Revista Trip

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Postado em 30.10.2006 | 00:00 | Tania Menai
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Não, não há nada parecido no Brasil. Basta o termômetro despencar, como aconteceu nos últimos dias, que surge pela cidade o fenômeno dos "coat-checks". Você chega num restaurante, num cocktail ou num night-club e ali está o pessoal do cabide, cobrando pelo menos dois dólares para pendurar o seu casaco, cachecol e afins. E não adianta tentar enfiar a casacada de todo mundo junto num cabide só: cobra-se por item. O pior é que as filas para o tal "coat-check" são tão grandes, que já fiquei mais tempo nelas do que nos próprios eventos. Sair à francesa, nem pensar.

Ao deixar seu casaco, você recebe um papelzinho com um número que identifica o cabide. E, claro, o tal número foi feito para perder. Nunca acho o raio do papelzinho. Até que um dia vi uma mulher chiquérrima tirar o dela de dentro do salto alto. Amei a dica. A aventura é outra quando as festas são em casa. Não importa qual a intimidade (ou falta de) tenha com o anfitrião: você chega na festa, diz "oi", dirige-se ao quarto do casal, tira todas as camadas de lã, joga (sim, joga) tudo na cama e vai para a sala se divertir. Em minutos, aquilo se transforma num Everest.

O problema aí é outro: como nova-iorquinos só vestem preto, as chances de alguém se confundir e levar o seu casaco pra casa são 97 em 100. Depois de litros de vinho, a margem salta para 100%. Sorte da Maria Paula (sim, a do Casseta), cujo cachecol de pele rosa (espero que não verdadeira) destacava-se no amontoado da festa de sábado, no West Village. O desafio dela, no entanto, era não confundi-lo com o gato que aparecia e desaparecia no meio do bololô, colocando em risco a troca de gato por lebre. Mas no final, não importa. Na friaca, o que salva mesmo é o cobertor de orelha. E sem numerozinho.
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Postado em 27.10.2006 | 00:00 | Tania Menai
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Quem mora no Ocidente e anda com uma camerazinha digital a tiracolo não tem noção do que é viver num lugar onde nada é retratado. Pior ainda é circular por uma cidade onde a única imagem são os portraits comissionados pelo próprio ditador, estilo “eu me amo, não posso mais viver sem mim”. Estamos falando dos bigodes de Saddam, ele mesmo, o Hussein.

Até o dia de sua queda, em abril de 2003, só dava ele nos murais e bustos da cidade. Mas em pouquíssimos dias tudo isso virou história. E a única pessoa que registrou esse fato foi o fotojornalista holandês Toen Voeten, que vive em Bruxelas. Ele chegou em Bagdá no dia 13 de abril de 2003. Rodou a cidade em três dias clicando as últimas imagens que restaram de Saddam. Muitas já tinham sido rasgadas, apedrejadas, semidestruídas. Hoje, elas evaporaram. As fotos, intituladas Saddam Mania, estão expostas na galeria Think Tank 3, numa esquina bucólica do West Village, até o dia 25 de novembro, e custam de 10 a 900 dólares.

“Estas são as únicas imagens que restaram. Só o Toen fez isso”, diz a curadora Sharoz Makarechi, que contou mais de 100 convidados na festa de abertura da exposição, na última quarta-feira. “A maior parte das pessoas era estrangeira. Pensando bem, faz sentido”, complementa. Com diploma em antropologia cultural, Toen é cidadão das piores cidades do mundo. Além de manter uma ONG em Serra Leoa, colabora para as revistas Newsweek, Vanity Fair, National Geographic e The New York, e também para a Cruz Vermelha, Human Rights Watch, Nações Unidas e Médicos Sem Fronteiras.

Em tempo: fronteira não é com ele.
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Postado em 25.10.2006 | 00:00 | Tania Menai
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Escrevo este post ao som do CD Pokhara, de Yannick Noah, que acabo de comprar na Tower Records ao lado do Lincoln Center. Yannick é encantador. Mas, desta vez, a ida à "minha loja" foi quase fúnebre. A rede das mais de 100 filiais do país está fechando. Não resistiu à era do MP3, do iPod, da pirataria , do download. Tudo está com desconto. Muitas prateleiras já estão vazias. Noutras, restam aqueles CDs e DVDs que ninguém quer. A coisa é histórica.

Nossa, como era bom flanar pela parte de World Music. Na noite de ontem, minha amiga Adriana e eu navegamos por Irlanda, Magreb, Nigéria, França, Cuba, Israel, China, México, Itália, Argentina, Afeganistão e...Brasil. O globo terrestre fica ali, no fundo da loja. O jornalista Gilberto Dimenstein era outro que, quando vivia aqui, passava qualquer hora livre com os fones no ouvido na seção de jazz. Descolou ali a trilha sonora de alguns de seus verões na cidade, como Diana Krall e Charlie Watts. A parte de cinema também é um delírio, sem falar na ala de música clássica e ópera, separada por uma porta de vidro, com ar-condicionado e poltronas.

Já vi muita gente dormindo, babando, naquelas poltronas. Nessa seção os vendedores sacam muito - imagine que fui lá na véspera de entrevistar Kurt Masur, o ex-maestro da Filarmônica de Nova York, para trocar umas idéias com os caras. Ontem, Adriana e eu escolhemos algumas pérolas com a ajuda de Miguel, um ator filipino que há mais de dez anos roda o mundo com o musical Miss Saigon. Ele contou que todos os produtos das demais lojas dos EUA estão vindo para esta filial. Em meados de dezembro acaba a festa.

Voltei pra casa meio melancólica, acredito que a Adriana também. Resta saber até quando teremos essa troca humana, esse papo com o vendedor. O que será das capinhas de CDs, com fotos, desenhos, letras de músicas? Só sorri quando cheguei em casa e vi um presente que ganhei recentemente - um CD contendo discos inteiros de sei lá quantos artistas. Na face do CD, escrito à mão, lê-se: "com muito carinho". Só isso já justificaria a falência. Mas, enfim, foi-se o vinil, vai-se o CD. Mas fica o carinho.

* A Tower Records fica (por enquanto) na rua 66, esquina com a Broadway. Linha 1 do metrô - estação 66th Street. A parte on-line continua ativa.
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Postado em 23.10.2006 | 00:00 | Tania Menai
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O cartaz aqui na esquina da rua assusta: está pra estrear Turistas, filme que se passa no Brasil e mostra uma viagem de americanos que acaba em terror. Já li críticas falando que o filme pode piorar ainda mais a imagem do país, mas a palavra "turistas" tem me arrepiado por outros motivos: faz-me lembrar daqueles que vêm para Nova York. Começam pedindo dicas por e-mail, e quando você vai ver, estão dormindo no seu tapete. Acontece com a maioria dos brasileiros que mora no exterior. Isso sim é história de terror. Não é à toa que o slogan do título é esse aí de cima.

Ser turista é uma arte dominada por poucos. Para o resto, o céu é o limite. Quando esbarro com algum amigo que mora aqui com olheiras verdes, pode escrever: o cara tá com hóspedes em casa. O problema é que quando a turistada se convida para ficar no seu cantinho esquece (ou não faz questão de lembrar) que em Nova York não há espaço, não há área de serviço, banheiro extra, empregada ou qualquer mordomia. E que quem mora aqui não está de férias. Pior ainda é saber que o dono da casa que diz não é visto como chato. Fazer o quê? Resta, apenas, saber colocar limites nos visitantes.

Quem não coloca os tais limites já era: tem aquele turista que se perde no metrô e sempre chega atrasado, aquele que não sabe calcular a gorjeta pro garçom, aquele que não fala patavina de inglês, pede para traduzir item por item do cardápio e não pode te acompanhar no cinema. Tem aquele que economiza no hotel acampando na sua sala, mas pra compensar entope a casa com sacolas da Gucci e aquele que pede todas as dicas de museus mas no fim não sai da Macy's. Há o tipo que vem pros EUA para falar mal de americanos, outros que querem te levar pro topo do Empire State, que vêm com 876 encomendas da família e não fazem nada além disso. E tem aquele que quer que você o acompanhe em todos os lugares mas não te paga um jantar. Por isso, até tirarem esses cartazes da esquina, vou sair de casa e ir para o outro lado da rua. 

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Nota da redação
Tá a fim de botar uma alça nessa mala? Quer evitar tomar um não, exercitar a sua educação e engrossar o movimento "turista do bem?" Fuce os links abaixo:

On the Ave Hotel
Holiday Inn
YMCA
Hotel.com
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Postado em 20.10.2006 | 00:00 | Tania Menai
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Foi ela quem fotografou John Lennon nu, deitado com Yoko Ono. Também foi ela quem clicou Demi Moore grávida, Brad Pitt de calça de oncinha, Johnny Depp deitado sobre Kate Moss, Leonardo DiCaprio com um cisne no pescoço e Suri, a filha de Tom Cruise. Até o mesmo a turma da Casa Branca, goste você ou não, já posou para as lentes de Annie Leibovitz, a fotógrafa mais celebrada e concorrida do país. Quem já teve uma revista Vanity Fair em mãos, sabe do que se trata.

Pois foi Annie, altíssima, de calça jeans, tênis, camisa preta, cara limpa e mais nada, quem guiou a imprensa pelas galerias do Brooklyn Museum, onde sua exposição com fotos profissionais e pessoais abriu nesta sexta. Sempre quis conhecer a mulher por trás de tal trabalho. O que ela tem, além de talento, que faz com que os mais difíceis dos mortais escancarem suas vidas diante de suas lentes? E mais: ela não aparece nunca – melhor ainda, não aparece mais do que seu trabalho.

Percebi ali uma mulher extremamente forte, obviamente inteligente, pé no chão, nada deslumbrada e bem nova-iorquina. Disse que ainda tem o que aprender, além de revelar que gosta mesmo é de fotorreportagem. Esta exposição, baseada no livro Annie Leibovitz: A photographer’s Life (1990 – 2005), traz a trajetória de sua carreira ao longo desses 15 anos, além de fotos pessoais, pra lá de íntimas, como a doença e a morte da escritora Susan Sontag, sua companheira de longos anos, e um vídeo com depoimentos da família e celebridades que já abriram sua intimidade para Annie. Quem estiver aqui, terá a chance de ver tudo isso até o dia 21 de janeiro. Mas... sem ela.

//Só em NY

Por Tania Menai

por Tania Menai

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