Jun 28

O termômetro bate quase 40 graus Celsius em Nova York, coisa para senegalês nenhum botar defeito. Poucos seres humanos conseguem passar mais de cinco minutos do lado de fora – a não ser aqueles que não abrem mão de serem os primeiros a comprar o iPhone, telefone bate palminha e faz pipi, da Apple, que começa a ser vendido às seis da tarde desta sexta-feira. Na porta da Apple Store, aberta 24 horas na Quinta Avenida com rua 59, o plantão de iFãs começou na segunda-feira. É gente que consegue ficar alguns dias sem tomar banho, algumas horas sem usar o banheiro – mas jamais ficar sem Internet.

Menor do que parece – até meio-dia de quinta, a fila contava com 17 pessoas – o evento é uma aventura antropológica. A galera ganhou o Tetris Cube, uma espécie de cubo-mágico: quem conseguir solucioná-lo, ganha um iPhone e um plano telefônico. E todos tentam. Os participantes já viraram amigos de infância entre si, chamam-se por números (de acordo com o lugar na fila), sabem se comportar, são simpáticos e não cansam de repetir a mesma ladainha para as dezenas de jornalistas que os abordam. “Já apareci nos jornais da Dinamarca, do Japão, sem falar no New York Post”, diz Jessica, do Bronx, 24 anos, também conhecida como a número 3. Passando por lá na segunda-feira, ela conheceu o número um e o número dois, e resolveu acampar a partir de terça de manhã. Detalhe: arrastou a mãe, uma senhora que sofreu um derrame e está com o lado direito do corpo paralisado - a vantagem é que ela chegou a ser patrocinada para ficar na fila.

O objetivo de Jessica é comprar o presente de aniversário da irmã – e depois que ganhou seus dias de fama mundial, aproveita para dizer que busca um trabalho na área de moda. “Mesmo se for pra servir café”, diz. Ela conta que, na noite de quarta-feira, a chuva estilo arca de Nóe que baixou na cidade castigou a moçada. “O hotel Ritz Carlton nos deu toalhas e cobertores. Todo mundo ficou ensopado, tirando o número 1, o aposentado Greg Parker, que já virou celebridade - deixaram ele entrar na loja”, revela. “Esta é uma experiência que nos coloca na perspectiva do que é ser um mendigo”, conta ela, não se tocando que mendigos sequer sabem o que é Ritz Carlton – e vice-versa.

Além de mãe e filha, há mais uma mulher: Rebecca, que mora no West Village. E ela também está lá por amor. “Meu namorado pediu”, diz ela, enquanto se enrosca com o tal cubo. Isso é amor, hein? “Que nada, nunca disse a ele que o amo”, responde. Nem precisa. “Ele paga as contas porque estou desempregada. É o mínimo que posso fazer”, diz ela, complementando que ele foi generoso o suficiente para substituí-la durante a tempestade da madrugada. O número seis é o mais novo, de 16 anos – diz que entrou de férias ontem e que desistiu do cubo. “É demais pra mim, só dormi uma hora.” Logo depois vem Vincent, que veio de Phoenix, no Arizona (do outro lado do país). Sentado com seu iMac no colo, ele não pára. Diz que trabalha com tecnologia, dá cartão de visita, socializa e até tira foto se você pedir. Ele “mora” na fila ao lado de Mark, um nova-iorquino que tirou folga e conta que parte da família sempre trabalhou pra IBM. Sorte dele, seu escritório fica a quadras dali, onde ele toma uma chuveirada, um problema para a maior parte dos demais.

Logo depois vem a dupla infalível Geoff e Scott. Ambos do Brooklyn, também com seus laptops. Geoff tomando sol (chegou a me pedir, brincando, pra passar bronzeador nas costas) e Scott blogandoinclusive sobre esta entrevista! “Tirei dois dias de folga no escritório”, diz ele. E o que chefe disse?? “Morreu de ciúmes”, respondeu. “Ficar aqui é bem melhor – imagina ficar sentado sendo entrevistado por mulheres gatas!”, acrescenta. Casado há cinco anos, a mulher de Scott nem se espantou: ele também se plantou na fila do Star Wars, em 1999. “Me ferrei daquela vez, o filme foi uma droga”, lembra. “Se eu não gostar do iPhone, vou vendê-lo imediatamente.” Enquanto isso, o vizinho ao lado, estilo hermitão, com piercing na boca, sem camisa, lenço na cabeça e aquele objeto anti-social (o iPod), jogava paciência com as cartas doadas aos participantes da fila por um canal de televisão. Doa-se tudo, menos iPhone.

Talvez a história que mais encante seja a do número dois, o David, que veio de Chicago e está acompanhado pelo pai. Assim que comprar seu iPhone, ele colocará no eBay. Vai leiloar e todo o dinheiro será doado para a fundação TapRoot, que incentiva profissionais a usar seus talentos pro bono para ONGs. “Claro que, enventualmente, vou quer um iPhone, mas a minha presença aqui tem outro objetivo.” E da fila do iPhone ele dá o recado: “O Brasil pode muito bem replicar esta idéia.” Até porque, daqui a alguns meses, o iPhone já será notícia velha.

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Por Tania Menai - 12:00 am 5 Comentários »

 

Jun 25

Era a noite de uma quinta-feira de abril, de 1997. O fechamento do jornal chegava ao fim, na redação do Wall Street Journal, onde eu trabalhava, quando alguém falou a palavra mágica: festa! Era a despedida de um correspondente que morava em Londres e tinha passado uns dias aqui em Nova York. Fui. Chegando lá, não tinha quase ninguém: apenas o dono da casa, meus quatro amigos, e o tal correspondente.

Nos apresentamos e em dois minutos eu e ele descobrimos muito em comum: a mesma profissão, a mesma religião, a judaica, a curiosidade pelo exterior, por outras culturas, e a paixão por Paris, de onde eu tinha acabado de voltar. Foram horas de papo e dança (sim, ensinamos a ele um pouco de samba). Sempre ando com a minha câmera, mas só tiro foto de quem vou muito com a cara. E foi caso. Tirei uma foto dele, dançando, segurando um brinquedo de peixinhos que enfeitava a sala, aí acima. Trocamos cartão, nada demais. O endereço londrino era na Limeburner Lane e o email, danny.pearl@news.wsj.com. Mas perdemos contato.

Quatro anos mais tarde, eu já não mais no Wall Street Journal, estive em Israel, cobrindo diversos assuntos. Quando consegui o celular do assessor de Arafat para marcar uma entrevista, meus amigos israelenses não deixaram. Na época não entendi qual seria o problema, mas obedeci a contragosto. Meses depois, presenciei e cobri exaustivamente os ataques de 11 de setembro, aqui em Nova York. Danny era o chefe do escritório do jornal no sudeste asiático e logo no dia 12 voou para Karachi para investigar as origens daquela loucura. Ele estava casado, e sua esposa Mariane, que ele conheceu em, voilà, Paris, estava grávida.

Na véspera do Natal do mesmo ano, um dia antes de eu embarcar para o Brasil, um terrorista tentou explodir um vôo translatântico com uma bomba no sapato (sim, é por isso que temos que tirar o sapato no aeroporto). Infeliz. Passei a noite chorando, morrendo de medo de embarcar. Mas embarquei. Danny foi atrás dessa história. Queria saber de onde vinha o tal sujeito, hoje preso em Guantánamo Bay. Conseguiu uma entrevista que acabou sendo uma armadilha. O final da história todo mundo sabe: o doce Danny sumiu por um mês e foi decapitado por terroristas - simplesmente por ser americano e judeu. Os idiotas filmaram tudo. Achavam que o Danny era da CIA, do FBI, do Mossad. Ignorância causada por miséria não tem limite – tornam os homens vítimas de si mesmos. Basta ver o que acontece nas nossas favelas ou em qualquer lugar onde escola não é prioridade.

O mês de incessante busca por Danny foi contado no livro A Mighty Heart, escrito por Mariane. Li em 2004. Ele acaba de se transformar num excelente filme de mesmo nome, produzido por Brad Pitt (que procurou Mariane depois de ler o livro) e protagonizado por Angelina Jolie, escolhida pela própria Mariane, que hoje vive na França com Adam, o filho do casal. Ela nos faz entender um pouco da cultura alheia e também por quê meus amigos não me deixaram marcar aquela entrevista com Arafat. Ainda assim, tudo me parece inexplicável. A boa notícia é que sua família criou a Daniel Pearl Foundation, que promove diálogo por meio de jornalismo e música (já que ele tocava violino). Maneira linda de perpetuar uma vida ainda mais linda.

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Por Tania Menai - 12:00 am 10 Comentários »

 

Jun 20

Sábado passado aconteceu algo raro, raríssimo: fui a um show da Broadway acompanhada por amigos que moram aqui. Éramos nove. Pelos meus cálculos, esta foi a primeira vez que isso aconteceu. Normalmente, só mesmo o pessoal que vem de fora para nos arrastar. Mas desta vez foi diferente. Pra começar, o show que escolhemos, Avenue Q, é simplesmente… um show. Talvez uma das melhores e mais inteligentes comédias já criadas por aqui. O cidadão aí da foto, por exemplo, é um monstro que só investe em aplicações seguras e sempre rentáveis: pornografia on-line.

Mas quem mora aqui e paga conta aqui não tem a ambição de sentar na cara do palco, para ver a obturação dos artistas. A dura realidade nos leva para o mezanino, mais precisamente para o rear mezzanine, láááá atrás. Binóculos a tiracolo, esta é a maneira de podermos assistir a diversos shows sem ter que vender a alma. Afinal, um ingresso na platéia ultrapassa os cem dólares. E terceiro: todo mundo é independente – ninguém aluga ninguém pedindo para comprar ingresso (sim, dá pra comprar por Internet sem perturbar ninguém). Cada um compra o seu, marca na porta e é isso aí. Simples assim. Essa é a vida de quem mora na versão real da Avenue Q.

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Por Tania Menai - 12:00 am 12 Comentários »

 

Jun 14

Começaram os e-mails pra lá e pra cá. Galera animadíssima convidando a turma para os badalos – sempre grátis – de verão. Taí uma temporada que dá pra se divertir sem gastar um tostão. A pedida é o Central Park Summer Stage , (foto) palco no parque na altura da rua 72, onde já estiveram Manu Chao, Ed Motta e Lenine. O único porém do Summer Stage são as filas que superam as da Caixa Econômica Federal. Ou você desencana e trata de fazer amizade com o cara da frente, ou leva uma canga e acampa do lado de fora, contentando-se apenas com o som.

Outra maravilha são as apresentações no Great Lawn do Central Park (entrada pela rua 81 no Central Park West e também pela Quinta Avenida) do Metropolitan Opera e da New York Philarmonic. A rapaziada chega cedo no gramadão, leva vinho, vela, morangos, deita de barriga pra cima com o céu estraladaço e escuta o que a música clássica tem de melhor. Paz total. Ao final dos eventos, depois dos fogos de artifício, o gramado fica mais limpo do que nunca – cada um recolhe seu lixo, coisa que banhistas das praias brasileiras ainda não aprenderam. O mesmo acontece no Bryant Park, com o supra-sumo na temporada: cinema ao ar livre. Enfim, nos próximos meses jogue-se na grama e divirta-se. Verão é isso aí.

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Por Tania Menai - 12:00 am 5 Comentários »

 

Jun 11

O melhor teste para saber o quanto alguém conhece esta cidade é perguntar o que ela costuma fazer no domingo de junho (no caso, ontem) quando aconteceu o Puerto Rico Day Parade. Se a reposta ocilar entre “Metropolitan Museum”, “East Side”, ou “Central Park”, a nota é zero. E se a reposta for “ficar em casa”, “viajar pra longe, bem longe” ou “dar uma volta pelo SoHo”, a nota é dez. Explico.

Quase todas as nacionalidades – de irlandeses a israelenses - têm seu domingo de celebrações na Quinta Avenida. É quando há desfile folclórico, sempre com música, dança e, claro, o prefeito. Fecha-se a avenida, o trânsito fica um caos, mas tudo bem. Exceto quando o país em questão é Porto Rico. Um policial me contou que ontem colocaram nas ruas um número recorde de quatro mil oficiais só para isso. “Pois é, nem todos os participantes sabem se comportar,” revelou discretamente o policial.

Não é exagero dele, muito menos preconceito. Os policiais, visíveis em todos os cantos, têm a difícil incumbência de controlar, por horas, ruas que lembram a geral do Maracanã, sem lei nem ordem. São milhares de pessoas, todas com bandeiras enroladas pelo corpo. Este ano, inclusive, celebrou-se o cinqüentenário do desfile, com presença de Ricky Martin e Jennifer Lopez. Mas a baderna é tanta que há alguns anos, mulheres foram atacadas à luz do dia no Central Park (que fica na Quinta Avenida) por alguns porto-riquenhos, assunto que ganhou mídia nacional. Uma pena, pois o país deles é lindo e este dia deveria ser usado apenas para celebrá-lo.

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Por Tania Menai - 12:00 am 4 Comentários »

 

Jun 04

Para quem ainda não descobriu de onde vêm os bebês, vale a pena dar uma espiada no filme que acaba de lançar por aqui: Knocked Up. É quando se aprende que muitos dos bebezinhos vêm de uma noite de muita bebedeira, pouca camisinha e algum susto semanas depois. Este foi o caso dos protagonistas Ben e Alison do filme tido pelo crítico do The New York Times  como a melhor comédia do ano - até agora – e que bateu segundo lugar na bilheteria no fim de semana, só perdendo para Piratas do Caribe 3.

Alison é uma repórter no canal E! (de entretenimento e fofocas de Hollywood) e Ben….bom, o cara é um imigrante canadense ilegal, que fuma todas, de todas as maneiras e vive num mundo lunático com mais três roommates do mesmo estilo. Quando espermatozóide e óvulo se esbarram, Ben e Alison resolvem se conhecer melhor, afinal, filho é isso aí. O resultado é cinema lotado, boas gargalhadas e aquela lembrança de que usar camisinha, por mais chato que seja, talvez seja uma boa idéia. De qualquer forma, em casos como este, é quando um bebê nasce, que nascem também os adultos.

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Por Tania Menai - 12:00 am 4 Comentários »

 

Jun 01

Essa semana assisti – na companhia de um chef carioca - à uma mesa redonda com gente top em gastronomia: críticos, chefes e consultores. As discussões foram quentes, girando em torno da qualidade dos restaurantes de Nova York. E numa coisa todos concordam: aqui chegam ingredientes do mundo todo. Desde o peixe fresco das águas japonesas até aquela erva do Sri Lanka.

Os nova-iorquinos são exigentes no paladar. Certa vez, entrevistei a Ruth Reichl, ex-crítica de restaurantes do The New York Times e hoje editora-chefe da Gourmet Magazine. Ela disse que, enquanto em Los Angeles o pessoal vai nos restaurantes atrás de celebridades, em Nova York a galera não está nem aí pros famosos – querem mesmo é comer bem. E isso não significa necessariamente pagar caro.

Tanto que entram na fila (e isso significa 40 minutos em média) para comer hamburger no Shake Shack, no Madison Square Park, rua 23. A lanchonte pertence ao mesmo grupo de restaurantes top de linha como o Gramercy Tavern, Tabla, The Modern e Union Square Café. Entrar na fila faz parte do programa – sem ela, talvez o sanduíche não teria tanto valor.

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Por Tania Menai - 12:00 am 2 Comentários »