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Postado em 14.09.2007 | 15:41 | por Redação Trip
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Você se sente acolhido em um shopping center? Com a população
planetária batendo na casa dos 6,6 bilhões e a temperatura subindo sem
parar, o Haiti, cada vez mais, é aqui. O planeta azul vai ficando mais e
mais poeirento, claustrofóbico e parecido com o complexo do Alemão.
Quando o físico inglês Stephen Hawkins previu que o futuro da
humanidade estaria fora da Terra, já que aqui o estrago parecia ser, na
opinião dele, irreversível, passei a aceitar melhor os shopping centers.

Afinal, precisamos nos acostumar a viver em ambientes fechados,
com temperatura e oxigênio controlados, odores artificiais de limpeza,
palmeiras pré-fabricadas, luz constante e horizonte pontilhado por vitrines e logotipos de grifes. Dentro de um shopping center, tanto faz se estamos em Hong Kong, São Paulo ou Marte. A paisagem é igual, as lojas são as mesmas, a praça de alimentação tem os mesmos restaurantes. O shopping nos recebe, nos abraça, é nosso amigo, é democrático. O que ele pede em troca? Quase nada. Apenas um pouco de consumo. Sabendo que o futuro será assim, mudei minha maneira de encarar as coisas e comecei a sentir, dentro de um shopping center, um verdadeiro espírito de acolhimento.

SAINDO PRA DENTRO

Quando Cristo nasceu, havia cerca de 300 milhões de pessoas habitando o planeta, o que é aproximadamente o dobro da população de Bangladesh, hoje. Em 1961, ano em que nasci, a população planetária era de 3 bilhões, e usávamos cerca de 50% dos recursos renováveis da Terra. Passados apenas 25 anos, em 1986, com 5 bilhões de pessoas, atingimos um ponto de difícil retorno: estávamos usando toda a capacidade sustentável do planeta. De acordo com as previsões mais confiáveis, em 2050, com uma população de 9 bilhões, estaremos usando os recursos equivalentes a duas Terras. Não tem jeito. Extrapolamos. A conta não vai fechar. Consumimos demais, fazemos lixo demais, nos reproduzimos demais. Somos gafanhotos vorazes
crescendo exponencialmente numa ilha isolada. E você que pensava
que o carro a álcool ia salvar o planeta...

Acolhimento de verdade foi o planeta Terra acolhendo a humanidade.
Água, ar, céu azul, calor do sol, sombra das árvores, alimentos abundantes, noites estreladas. E o que a gente fez com isso? Muita besteira, foi o que fizemos. Mas, felizmente, fizemos também os shopping centers. Completamente isentos de compromissos com a vida no planeta azulzinho, eles poderão ser facilmente exportados para qualquer galáxia para a qual tenhamos que emigrar. Com as ferramentas de realidade virtual, teremos acesso, com mais conforto e segurança, a muitas das paisagens que destruímos e fomos obrigados a deixar para trás. Havaí 5.0 será nome e número de versão do simulador que fará os humanos de Júpiter viverem por algumas horas naquela paradisíaca ilha do planeta extinto de seus ancestrais. Pode parecer absurdo, mas não é. Conseguir viver em Marte, ou em outro planeta, não é algo que a ciência e a tecnologia estejam realmente próximas de permitir. Mas é quase que certamente a única chance que temos, enquanto espécie, de sobrevivermos a longo prazo. Isso, claro, se der tempo.

*André Caramuru Aubert, 45, é historiador, cria software móvel e vai levar as
crianças pra passear no shopping

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