Mar 26

Escrevo este post no laptop – a TV está ligada num programa do canal PBS sobre blogs e internet. Presto atenção em ambos. De um lado, o telefone, do outro o celular. O Skype ligadaço, indicando quem entra, quem sai. Do MSN, desisti. Desligado. iPod, carregando. Este é um minuto na vida de uma pessoa “multitask”: eu. Assoviar e chupar cana é fichinha. E como eu, caro leitor, existem zilhares de nova-iorquinos (e não nova-iorquinos) – a coisa é séria: tanto, que ganhamos uma matéria no New York Times. Que honra. Mas será que a gente conseguiu lê-la todinha, antes de responder um text message, um e-mail ou um Skypezinho?

À medida em que as parafernálias tecnológicas invadem nossas vidas, ficamos mais distraídos e produzimos menos. Especialistas dizem, na matéria, que a gente acha que o nosso cérebro é capaz de fazer mais coisas simultaneamente do que ele realmente pode. O jornal ainda ressalta um hábito tétrico em Manhattan: enviar torpedo ou falar no celular no tráfego, andando de bicicleta, ou (como eu) atravessando a rua. Meu anjo-da-guarda, tadinho, passou a trabalhar em dobro desde que adquiri um celular. Culpa do meu iPod nas alturas e – ao mesmo tempo - daquele torpedo que tenho que enviar pra Hong Kong naquele minutinho, entre as ruas 15 e 16, no meio da chuva, na frente dos carros.

Certa vez, entrei no elevador de uma galeria de arte com o telefone num ouvido e um fone do iPod noutro. “Entrou pra moda do OnePod?”, perguntou uma desconhecida. OnePode = um fone só. Taí, gostei. Pelo menos dá pra ouvir a buzina do paquistanês do táxi a um tris de tirar a minha vida. Dá também pra, finalmente, escutar o celular tocando – coisa que, segundo meus amigos, jamais consegui. Ah, culpa do iPod, de alguma banca de jornal, de alguma vitrine – tudo ao mesmo tempo, claro.

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Por Tania Menai - 12:00 am 3 Comentários »

 

Mar 23

Sabe aquela expressão “ah, se essas paredes falassem!” Pois é, aqui em Nova York elas falam. Às vezes sussurram, gritam ou até espirram. Acredite, você despeja o seu salário e mais um pouco no aluguel de um apartamento, para viver rodeado por paredes de papelão. Para colocar um poster, basta enfiar tachinhas numa tacada só. Quem usa prego, corre o risco de invadir a casa do vizinho. Não sei como é viver em palafitas, mas a sensação deve ser parecida.

Mês passado minha vizinha de porta faleceu. Era uma senhora ultra simpática, sempre nos cumprimentávamos no corredor, no elevador, na portaria. E eu sempre olhava para ela e pensava: “será que ela é simpática demais a ponto de não reclamar da altura da minha música francesa, árabe, vietnamita?” Se bem que no meu prédio, construído há mais de cem anos, as paredes são de concreto. Não se escuta nada na casa alheia.

Ou quase nada. Lembro de um casal que vivia do outro lado. Ela israelense, ele chinês. Nunca dei nada por ele, um cara fraquinho, calminho, na dele. Designer gráfico. A gente se encontrava na laundry, ali, dobrando as roupas. Porém, contudo, todavia, depois da meia-noite ele devia fazer maravilhas: a israelense gritava e muito – e pior: nunca antes das três da manhã. Considerando que em muitos prédios da cidade o hobby dos mal amados é chamar a polícia para acabar com a festa alheia, aquele casal tinha sorte. A galera do meu andar é do bem e pró-amor. Mas a turma agradece se tudo rolar antes das três da manhã.

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Por Tania Menai - 12:00 am 2 Comentários »

 

Mar 19

Ela está por toda parte. Em cafés, restaurantes, lojas e esquinas de Manhattan. Mas dispensa o cachecol, o gorro e a luva, acessórios vitais para o resto da moçada por aqui. Ela é a única que passa num doce balanço a caminho do mar, mesmo quando o raio do termômetro já despencou pro negativo. Ela, a Garota de Ipanema “>

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Por Tania Menai - 12:00 am 2 Comentários »

 

Mar 02

Há quem ache o inverno charmoso. A gente usa mais maquiagem, madeixas ficam mais lisas, e ainda lindas debaixo de um gorro florido. As meias a gente escolhe: coloridas, listradas, de coraçãozinho. No pé? Tamanco dinamarquês pros momentos casuais e bota italiana pros não tão casuais. Cachecol de tricô, de plumas, de pompom. Uma festa. Tudo isso é lindo quando dura um fim de semana. Repita o ritual de descascar camadas de roupa por quatro meses que ninguém quer saber mais do pompom. É como gravidez: a barriga é poética até a gente saber dos bastidores. Pois no inverno haja creme hidratante para lambuzar a pele, que sofre com tanto aquecimento dentro de casa. As gavetas não fecham com o volume dos pullovers. No cinema é o dilema de sempre: onde enfiar a casacada durante o filme? No fim de cada sessão há sempre um festival de luvas e gorros esquecidos no chão. Aí tem o episódio da ginástica. Você chega, despe-se no vestiário (o que leva muito mais tempo do que nos dias em que você chega de Havaianas) e vai para a esteira. De repente a batata da perna estira. Você sai mancando e ouve sermão do fisioterapeuta: “Canso de dizer que esta é a temporada dos estiramentos. Vocês não aprendem que nesta época do ano tem que se aquecer três vezes mais”. Bom, perna estirada pra cima não combina com Nova York. Mas, como tudo não está perdido, cobertor de orelha sim. Por sinal, este vale até no verão.

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Por Tania Menai - 12:00 am 6 Comentários »

 

Mar 01

Outro dia perguntei ao Ricardo, um ser humano cujo hobby é implicar comigo, se ele tinha assistido Les Poupées Russes, filme do Cédric Klapisch, um dos meus gênios prediletos. Ele respondeu que sim, mas, como adora fazer, implicou: “você é metida ou não sabe o nome do filme em português?” Respondi que, mesmo se eu soubesse, não conseguiria jamais concorrer com a criatividade dos que inventam os títulos na nossa amada língua.

Sempre que alguém me pergunta se eu já vi o filme tal, pergunto imediatamente o título em inglês. Little Children foi adaptado para Pecados Íntimos e The Holliday para O amor não tira férias. Como é que alguém pode adivinhar? A coisa piora quando o título entrega o filme: Perfume: A história de um Assassino (em inglês é apenas Perfume) Só faltavam traduzir Little Miss Sunshine para Pequena Senhorita Raio de Sol, ou "Babel: um filme bom pacas onde histórias se entrelaçam no Marrocos, no Japão, nos EUA e no México, onde rola um tiro, um deserto, uma varanda em Tóquio e onde o Brad Pitt está um gato". Isso não aconteceu, ufa.

Quanto a Borat!, taí um filme que será pouco entendido no Brasil. As piadas do "segundo melhor repórter do glorioso país Cazaquistão" são muito locais, muito americanas. É como se passassem Casseta & Planeta nos Estados Unidos. O público boiaria. As mensagens, por mais descaradas que possam parecer, ficam na entrelinhas. Sem falar que um dos baratos do filme é justamente o sotaque e o inglês capenga. Por outro lado, assisti a Borat! com o André, filho de uma amiga, ao meu lado, em Manhattan, onde ele mora. André, de 16 anos, já foi quatro vezes (e se você convidar mais uma vez, ele vai). E já começa a rir nas cenas anteriores, então eu ria dele, e não do Borat.

Mas a febre Borat não é só coisa de adolescente. Presenciei cena ainda pior: dois marmanjões, V. e F., brasileiros, um deles mora em Nova York, outro morou por dez anos, ambos feitos na vida… e que sabem t-o-d-a-s as frases do filme. Sente à mesa com eles que você economiza um ingresso. A dupla ainda vive no YouTube à cata de mais episódios. Enquanto isso, assisti a um filme brasileiro imperdível que em inglês seria The Year My Parents went on Vacation… Ou será que alguém vai inventar algum título mirabolante para O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias?

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Por Tania Menai - 12:00 am 10 Comentários »