Abr 29

Enquanto muitos bares da zona sul de São Paulo convivem com cadáveres esticados em suas portas, o bar do Zé Batidão convive com poesia e cultura. É que aqui, toda quarta-feira tem sarau poético e nunca faltou gente pra ver, ouvir e se emocionar com o que os poetas marginais tem a dizer. Sérgio Vaz é quem comanda, e aos gritos de “Povo lindo, povo inteligente!” bota ordem nos poetas que enfileiram seus nomes num caderninho e esperam a vez de recitar seus versos no microfone da entrada do bar. Motoboys, rappers, donas de casa, crianças, auxiliares de escritório, desempregados. Todo mundo chega na humildade, papelzinho dobrado no bolso e olhar envergonhado. Quando pegam o microfone se transformam em verdadeiros guerreiros da periferia, rebatendo com versos as porradas que levam do dia-a-dia sofrido da quebrada.

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São 21:30h. A novela das oito ainda entope o cérebro da maioria enquanto aqui, coperiféricos lutam contra a estupidez declamando versos próprios ou emprestados de grandes poetas, trazendo luz pra noite cinza da periferia. Hoje é um dia especial na Coperifa. Cada verso recitado aqui foi escrito em um pedaço de papel e amarrado em um balão branco de gás. Todos foram para a porta do bar e de uma só vez soltaram os balões ao vento levando fragmentos do sarau para todos os cantos da comunidade. Versos de Clarice Lispector, Drummond, Pessoa, Leminski e Neruda voaram lado a lado com versos de Cidinha, Rose, Alessandro, Hélber, Robson, José…

O mais bonito da noite foi descobrir que, voando pelos céus do Capão, um verso da Dona Maria pesa exatamente a mesma coisa que um verso de Vinícius de Moraes.

P.S.: Amanhã, 30.04.2008 é dia da segunda edição do Poesia no Ar. Pra quem quiser conhecer a noite mais incrível da periferia de SP, é só chegar. Estrada do M’Boi Mirim, vira a direita depois da igreja do piraporinha, sobe uma ladeira enorme e vira a direita no final dela.

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A COOPERIFA VAI ENCHER O CÉU DE SÃO PAULO DE POESIA !!!
2º Poesia no Ar
Dia 30 abril 21hs

O Sarau da Cooperifa realiza pelo segundo ano consecutivo, o Poesia no ar, e vai encher o céu de São Paulo de poesia.Nesta noite mágica da periferia paulistana o sarau vai acontecer normalmente até às 22h30, depois todas as poesias lidas, as mensagens e poemas dos convidados, serão colocadas em balões de gás (500 bexigas) e enviados via áerea para toda a cidade. Só não vê quem não quer, onde todos querem violência, nós queremos poesia. Quem não puder comparecer no Sarau da Cooperifa neste dia, não se preocupe, se tiver sorte vai receber nossa poesia em casa, sem alarde, e abençoada pelo sereno da madrugada.

*Atenção: no dia 1º, antes de ir para o trabalho ou para a escola dê uma olhadinha no quintal, quem sabe…

É tudo nosso!

Sérgio Vaz
Cooperifa

Bar do Zé Batidão
Rua Bartolomeu dos Santos, 797 Chácara Santana
Periferia-SP
Info. 7207-4748

Por João Wainer - 4:29 pm Comente »

 

Abr 23

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O trânsito de São Paulo é uma selva. Tem motoboy arrancando retrovisor, ladrão roubando bolsa, moleque fazendo malabarismo, sirene tocando, alarme de carro, fumaça, caminhão e ônibus. No meio desse caos, circulam pequenas
fortalezas blindadas sobre rodas. Com quatro caras dentro, armados de escopeta e revólver, esses bunkers móveis carregam para cima e para baixo dentro de malotes, uma boa parte da riqueza nacional.

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O carro por dentro é simples. Paredes grossas, portas pesadas, quatro cadeiras, um cofre e um monte de buracos espalhados pra meter bala nos bandidos que tentarem pará-los. Nas paredes, instruções afixadas indicam o que fazer em caso de assalto enquanto uma imagem de Nossa Senhora presa com um imã em uma das colunas tenta evitar que isso aconteça.

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Naquela manhã, ao entrar no carro o motorista fez o sinal da cruz e, conscientemente ou não, pisou na cabine primeiro com o pé direito. Os outros três ocupantes tomaram seus assentos e o carro partiu para a batalha.

Num país cheio de desigualde social, eles vão atravessar uma cidade violenta em um carro cheio de dinheiro.
Cada parada é um momento de tensão. É hora de almoço no centro e a rua está cheia. São velhos, mulheres, homens e crianças. Na banca do camelô, um rádio velho toca “Homem na Estrada” dos Racionais. Cada um é um suspeito em
potencial. Aquele mendigo pode ter uma Uzi embaixo do cobertor, a mulher com a criança pode ter uma granada na bolsa, o gari um fuzil na lixeira. Como saber? A tensão e o medo predominam na cena.

Eles pegam o malote na agência bancária e rapidamente voltam pra dentro do carro, que arranca para fazer a próxima coleta. Depois de passar por vários lugares recolhendo os malotes, o blindado segue para o bunker: a central da empresa de segurança, onde o dinheiro vai ser contado e catalogado. Parece a caixa-forte do Tio Patinhas. Vejo mais concreto, grade, aço, camera e tensão do que qualquer cadeia do país.

Não é pra menos. Em uma das salas centrais, os malotes são abertos e maços emais maços de dinheiro são jogados sobre uma mesa de fórmica branca. Uma funcionária vestindo um macacão de operário e um 38 na cintura amontoa e
organiza todo aquele dinheiro que é contado, recontado e depois empacotado em novos maços com mil notas cada um.
Por um instante, quis ser John Malkovich e entrar no cerébro daquela funcionária, só pra saber o que pensa alguém que passa o dia inteiro manuseando milhões de reais e no fim do dia pega um ônibus lotado pra ir embora pra casa.

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Na entrada da empresa, estão penduradas fotos de criminosos foragidos e balanços dos assaltos ocorridos no ano corrente em todo o Brasil. Além da contagem, os relatórios também trazem detalhes de cada assalto, para que os
funcionários fiquem atentos e nunca esqueçam o perigo real que correm.

A tensão é justificável. Na guerra urbana de São Paulo, todo mundo quer dinheiro e os carros-forte transportam o dinheiro que todo mundo quer. Alguns morreram tentando roubar o malote, muitos conseguiram. Outros morreram tentando defender o malote.

Essa é só mais uma das tantas guerras pelo dinheiro que são travadas todos os dias sobre o asfalto quente da cidade de São Paulo.

Por Redação Trip - 2:28 pm Comente »

 

Abr 10

pres3.jpgpres13copy.jpgpres18copy.jpgO saudosismo bateu forte hoje cedo. É domingo, li os jornais “sérios” e senti uma saudade fudida do Notícias Populares, onde trabalhei por um curto e delicioso período. Seria impensável hoje em dia imaginar um editor-chefe submetendo a manchete do dia à aprovação dos contínuos, uma reunião de pauta em que jornalistas resolvem inventar a cascata do nascimento de um bebê com chifres e rabo ou que decidam fotografar uma mulher nua num frigorífico para falar sobre o aumento do preço da carne. As manchetes do NP eram geniais. Pérolas como “Bicha põe rosquinha no seguro”, “Aumento de merda na poupança”, “Broxa torra o pênis na tomada” e “A morte não usa calcinha” semeavam diariamente o imaginário popular. Pequenas aglomerações se formavam ao redor das primeiras páginas penduradas nas bancas do centro e sorrisos eram naturalmente arrancados de quem as lia. Ninguém passava batido a uma capa do NP. O clima na redação era da mais pura diversão e na reunião de pauta as idéias mais absurdas eram sugeridas com a naturalidade de quem toma um copo de água. Quanto mais surreal melhor. Num dos cantos a TV estava sempre ligada e todo mundo parava o que fosse quando começava o programa do Chaves. As gargalhadas eram ouvidas de longe enquanto putas e travestis que eram fotografadas nuas numa salinha anexa circulavam com suas micro-saias entre as mesas dos repórteres. O fechamento era às 23:00h e a partir de então a redação começava a se esvaziar. O ultimo que saia desligava a TV e o barulho diminuía até atingir o silêncio total. Depois da meia-noite, quando tudo se acalmava, o velho repórter Hélio Santos abria a porta com a pele clara de quem não conhece o dia e seus cabelos brancos encrespados. Chegava para fazer o que fazia há trinta anos: mergulhar na madrugada violenta de São Paulo em busca de homicídios, chacinas, latrocínios ou qualquer outra história bizarra dessas que acontecem naturalmente por aqui. Seus companheiros de ronda eram o fotógrafo José Maria da Silva e o motorista Zé Carlos. Juntos formavam um trio que via coisas tão absurdas que achavam melhor nem comentar. Ninguém acreditaria mesmo. Encontrei num caderno velho anotações que fiz em uma das noites que saí com o Hélio para a ronda, cobrindo férias do Zé Maria. Reproduzo aqui alguns trechos: “Saímos da redação à meia-noite já com a informação de que havia um morto no Jardim Santa Lúcia, zona sul da cidade, corpo no local. Uma pequena viagem nos leva até uma viela sem movimento onde avista-se apenas um bar, uma luz e um corpo no chão. Mais de perto uma viatura da PM guarda o cadáver enquanto o IML não chega. Helio se identifica ao policial com a frieza de quem faz isso a anos e entrega uma edição recém impressa do jornal do dia seguinte como um passaporte para começar a trabalhar. Pedi autorização para fotografar, tirei o pano que cobria o corpo e comecei a clicar. A cena é assustadora. O sangue escorria pela boca, e por trás da cabeça. O rosto estava levemente desfigurado em decorrência dos tiros na cara. O nome da vítima é Laércio Dias da Silva, tem 28 anos e é caminhoneiro. A dona do bar diz que não viu nada. Havia se agachado para pegar uma cerveja no freezer e quando se levantou o rapaz já estava morto. Olho para o Hélio e fingimos acreditar. Ninguém nunca vê nada. É o parágrafo primeiro da lei da favela. Um freguês do bar chegou já bêbado e ignorou o morto. Saltou sobre o cadáver, encostou no balcão e pediu uma dose de pinga exatamente como fazia todos os dias. O PM fez de conta que não viu e a dona do bar o serviu. O show tem que continuar. O celular do Hélio tocou mais uma vez. Do outro lado da linha um policial informa nova ocorrência. Dois homens baleados, um deles ainda está vivo. Foi socorrido e levado ao PS em estado grave. O outro morreu na hora, corpo no local. A região, para variar é a zona sul, o bairro é o Jardim Santa Cruz e a página do guia de ruas que usamos para nos localizar é a mesma do primeiro homicídio da noite. Rotina macabra. Chegamos em minutos. O procedimento é o mesmo, as perguntas também. A vítima era um guarda noturno. Na gíria policial eles são conhecidos como “pirriú” por causa do apito que assopram a noite inteira. O nome dele é Pedro Lourenço dos Santos, 48 anos e foi assassinado quando voltava do velório de um colega que havia morrido na terça-feira anterior. O IML não costuma chegar muito cedo. Dez ou doze horas de atraso são consideradas normais na periferia. O morto está caído em frente a uma escola municipal e provavelmente amanhã, quando as crianças chegarem para estudar o cadáver ainda estará lá. O pior é que elas não se assustarão. É apenas mais um morto, elas já viram vários, não será o último, a vida segue. Trabalho feito, vamos embora direto para o bar Estadão, tomar café e comer sanduíche de pernil antes de voltar pra casa. Essa foi uma noite comum para o experiente repórter Helio Santos. Não aconteceu nada além do previsto, nada fora do normal”. Naquele dia pessoas morreram na periferia de São Paulo exatamente como morrem todos os dias. Na manhã seguinte, além das cascatas, bizarrices e matérias bem humoradas, o NP estava nas bancas noticiando as mortes de Laércio e Pedro. Na periferia de São Paulo, até hoje as pessoas continuam morrendo da mesma maneira. O jornal acusado de banalizar a violência deixou de existir em 2001 e a violência hoje é tão banal, que nem sai mais no jornal.

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Por João Wainer - 4:21 pm 5 Comentários »

 

Abr 10

opudim1.jpgFoi preso por um crime passional. Matou a mulher e o amante quando flagrou-os trepando em sua própria cama. Condenado a 15 anos de cadeia, foi direto para o Carandiru, sem escalas.
Sempre teve bom comportamento, não dava trabalho para os funcionários e todos os presos do pavilhão 7, onde morava, gostavam dele. Tinha nome, mas ninguém nunca soube qual era. Todo mundo o conhecia mesmo por Pudim, devido a sua maior especialidade na cozinha.
Realmente, o pudim que ele fazia era diferente. Derretia na boca, tinha um gosto adocicado que despertava em todos lembranças da infância. Ninguém passava batido àquele pudim. Dentro de uma cadeia horrível, aquilo era um manjar dos deuses. Todos os dias, depois das refeições aquele doce maravilhoso era disputado a tapa por ladrões, traficantes, homicidas e estelionatários.
Não demorou muito tempo para que os diretores da cadeia descobrissem aquela maravilha da culinária que era feita no terceiro andar do pavilhão 7. Em pouco tempo, Pudim foi trabalhar no setor administrativo da cadeia. Fazia pudim para funcionários, policiais, diretores e visitantes. Rapidamente seu prato ganhou fama e virou lenda no sistema penitenciário.
Graças a seu bom comportamento, Pudim tinha trânsito livre na cadeia, e isso foi muito importante quando se envolveu num plano de fuga com outros detentos. Ele conhecia os horários, os caminhos, e foi aprendendo aos poucos os pontos fracos da Detenção. Ele e mais 24 detentos escaparam por um túnel cavado perto do muro do pavilhão 2 e nunca mais foram vistos.
Os diretores, funcionários e policiais ficaram putos com aquela fuga, mas o que realmente lamentaram foi perder o já tradicional pudim de depois do almoço. Aquilo foi como um tiro no estomago de cada um deles.
Nessa época, o diretor da cadeia era o Luizão, um policial implacável que tinha o hábito de desafiar os bandidos mais perigosos para lutar boxe no “mano a mano”. Exímio boxeador, ele conhecia seu potencial e vencia a todos os seus oponentes, que desmoralizados por apanhar do diretor na frente de toda a bandidagem, nunca mais davam trabalho na cadeia.
Luizão não gostava de fazer só trabalhos administrativos e as vezes participava de operações na rua.
Certa vez, foi comandar um grupo de policiais numa operação para prender traficantes de drogas na fronteira do Brasil com o Paraguai. Era um trabalho difícil, e foram vários dias de campana na selva esperando que os bandidos aparecessem.
Depois de muita espera, cansados, sujos e com fome, desistiram e foram até a cidade mais próxima em busca de um lugar para comer. Chegaram em Fátima do Sul, cidade de três mil habitantes, que tem apenas uma rua asfaltada. Procuraram a única churrascaria do local e comeram como reis após tanto tempo no mato.
Depois da fome saciada, chamaram o garçom e pediram a conta. O garçom, muito simpático, disse que antes de sair eles não poderiam deixar de experimentar a sobremesa que era a maior especialidade da casa. Foi até a cozinha, voltou com um enorme prato de pudim e serviu a todos os policiais da mesa.
Quando sentiu aquele cheiro, Luizão começou a desconfiar. Deu a primeira colherada pra ter certeza. Aquela massa doce desceu tão macia em sua garganta que não haviam mais dúvidas. Pós a mão no coldre da pistola e chamou o garçom: “Isso está uma delícia, traga aqui o cozinheiro porque eu gostaria muito de cumprimentá-lo por essa maravilha de pudim”.
O cozinheiro saiu da cozinha, preparado para receber os elogios aos quais estava tão acostumado e não esboçou reação ao ver aqueles quinze policiais liderados por Luizão apontando armas em sua direção. Era ele mesmo, o Pudim do Carandiru, que estava foragido a dois anos, escondido em Fátima do Sul com a certeza de que jamais seria encontrado.
Desolado por tanto azar, Pudim voltou para cadeia graças ao que fazia de melhor. Dizem que depois disso, o pudim que ele fazia nunca mais foi o mesmo.

Por João Wainer - 3:51 pm Comente »

 

Abr 04

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Na semana passada fiz uma foto pra Folha no IBCC (Instituto Brasileiro de Combate ao Câncer). Era uma matéria sobre radioterapia, tratamento realizado por pacientes com câncer.
Passei pela sala de espera, mas não passei batido. Haviam cerca de 30 pacientes esperando pelo tratamento. Todos eles com câncer. Mirei nos olhos das pessoas e pude sentir o cheiro do sofrimento no ar.
Perguntei a uma senhora na sala de espera se poderia fotografa-la para a meteria, que era sobre a demora de três meses no SUS para o conseguir uma sessão de radioterapia. Apesar da expressão cansada, a paciente foi extremamente simpática me deixou fazer a foto que foi publicada na capa do Cotidiano. No dia seguinte, recebi um telefonema do editor-assistente de fotografia Gustavo Roth me questionando sobre a foto. Um leitor havia mandado um e-mail para o ombudsman Mario Magalhães dizendo que a pessoa que aparecia naquela foto era a mãe dele, morta por um câncer no ano passado, exatamente 6 meses antes do dia em que fiz a foto. Reproduzo abaixo o email do leitor da Folha, para que os leitores do Tranca Rua tirem suas próprias conclusões…

Srs boa tarde,

Meu nome é Andre Almeida, tenho 33 anos e moro em Jundiaí - SP.

Ontem, minha irmã Ana que mora em Bragança Paulista, ligou pro meu pai em Jundiaí e disse: - “Pai, corre comprar a FOLHA de hoje e veja uma matéria sobre o CANCER no caderno Cotidiano.”
Sem dizer do que se tratava, ela desligou o telefone e lá foi meu pai comprar o jornal.
Antes mesmo de ler a matéria, ele se espantou com a foto, onde diz abaixo: “Paciente com cancer se submete a radioterapia no IBCC”
Trata-se de minha queridíssima e mui saudosa mãe, Aparecida Conceição P de Almeida, falecida em 14/09/07 após longos 9 anos de tratamento contra um cancer de intestino.
Essa foto não deve ser no IBCC, pois todo tratamento de Dna Cida foi inicialmente em Botucatu, e os últimos 5 anos no Hospital Sírio Libanês, onde ela era inscrita no programa de NÃO PAGANTES, e onde acredito que seja o local da foto.
Quem a tirou, e quando, é um mistério. A família desconhece.

O objetivo de meu e-mail é somente alertá-los da verdadeira história da foto, que ilustra SIM o enorme sofrimento dessa gente que, infelizmente, não tem a mesma sorte que minha mãe teve de ter um tratamento de ponta, e que dependem do governo para continuar sobrevivendo.
Não sei a opinião de meus outros familiares, mas me sinto emocionado pelo fato de a imagem dela servir como alerta à população sobre um assunto tão importante e útil à sociedade.

Segue uma foto dela em vida, comigo, em meu casamento no ano de 2004.

Abraços

Andre G P Almeida

Por João Wainer - 2:10 pm 2 Comentários »

 

Mar 19

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Era uma pauta ruim, tão ruim que eu nem me lembro mais qual era. Cheguei na porta do 35DP, no Itaim e antes mesmo de por o pé pra dentro um policial que fumava um cigarro encostado na viatura vermelha e preta já me deu a letra. “Acabaram de fechar o Bahamas. Se vc correr lá vai se dar bem”, disse cheio de segundas intenções.

Bahamas é o mais famoso puteiro de luxo de São Paulo, onde a entrada custa R$250, uma dose de whisky R$ 200 e um programa pode chegar a R$1.500. Não pensei duas vezes e corri pra lá. Sempre quis conhecer o Bahamas e essa me pareceu uma excelente oportunidade.

heguei muito rápido, vi as viaturas da policia civil encostadas e quase nenhuma movimentação do lado de fora. Atravessei a rua e bati na porta, pronto para levar um não na cara, como é normal nessas operações. Um policial abriu a porta e para minha surpresa foi gentil e me convidou para entrar.

o saguão principal, algumas prostitutas de biquíni, salto alto e roupas de “trabalho” estavam sentadas em um canto enquanto do outro lado um grupo de clientes constrangidos, vestindo roupões de banho e observados por um policial armado eram obrigados a aguardar, transformando aquilo numa cena digna de Garcia Márquez.
Ao notarem a câmera fotográfica todos os rostos imediatamente se esconderam entre mãos, joelhos e cabelos longos.

As mulheres eram jovens, lindas, bem cuidadas e com corpos perfeitos. Os homens quase todos gordos, alguns carecas, grisalhos e completamente envergonhados como crianças pegas em flagrante. Pareciam empresários ricos, estavam em um lugar caro. Nus sob os roupões, os relógios Rolex e Tag Hauer eram as únicas peças que denunciavam a condição social do grupo. O relógio na parede indicava que eram três da tarde naquela terça-feira. Vida fácil devem ter os caras que freqüentam um puteiro de luxo nesse horário. Imagino o susto que devem ter levado ao serem surpreendidos pela policia pelados e com prostitutas no meio da tarde.

Um dos delegados responsáveis apareceu para me mostrar a casa. Me disse que havia encontrado irregularidades na reforma do andar de baixo, um revólver calibre 22 sem registro e uma peça de carne vencida no congelador, portanto o dono daquilo tudo, o empresário Oscar Maroni, conhecido comoo o Larry Flint brasileiro, ia ser preso e a casa seria lacrada. Logo as equipes de jornalismo da TV Record e da Band chegaram. De imediato imaginei o Datena berrando no Cidade Alerta. Os policiais apenas esperavam a chegada da TV para darem inicio ao show.

O delegado, em tom de brincadeira, declarou que era dia de “open bar”. Um policial fazia as vezes de barman e servia drinks para os jornalistas, fiscais da prefeitura e policiais que participavam da blitz. Todos pareciam estar se divertindo muito com aquilo. O balcão virou um happy hour informal.

Aos poucos as prostitutas foram sendo conduzidas semi-nuas aos camburões estacionados na porta. Os clientes nao puderam se vestir e foram levados de roupão para o chiqueirinho. Oscar Maroni desceu algemado e sob protesto também foi levado.

Sempre me lembro do método judaico para a resolução de problemas que diz que todas os problemas tem o lado “aparente” e o “oculto do aparente”. Aquele show parecia desproporcional as irregularidades encontradas. Quais seriam os interesses por trás daquela apreensão? Fui a luta pra tentar saber mais e por incrível que pareça, o que descobri não me surpreendeu tanto.

O dono do Bahamas, Oscar Maroni, é odiado por toda a Policia Civil de São Paulo. Dizem as más línguas que isso acontece porque ele é o único empresário de prostituição que não paga propina pra ninguém. Legalmente o Bahamas não é um puteiro. É uma casa que cobra uma pequena fortuna dos homens na portaria, os drinks são caríssimos e as mulheres “selecionadas” entram de graça. São universitárias de várias partes do país que estudam de manhã e no resto do dia andam seminuas pelo Bahamas dançando e oferecendo sexo pago para clientes endinheirados. Nos fundos existem pequenos quartos com cama de casal e espelhos por toda parte.

A casa fatura por todos os lados, menos na hora do programa. A garota combina diretamente com o cliente o valor da foda, e isso isenta completamente o Bahamas de qualquer envolvimento com a prostituição. Na legislação brasileira prostituição não é crime. Crime é agenciar a prostituição.

Com dinheiro e bons advogados, Maroni se blindou. Com seu talento, usou e abusou do marketing. Na semana anterior ao fechamento do Bahamas, havia dado uma entrevista para a revista “Istoé” gabando-se de faturar R$ 1 milhão por mês com o Bahamas. Alguém importante que não estava recebendo a propina que considerava ter direito ficou bravo mexeu seus pauzinhos e mandou fechar a casa.

Objetivo alcançado, foi gerado um grande estardalhaço na imprensa, mas em poucos dias tudo voltou ao normal. Operações policiais feitas exclusivamente para sair na mídia são assim mesmo. Infelizmente uma parte da nossa digníssima policia trabalha assim. Só saem da delegacia pra faturar um troco, ou defender o interesse escuso de algum fodão.

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Por João Wainer - 12:23 am 1 Comentário »

 

Mar 01

rr1.jpgHoje ao abrir o jornal me deparei com a noticia da morte do Comandante Raul Reyes, segundo homem na hierarquia das FARC, em um bombardeio aéreo na selva equatoriana. Conheci Reyes em 2003, numa viagem para o sul da Colômbia a convite das FARC ao lado do repórter Fabiano Maisonnave, que eu não conhecia até então, mas que viria a se tornar um grande parceiro de roubadas pela América Latina.

Pegamos o avião em Cumbica sem saber muito o que nos aguardava. O destino era Quito no Equador (minha cidade favorita na AL) e as instruções passadas por membros da guerrilha que viviam clandestinos no Brasil eram simples e claras: Desembarquem, sigam para o hotel Libertad na calle 7 de Septiembre que alguém da guerrilha vai procura-los.

O contato logo foi feito. Uma mulher com cerca de 40 anos e o sugestivo nome de Esperança veio ao nosso encontro e passou novas instruções. Ela nos entregou duas passagens de ônibus para uma cidade na fronteira do Equador com a Colômbia. Disse que durante a viagem seriamos seguidos de perto mas só saberíamos quem nos acompanhava no momento oportuno. No dia seguinte lá estávamos nós, sentados em um ônibus caindo aos pedaços e lotado de gente, bicho e sacolas de todos os tipos. Haviam pessoas em pé no corredor e logo uma índia velha sentou-se no braço da minha poltrona e jogou parte do seu peso (que não era pouco) sobre meu ombro direito. Ofereci o lugar a ela, que recusou. A viagem durou cerca de 22 horas. Numa das paradas, um homem com a barba por fazer, bigode preto e uma peruca loira, muito parecido fisicamente com o palhaço Tiririca entrou no ônibus e sacou da bolsa um pote de maionese com uma Tênia Solitarium no formol. Dizia que cada um dentro daquele ônibus poderia ter uma dessas em seu estômago e que a única solução para ficar livre daquele mal seria tomar uma das pílulas milagrosas que ele vendia. Além de te livrar da tênia, segundo ele, a pílula curava câncer e Aids. O incrível foi que ele vendeu várias. Até eu comprei uma.

A região da fronteira entre o Equador e a Colômbia é tensa. O sul da Colômbia é dominado pelas FARC e há um acordo velado entre guerrilheiros e governo equatoriano. A principal porta de entrada de pessoas, alimentos e armas para a Colômbia era o norte do Equador. As FARC não atravessam para o lado Equatoriano e o governo fazia vista grossa para o transito da guerrilha. Nesse corredor estávamos nós e a cada blitz do exército Equatoriano, fazíamos de conta que éramos turistas indo para um lugar onde não havia turismo e os militares faziam de conta que acreditavam. Grupos paramilitares de direita andavam barbarizando naquela área. Dias antes haviam parado um ônibus e matado todos os maiores de 14 anos. Os jornais colombianos puseram a chacina na conta das FARC.

Cinco blitze depois, chegamos ao ponto final de nossa viagem na beira do Rio Putumayo, que dividia os dois países.

Descemos do ônibus e uma menina de 16 anos que se apresentou como Sophia nos abordou. Para nossa surpresa, a única pessoa de quem não desconfiávamos era o nosso contato. Saímos dali com ela e caminhamos pela cidade até um ponto em que uma lancha nos aguardava.

Entramos clandestinos na Colômbia atravessando o Putumayo e na outra margem do rio dois guerrilheiros já nos aguardavam.

Vestiam calça camuflada, botas e camiseta branca. Não carregavam fuzis, apenas uma pistola cada. Subiram no barco e andamos por cerca de duas horas até uma cidade chamada Pinuña Negra onde paramos para almoçar.

Ganhamos botas de borracha e uma capa de chuva. Fui até um bar e pedi uma coca para surpresa da atendente. Depois fui descobrir que aquela cidade era uma das principais portas de saída da cocaína produzida no sul colombiano e corrigi a gafe dizendo que queria uma coca-cola.

Nas vielas de terra da cidadezinha, sempre o mesmo tipo de música ecoava. Eram os narco-corridos, tipo de funk proibidão local, em ritmo de cumbia, que exaltava os grandes generais da droga locais.

Seguimos viagem em um outro barco, bem menor, uma voadeira com um motor de 15hp. Entramos num igarapé muito raso e o barco atolava em raízes e bancos de terra. A cada atolada descíamos e carregávamos o barco nas costas.

No final do dia paramos para dormir na casa de um cocaleiro, no meio da selva. Podre como eu estava, dormi um sono profundo, mesmo estando ao lado de dois guerrilheiros armados. Nem o ronco do dono da casa foi capaz de atrapalhar meu sono.

rrrr.jpgNo dia seguinte pela manhã continuamos e algumas horas depois algo alem de macacos se moveu na mata. Eram cerca de 5 guerrilheiros, vestindo roupas camufladas fuzis AK-47 e pistolas. Nos receberam muito bem e se disseram preocupados com nosso atraso. Caminhamos pela mata até o acampamento e um belo almoço nos esperava. Sentamos em uma mesa feita com troncos de árvore e nos foi servida uma carne de porco do mato, caçado por eles. Comemos e bebemos ao lado do grupo dos guerrilheiros. No final do almoço, surgiu na nossa frente a figura do comandante Raul Reyes acompanhado de mais dez guerrilheiros. Baixinho, gorducho e de barba e cabelos brancos parecia um Papai Noel fardado. Trazia seu AK-47 a tiracolo e duas pistolas na cintura. Extremamente simpático e sorridente, posou para fotos e conversou bastante conosco. Contou histórias da vida na selva, falou de política e da luta pela liberdade. Desconversava sempre quando o assunto eram drogas.

As FARC (Forças Armadas Revolucionárias Colombianas) surgiram na década de 60 como um movimento popular de esquerda liderado por Manuel “Tirofijo” Marlunda, que lutava contra os desmandos de uma elite que se perpetuava no poder e relegava aos camponeses uma condição de vida sub-humana. Com a queda do muro de Berlim e o fim da URSS, a guerrilha perdeu seu financiador e se aliou aos traficantes e produtores de cocaína para poder manter sua luta política, perdendo sua legitimidade e ganhando a antipatia total dos EUA, principais consumidores da droga produzida por ali.

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Enquanto o Fabiano entrevistava o comandante, sentei com um grupo de guerrilheiros. Eles pediram pra ver minha câmera e em troca pedi para manusear o fuzil. Expliquei o funcionamento da câmera e eles do fuzil. Disseram que os fuzis russos AK-47 eram muito melhores que os AR-15 americanos. Perguntei porque e me contaram uma história que explicava a diferença entre americanos e russos. Disseram que os americanos gastaram milhões para inventar uma caneta esferográfica que pudesse ser usada no espaço, enquanto os russos não gastaram nada e levaram um lápis. O AK-47 é mais simples, disse um deles sobre o fuzil que segundo a lenda atira até embaixo d’agua.

Pedi para ficar mais alguns dias mas o comandante não autorizou. Insisti e fui até um pouco chato, mas sem perder a elegância Reyes deixou claro que não seria possível. Nao se deve abusar de alguém com um fuzil pendurado no pescoço.

No final do dia nos despedimos do grupo. Voltamos ao barco e fizemos o caminho de volta. Paramos na mesma casa para dormir e seguir viagem no outro dia. Desta vez menos cansados, conversamos bastante com os guerrilheiros, que estavam bem mais a vontade. Eles cantaram as musicas da guerrilha, falaram da rotina na floresta e o porque de estarem ali. Mostrei um CD dos Racionais que trazia no meu discman. Eles gostaram da musica e dei a eles de presente.

Na manhã seguinte assim que o sol apareceu seguimos viagem. Na hora da partida, um dos filhos do dono da casa em que dormimos colocou o CD dos Racionais para tocar. O barco foi saindo enquanto a musica Vida Loka II quebrava o silencio da selva amazônica colombiana.

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Por João Wainer - 12:28 pm Comente »