também começou a ser colunista da Trip.

Luiz tem 64 anos, passou 31 anos e 10 meses preso e está livre há 12 anos. Tem seis livros publicados, outros em produção e dá aulas e palestras. O que escreveu fez com que as pessoas tivessem a chance de rever seus conceitos a respeito de presos, até então tratados como dejetos da sociedade. Luiz também ajuda outros ex-presidiários. Com o amigo Mauricio Cardenete, psicólogo, montou um programa de recuperação social que depende da Secretaria de Administração Penitenciária para ser implementado. Foi numa aula-piloto do programa que conheceu Carlos Eduardo Francisco, 31, que passou nove meses no cárcere. “A gente sai tendo que reconstruir a vida, vendo a família na dificuldade, e o Luiz ajudou mostrando caminhos”, ele diz. Hoje Eduardo tem uma empresa de cartonagem. Luiz escuta ele falando e não esconde a emoção. “Li toda a obra de Sartre, que amo, mas preciso discordar dele: o inferno não são os outros. O inferno é a ausência dos outros; a felicidade é o outro.”

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