
O que tem de mais reunir uma galera para ficar em frente ao computador? Eles já não fazem isso diariamente sem precisar estar no mesmo lugar? Se essas perguntas em algum momento permearam seu inconsciente, a reação ao chegar ao prédio da Bienal de São Paulo seria a de que nada estava acontecendo no Campus Party, e as palestras simultâneas nas áreas de Software Livre, Games, Desenvolvimento, Música, Criatividade, Robótica, Blog, Modding, Simulação e Astronomia estavam pouco freqüentadas ou até mesmo vazias. Pois o som frenético dos teclados dos 2.800 computadores em ação organizava conferências, desconferências, produzia conteúdos e discutia o que valia e o que não valia a pena ser visto. Através de ferramentas silenciosas e eficientes como Twitter, Flickr, Youtube, blogs e Streaming de vídeos, os campuseiros utilizaram a conexão ultra-rápida para produzir conteúdos em vez de lotar os computadores baixando arquivos; isso explica os dados divulgados pela organização do evento de que o tráfego da rede foi composto de 70% de uploads e 30% de downloads.
Pouca falação e muita ação

A palestra mais aguardada e disputada foi a do papa do software livre John “Maddog” Hal (foto)l, um senhorzinho de cabelos e barbas brancas que perambulava pelo evento sério e concentrado. Foi Maddog subir ao palco para ser ovacionado pelo pessoal do software livre (responsável por 20% da presença no evento). “Oi, meu nome é John Maddog Hall, mais conhecido como Papai Noel, ho, ho, ho”, assim o papa quebrou o gelo e ensinou algumas manhas e técnicas de como ganhar dinheiro com software livre. “É igual imprimir dinheiro, você nunca sabe o valor real que ele vai ter”, disse Hall. Já os debates mais freqüentados foram os dos blogs. A polêmica (?) blogueiros x jornalistas rendeu até uma ação bem-humorada dos blogueiros, que, inconformados com o aquário montado para a “imprensa tradicional”, pregaram cartazes nos vidros e colocaram um sujeito vestido de dinossauro para invadir a redação. Mas a questão fundamental levantada nos debates foi o risco de a festa de acesso e produção de conteúdo em tempo real estar ameaçada, graças a um projeto de lei que está rolando nos EUA, em que os provedores tentam privilegiar os sites mais acessados (normalmente os das grandes corporações) permitindo que eles paguem para ter mais velocidade em suas redes. Na prática isso acabaria com a neutralidade da internet, privilegiando aqueles que têm mais pra gastar. O diretor presidente do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto br (NIC.br) – entidade responsável pelos domínios terminados em .br – e membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), Demi Getschko, afirmou que há o risco de essa lei absurda ser adotada deste lado dos trópicos.
Barulho, só depois das 0h

O ambiente pacato das arenas só era quebrado pelas competições que varavam as madrugadas nas áreas dos games. Apesar da proibição dos torneios de Counter-Strike, partidas e torneios não oficiais foram organizados, garantindo gritos dignos de torcidas organizadas. Outra tentativa de romper a tranqüilidade foi a festa à fantasia organizada pelo pessoal do Software Livre, mas com uma proporção de 77% de homens e 26% de mulheres no evento ela não foi bem-sucedida. E em meio a uma parafernália eletrônica de última geração, que incluía conexão 5G alimentando os mais diversos e poderosos computadores – o pessoal de Case Modding que o diga – a Trip escolheu levar uma singela e classuda máquina de escrever Olivetti Lettera 22 para realizar a cobertura do evento, hospedada em barracas junto com os campuseiros. “Isso é protesto?”, “É piada?”, “É um flash mob?”, foram as perguntas feitas por jornalistas e blogueiros. Nada mais do que um modo de mostrar que uma máquina de escrever ainda funciona, e muito bem, num evento de alta tecnologia. Na área aberta ao público, vários jogos surreais, como o KickAss Kung Fu, em que as pessoas lutavam kung fu de verdade contra seres virtuais travestidos de ninja e George Bush. As filas eram imensas em todos os dias do evento. Não menos disputados eram o Virtual Sphere, simulador de jogos de ação em tamanho real, e a React Table, uma mesa sonora que ganhou projeção mundial ao ser comprada pela cantora Bjork.
Torcicolo coletivo

Foi nesse ambiente lotado e cheio de diversão que resolvemos apimentar um pouco a vida dos nossos queridos geeks. As Trip Girls Talita Colucci (à esq. ) e Paula Capobianco foram escaladas para dar um rolezinho no recinto e torcer pescoços guiados por olhares sedentos, jogar um pouco de kung fu – colocando em risco os mais cardíacos da fila – e dar uma consultoria sexual aos marmanjos que rodeavam as meninas e pediam para tirar fotos o tempo todo.
Armado o ambiente, e devidamente sinalizado para as confissões e dúvidas íntimas dos campuseiros, Talita e Paula quase ficam a ver navios. Não é que pouquíssimos geeks tiveram coragem de olhar nos olhos das belas moças? O que acontece? Será que via MSN seria mais eficiente?
Brincadeiras à parte, o sucesso da primeira edição do Campus Party Brasil já consolidou o evento no calendário oficial da capital paulistana: mais de 90 mil pessoas compareceram à Bienal e mais de 2.700 campuseiros de 18 países ficaram acampados, isso sem contar as mais de 3 mil pessoas que trabalharam no evento. Números suficientes para garantir a próxima edição do evento, que, ao que tudo indica, deve contar com 9 mil pessoas acampadas, e como não ofereceram um preço digno na Olivetti, ela estará presente com certeza.




















