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Postado em 25.04.2008 | 18:26 | por Cirilo Dias
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Duran anda desconfiado da própria sombra, de mulher que fala baixinho ou alto demais e até de quem desconfia de tudo

POR J. R. DURAN*

Meu amigo Valério (o fotógrafo, não o publicitário) me disse em uma conversa outro dia, em tom de gozação, que “desconfio até de minha sombra”. Confesso que a frase me pegou um pouco de surpresa, mas logo em seguida achei que, pensando bem, ele tinha razão.

PULGA ATRÁS DA ORELHA
Aqui está, então, uma pequena lista das coisas de que, além de minha sombra, o tempo me ensinou a desconfiar, logo de cara, sem duvidar nem dar uma segunda chance: desconfio de mulher que fala sempre baixinho, miando; desconfio de gente que não olha nos olhos dos outros quando responde a perguntas; desconfio de qualquer pessoa quando diz que a atitude que está tomando “não é nada pessoal”; desconfio de todo aquele que me propõe um negócio dizendo que “será muito bom para mim”; desconfio de político que diz apenas o óbvio e não me conta nada de novo; desconfio de homem que tinge o cabelo; desconfio de homem de peruca; desconfio de mulher que tinge os pentelhos; desconfio de pessoas que rezam em público apenas para serem vistas e ouvidas; desconfio de pregadores religiosos que pedem dinheiro pela televisão;

desconfio dos livros de auto-ajuda; desconfio da Wikipedia; desconfio de posto que vende gasolina muito barato; desconfio de mulher que em uma festa dá risada muito alta e que quer ser o centro das atenções; desconfio de promessa de bêbado, mesmo quando sóbrio; desconfio de quem dirige carro de chapéu; desconfio de quem acende um cigarro na ponta do outro; desconfio da falsa humildade; desconfio de quem leva a babá dos filhos para almoçar na churrascaria no fim de semana e não conversa nem com ela nem com os filhos; desconfio de quem leva o cachorro para passear e deixa ele cagar na grama do vizinho; desconfio das pessoas que falam alto no telefone celular; desconfio de quem promete e não cumpre; desconfio de quem anda com as nádegas apertadas; desconfio de quem cospe no prato que comeu e desconfio, também, de quem cospe no prato que nunca comeu; desconfio das mulheres que falam com voz muito grossa; desconfio de quem diz que não gosta de ler; desconfio de quem não sabe ouvir; desconfio de quem aponta para a Lua e olha para o dedo; desconfio de quem não tem senso de humor;

desconfio de quem enfia o dedo no nariz em público; desconfio de quem tem opinião para tudo; desconfio de quem nunca põe o dele na reta; desconfio de quem não é coerente com o que disse, ou fez, no passado; desconfio de quem conta quanto ganha por mês; desconfio de quem não sabe andar de bicicleta e desconfio de quem não sabe nadar (em piscina ou no mar); desconfio de quem marca com seis meses de antecedência a mesa em um restaurante da moda; desconfio de quem não gosta de chocolate; desconfio de quem arrota em público; desconfio de quem não tem culhão (seja homem, seja mulher, ter culhão é reconhecidamente um estado de espírito); desconfio de quem vive pedindo favores; desconfio de quem desconfia de tudo; e por último, assim como o santo, também desconfio quando a esmola é muito grande.

*J. R. Duran é fotógrafo e escritor, pode confiar
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