A arte resiste

A casa em que Berna Reale mora, no centro de Belém, foi construída por seu avô e seus tios em 1950. É um sobrado simples e colorido e o acesso é feito por uma escada íngreme e longa. No dia em que fomos visitá-la, como em quase todos os dias na capital do Pará, fazia um calor intenso. Quando chegamos, Berna acenava alegremente do topo da escada, pedindo que subíssemos. Na sala, um ventilador ligado na velocidade máxima tentava diminuir a temperatura ambiente. “Égua! Esse calor tá demais”, Berna exclama assim que chegamos à sala. Em seguida, sai apressada para a cozinha e volta com sucos e água. Berna é agitada, fala gesticulando e deixa evidente que é um ser humano apaixonado. No caso dela a paixão passa pela arte e pela necessidade de abrir nossos olhos a fim de que enxerguemos o outro. “Acho que todo artista trabalha com as coisas que o incomodam”, ela diz. “E o que me incomoda é a violência, é a questão de um ser humano não se ver no outro.”

Berna Reale, 50 anos, usa o próprio corpo para fazer sua arte, sabendo que a arte deve causar estranheza para assim aumentar nosso campo de percepção. Uma de suas performances (Americano, de 2013) a levou ano passado à Bienal de Veneza, a mais importante do mundo. Na performance, ela corre vestida com roupa de atleta e com uma tocha olímpica nas mãos pelos corredores escuros e sombrios de uma penitenciária masculina de segurança máxima em São Paulo. Berna conhece a violência bem de perto porque está mergulhada no mundo do crime: é perita criminal do Centro de Perícias Científicas do Estado do Pará e tem acesso a um tipo de miséria que poucos de nós conhecemos. “Trabalho em mundos paralelos”, diz. “A polícia e a arte.”

Poética perturbadora

Em penosos detalhes, conta sobre o dia em que estava trabalhando na cena de um crime em uma das regiões mais pobres de Belém. Ao escutar um barulho no barraco ao lado, saiu para ver de onde vinha e notou uma tenda de lona bem perto. Foi até lá e entrou. O que encontrou foram duas crianças se estapeando por uma frigideira suja cheia de óleo velho que elas queriam lamber. “Antes de ser perita criminal eu conhecia a pobreza, hoje conheço a miséria”, diz. A imagem das crianças lutando pelo óleo sujo a perturba até hoje, e Berna usa essa inquietação para criar. “Minha arte é nas ruas e não cabe em galerias”, diz. “O que me interessa é a arte que é capaz de transformar o olhar das pessoas sobre o outro.”

Pensando assim ela decidiu que desfilaria no me­io de uma das maiores festas religiosas do mundo, o Círio de Nazaré, que reúne todos os anos 2 milhões de pessoas na capital paraense. Na performance, Berna passeia pela multidão vestida com uma roupa da guarda suíça e portando em suas mãos uma enorme bandeira gay. Em outra performance (Quando todos calam, 2009), deita completamente nua e coberta com vísceras de boi no Mercado Ver-o-Peso, no centro de Belém, e em segundos seu corpo fica repleto de urubus que querem comer aquela carne morta sobre sua barriga. As imagens são ao mesmo tempo lindas e chocantes, poéticas e perturbadoras, estéticas e horrendas – exatamente como a vida.

Berna começou a fazer suas performances em 2009, aos 44 anos, e no começo as registrava apenas em fotografias. O vídeo chegou a partir de 2011. “Adoro tecnologia, mas acho que ela é útil para a arte apenas quando permanece invisível”, diz. Nesses sete anos, participou de exposições como a Bienal de Cerveira, em Portugal, e a Bienal de Fotografia de Liege, na Bélgica, e também concorreu a diversos prêmios, mas nada se compara ao dia em que foi informada que iria para a Bienal de Veneza. “O Luiz [Camillo Osorio, curador da 56a edição] me ligou e disse que gostaria que eu fosse para Veneza. Comecei a gritar feito uma maluca. Eu dizia: ‘Égua! Égua!’, e ele repetia do outro lado da linha: ‘Berna, te acalma’. Mas como ia me acalmar? É muita sorte a minha ir para Veneza com 49 anos. Com tanto artista talentoso no mundo eu fui a escolhida! Égua, menina! É mesmo muita sorte.”

Durante muitos anos, Berna negou o próprio talento. Formou-se em arte na Universidade Federal do Pará, mas, com 20 e poucos anos, pensou que, sendo mulher e do Norte, talvez tivesse que passar a vida pintando canoas ou trabalhando com arte regional. Foi depois dos 40 que encontrou na arte performática a trilha de sua paixão. “Eu busco o coletivo, não me interessa o pessoal. E minha forma é simples por falta de condições financeiras.”

Mais ou menos na mesma época, a fim de aumentar o orçamento, decidiu prestar concurso para a perícia. A filha mais velha (Berna tem duas filhas, de 24 e 28 anos, sendo “uma de cada pai porque não me repito”) disse que ela jamais passaria nas provas físicas porque estava concorrendo com pessoas de 20 anos. “Na vida a gente só concorre com a gente mesmo”, respondeu à filha antes de passar nos testes e ser aprovada. “O ‘não’ tá sempre dado, o ‘sim’ é que é a conquista, e o mundo só vai mudar quando a gente entender isso e começar a colocar o coletivo como prioridade na busca desse ‘sim’.”

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