Jan 24

Trocar Manhattan temporariamente por algum outro canto do planeta só mesmo pelo Leblon. Numa tarde de quarta-feira, ao deixar um restaurante, deparo-me com um amontoado de gente debatendo algum ocorrido. Seria mais um assalto? Uma bala perdida? Meti o bedelho. E descobrir que o fuzuê girava em torno de um velhinho, bem velhinho, de coluna torta, que acabava de cair. Valente, ele rejeitava ajuda. Bastava levantá-lo que ele pedia para desgrudar e continuar seu caminho, devagar e para lá de frágil. Ninguém ali se conformava. Até que chegam os porteiros do restaurante e explicam que o tal senhor passa todos os dias por ali. Cai toda hora, é levantado e vai em frente. E mais: é geriatra.

Essa vida “quase isolada” de bairro ainda faz do Leblon um dos melhores pedaços do mundo; este é o endereço do Bracarense, do Balada e do Belmonte. Como diz Joaquim, que tomou um suco de melancia ontem no BigPolis (o meu era de manga): “Isso aqui é um espetáaaaculo!” Mistura-se um quê de sofisticação com a doce vantagem de andar de Havaianas. Há um sanfoneiro que te sorri, o pipoqueiro, a vendedora de balas do Leblon 2 que já está lá há mais de 30 anos, um vendedor ambulante de doces, o senhor do cuscuz, que passa de rua em rua gritando ‘olha o cuscus aêêê!?’ e o vendedor de panos de chão (coisa que não existe nos EUA!) – eles nos fazem lembrar que, apesar de empreendimentos de gostos duvidosos como um “Shopping Leblon”, isto aqui é Brasil.

A vida no Leblon tem um pouco de Manhattan; e vice-versa. A única diferença é que no bairro carioca é impossível ser anônimo. Em Manhattan ainda se consegue (tirando os porteiros nova-iorquinos, que, como no Brasil, sabem tudíssimo sobre a sua vida). No Leblon, Joaquim trocou a Barnes & Noble pelas Letras & Expressões. O Central Park pela praia. O Café Lalo pelo Garcia & Rodrigues. Uma cervejaria qualquer pelo Jobi. Mas tem uma sopa japonesa, na rua 56 com a Sexta Avenida, que ele não troca por nada. Nem eu.

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Por Tania Menai - 12:00 am 4 Comentários »

 

Jan 15

Recebi um e-mail do Drew, um amigo que há meses não me escrevia dizendo que se lembrou de mim. Razão? Um evento no metrô de Nova York no qual a galera iria tirar as calças. O que o evento tem a ver com a lembrança sobre a minha pessoa ainda não sei, mas adorei a idéia.

Trata-se do Sixth Annual No Pants Subway Ride, a sexta versão de uma tarde subterrânea com calcinhas e cuecas à mostra, como se o metrô já não fosse louco o suficiente. Aconteceu sábado passado. Como diria Silvio Santos, não fui, mas meu amigo Drew foi. O evento começou às 4 da tarde, na linha 6, perto da Brooklyn Bridge. As mais de 200 pessoas foram divididas em dez grupos. Cada grupo entraria em um vagão, ainda vestido, com revistas ou livros a tiracolo, tudo normalíssimo e coordenado minuciosamente.

Logo na primeira parada, uma garota abaixa as calças e sai do vagão para esperar por um outro trem na plataforma. Ali, de calcinha. Todo mundo começa a olhar meio confuso. Seguindo as coordenadas, Drew tirou o jeans entre a terceira e a quarta parada. Vizinhos perguntaram a ele a razão de tal atitude. Ele respondeu que queria se livrar das calças molhadas da chuva. Saiu do vagão e se plantou na plataforma, com as pernocas à mostra, para esperar o próximo trem.

Na altura da rua 34, todo mundo já tava sem calça. A cena era um mar de pernas pra lá de branquelas. A coisa foi tão divertida, que muita gente começou a acompanhar os malucos para saber aonde aquilo ia parar; e, claro, tudo sendo registrado visualmente por câmeras e telefones celulares. E assim foi até a estação da rua 125, onde todos desceram e transformaram aquilo lá numa festa rave ao som de um baterista que ganha uns trocados na esta”>

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Por Tania Menai - 12:00 am 17 Comentários »

 

Jan 12

Todo mundo sabe que o som de Manhattan é de sirenes. Vivemos num cenário hollywoodiano (cuja cena derradeira do filme é impreterivelmente e “criativamente” a presença de policiais e bombeiros). Mas o bom de tudo isso são os próprios, os bombeiros.
Sem querer dar uma de Luma de Oliveira, não dá para passar por um corpo de bombeiros e não dar uma espiada nos… bem, corpos dos bombeiros. Os caras são celebridades, especialmente depois da morte de 343 deles no dia 11 de setembro de 2001. As portas das garagens ficam sempre abertas, o que é um convite aos passantes; pode reparar, sempre há turistas tirando fotos. A maior parte, claro, meninas abraçadinhas aos brutamontes, sempre simpáticos. No meio de uma madrugada, vi uma vestindo a roupa de um deles; quer dizer, ele vestindo a garota, enquanto as amigas tiravam foto. Até eu fui lá fotografar.

O pior é que eles sabem que são bons, bonitos e outras coisas mais. Chegam nos incêndios heroicamente (e sempre profissionalmente) e ainda ficam irritados quando não há caos. Outro dia, numa festa da joalheria H. Stern da Quinta Avenida, um sujeito chamou o bombeiro de “brincadeira” (o que poderia até ser considerado crime) e os caras apareceram em segundos. A gerente de marketing disse a eles que não tinha fumaça, mas que a festa estava “on fire”. Ainda assim, é obrigação deles revistar o sótão. E lá foram as beldades, vestidos a caráter, em meio a diamantes, champagnes e saltos altos. Só mesmo eles para fazer a mulherada desgrudar os olhos das esmeraldas; muitas, na esperança de ter algum deles apagando seus fogos.

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Por Tania Menai - 12:00 am Comente »

 

Jan 09

Caixa de sapato, caixa de fósforos, puxadinho, “apertamento”, casa de marimbondos. Pode chamar do que quiser, o problema é o mesmo: o tamanho dos apês dessa cidade. Micros, microscópicos, menores do que um salário mínimo e inversamente proporcionais aos preços dos aluguéis. Mas uma coisa todo mundo concorda: quem mora aqui sofre dentro de casa para quando abrir a porta, dar de cara com… Nova York.

Diz-se até que quando um nova-iorquino está saindo do armário ele apenas está deixando o lar. E aí existem as variáveis: tem apartamentos cujas paredes são de papelão, além de pendurar o quadro com tachinha, você escuta o espirro e mais outros sons curiosos daquele vizinho coreano que você mal cumprimenta. Tem outros cafofos que ficam no sétimo andar em prédios onde elevador não faz parte da decoração. Outros abrigam banheiros tão pequenos que há quem entre de costas; virar de um lado para o outro seria inimaginável.

Some a isso a presença de ilustres locais: os ratos. Isso, aqueles que roem a roupa do rei de Roma e a sua também. Circule por uma festa na cidade que em pouco tempo você saberá em alguma conversa qual o melhor modelito de ratoeira. E, para finalizar, eles, os roommates, seres humanos que aparecem na sua vida com a função de tornar o seu aluguel mais barato – e, às vezes, a sua vida mais infernal. Ou não. Até que tenho saudades dos meus: Andy e Sharon. Vivíamos “as close as people can get”, como se canta no musical Avenue Q. Dividíamos tudo, até a única linha telefônica. A mãe de Sharon ligava (do Brooklyn para Manhattan) 16 vezes por dia e me perguntava 16 vezes How you doooin´? com aquele sotaque do Joey de Friends.

Para o Andy só ligavam meninas orientais, todas apaixonadas pelo loiro. Quando eu não entendia necas, já sabia que a ligação era pra ele. Sharon acordava às seis da manhã e usava um secador de cabelo equivalente a um helicóptero. And, yes, tínhamos paredes de papelão e um alarme de incêndio que disparava religiosamente aos domingos de manhã com a fumaça vinda das panquecas de Andy. A harmonia do lar ainda era dividida com dois roommates extras, que nem sequer colaboravam com o aluguel: Jerry e Mickey. Sempre ali, dia e noite, companheiros de todas as horas. Mas destes, confesso, não sinto saudades.

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Nota da Redação: o apê aí da foto não é o da colunista. Acreditem, é menor…

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Por Tania Menai - 12:00 am 3 Comentários »

 

Jan 01

Só tomei duas resoluções para 2007. A primeira é deixar as resoluções para 2008. A segunda é continuar bagunceira. Pronto. Os poucos que conhecem a minha gaveta de meias sabem do que estou falando. Como casar pares de meias (os milhares de quem mora num lugar de inverno) quando está rolando uma exposição no Metropolitan, um festival de filme francês ou uma palestra na livraria? Jamais de la vie… vou parar a vida pra dobrar meias. Esqueça.
 
Assim pensa uma cambada de gente que deve ter ficado MUITO feliz com uma recente matéria do New York Times: Saying Yes to Mess (ou "Diga sim para a bagunça", cuja ilustração acima é de Edward Koren). Conta-se que nunca se vendeu tantos produtos de organização de armários e mesas de trabalho. É a eterna busca pela casa arrumada – algo impossível quando a vida não é. Arrumação em excesso, coisa de quem não tem o que fazer. A sala de uma das mulheres mais inteligentes e aclamadas que entrevistei, em Washington, é o lugar mais caótico que já pisei. Ela ganha de um intelectual que entrevistei em Bolonha, na Itália, que começou a entrevista se desculpando pela mesa imersa em papéis. Não há nada para desculpar: mesa limpinha, estilo vitrine, é sinal de vida pacata. Meus amigos mais interessantes são os mais “zoneiros”. E isso é um elogio.
 
“Sua mesa intimida”, analisou certa vez Tony Marques, na época correspondente de O Globo, ao observar meu local de trabalho. Um outro, que vive em Miami, mas conhece bem a casa, disse: “vou lá te ajudar a jogar as revistas fora.” Amei a idéia. Mas segundo os pesquisadores ouvidos na matéria do New York Times, apenas um em doze divórcios alegam bagunça como uma das causas de separação. Segundo eles, “mesas bagunçadas são assinaturas vívidas de pessoas com mentes criativas e ágeis (que ganham salários mais altos do que aqueles com escritórios estilo paisagismo).” E continuam: “donos de armários bagunçados são, provavelmente, melhores pais, além de ter a cuca mais fresca do que os engomadinhos, normalmente inflexíveis e com muito tempo de sobra.” Esta matéria merece o Pulitzer Prize. Leu, mãe?  Feliz 2007!

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Por Tania Menai - 12:00 am 16 Comentários »