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Postado em 20.02.2008 | 15:05 | por Cirilo Dias
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Caro Paulo,

Estou mais uma vez viajando em Minas. E como sempre, quando venho para cá, viajo mais no tempo do que no espaço. Veio toda a família, da mãe Marita ao neto Joaquim, para participar de mais um Encontro Nacional dos Primos (Enconpri), evento de três dias em que todos os parentes Cavalieri se encontram para se divertir e colocar em dia nosso passado, presente e futuro. Desta vez, devemos ser uns 80 primos. Somos todos descendentes diretos de Primo e Izilda, meus avós e trisavós do Joaquim, que tiveram dez filhos, inclusive minha mãe.

Estamos todos hospedados no Retiro das Rosas, hotel-fazenda que fica entre Itabirito, cidade origem de nossa família, e Ouro Preto. Esse Retiro pertence às Irmãs Salesianas, que reformaram seu antigo convento para transformar num hotel. Somos recepcionados pela querida irmã Rosita, que, entre muitas responsabilidades, cuida do roseiral do Retiro das Rosas, faz uma deliciosa geléia de rosas e é amiga de minha mãe desde os tempos do colégio interno em Mariana.

Mas não é por isso que estamos aqui. Minha família é católica de tradição e prática, e esse já é um aspecto importante dessa viagem. A fé numa paz prometida, característica dessa religiosidade, tem o poder extraordinário de criar um ambiente de tamanha positividade e otimismo que quando ligo a TV parece que viemos para outro planeta. Fica evidente que o mundo que a televisão nos reporta não tem projeto, não tem sonho, não tem fé. Os fatos têm causa e efeito, mas não sentido. Tudo mostra que vamos muito mal: a violência, a corrupção, a poluição.

Desligo a TV e volto para minha viagem, o encontro das raízes com as sementes que criarão raízes que produzirão sementes que criarão raízes... enfim, a viagem no tempo. É o tempo que mostra nossa identidade, que nos dá a perspectiva da evolução; de que hoje somos melhores do que fomos e piores do que seremos.

Levamos o neto Joaquim para visitar uma mina de ouro do século 18, em Ouro Preto, e aprendemos as barbaridades que os portugueses faziam com os africanos. Por exemplo: esmagavam os testículos do adolescente para que, evitando a produção de testosterona, o escravo ficasse baixinho e pudesse trabalhar nos minúsculos corredores das minas. As meninas, a partir dos 12 anos, tinham que parir um filho a cada dez meses para aumentar a mão-de-obra escrava.

ZOOM OUT DO COTIDIANO A moral da época achava isso normal. Hoje, se alguém cometer alguma atrocidade semelhante a essas, ninguém achará normal e essa pessoa será presa porque há lei que proíbe a violação dos direitos humanos em qualquer parte do planeta. Sem a perspectiva do tempo, perdemos o norte e ficamos à deriva num mar turbulento de fatos desconexos. Daí o pessimismo. Na minha opinião, a ciência e a espiritualidade nos ajudam a manter a perspectiva do tempo e a não perder o norte.

A espiritualidade porque nos dá a perspectiva do futuro, mostrando um sentido para tudo de bom e de ruim que nos acontece, proporcionando aquele sentimento de conforto e proteção, típico de quem sabe que não está sozinho no mundo. A ciência porque nos dá a perspectiva do passado, mostra o quanto aprendemos sobre a vida e sobre as relações sociais. Dessa maneira, além de mostrar nossa evolução como humanidade, permite deduções e projeções seguras sobre o futuro.

Há pouco tempo, li Why are you optimistic about?, livro cujo editor, John Brockman, questionou o otimismo de 155 cientistas (físicos, químicos, sociólogos, antropólogos etc). E a conclusão a que cheguei é que a gente está indo muito bem. Essa é a notícia que o Enconpri 2007 me entregou e que quero enviar para você: estamos indo bem.

Viagem serve para isto: nos afastar da realidade cotidiana, fazer um zoom out do nosso pequeno mundo para obter a perspectiva e a compreensão de onde estamos, de onde viemos e para onde vamos. Enfim, descobrir o roteiro da jornada diária. Volto a São Paulo em tempo de participar, com honra, do Prêmio Trip Transformadores. Estou levando um pote de geléia de rosas, da irmã Rosita, para vocês. Até aí.

Abraço,

Ricardo

*Ricardo Guimarães, 59, é presidente da Thymus Branding. Seu e-mail é: rguimaraes@trip.com.br
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