
Não há nada de original nessa minha sensação aliviada de homem ex-máquina. Milhões de pessoas já perceberam que, quem está sempre conectado, não descansa nem nos braços de Diana. Aquilo que num artigo há quase dez anos eu previ para algum futuro já é bem presente. A saúde humana, individual e coletiva, depende tão profundamente de um equilíbrio entre o dormir e o acordar quanto de um balanço entre o saber ligar-se e desligar-se do território virtual da informação. Há uma nova natureza sendo plantada no mundo. Só no Brasil, em 2007, o crescimento nas vendas de computadores foi de 60%. Nenhuma outra atividade teve um desempenho semelhante. A rede mundial é uma trepadeira eletrônica cuja seiva binária pode carregar informação ou ansiedade, progresso ou degradação. Suas ramificações no real se alastram numa razão proporcional ou mesmo maior que a destruição ambiental. Não sei, sinceramente, se há aí uma relação de causa e efeito.
Ambiente e virtualidade não precisariam se excluir. Pelo contrário. Mas o fato é que, à medida que o homem tem se afastado dos elementos considerados naturais, também tem mergulhado, de maneira inédita, no também inédito fluxo de bits.
BIG BROTHER AUTOMOTIVO
Esse é o dado realmente novo de nossa época. Incerteza econômica, progresso científico, guerra ideológica etc. Isso sempre houve. O que nos distingue de outras gerações é, de um lado, a proximidade temerária a que chegamos da destruição do mundo físico e, de outro, a complexidade veloz com que estamos criando um mundo virtual. E não são mundos paralelos. São mais parasitas um do outro. Simbióticos. Uma estrutura lotada de vasos comunicantes os interliga. E a migração de elementos de uma realidade para outra, física e virtual, é a cada dia mais intensa.
Neste ano de 2008, a prefeitura de São Paulo vai propor mais uma dessas migrações. O projeto de José Serra e Gilberto Kassab prevê que todos os veículos da cidade carregarão um chip, ligado a um computador público, que informará em tempo real sua exata localização. Além de registrar o trajeto de qualquer carro da cidade, o banco de dados municipal também será informado sobre a regularidade fiscal do veículo. Eu ficaria felicíssimo de ver os prováveis um milhão de veículos irregulares da cidade retirados de circulação. E também não veria muito problema em informar o meu trajeto diário a uma máquina pública, dentro de um regime democrático. Mas uma pulga do tamanho de um chip se instala atrás da minha orelha para fazer a pergunta óbvia: e se um dia o regime deixar de ser democrático? E se a máquina deixar de ser máquina, para se transformar no híbrido de humanidade e cibernética que a rede já está criando e cujas conseqüências futuras ainda desconhecemos?
A tecnologia pode ser nova. O que está em jogo é muito antigo. Poder. O dilema que a proposta municipal vai gerar na cabeça dos paulistanos é a cara da época que vivemos. Um servidor do Google já “sabe” todo o trajeto que o meu carro mental, da marca Explorer, faz diariamente pela realidade virtual. Um outro servidor em Montain View, Califórnia, “conhece” cada palavra dos meus e-mails e já programa uma publicidade customizada para mim, baseada no que “lê”. As conseqüências disso hoje não me incomodam. Mas digamos que a história política e tecnológica evolua de maneira que as aspas que utilizei para as palavras “sabe”, “conhece” e “lê” caiam por terra. Quem será o servidor de quem?
O chip que Kassab quer implantar nos carros será um dia implantado diretamente dentro da nossa cabeça. Se o implante é inevitável, relaxemos, gozemos. Mas, para podermos de fato relaxar e gozar, não adiantará só ir à praia. É preciso se reservar algum direito de desconexão.
*Carlos Nader, 43, é um homem de mídia com o olho vivo para os dedos de seta... Seu e-mail é: carlos_nader@hotmail.com





