Revista Trip

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PIXO GANHA O MUNDO

07.07.2009 | 11:07 | João Wainer

 

 

 

 

 

 

Alguns dos maiores nomes da arte de rua do mundo chegaram a Paris na semana passada para a exposição “Né Dans La Rue: Graffitti” na Fundação Cartier. É a maior retrospectiva do gênero já feita no mundo. Nunca uma mostra foi tão a fundo na história e no desenvolvimento desse estilo de arte, contando a historia completa, desde o começo, em NY nos anos 70, quando o Wild Style foi criado.
Estão aqui os pioneiros desse movimento, como P.H.A.S.E 2, Part 1 e Seen. Uma enorme tela de Jean Michel Basquiat e duas de Keith Haring estão na parede, enquanto fotos e filmes como Style Wars e Wild Style são exibidos em TVs de plasma em uma das salas. Na outra, de pé direito alto e paredes de vidro, vários artistas preparavam suas obras para abertura, que acontece amanhã no numero 261 do Boulevard Raspail, na região central de Paris. Basco Vazko, do Chile, Barry McGee, Delta e Boris Tellegen, da Holanda Gerard Zlotykamien, de Paris, Nug de Estocolmo e alguns outros pintavam freneticamente suas telas.
Para surpresa de todos, o artista escolhido para pintar a fachada do prédio de vidro da Fundacão Cartier não foi nenhum dos acima citados. Os curadores analisaram os trabalhos e entregaram para o pixador de São Paulo Djan Ivson da Silva, conhecido como Cripta, a tarefa de fazer um enorme pixo na parte mais nobre da exposição, a fachada do prédio envidraçado. 
Enquanto todos eles usavam spray colorido, Cripta pediu tinta látex e rolo de pintura. Enquanto todos levaram dias para terminar os trabalhos, Cripta levou 15 minutos. E para surpresa de todos, foi ovacionado pelos curadores da mostra. “Era disso que precisávamos, algo novo, selvagem e desconhecido” disse Thomas Delamarre, um dos curadores da mostra.
O domingo foi o grande dia. De manhã chegaram os jornalistas. Djan deu entrevistas para a TV alemã, BBC, Lê Monde, L’Expresso, Art Magazin, para um jornal russo e muitas outras.   Os grafiteiros gringos que até ontem olhavam torto para aquele maloqueiro de bombeta e havaiana vieram pedir autógrafos. Barry McGee disse que a pixação é o novo Wild Style, e que a arte de rua no resto do mundo vai mudar, seguindo os passos da pixação. Os fotógrafos se acotovelaram para clicar o vândalo paulista, que mal podia esconder o sorriso.
Na sala ao lado, o filme PIXO, que dirigi ao lado do Roberto T. Oliveira, passava pela primeira vez. Confesso que não esperava que fosse tão bem recebido. O diretor da Fundação Cartier, um francês marrento que não falava com ninguém chegou com um sorriso de orelha a orelha e disse: “Estou arrepiado. O filme é uma obra-prima. Vou ligar para o David Lynch agora, ele precisa ver isso”. Menos de duas horas depois da estréia começaram a chegar os convites. Veneza, Viena e Amsterdã, só pra começar. Fudeu!
Pixação é um crime, é vandalismo, é errado? Sim. Mas também é uma forma de expressão que nunca foi analisada como deveria pelas autoridades artísticas e policiais no Brasil. Nem com a invasão de grupos de pixadores a três galerias de arte, os críticos e curadores pararam para analisar esse fenômeno gigantesco que está cobrindo de tinta preta a cidade de São Paulo. Para um movimento que tem na essência a busca pelo reconhecimento, essa talvez tenha sido a maior conquista.
Muita gente vai chiar, mas Djan está muito seguro do que está fazendo. Cripta, que ficou conhecido por escalar e pixar os maiores prédios de SP, viu em Paris a chance de escalar algo muito maior que um prédio. Ele aceitou o desafio e escreveu o nome da pixação paulistana na história da arte mundial. O mundo parou pra ver e tentar entender a pixação de São Paulo.
Nao sou critico de arte, curador, policial, juiz ou promotor pra dizer se é arte, crime ou os dois. Não sou eu quem tem que dizer se é ou não é. Só sei que a cidade está coberta de tinta e todos os dias centenas de moleques se arriscam pra pixar qualquer espaço que os faça serem mais notados.
No dia em que os especialista decretarem que a pixação é uma arte, São Paulo automaticamente entrara para o livro dos recordes como a maior galeria a céu aberto do mundo.

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NASCEU O DIABO EM SAO PAULO

14.04.2009 | 18:58 | João Wainer

Nasceu o Diabo em Sao Paulo

Nasceu o Diabo em Sao Paulo

 

 

A redação do Notícias Populares estava calma demais naquele pós feriado de 1975. Faltavam notícias para encher as páginas com os tradicionais absurdos que o saudoso diário publicava pra deixar o povo um pouco mais feliz. Fuçaram nas matérias rejeitadas da semana e acharam uma de Marco Antonio Montadon, sobre uma criança que havia nascido com estranhas deformidades no ABC paulista. No local, o jornalista apurou que a criança nascera com um prolongamento no cóccix e duas saliências na testa, problemas simples que foram resolvidos com uma pequena cirurgia feita na própria maternidade. A matéria, de tão fraca nem foi publicada. Na falta de assunto daquele dia, o repórter requentou a pauta e resolveu fazer uma crônica de horror baseada na história. Como ninguém no hospital quis dar entrevistas, ele não pensou duas vezes antes de inventar a história que ficou conhecida como a mais bizarra do jornalismo brasileiro, que marcou uma época e alavancou a venda do jornal por quase 30 dias seguidos. Reproduzo abaixo a sensacional seqüência de manchetes até o desfecho da maior e mais divertida cascata do Notícias Populares. Em seguida, emendo a matéria original que deu origem a saga. (Destaque para a manchete de 24.05: O BEBE DIABO PAROU TAXI NA AVENIDA em que, segundo o jornal, o capetinha entrou no carro e ao ser questionado pelo taxista sobre qual seria o destino da corrida teria emendado: "Toca para o inferno")

11/5 - NASCEU O DIABO EM SÃO PAULO 12/5 - BEBÊ-DIABO DESAPARECE 13/5 - FEITICEIRO IRÁ AO ABC EXPULSAR O BEBÊ-DIABO 14/5 - BEBÊ-DIABO DO ABC PESA 5 QUILOS 15/5 - BEBÊ-DIABO INFERNIZA O PADRE DO ABC 16/5 - NÓS VIMOS O BEBÊ-DIABO 17/5 - POVO VAI VER O BEBÊ-DIABO 18/5 - PROCISSÃO EXPULSARÁ BEBÊ-DIABO 19/5 - VIU BEBÊ-DIABO E FICOU LOUCA 20/5 - SANTO PREVIU O BEBÊ-DIABO 21/5 - BEBÊ-DIABO NOS TELHADOS DAS CASAS DO ABC 22/5 - MÉDICO AFIRMA: O BEBÊ-DIABO NASCEU NO ABC 23/5 - DIABO EXPLODE MUNDO EM 1981 24/5 - BEBÊ-DIABO PAROU TÁXI NA AVENIDA 25/5 - FAZENDEIRO É O PAI DO BEBÊ-DIABO 26/5 - BEBÊ-DIABO VIAJA PARA VER O PAI 27/5 - BEBÊ-DIABO APARECE NO LUGAR DO ECLIPSE 28/5 - MAIS 7 VIRAM O BEBÊ-DIABO 29/5 - BISPO MORRE DE MEDO DO BEBÊ-DIABO 30/5 - BEBÊ-DIABO ARRASA COM RITUAL DE UMBANDISTA 31/5 - FANÁTICOS AMEAÇAM BEBÊ-DIABO DO ABC 01/6 - SEQÜESTRADO BEBÊ-DIABO 02/6 - BEBÊ-DIABO À MORTE 03/6 - BEBÊ-DIABO FOGE PARA O NORDESTE 04/6 - PADRE DE MARÍLIA: ‘EU ACREDITO NO BEBÊ-DIABO DO ABC’ 05/6 - ZÉ DO CAIXÃO VAI CAÇAR BEBÊ-DIABO NO NORDESTE 08/6 - POVO VÊ DE NOVO BEBÊ-DIABO DO ABC NASCEU O DIABO EM SAO PAULO

Durante um parto incrivelmente fantástico e cheio de mistérios, correria e pânico por parte de enfermeiros e médicos, uma senhora deu a luz num hospital de São Bernardo do Campo, a uma estranha criatura, com aparência sobrenaturais, que tem todas as características do Diabo, em carne e osso. O bebêzinho, que já nasceu falando e ameaçou sua mãe de morte, tem o corpo totalmente cheio de pelos, dois chifres pontiagudos na cabeça e um rabo de aproximadamente cinco centimetros, além do olhar feroz, que causa medo e arrepios. Parece que tudo começou na Semana Santa, quando o marido da mulher, que é muito religioso, convidou-a para ir à igreja, ver a procissão. A mulher grávida, bateu com as mãos na barriga e respondeu indignada: – Não vou, enquanto este diabo aqui não nascer. E foi o que realmente aconteceu. A mulher acabou tendo como filho um monstrinho horripilante, peludo, que ao falar, mais parece que está mugindo. Inicialmente, há quinze dias, quando os boatos começaram a surgir, poucos acreditavam na história absurda do nascimento do capeta em São Paulo, mas pouco a pouco, os comentários aumentaram e agora, principalmente em São Bernardo do Campo e cidades do ABC, ninguém mais duvida da existência do monstrinho diabólico. Entretanto, segundo as autoridades médicas, não foi registrado nas últimas semanas nenhum nascimento de alguma criança com problemas congênitos ou anomalias pavorosas. Mesmo assim, até telefonemas de Brasília e outras cidades, estão chegando em São Bernardo, de pessoas que perguntam como o Diabo é, o que que ele come e como é sua aparência, tudo logicamente, desmentido pelos funcionários. O Hospital São Bernardo, onde se acredita que o Diabo esteja escondido, encontra-se em fase de construção, sendo que a maioria de seus pacientes, é do INPS. O médico Fausto Figueira Mello Júnior, que ao lado de 12 colegas o dirige, afirmou que dos 15 partos diários, todos são praticamente normais: – Aqui não nasceu nenhum diabinho. Por outro lado, o diretor administrativo, Roberto Saad, é de opinião que tudo isto não passa de uma piada de mal gosto contra o hospital. Parece porém que, o crescimento do boato e a credulidade de algumas pessoas chegaram a preocupar o secretário da Promoção Social, Enzo Ferrari. Ele, após percorrer todos os hospitais daquela cidade, distribuiu uma nota oficial, desmentindo o boato, dizendo que em São Bernardo do Campo não existe nenhum bebê-monstro. Entretanto, a própria preocupação do secretário aumentou em algumas pessoas a crença de que o Diabo existe e está disposto a fazer cumprir as profecias satânicas, aumentando o mal na Terra. – E os primeiros a serem atingidos serão os moradores de São Bernardo do Campo, disse uma senhora, fazendo o Padre-Nosso, defronte o Hospital São Bernardo, onde se encontrava com os olhos demonstrando muito medo. Assim, aquela que de início era uma estranha e absurda história, agora tomou corpo e chega a preocupar as autoridades daquele município. Os telefonemas continuam, nas esquinas e nos bares o assunto é só sobre o capetinha e muitos insistem que os responsáveis pelo hospital onde ele nasceu, deveriam colocá-lo em exposição, para que todos vissem o bebê que fala, tem chifres e um bonito rabo de cinco centímetros.

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CASCÃO - VIDA LOKA ORIGINAL

08.04.2009 | 15:25 | João Wainer

(trecho do DVD "Comigo Quem Quiser, Contra Mim Quem Puder" feito na raça pela produtora Sindicato Paralelo)

 

cascão - vida loka original

Vida Loka não vira, nasce. Cascão nasceu Vida Loka e é a personificação do estilo criado por ele que tomou conta das ruas de São Paulo. Ex-assaltante de banco, tirou sete anos de cadeia e sofreu na pele todo o veneno do sistema carcerário. Viu de perto a fundação do PCC e participou de inúmeras rebeliões. Carregando nas costas uma capivara (ficha criminal) que mede 4,5 metros, Cascão voltou pra rua. Saiu pela porta da frente da cadeia, largou o crime, entrou pra faculdade de direito, se formou e montou o grupo de rap Trilha $onora do Gueto. “Entrei pra faculdade de direito pra ser mais folgado do que eu já sou” diz orgulhoso depois de pagar todas as as dívidas que tinha com a justiça. Considerado na quebrada o Vida Loka original, o único e autentico gangsta brasileiro rejeita o rótulo. “Falar é mó boi, todo mundo quer ser gangsta mas pergunta se os cara quer dar tiro na ROTA pra ser gangsta? Pergunta se quer perder a liberdade? Quer nada. Papel e caneta aceita qualquer coisa, escrever uma letra falando que é gangsta é mó boi. Eu não quero ser, pergunta pra mim aqui, ó, eu já fiquei preso um monte de ano. Pergunta se eu quero ser gangsta. Não quero nada, quero ser bem sucedido”

 

Aos 14 anos Cascão fez seu primeiro assalto a banco. Foi piloto de fuga pra uns parceiros da quebrada. “Eu acho que atirar nos outros é babaquice. Matar os outros é babaquice. Agora, a sensação mais gostosa é você saber que vai entrar na agência e sair com um malote. Tem noção? Imagina a viagem, mano. Você entrar dentro do banco, driblar o guarda, passar por todo mundo sem ninguém te olhar, sentar na mesa do gerente, perguntar: “Você é o gerente?”. “É”. Sacar a quadrada, pegar ele pelo cabelo, levar dentro do cofre e voltar com o malote”.

Num rolê pelo Capão, Cascão me ensinou um dos grandes segredos da rua. Disse que em qualquer situação, quem demostrar medo primeiro perde. Tem que olhar no olho, e falar direto, sem medo, por pior que seja a sua situação. O ser humano é igual bicho, sente o cheiro do medo. Confesso que esse ensinamento já me fez sair de algumas encrencas. Isso vale pra vida, pra uma conversa com teu chefe, com a atendente da companhia aerea, com o cara que tenta te enrolar e etc.

Em 91, durante um assalto a banco, Cascão foi preso. Com um refém sob a mira de uma sub-metralhadora exigiu a presença de equipes de TV pra se entregar. Começava ali a carreira artística de um dos mais controversos e polêmicos rappers de sua geração. Na cadeia descobriu seu verdadeiro dom, o de poeta da realidade. Foi durante um castigo na cela isolada, onde passou 58 dias sem ver o sol, que compôs a letra da musica Terceira Opção, contando com detalhes o dia em que foi preso.

Ai vai um trecho da letra: “... Eu peguei minha quadrada e fui pra guerra com o sistema, só que pá é o seguinte sempre existe um dilema.
A vida traiçoeira me pregou uma lição eu só tinha dois minutos pra viver 3 opção. Se eu saísse pelos fundos eu morria assassinado, se eu vazasse pela frente pelos bico era linchado e a 3º opção era eu engatilhar a quadrada na cabeça e eu mesmo me matar, só que Deus tava presente acredite eu não me engano, em fração de 2 segundos eu bolei aquele plano. Ai xará é o seguinte eu só vou me entregar quando aquele "sem futuro" do Datena me filmar, to ligado que pru ceis eu não valho um real só que se ceis invadir o refém vai passar mal. Ele tá todo borrado ta mijado ta com medo ta pagando até com juros o racismo e o preconceito. De repente, pá pá, caraio que tiroteio, fiquei com a cabeça a mil 
me bateu um desespero. Parece que foi ontem, quando eu da cena lembro,
minha roupa cheia de sangue eu algemado mó veneno. Linchado pelos bico com ajuda dos gambé, desacerto no crime eu to ligado qual que é. Um dia é da caça outro do caçador, ditado que meu pai já herdara do meu vô...”

 

VIDA LOKA - DJ PUDIM

VIDA LOKA - DJ PUDIM

O palhaço não tem cara ele só tem finalidade. Por isso que o símbolo dos Vida Loka é o palhaço. Ele não tem rosto. Não quer ibope, não quer nada. Qual é a finalidade do palhaço? Fazer rir, alegrar.
Então já é. Por isso o palhaço.
(Cascão)

(+ claudio tognolli)

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Maputo

03.04.2009 | 22:32 | João Wainer

Casamento em praia de Moçambique, na África

Casamento em praia de Moçambique, na África


O vôo da LAM (Linhas Aéreas de Moçambique) pousou no Aeroporto Internacional de Maputo no dia 5 de novembro de 2008. Era uma data especial para a África e para o mundo. Enquanto o avião taxiava na pista do pequeno aeroporto, o planeta mudava um pouco com o anuncio da vitória de Barack Obama na eleição presidencial americana. “O novo dono do mundo é um negro, filho de quenianos e filho da África!”, comemoravam os moçambicanos em festa exalando alegria pelo saguão do aeroporto.

Africanos cantam e dançam o tempo todo. Foram eles que ensinaram os brasileiros a serem assim. Cantam pra rezar, cantam pra chorar, cantam pra trazer sorte e cantam pra comemorar. Era um dia especial e a alegria podia ser sentida em toda parte.

Na madrugada anterior, o escritor moçambicano Mia Couto acompanhava pela televisão a apuração da eleição americana em sua casa em Maputo. “Foi uma madrugada de intensa comoção. Eu confesso que chorei, nunca pensei que pudesse embarcar numa coisa que eu sei que é ilusão, pois esse homem esta condicionado por poderes enormes. Mas ao mesmo tempo o que representa como valor simbólico é algo muito grande, traz benefícios do ponto de vista da auto estima. Somos tão influenciados por eles que deveríamos reivindicar direito a voto na eleição americana. Se bem que de uma certa maneira votamos com o coração,” confessa o premiado escritor, correspondente da Academia Brasileira de Letras e considerado um dos mais importantes escritores africanos e da língua portuguesa.

Moçambique fica na costa oriental da África, de frente para o Oceano Indico e de costas para o Brasil. O Brasil conhece pouco Moçambique, que por sua vez, conhece muito bem o Brasil. As novelas, a musica e a literatura brasileira tem uma influencia enorme nos costumes e na cultura local, o que faz com que o nosso português “adocicado”, como dizem os moçambicanos, abra qualquer porta por lá.

 


Foi assim na beira da praia, quando num dia quente como são quase todos os dias na África, vi de longe um cortejo passando pelo calçadão. Me aproximei. A noiva vestida de branco, véu e grinalda, caminhava de braços dados com o noivo. Atrás deles vinham cerca de cinqüenta pessoas. Eram convidados, padrinhos, madrinhas, damas de honra. As mulheres vestiam saias longas, adereços e cabelos cuidadosamente penteados. Cantavam uma música aguda e dançavam como num ritual ancestral. Os homens vestiam terno, gravata, traziam flores na lapela e sorrisos nos rostos. Foram em direção ao mar e nem o vento forte e o desconforto da areia entrando nos sapatos de domingo foram capazes de diminuir a alegria daquele momento. Um fotógrafo registrava tudo e olhou torto quando me aproximei com a câmera. Bastaram algumas palavras no português “brasileiro” para trazer de volta o clima amistoso.

Sobre uma coluna de concreto que avança mar adentro, os noivos se beijaram tendo o oceano Indico ao fundo. O cântico das mulheres ficou mais agudo. O vento soprou mais forte balançando o vestido branco da noiva feliz e misturando a maresia o forte perfume das africanas. O fotógrafo moçambicano registrou a cena que durante as próximas décadas será vista e revista centenas de vezes no álbum de casamento da família por seus futuros filhos e netos.

Depois de alguns minutos na praia, o cortejo voltou para a calçada onde alguns carros enfeitados com fitas e flores esperavam pelos noivos e seus convidados. Com as dificuldades impostas pelas roupas apertadas, os convidados subiram na caçamba das camionetes enquanto os noivos entravam no carro branco escoltados pelo motorista. A musica das mulheres parou e o cortejo se transformou em carreata, com buzinas incessantemente tocadas para comemorar a união do casal.

 


Na tarde seguinte ao casamento, na mesa do bar do hotel Southern Sun, em Maputo, Mia Couto explica e contextualiza o que vi e fotografei: “Isso é uma coisa que começa a acontecer depois da independência. Antes a cidade era estratificada racialmente e os casamentos das pessoas negras não tinham esse desfile na chamada “zona dos brancos”. O que acontece também nos casamentos, como nos batizados ou em qualquer ritual é que há esse casamento aqui e também há outro no bairro, no interior que é uma outra festa.”

 

Moçambique é um pais jovem, que recentemente descobriu a paz depois de longos anos de violência. Mia Couto viu o país nascer, acompanhou de perto as sucessivas guerras e hoje experimenta pela primeira vez a paz. “Moçambique tem trinta e três anos. Eu sou mais velho que o meu próprio pais, uma coisa que não é muito comum. Os meus filhos nasceram na guerra. Havia uma geração inteira de jovens que só sabia o que era guerra. Em 1992 houve paz. De fato foi uma coisa pra mim quase milagrosa. Depois que a paz se tornou uma cultura, nunca mais houve tensões, violência militar e o país vive esse período de estabilidade política e social. Simplesmente se transformou num pais igual aos outros.” Explica o escritor.

Mia resume em poucas frases a curta e agitada história do jovem país.“Em 1975 foi feita a independência contra a dominação portuguesa, Moçambique era uma das cinco colônias portuguesas na África que se tornaram independentes mais ou menos na mesma época, 1975, 1976, logo depois da revolução dos Cravos em Portugal. Tínhamos um movimento de libertação de orientação socialista, marxista, e houve uma revolução. Foram nacionalizadas grandes propriedades, foi introduzida uma orientação revolucionaria, quase todos os colonos portugueses saíram e tivemos um pequeno período sem guerra. Na seqüência começou uma guerra com a Rodésia (hoje Zimbábue), e depois tivemos uma guerra civil que durou 16 anos.” explica.

“A guerra civil era uma guerra trazida de fora, do regime do apartheid na África do Sul e que ganhou força internamente. Essa guerra levou a que houvesse uma mudança política a partir de dentro, portanto o mesmo movimento que fez a independência, que era a Frelimo converteu-se depois no movimento que implantou o capitalismo a partir da morte do líder revolucionário Samora Machel em 1986, o primeiro presidente moçambicano” completa Couto.

Conhecer a África é como conhecer o fundo da alma brasileira. Pelas ruas dos paises africanos nós brasileiros nos entendemos um pouco melhor. Não é por acaso que somos assim. O samba, o candomblé, a culinária e tantos outros pilares basicos da cultura brasileira vieram da África para serem digeridos no caldeirão Brasil e se transformarem em algo novo, diferente, brasileiro e único.

De toda a herança cultural e genética que herdamos da África, talvez o aspecto mais forte seja o da alegria, essa que o brasileiro demonstra até nas condições mais adversas de seu dia-a-dia. Lá e cá, todo mundo dança, todo mundo canta e todo mundo sorri. Não é necessário um motivo para isso, mas se por acaso um negro tiver sido eleito presidente dos EUA na madrugada anterior, não tenha dúvidas de que vão cantar, dançar e sorrir muito mais alto.

 


(publicado na revista ffw mag em janeiro de 2009)

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PEDRA SOBRE PEDRA

20.12.2008 | 19:20 | João Wainer


A favela Pedra Sobre Pedra fica na divisa entre São Paulo e Diadema e ganhou esse nome por causa da antiga novela da Globo. Por aqui, qualquer semelhança com a ficção é mera coincidência...


Por João Wainer

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