
juju
Desculpem o sumiço. Nem vou começar a explicar. Mas preciso contar que na sexta-passada acompanhei por uma hora a minha amiga Juju de 3 anos na escola, em frente ao Central Park. Incrível. Aqui, as crianças apontam seus lápis-de-cor antes de desenhar, escolhem o livro, lêem, colocam o livro de volta na estante. O mesmo acontece com os brinquedos: cada um escolhe o seu e depois guardam peça por peça, sem ajuda da professora ou de auxiliares. Sabem colocar seus casacos e amarrar seus sapatos. Isso se chama "self-reliance": elas desde cedo aprendem a contar consigo mesmas, e não com mil e um ajudantes, coisa que as deixariam despreparadas para vida. Hora de rever a maneira como tratamos crianças no Brasil, certo?
Já pensou como será o seu memorial quando você bater as botas? Pois Joe Ades, um dos nova-iorquinos mais figuras da cidade, teve o dele no sábado passado. Fui.
Joe Ades, 75 anos, tinha a vitalidade de 15. Carismático como NINGUÉM (repito, ninguém) era impossível passar pela Union Square sem perceber aquele senhor, de terno impecável, sotaque britânico e caixas de cenoura no chão. Ele vendia descascador de legumes por cinco dólares - mas se você comprasse um, era sinal de que você não tinha amigos. Era melhor comprar 4 por $20.
O descascador era suiço, e não chinês, como ele gostava de realçar. E dos bons. Em volta do Joe, sempre um público cativo, mesmo numa cidade onde nada mais chama atenção e ninguém está nem aí para o inusitado. Mas carisma sempre atrai. Joe nos dava uma sensação que aqui - sim - tem ares de cidade pequena. Acredite.
Ele já foi matéria da Vanity Fair, e de vários canais de TV. Veja aqui!
Joe Ades faleceu no dia primeiro de fevereiro, assim de repente. Deixou centenas de órfãos descascando cenouras e batatas. Foi assunto em todos os sites nova-iorquinos, inclusive o do NY Times. Até mesmo o repórter de lá tinha o tal descascador suiço.
A homenagem foi sábado, na Union Square. Depois das falas de um padre e de dois de seus filhos, os fãs sentaram no chão para.^^~-_-descascar cenoura e fazer uma coroa fúnebre com elas. Foi incrível.
Não é à toa que este blog se chama Só em Nova York.
ps - quem não comprou o descascador, não fique triste. A filha dele, Ruth, me disse que vai continuar o legado do pai.