Nem sempre entendo as tiradas inteligentes e salpicadas com um humor bastante particular de Diogo, e a vontade de saber mais sobre as coisas que ele é, foi e quer ser é que me moveu para entrevistá-lo. Logo que entrei, achei que ele era meio sério demais e adultão e não sabia se a gente ia se dar bem. Com o passar dos dias, fui vendo que o Diogo Rodriguez não só é o cara das tiradas inteligentes e de humor particular, mas também é um cara simpático, solidário e preocupado com os que estão ao seu redor. Por enquanto tudo que sei é que ele adora música, literatura, Post-its, cinema e camisas xadrez.
*Por Clarice Machado

1. Na minha formatura com: Daniel, meu irmão do meio, Bruna e Carol, amigas das antigas, e minha mãe, Olivia. 2. Fazendo um rock na cozinha de uma república. 3. Dentro da Alhambra, em Granada, Espanha (2008). 4. Rafael e Bruno, no Juca 2006
Vou começar por onde acho mais curioso: Que história é essa de ser engajado politicamente? Isso não é meio geração passada?
Já fui mais engajado. Nunca fui de partido, apesar de ter pedido emprego para a Luiza Erundina e de ter feito campanha para o Lula em 2002. Isso vem de casa, na verdade, meus pais e meus irmãos são muito ligados em política e desde cedo eu aprendi que era importante. Me lembro de ter uns 8, 9 anos e já ser viciado em jornal. Com uns 6, queria pegar material de propaganda de todos os políticos, e meu pai, paciente, me levava a todos, menos no do Maluf. Dia de eleição antigamente era como Dia das Mães, Dia dos Pais. Todo mundo ia no mesmo carro, levando um por um pra votar. Quando acabava, a família ia para um restaurante bom almoçar. Quando fui prestar vestibular, decidi me inscrever nas ciências sociais também, porque tinha muita vontade de estudar política, entender como a coisa funciona. Me formei lá, fiz uma pesquisa em teoria política sobre democracia e gosto de ler sobre isso até hoje. Já trabalhei numa ONG que lida com política (Voto Consciente) também. É um envolvimento emotivo e intelectual, não partidário.
E você pensa em virar político? Sonha com isso desde pequeno?
Hahaha, não! Apesar de já ter achado que queria me envolver com isso de perto, hoje sei que não. No máximo, voltar a trabalhar com ONG, associativismo civil, coisas assim. Ou continuar minha pesquisa em teoria política.
Se bem que, geração passada pode mesmo ser a sua, né? Uma vez alguém me disse que "Diogo só gosta de coisas mortas. Músicos mortos, bandas que não existem mais, escritores mortos e cineastas enterrados". É isso mesmo ou exagero?
Isso não é verdade, hahaha. Quem disse isso, aliás? Gosto de bandas contemporâneas. Meu ídolo, por exemplo, está vivo, apesar de já ter uns 40 e muitos (Black Francis, vocalista do Pixies). Eu gosto de pesquisar, então estou sempre lendo, ouvindo e me inteirando de coisas do passado. Mas acompanho as coisas contemporâneas também. Curto muito uma banda nova que se chama The Black and White Years, gostei do romance Vista do Rio, do Rodrigo Lacerda, sempre vejo os filmes do Michael Winterbottom. O problema é que eu sou fã do Charles Chaplin, do Murilo Mendes, do Albert King, então fica todo mundo achando que eu não gosto de coisas novas.
Você ama o Pixies, né?! Por que exatamente e qual a sua música preferida?
Os Pixies me educaram musicalmente. A partir de quando comecei a ouvir os discos deles, descobri outro jeito de escutar música. Antes eu era metaleiro, gostava de Metallica, Sepultura, Marylin Manson. A partir deles descobri bandas que eu nunca tinha ouvido, livros que não conhecia, filmes que nem sabia que existiam. E o som é do caralho também. Misturar surf music, punk, Velvet Underground, a Bíblia e o surrealismo e fazer ficar bom não é para qualquer um. Pô, uma música? Uma só não. Eu gosto muito de "Monkey gone to heaven" "Planet of sound" e "River Euphrates". Mas gosto de tudo que eles fizeram, sempre ouço.
Você é americano, ou morou um tempo fora do Brasil? Com foi isso?
Americano nada, nasci no Jabaquara! Morei nos Estados Unidos entre os 16 e 17, fazendo intercâmbio de um ano no glorioso Estado do Alabama. Pô, foi uma das experiências mais malucas da minha vida. Vivi um ano com as pessoas mais religiosas que eu já conheci. Tentaram me converter várias vezes, inclusive na escola, que era religiosa. Vi gente entrando em transe religioso, fui a mais "missas" do que em toda a minha vida. Até toquei guitarra na banda que fazia as missas da escola às sextas-feiras de manhã, porque era o único jeito de continuar praticando com banda. Mas claro que uma vez inventei de fazer um solo distorcido com wah-wah numa das músicas do culto e choquei os professores. Foi a minha glória. Mas lá conheci a família O'Brien, minha família postiça, que é como se fosse família de verdade. Falo com eles toda semana, até hoje. E olha que faz dez anos que morei com eles.
E há quanto tempo trabalha na Trip? Como veio parar aqui?
Tô na Trip desde maio de 2009. Cheguei aqui porque a minha amiga Isabella Infantine, que foi estagiária da revista Trip, me avisou que o site tinha uma vaga de estagiário. Aquela coisa clássica: mandei e-mail com currículo, pediram pauta, depois entrevista com os chefes etc. etc. Fui chamado e consegui a vaga. Aí estávamos sem repórter em agosto desse mesmo ano e resolveram me efetivar. Foi sensacional para mim, ainda nem tinha me formado em jornalismo, faltava terminar o semestre.
Qual foi a coisa mais esquisita sobre a qual já escreveu?
Esquisita...? Teve aquela matéria sobre a matinê gay que foi mais estranho de ver do que escrever sobre. Não porque eram gays, mas porque a molecada de 12, 13 era muito precoce. Uma que eu gostei muito foi a entrevista com o reverendo Billy, o pastor da Igreja da Vida Pós-Consumo. Ele é uma figura bem estranha, até pelo telefone. E teve também aquele lugar na Hungria que aluga tanques de guerra para passeio, como se fosse pista de kart. Essa, aliás, foi sugestão do meu irmão do meio, o Daniel, que é um cara peculiar.
Por que seu apelido é Tieta?
Esse é um mistério enorme. Dizem que é porque eu comecei a dançar lambada na Talco Bells uma vez, mas eu não me lembro. Tem outra história que conta que, cobrindo um campeonato de surf, eu tomei umas cervejas a mais, peguei uma canga nas mãos, levantei os braços e fiquei cantando a música tema da novela. Não sei em qual versão confiar, pra ser sincero. Mas ficou o apelido.

5, 6 e 7. Das pérolas que falei e viraram post-it
Como é ser daltônico? Digo, você já falou que "é daltônico, mas não idiota", e isso até virou um Post-it na nossa parede da redação. Mas, na vida real, como é ser daltônico?
Sei lá. Para mim, vocês todos é que falam os nomes errados das cores. Mas é um ótimo assunto pra quebrar o gelo numa mesa de bar.
Falando nos Post-its: Como conseguiu confiança para ser o guardião do depósito secreto de Post-its grandes? Um dia vou chegar lá?
Esse cargo de editor de Post-its do site foi uma dura batalha pessoal. Tive que usar todos os meus dotes editoriais para convencer a Eva de que eu merecia isso. No começo ela achou que era um delírio meu, tentou me dissuadir, mas convenci a nossa chefe no fim. Você também pode, Clarice, claro. Só não venha querer puxar meu tapete, hein, meu?
Você tem um projeto paralelo de um blog pessoal onde escreve poesias e posta junto com fotografias. De onde surgiu a ideia?
Começou quando eu vi uma foto no Facebook que me fez querer escrever um poema. Só por causa da foto. Ficou bem legal, curti pra caramba. Aí vi que era outro jeito de me exercitar. É muito difícil encontrar sobre o que escrever sem se repetir, e as fotos te dão referências visuais que você segue ou só usa de motivo.

8. Em Buenos Aires com os amigos jornalistas Gabi e Chico. 9. Em algum lugar ermo do Tennessee. 10. Tocando violão deitado no chão em Ilhabela (2007). 11. Carol e Bruna, amigas há mais de dez anos
Você já pensou em levar isso a sério mesmo e fazer um livro de poesias, ou coisa assim?
Tenho um monte de poemas, mas não sei se um dia vai virar livro. Quer dizer, não quero pensar nisso. Ainda não sei se são bons o suficiente para virarem um livro. O que importa é continuar escrevendo, porque eu gosto muito disso, mesmo que eu não seja tão bom. Mas estou amadurecendo a escrita aos poucos, o que acho um sinal positivo.
E a tatuagem de macaco, o que é isso que eu soube que você tá querendo fazer?
Ah, eu falo isso há anos, mas e a coragem? O macaco está na capa de um dos discos do Pixies, o Doolittle. Penso em fazer porque o disco tem muito significado para mim. Na verdade, é a única coisa que eu tatuaria. Mas não sei se vou fazer mesmo. Se viesse uma tatuagem no pacote do salgadinho seria mais fácil.
Pra terminar, você tá solteiro, né!? Como faz pra uma garota interessada em você não estragar tudo? O que ela não pode fazer? Ela tem que gostar de política também?
Olha, prefiro não responder a essa. Sou bem reservado, então vou deixar essa no ar. Posso dizer que não precisa gostar de política não. Mas tem que gostar de alguma coisa na vida. Gente desinteressada não é pra mim, até se for pra ser amiga.
Clarice chegou faz pouco tempo no site, mas parece que trabalha conosco há muitos meses. Ela é uma ótima fotógrafa e sua mãe manda da Bahia os melhores sequilhos que eu já comi. (Diogo Rodriguez)
Tieta, opa, Diogo, além de dançar lambada e não lembrar depois também escreve aqui:
Tumblr: http://rodriguezzz.tumblr.com/
Blog: http://azulouverde.blogspot.com