Já faz tempo que tô pra postar isso, mas acho que como é um post um pouco mais especial e pessoal, ele demorou um pouco mais pra sair. Não sei se vocês todos sabem mas hoje em dia eu divido um programa de skate no Canal OFF com dois grandes amigos de longa data, o Anderson Tuca e o Flavio Samelo. Hoje eu quero contar o que sei da história desse segundo elemento, o Flavio, um dos caras mais especiais que já conheci até hoje.
Quem encontra com ele, logo de cara acha que ele é meio maluco, e realmente é, na melhor das interpretações que essa palavra pode ter. Conheci o Samelo no começo da jornada do skate, no meio dos anos 90, eu fazendo vídeo e tentando ser dono de marca de skate e ele fotografando. Lembro quantas vezes sentamos na calçada depois das sessões e ficamos conversando sobre skate e sobre a vida.
Quase 20 anos se passaram e ninguém viu o quanto nego rala pra subir na vida nesse Brasil.
A história dele é muito foda. Com vinte e poucos anos, o cara trabalhava num bingo de noite pra conseguir pagar a faculdade de dia, ou seja, ele ia direto do bingo pra faculdade e da faculdade direto pro bingo, até o dia que a sonolência fez ele atropelar um ônibus, ou vice versa. Ele ficou três meses em coma, mas como ele é imortal, como ele mesmo diz, não foi dessa vez. Ele voltou, sem a audição em um ouvido, o que expandiu a visão periférica dele, e uma parte do cérebro que foi amassada e ele perdeu no acidente, gerou um processo de o próprio cérebro ficar tentando recuperar as conexões que perdeu e por consequência o processamento cerebral do rapaz é de uma pessoa entre 18 e 21 anos, ou seja, ele com 36 tá no gás da juventude.
Esse papo todo técnico, clínico e factual impressiona, mas na verdade é só pano de fundo pra o que eu mais admiro nele. O talento que ele tem e a força de viver, sempre pra cima. Um cara honesto, amigo, companheiro e que com certeza deixa o mundo mais bonito.
Esses dias tenho pensado muito em como algumas pessoas fazem as "desgraças" da vida virarem muletas pra justificar alguma pseudo-incapacidade e a possibilidade de sua vida não "dar certo", e outras usam essas experiências que poderiam ser traumáticas como alavanca pra se movimentar e fazer a vida acontecer.
Flavio, sou teu eterno amigo e admirador, demorei pra assumir isso publicamente porque você me zoa demais naquele programa, mas você sabe disso faz tempo e as pessoas precisam saber o quanto você é foda!
Tenho reparado como algumas inversões de valores, preconceitos e estigmatizações rolam à nossa volta sem a agente perceber.
Outro dia parei pra pensar, ok, todo mundo da galera "culturete" descasca o sertanejo, tudo bem, eu também não gosto nada desse sertanejo, gosto da música caipira que é outra coisa, mas enfim, a galera insiste em falar que é uma porcaria, que isso e que aquilo, tá , qual a diferença disso pra Gabi Amarantos tão querida de todos os moderninhos e formadores de opinião? O que a música dela tem de "melhor"? As melodias elaboradas? A profundidade nas letras? Todo um valor instrumental e rítmico descoberto pelos inventores dos teclados cássio? Só pra eu entender.
Mais uma confusão que vejo o tempo inteiro, a galera adora achar que um reggae tocado a zero por hora ou gravado toscamente é um reggae roots, que tem de roots nisso? A mãe do reggae se chama rocksteady, a música jamaicana da década de 60, uma música super bem tocada instrumentalmente e com melodias lindas. E o pai do rocksteady, que por sua vez é o avô do reggae se chama ska, praticamente um jazz super elaborado com a diferença de ser acentuado no contratempo. Então a raiz do reggae é quase um jazz? Porque uma música mal tocada vai ser roots então?
Não sei se eu tô ficando mala ou o que tá acontecendo, mas tô sentindo que tá na hora das pessoas pensarem melhor sobre conceitos, sobre o que elas absorvem e sobre o que elas falam depois de absorver.
Aqui vai, um clássico do ska, o skatalites tocando no Sunsplash Reggae Festival.
Ontem fui ficando impressionado com a quantidade de mensagens, fotos e posts que a galera começou a colocar sobre a morte do Chorão. Isso sem falar na quantidade de mensagem de artistas que de um dia pro outro resolveram manifestar que escutavam o som dele "de vez em quando mas curtiam" até outros que viraram melhores amigos da noite pro último dia de maior fama do cara. Parei pra pensar e só consigo chegar a duas idéias sobre isso, a primeira é a mais óbvia, todo mundo atrás de destaque em cima da desgraça do cara, não chega a ser nem uma oportunidade, mais que isso, uma necessidade pro "mercado". Como assim, o cara morreu e você "artista" não vai se manifestar? Todos se manifestando? Vou falar também, mesmo que eu não tivesse relação quase nenhuma com o cara. Ok, vamos pra segunda, também óbvia, a galera tem medo de morrer, tem medo de perder alguém próximo, e fica impressionado com a morte repentina de um cara tão jovem e teoricamente bem sucedido. Começa a sentir falta de algo que já nem fazia tanta questão de escutar e principalmente começa a ter muito medo de morrer cedo que nem o cara. Daí dá-lhe trilhões de posts. Não quero ser um chato com esse papo, acho bacana manifestações de sensibilização pública, mas sinto falta de uma coisa, uma parte da verdade dos fatos. Alguém abriu cabeça pra saber qual era a pegada real do cara? Eu gostava do Chorão, era um cara que sempre me tratou bem, nunca me deu motivos pra não gostar dele, mas sei de várias histórias que dão muitos motivos pra muita gente não curtir ele. Além disso, todo mundo que conheceu ele mais de perto sabia que se ele continuasse nesse ritmo uma hora ia dar em tragédia. Agora me diz quem teve a responsabilidade de dizer pra essa molecada toda fanatizada que se você não cuidar da sua cabeça pode acabar numa situação como essa? Lembro quando dirigi o Família MTV com o Chorão, o cara tava numa época melhorzinha e tomava 4 lexotans pra dormir, mesmo assim não dormia. E aê? Alguém dá a realidade do mundo pras pessoas? Alguém diz pra molecada que se não cuidar da mente, se não cuidar de se equilibrar, talvez você possa ficar mais sequelado do que você imagina? Bom, me sensibilizo com o situação, ontem fiquei triste de verdade, mais triste do que eu imaginei que ficaria, muito estranho mesmo ver uma pessoas próxima e bem sucedida morrer assim. Meus mais sinceros pêsames pros parentes e pessoas próximas que ficaram sem o cara. No final quem sofre mais é essa galera. Paro pra pensar que a vida realmente não é a coisa mais fácil, até pra ser bem sucedido ou feliz você tem que ser forte e corajoso, tem que ter coragem de olhar pra dentro de si e encarar todos os seus fantasmas. Vou colocar esse trecho do Família MTV que dirigi em 2005 com ele, época saudosa, e vou pro mar de novo, tem altas ondas e a vida tá aí pra ser vivida até cumprimos nosso estágio. Bom dia a todos!
RIP Choris!!! Você vai pra um bom lugar, eu sei disso!
Tenho conversado bastante com um novo amigo, ele foi, e ainda é na minha opinião, um grande empresário da música. Ele me disse uma frase ontem que ficou marcada.
- Não tenha pressa pras coisas acontecerem, a música é atemporal.
Na hora pensei em como a gravação do Kingston Bossa fluiu e toda a experiência rolou na Jamaica por livre e espontânea vontade do mundo. Já emendei em tudo que rolou o ano passado, as gravações do Pela Rua na Califórnia e depois o programa do Bob Burnquist, conhecer o Ben Harper.
A vida acelerou, ou melhor, a gente acelerou a vida, e o tempo virou um dos recursos mais escassos no dia-a-dia de quem mora na cidade. Isso faz a gente ter essa pressa, essa vontade de gastar ou aproveitar o tempo todinho, é daí que o tempo acaba passando mais rápido ainda, e a gente fica mais afoito, e assim o ciclo não pára.
Na real nem sei bem porque tô falando isso, acordei com isso na cabeça e deu vontade de escrever, mas como preciso agilizar aqui porque tenho dentista logo mais, o post fica por aqui, assim pela metade mesmo... :)
Um pouco difícil não se apressar com tanta coisa boa pra fazer na vida, com tantos sonhos esperando pra serem realizados, mas, a sabedoria ainda impera, tudo no seu tempo.
Hoje vi uma das cenas mais belas e mais tristes da minha vida. Tava indo pra Praça XV, pico clássico de skate aqui do Rio de Janeiro, a chuva não tava perdoando. Quase chegando lá vi uma senhorinha de uns quase 80 anos de idade sentada na calçada debaixo da chuva, ela ainda não tava de guarda-chuvas. Olhei direto pra ela e o olhar dela pra mim foi como um tiro na alma. Aquele olhar fundo, cansado, triste e azul. Passei tentando não me abalar com a cena. Chegando onde tava a rapaziada eu não me aguentei, inventei o pretexto de ir comprar um guarda-chuvas pra poder ir ver aquela senhora de novo. Chegando, fui pelo outro lado da rua e fiz uma foto, ela já tava com o guarda-chuvas. Fui do lado dela, ela e falou comigo com um olhar que misturava uma tristeza sem igual a uma beleza singela:
- Posso bater uma foto da senhora? - Hoje não, outro dia, outro dia... - Mas a senhora tá tão linda com esse guarda chuvas...
Ela se envaideceu, colocou uma felicidade na expressão, mas aquela situação não deixou que ela topasse a foto, afinal, qual mulher com sua vaidade nata iria topar uma foto naquela condição?
- Outro dia, outro dia...
Pelo menos ela me respondeu com um sorriso. Fui embora pensando... que caralho tá acontecendo com esse mundo?
Quando você vê na rua uma senhora linda daquela, naquela condição lastimável, é porque o mundo realmente tá de cabeça pra baixo.
Queria entender o que se passa na cabeça desse bando de políticos e governantes que desviam todo o dinheiro que pagamos em impostos e não dão sequer uma condição mínima de vida num país que arrecada tanto dinheiro público.
Que tá acontecendo com as pessoas que não se sensibilizam mais em ver tanta gente na miséria?
Dei um troco pra aquela senhora e deixei meu coração ali também. Fui pra sessão e agora tô aqui no hotel, com aquela imagem na minha cabeça e escrevendo esse post, nem sei bem pra quê, pensando numa solução pra essa coisa toda. Mas uma coisa é fato, as pessoas estão doentes e cegas, talvez seja necessário mesmo começarmos tudo de novo.