Set 29

Ver tragédia no cinema, com pipoquinha, é fácil. Difícil é viver uma tragédia, dormir, acordar e ver que aquilo não foi pesadelo. As Torres Gêmeas, o novo filme de Oliver Stone, feito com uma precisão de arrepiar, e que chega ao Brasil neste fim de semana, é uma dessas experiências. Todo mundo sabe o que foi o 11 de Setembro, Osama bin Laden, e reclama por ter que tirar sapato no aeroporto. Mas o filme não é sobre isso. Conta o dia infernal de dois policiais, John e Will, que foram salvar vidas e acabaram soterrados nos escombros daquele gigantismo todo. Foram salvos. Assim como milhares de policiais e bombeiros no mundo todo que dão a cara para bater, John, Will e todos os outros foram para o Trade Center, como as torres eram chamadas, a-pa-vo-ra-dos. No site do filme tem entrevista com vários deles.

É incrível como esses policiais de Nova York transmitem segurança. Muitos, tradicionalmente, são de origem irlandesa. São durões, mas são ultrainformados e fazem piadas quando ocasião é apropriada. Há anos, produzi uma reportagem de televisão sobre eles. Passei horas na NYPD e até em cadeia. Claro, eles têm orgulho do que fazem, ganham razoavelmente pra isso, cursaram pelo menos 60 créditos da faculdade e recebem apoio psicológico. Na época de Rudy Giuliani, os bons passaram a ganhar bônus, além de o ex-prefeito ter dado uma “limpa”, eliminando quem era chegado a uma corrupçãozinha.

A obra de Stone me lembrou – e muito – o filme O Pianista e o documentário Touching the Void. Os três tratam do extremo da sobrevivência. John e Will foram dois dos vinte sobreviventes retirados dos escombros. John, por exemplo, teve de entrar num coma induzido para passar por 27 cirugias. Temos mais é que celebrar essas vinte vidas já que 343 bombeiros e policiais morreram numa manhã, número recorde na história dos EUA. Eles não viraram estatística. São sempre lembrados e homenageados. Agora, chorar no cinema (como eu fiz, e muito) e tirar sapato no aeroporto é fichinha. O que importa é que, até segunda ordem, a vida é uma só. E viver é bom pra caramba. Não perca o filme. E nem a vida.

tags

Por Tania Menai - 12:00 am 5 Comentários »

 

Set 27

Domingo, meio nublado, no SoHo. Pois Eric, um amigo de Washington, veio a Nova York e resolveu reunir amigos num brunch. À mesa, uma croata do Ministério das Relações Exteriores, uma americana da missão dos Estados Unidos junto à ONU, uma artista plástica, uma atriz off-Broadway que passou a adolescência cercada por Andy Warhol, uma atriz de Los Angeles que se transformou numa escritora frustrada, o Eric, advogado do Departamento de Estado, e um pintor americano que acaba de voltar do Rio, de férias, orgulhoso por ter caminhado por Santa Tereza e pela Lapa à noite sem ter sido assaltado - além de ser pai de Ingrid, uma adorável menina de 10 anos.

Tomar um simples brunch nessa cidade nos exige um certo leque de conhecimento, mesmo que superficial. É domingo, dia de não pensar, dia de deixar o cérebro em casa. Ainda assim, para acompanhar qualquer conversa, você tem que chegar aos lugares dominando informações como a biografia de Andy Warhol, saber que em Los Angeles os atores só quebram a cara (os que não quebram, vocês acabam conhecendo no cinema), que a Croácia é o que há para férias de verão, que o discurso do Lula na ONU foi considerado chato pelos entendidos e que a guerra do Iraque… bem, deixa pra lá. Quando o assunto é Iraque, principalmente discutido por quem já esteve lá, como o Eric e mais a diplomata da missão americana, é melhor partir para um papo paralelo com Ingrid.

Nascida em Manhattan, e criada no Greenwich Village, onde fica sua escola, ela reclamava que queria morar no campo. Seu pai tentava convencê-la de que não é bem assim: "Imagina quando você crescer e não precisar de ninguém para te buscar e te levar de carro", dizia ele. E eu completava: "Quê? Imagina você, linda, bem articulada e antenada sem um cinema em volta! E, pior, desejar um sorvete do Ben & Jerry’s, de cereja e chocolate, o Cherry Garcia, às 4 da manhã… e você no mato, sem ter uma deli na esquina! No way, sweetheart!".

O papo continua quando, de repente, ao meu lado, surge mais um integrante à mesa. Ginger (em português, gengibre), uma cadelinhaYorkshire, que saca a cabeça para fora de uma bolsa, no colo da atriz off-Broadway. Escondida do garçom e sem dar um piu, ou latido, ela estava lá o tempo todo, imperceptível. Ingrid não se conteve e passou o resto do brunch fazendo chuca-chuca na cachorrinha - debaixo da mesa. E eu no meio. Por sinal, levar criança e cachorro para eventos sociais, como acontece em Nova York por falta de babá, faz com que, tanto um quanto outro, aprendam a se comportar em lugares públicos. Tratava-se de duas ladies. De todos os vastos currículos daquela mesa, Ingrid e Ginger foram as campeãs.

tags

Por Tania Menai - 12:00 am 3 Comentários »

 

Set 25

O menino é um sonho. Do fim de semana mais cheio de compromissos da década, só consigo lembrar do filme de sábado à noite: La Science des Rêves, ou A Ciência dos Sonhos, com o mexicano Gael García Bernal. Como escrevi certa vez numa entrevista que fiz com ele, este par de olhos verdes não sabe o que é ser coadjuvante. Desta vez, ele é protagonista do novo filme de Michel Gondry, diretor de Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, que tratava de apagar toda a memória de ex-namorados da mente, lembra? (De vez em quando dá vontade mesmo.) Nesta nova obra, que parece ter sido feita por Gondry especialmente pro Gael, o diretor nos leva para o mundo sem-pé-nem-cabeça dos nossos sonhos. Quem sonha, vai gostar. Quem sonha acordado, vai amar.

Até mesmo A.O.Scott, crítico do The New York Times ficou abobalhado: disse que não dá pra descrever. Não dá mesmo. Este filme é como os sonhos. Como diz Gael: “Você pega os eventos do passado, os acontecimentos do dia, e mais love, relationships, friendships and all those ships e coloca numa panela”. Ele interpreta Stephane, um ilustrador mexicano filho de uma francesa (Miou-Miou) que vai para Paris depois da morte do pai. Sua mãe descola para ele um trabalho “roubada” numa agência de design, mas nem tudo é pesadelo: ele se apaixona por Stephanie (Charlotte Gainsbourg), a vizinha de porta. E aí o sonho se mistura à realidade e Gael nos faz rir – e muito: toca bateria fantasiado de gatinho, anda sonâmbulo e pelado, e arranha um francês capengamente bonitinho. Para quem curte filme francês, estão lá muitas caras conhecidas. E ainda tem aquela coisa deliciosamente internacional: começar uma frase em francês, passar por inglês e falar um “tchau” na saída.

Pois eu estava acordada quando, há pouco mais de dois anos, recebi um e-mail de um editor, perguntando se eu “gostaria” de entrevistar o Gael. Foi na casa do fotógrafo da revista, no East Village, perto do apê de Gael, que se divide entre Nova York e México – ele é de Guadalajara. O fotógrafo tinha acabado de se mudar, as fotos foram feitas num quarto cheio de caixas – mas estava lá um sofá amarelo, onde sentamos por quase duas horas. Não posso chamar aquilo de entrevista – foi um papo delicioso sobre cinema. O rapaz é totalmente pé no chão, simpático, socialmente antenado, inteligente, estudou teatro na Inglaterra, ama filme independente, tem um sorriso… melhor não continuar.

Normalmente, quando entrevistamos atores, os relações-públicas dos estúdios hollywoodianos ficam abrindo a porta pra dizer “faltam cinco minutos”, “faltam dois minutos” – dá vontade de apedrejar essas criaturas. Mas dessa vez não teve nadíssima disso. Passamos da hora. Tanto que ele chegou atrasado ao compromisso que tinha depois e eu, quase no fim de uma aula, a poucas quadras dali.

O tema foi seu papel de Che Guevara em Diários de Motocicleta. Quando ele contou que estudou sotaque argentino para interpretar o Che, a gente parou tudo pra sacanear os portenhos: pero che, mira voooooosss! No final, nós dois atrasados, descemos de elevador juntos – ele com óculos e seu gorro estilo peruano, o mesmo que ele usa neste novo filme (foto). Conversamos sobre readaptação em nossos países de origem depois de morar fora. Ele disse que não tem problema com isso.

Meses depois, encontrei o Gael no Lincoln Center, quando ele foi lançar Má Educação, ao lado de Pedro Almodóvar. Perguntei se ele lembrava de mim. Ele abriu os braços, um sorriso, e disse, em português, “tudo bem?” – e me abraçou. Não, eu não estava sonhando. Mas que vi estrelinhas, passarinhos e nuvenzinhas, isso eu vi.

tags

Por Tania Menai - 12:00 am 7 Comentários »

 

Set 22

Setembro é o mês. É quando começa o ano nos Estados Unidos, o equivalente a março no hemisfério sul. É quando são inauguradas as melhores exposições de arte, os filmes que serão indicados ao Oscar, a temporada de ópera no Lincoln Center, a assembléia geral da ONU, a semana de moda de Nova York, o jantar de gala da Brazil Foundation, os coquetéis de abertura de lojas, as novas coleções de jóias e de roupas, o ano letivo, os cursos de qualquer coisa, os grandes shows de música, o sete de setembro que traz zilhares de amigos brasileiros para a cidade, o aniversário da "torcida do flamengo" de virginianos, e o ano novo judaico. Até o 11 de Setembro é em setembro! E tudo isso enquanto ainda dá para sair de chinelo e sem cachecol. Dá até medo de folhear revistas semanais como a Time Out ou a New York, gordas, que vêm com capas como "Fall Preview". Na boa, não dá pra acompanhar. A sorte foi ter dado uma fugida antes de tudo isso para uma praia artificial da Antuérpia - longe de tudo…"e sem paparazzi".

Mais: todo mundo acha que jornalistas conhecem tudo, já viram todos os filmes, todas as peças, todas as exposições, já jantaram em todos os restaurantes, já leram todos os livros, e todos os jornais do dia. "Como você não leu a coluna do Thomas Friedman hoje?", "Como você ainda não viu ‘Cézanne to Picasso‘?", "Como você não leu o novo livro do Jonathan Safran Foer?". Simples. Se a gente fizer isso tudo, não paga aluguel na cidade mais cara do mundo. Não, não dá para conhecer todos as lojas, nem todos os restaurantes. Até porque, quem mora aqui, como em qualquer outra cidade, acaba indo aos lugares que nos fazem sentir em casa. Por exemplo, tomar sopa japonesa num restaurante pé-sujo, onde não se fala inglês, e nem sei o nome, descoberto por um amigo. Basta ele me enviar uma palavra por e-mail: "japa?". Em cinco minutos eu tô lá.

É preciso tomar muito cuidado também com o que se chama de "lugar da moda" numa cidade onde se vive do eclético. O que é moda pra um é brega pra outro. Há lugares "da moda" onde as pessoas ficam plantadas por horas para comer mais ou menos, serão maltratadas pelo garçom e deixam três salários. Uma vez um turista de São Paulo me disse: "O quê?? Você não conhece o Balthazar?? Então você não conhece Nova York!". Bem, conheço o suficiente para ter presenciado a hostesse de lá nos oferecer uma mesa improvisada onde não caberia nem uma criança. Por que eu voltaria lá se a cidade tem 20 mil restaurantes?

Também morro de rir ao escutar: "O que está se usando em Nova York?" Bom, usa-se desde turbante indiano até calça de toureiro sevilhano. Pode escolher. Havaianas também estão em alta. Falando nisso, caminhar ainda é o melhor programa. É de graça e promete descobertas incríveis, como um músico tocando cello para crianças num domingo à tarde (foto). Em tempo, foi uma caminhada meu melhor programa de setembro: mais de 50 quadras, de sul a norte, numa bela madrugada de sábado. Não precisa de ingresso, convite, fila ou cartão de crédito. Apenas uma boa companhia. Para todo o resto, use o seu Mastercard.

tags

Por Tania Menai - 12:00 am 4 Comentários »

 

Set 20

Lula, Bush, o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, Hugo Chávez. Todo mundo aqui para a 61º Assembléia Geral das Nações Unidas. E sinal de trabalho. A aventura começa na hora de renovar a credencial de mídia que dá acesso a ONU. Depois das burocracias aplicáveis, fui buscar o crachá um dia antes. Quadras e mais quadras que circundam a ONU já estavam fechadas para tráfego, centenas de policiais e cães em cada esquina. A caminhada foi a ginástica do dia.

Na porta, manifestações contra a escravidão em Burundi e, ao lado, protestos de algum país asiático (as faixas eram na língua local). Até na tenda da mídia montada do lado de fora da ONU passamos por detectores de metais. E dá-lhe tirar colar do pescoço e iPod do ouvido. "Que música tem aí?", perguntou o guarda. "Ih, Caetano, do Brasil, Noa, de Israel, Jean-Jacques Goldman, da França, Richard Bona, da República dos Camarões", respondi. "Nada do meu país… Kosovo?", perguntou. "Hummm, não". Na hora de tirar foto pro crachá uma japonesa diz: "Ah, você é do Brasil. Já estive lá." "Onde?", perguntei, esperando nada além de São Paulo. "Itacaré", falou ela com cara de quem se apaixonou por algum capoeirista. "Muito bom!!!!", disse ela em português. É isso aí, meu rei.

A sede da ONU é o lugar mais burocrático do mundo. Mas tem seu charme. O maior deles é ouvir idiomas sei lá donde e ver africanos de batas coloridíssimas. Mas dia de abertura de assembléia geral é dia especial. Só nesta terça-feira vimos de perto Bill Clinton, Jacques Chirac, Kofi Anan, George Bush (também conhecido como "Diabo") e… Lula. Bem, o objetivo inicial seria cobrir o discurso do presidente brasileiro na assembléia geral, sua participação num ótimo projeto sobre medicamentos para Aids, malária e tuberculose, e o prêmio que ele recebeu de uma organização judaica à noite. Mas tudo o que todos os editores da mídia brasileira queriam era um depoimento do homem sobre o novo escândalo político; por sinal, o escândalo du jour, porque na semana que vem certamente terá outro. Que paciência deve ter o povo de Brasília…

Depois de muitos apelos ao André Singer, assessor de imprensa do presidente, nós, repórteres brasileiros, conseguimos com que ele parasse o Lula por dois minutos para falar conosco. Nos esmagamos em volta dele, em um dos corredores. Fiquei tão perto do homem que consegui tirar a foto aí de cima, com o André ao fundo. Do que o presidente estava rindo, ainda não sei. Ele respondeu beeeeeem por alto a apenas uma pergunta, quando de repente um guarda da ONU nos empurra gritando "too close, too close!!". Ou seja, estávamos muito perto do presidente. Perto mesmo. Pena que não era o Clinton (também conhecido como Deus), que havia passado por lá dois minutos antes, depois de arrasar ao falar da campanha de medicamentos. O guarda tirou o Lula dali na hora. Nem mesmo os assessores dele entenderam tamanha agressividade.

No mais, corre-se de um lado para o outro naquela imensidão. Numa dessas, topei um repórter espanhol da CNN que conheci cobrindo o Katrina em Nova Orleans - ele estava frustadíssimo porque um ministro da Espanha estava numa sala dando entrevista e uma mulher na porta barrava a passagem (cena típica na ONU, todo mundo é barrado em todos os lugares). Também ouvem-se comentários de colegas dizendo "adoro cobrir a ONU. Tem mulheres lindas de TODOS os países" (obs.: o mesmo vale para a ala masculina).

E vale também momentos hilários como estar no meio da assembléia geral, trabalhando, quando chega um torpedo no celular dizendo: "Sorria, você está de laranja e sendo fotografada". Vinha de um fotógrafo de alguma cabine reservada a fotógrafos e cinegrafistas dentro da assembléia. Bem, a-d-o-r-e-i saber que entre direcionar as lentes ao "Diabo" ou a mim, o cara me escolheu. Ganhou um sorriso e uma língua de fora.

tags

Por Tania Menai - 12:00 am 9 Comentários »

 

Set 18

Nada irrita mais um nova-iorquino do que ter que esperar. Mas fascina saber que há quem se plante por mais uma hora para conhecer como vivem os 33 milhões de refugiados de guerra deste mundo. E isso aconteceu neste fim-de-semana no Central Park. Profissionais dos Médicos Sem Fronteiras (MSF) montaram uma exposição no meio do parque para mostrar como sobrevivem aqueles que não tem para onde ir. Os visitantes eram divididos em grupos e guiados por gente que já trabalhou no inferno. Somália, Etiópia, Eritréia, Sudão, Tchetchênia, Costa do Marfim, Iraque, Jordânia, Colômbia, Indonésia e Marrocos são alguns dos cerca de 40 países que têm gente deslocada por causa de conflitos. Destes, 74% são nações pobres, onde a renda per capita é de dois mil dólares por ano. Ou nem isso. A coisa é feia. Feíssima.

Ali no Central Park, rodeados por árvores, lagos e apartamentos de milhões de dólares, aprendemos como as crianças refugiadas fazem seus próprios brinquedos usando lixo, como o MSF monta os banheiros públicos, como as mulheres carregam galões de 20 litros (repito, vinte litros) de água e andam com eles por quilômetros, além de carregar seus bebês. Cadê a ajuda masculina? Os homens estão nas guerras.

Ainda experimentamos o BP-5, barra de biscoito, algo entre maizena e paçoca, que contém as proteínas, vitaminas e calorias que um adulto precisa por dia. Com nove barras, obtém-se as duas mil calorias mínimas diárias. Bebês recebem uma papinha de amendoim numa embalagem que lembra comida de astronauta.

Aí vem a parte das vacinas, dos traumas e, nossa!, da cólera. Melhor nem contar o que é um hospital com crianças evacuando por todos os lados. Ainda vemos uma pulseira de papel, com cores que vão de verde (bem-nutrida) à vermelha. Ela serve para medir o grau de desnutrição - basta colocar na parte superior do bracinho da criança. Se a circunferência fechar na cor vermelha, a chamada Red Zone, a criança vira prioridade. Por milagre, não chorei. São nove milhões de crianças refugiadas. E este é o nome da campanha feita pela Nike para ajudá-las. Até o nosso Ronaldo está nessa. Quem visitar a Nike Store on-line, vale comprar a camiseta de 20 dólares para ajudar também. Já tenho uma.

A MSF nasceu há 35 anos na França. Atua em 70 países, em conflitos, tsunamis, crises. Incluindo o Brasil. Em 1999, ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Recebe dinheiro de governos, empresas, pessoas físicas - mas se recusa a receber de farmacêuticas, empresas de tabaco e, desde 2004, do governo americano. Também mantinha um programa semanal no canal National Geographic - eu não perdia um e chorava assistindo a todos; incluindo as reprises. Fui a outra exposição, na Union Square, que nos ensinava sobre as doenças negligenciadas por farmacêuticas. E há poucos anos entrevistei aqui em Nova York Morten Rostrup, na época diretor internacional do MSF.

Morten é um médico norueguês que deixou os modernos hospitais de Oslo para salvar vidas em lugares que mal têm estetoscópio. Logo depois da nossa entrevista, ele chegou a ser seqüestrado no Iraque. Foi solto. Esqueça papo-celebridades - são esses os caras que fazem a vida de um jornalista valer a pena.

* A exposição segue para o Prospect Park (Long Meadow at Grand Army), no Brooklyn, entre 20 e 24 de setembro, das 9h30 às 18h30

tags

Por Tania Menai - 12:00 am 5 Comentários »

 

Set 14

Nesta semana, não se vê grama no Bryant Park. O espaço está tomado pela tenda branca que abriga o Olympus Fashion Week, evento que traz para as passarelas de Nova York a moda da primavera 2007. E, yes, nós temos banana. Estão aqui Amir Slama, da Rosa Chá, Carlos Miele e Alexandre Herchcovitch (ufa, levei meia hora para escrever esse sobrenome!). Sem falar no Francisco Costa, designer da ala de alta-costura feminina da Calvin Klein. Quando o assunto é moda, não tem pra ninguém. O Brasil é bom.

E aí começam os badalos: só entra na tenda quem tem convite. Uma vez lá dentro, rola uma certa fila no saguão para entrar nos desfiles. O mulherio não consegue disfarçar a ansiedade. Fotógrafos se aglomeram para pegar os melhores lugares. Jornalistas, loucos por brindes, já viram dias melhores. Todos os desfiles começam com pelo menos meia hora de atraso, e duram cerca de 20 minutos. Antes disso, fica todo mundo na platéia vendo quem foi e quem não foi. Quer dizer, todo mundo menos eu, que nunca sei quem é quem. O pior é quando me perguntam se eu vi o rapper tal, ou o VJ não sei o que, ou se o editor francês da revista tal está lá, minha resposta é sempre a mesma: "Tá perguntando pra mim?".

Dos costureiros, conheço pessoalmente o Carlos, o Francisco e o Amir. Três lutadores que sacam pra burro de tecido, de moda e de cultura. Gente que tem gabarito pra competir no mercado internacional. Os caras são profissas, pé-no-chão e empregam um monte de gente. Mas aí tem aquela galera que navega pelo meio fashion: a turma do deslumbre. Claro que não são todos, mas o alto teor de peruagem e falta de assunto faz desse meio uma "aula de antropologia", como diz um amigo jornalista. Basta sentar e observar o teatro. Tem a setentona vestida de adolescente ou a repórter com óculos escuros ocupando uma cadeira para si e outra para o ego. Sem falar que há uma linha muito fina entre moda e Halloween. Exemplo de um sujeito que chegou ao camarim do desfile da Rosa Chá usando terno branco, unhas laranjas e óculos dourados: opa, esse cruzou a linha!

Anda por lá também um policial da NYPD que é tão gato que por pouco não é confundido com modelo. E, claro, um diplomata nepalês pra lá dos 60 anos que faz questão de desfilar pela Fashion Week com sua roupa de bolinha, combinando com a bota. "Ocupadíssimo" em seu gabinete da ONU, ele tira uma semana de férias só pra isso. E pior: após o desfile do Carlos Miele, resolvemos almoçar em grupo na lanchonete do evento. Ocupamos duas mesas. Quando olho para a outra mesa está Patrícia Poeta, jornalista da TV Globo, sentada ao lado do nepalês. O papo entre os dois estava surrealmente animado. Enquanto isso, na nossa mesa, o desafio era arrumar alguma desculpa para chamar "a polícia". Yes, aquelas algemas viraram o sonho de consumo mais fashion do outono 2006.

tags

Por Tania Menai - 12:00 am 4 Comentários »

 

Set 11

Lembra, Joaquim, quando você me ligou quase às nove da manhã e disse: “Tanita, liga a CNN”? Um pouco mais tarde , você deixou seu escritório e veio pra cá. Minutos depois, apareceram dois repórteres cariocas – tinham chegado naquela manhã, de férias na cidade. Estavam mais perdidos que cego em tiroteio. Passamos o dia ao telefone e na internet entre editores, família, e, pior, buscando os amigos. E o Caio, que não deu sinal de vida o dia todo? Lembra da nossa aflição? Sem falar que enquanto o mundo desabava, vocês, homens, reclamavam da comida natureba da casa. A primeira matéria já estava entregue, mas o telefone não nos deixava sair de casa pra matar a fome.Você e eu éramos famosíssimos por odiar celular – não tínhamos! Aí deixamos aquele recado histórico na secretária eletrônica: “Estamos vivos, só saimos para almoçar. Deixe o seu recado. Valeu!”. Foi a melhor idéia do dia mais surreal que já vivemos.

Passei o fim daquela tarde e noite de 11 de setembro no St. Vincent Hospital, o maior dos quatro hospitais que receberam gente depois dos atentados. Vocês não quiseram ir. Acabei encontrando um amigo, voluntário, que me colocou para dentro - mas eu não podia dizer que era repórter. A mídia só podia ficar do outro lado da rua. As macas com soros ficavam na calçada. Sofás foram cobertos com lençóis. O Starbucks da rua liberou café. Médicos chegavam de carro de cidades como Chicago. Desconhecidos despejavam galões de água. Outros preparavam sanduíches. Parecia que aquilo tinha sido ensaiado. A fila das famílias para checar os nomes dos feridos nas listas foi, de longe, o que mais me chocou. Imagine a margem de erros de sobrenomes indianos, judaicos, búlgaros e espanhóis escritos à pressa, à mão. Vai vendo. A lista era atualizada a cada meia hora, e circulava entre os quatro hospitais que atenderam os feridos.

Joca, sabia que os 2.749 que morreram pertenciam a 87 nacionalidades? Bom, já que era para ter acontecido tudo isso, pelo menos foi em Nova York, uma cidade de gente pró-ativa. O cheiro era de queimado, mas ninguém ficou olhando pra anteontem. Cada um aqui tem a sua vida, mas aquele evento fez com que todos nós tivéssemos pelo menos uma coisa em comum. As semanas que se seguriam foram tão exaustivas (eu entrevistava chorando e escrevia chorando) que, claro, acabei de cama. Hoje, ao lado do hospital, estão centenas destes azuleijos, feitos por crianças do país todo. Tirei essa foto aí. Tá vendo como são coloridos? Ninguém quer mais luto. Mas também não podemos, de forma alguma, esquecer esta data.

Nestes cinco anos a cidade se reajustou, como você pôde ver. Nossos amigos tiveram bebês lindos. Entrevistei muita gente sobre o assunto, incluindo o [prefeito de Nova York à época dos atentados] Rudy Giuliani e a Irshad Manji, jornalista muçulmana que virou amiga. A cidade tem sangue novo, muita gente que mora aqui hoje não vivenciou nada disso. Inclusive, ontem fui tomar brunch meus amigos paquistanêses, muçulmanos. Rimos muito. Você vai adorar conhecê-los. Nem todos os 11 de setembro foram péssimos. No ano passado, por exemplo, acordei com um entregador de flores à minha porta. Eram rosas, vermelhas e brancas, de um italiano com quem troquei umas palavras num vôo no dia anterior. Assim, do nada. Viu, Joca? O mundo tinha que ser liderado por homens italianos. Esse negócio de texano e troglodita da caverna é receita pro fracasso. Auguri.

tags

Por Tania Menai - 12:00 am 4 Comentários »

 

Set 09

Há duas semanas aprendi que figurinha repetida também completa álbum. Mas só vale a repetição quando a figura, ou melhor, o figura chama-se . Vik Muniz. Pela terceira vez, apareci em seu estúdio fotográfico, no Brooklyn, para entrevistá-lo. Ele de Havaianas prata – eu de Havaianas ouro. Ele já não sabia o que mais eu tinha para perguntar. Mas isso não importa – esse gênio paulista, que vive em Nova York há mais de 20 anos, sempre tem o que dizer. E, olha, acompanhar as idéias e entusiasmo do rapaz não é tarefa fácil. Ele é bom. Muito bom. O espaço é amplo, claro, e, desta vez, as paredes brancas estavam revestidas pelas megafotos que farão parte da nova exposição de Vik, “Pictures of Junk”, que ficam expostas entre 9 de setembro e 14 de outubro na galeria . Brent Sikkema, no Chelsea.

Lixo, sucata e tudo aquilo que a gente não quer ver nem de longe transformaram-se em imagens mitológicas, depois de um trabalho minucioso de ilusão de ótica, fotografado no Rio. Ele já fez o mesmo utilizando açúcar, pigmentos ou chocolate, como na capa do disco dos Tribalistas. Com obras espalhadas pelos mais importantes museus do mundo, entre eles o MoMA, o Met, a Tate Modern e o Getty Center, Vik é um leitor ávido. Seu canto predileto da casa, colado ao estúdio, é revestido por livros de cima a baixo. E lá está ele, falando, contando, rindo. Uma delícia de entrevista.

A coisa melhora ainda mais quando Janaina Tschäpe, mulher de Vik e também artista, entra em cena, sempre de bom humor e sorriso largo. Os dois juntos são gargalhada garantida ou o seu dinheiro de volta. Mas o tempo pára mesmo quando aparece Mina, com sua camiseta de caveirinha (com ela não tem florzinha nem nhé, nhé, nhé). Nascida em janeiro, ela é a melhor produção artística do casal. E apesar de ter posado especialmente para este blog, não espere esta “obrinha de arte” de bochechas grandes exposta em nenhum museu. Ela é nossa! Nossa mini-Trip Girl.

tags

Por Tania Menai - 12:00 am 3 Comentários »

 

Set 06

Outro dia, tive a péssima idéia de sentar no chão de uma livraria, bem ao lado dos livros de charges da revista The New Yorker. Aquilo é um delírio de criatividade e humor que premia semanalmente os leitores desde 1925. Estava lá o desenho de um presidiário falando pro companheiro de cela: “você não imagina o quanto eu pagava por um apartamento deste exato tamanho em Manhattan”. Ou então um táxi passando na chuva em frente a um casal ensopado. No teto do carro o sinal dizia: “Fat Chance” (leia-se: nenhuma chance de conseguir um táxi na tempestade. Esqueça). Ri muito. Sozinha. Mas minha pagação de mico foi interrompida quando escutei meu nome. Era um amigo, que quase tropeçou em mim. Implorei para ele me tirar dali. O santo homem me levou para almoçar.

The New Yorker é sinônimo de excelência. Mas são raras as almas que conseguem lê-la semanalmente de cabo a rabo. Quando você entra no elevador com uma debaixo do braço, sempre alguém pergunta: “você lê todinha, é?” Não, não leio. Tem semana que as charges bastam. Certa vez, plantei-me às sete da manhã de um domingo (um marco inesquecível) numa fila para assitir a uma palestra dos desenhistas da revista. Sem falar na exposição montada em homenagem aos 100 anos do metrô nova-iorquino, em 2004, reunindo todas as charges relacionadas ao assunto. Incrível. Passageiros de metrô são grossos desde sempre. Uma ilustração de 1970 mostra um condutor anunciando que o trem pifou. “Olha, vamos ficar parados por um bom tempo. É bom vocês olharem para o lado e se cumprimentarem”. Sim, isso é piada. E olha que o iPod nem existia. Outra do metrô foi publicada logo após o 11 de setembro. Estava ele, Osama, de turbante, uniforme militar, bolsa a tiracolo, calmíssimo, fazendo o que todos os perdidos fazem: debruçando-se sobre os demais passageiros para estudar o mapa do metrô na parede do vagão. Imagina se alguém notou aquele homem de dois metros.

Mas talvez uma das capas mais famosas – que virou até cortina para chuveiro – seja o mapa da cidade imitando a região do Paquistão, Usbequistão, Afeganistão e todos os quistões em questão. A piada é muito local, mas os bairros de “New Yorkistan” adequaram-se à nova realidade. A vizinhança do World Trade Center, onde o preço dos aluguéis despencou, virou o “Lowrentistan”. Chelsea ficou dividida entre “Gaymenistan” e “Lesbikhs”. O Upper East Side, bairro das patricinhas-magrelas, virou o “Bulimikhs”. Os novos empreendimentos imobiliários do West Side foram batizados de “Trumpistan”. Sem falar no “Bronxistan”, ou áreas como “Khantstandit”, “Taxistan” e “Youdontunderstandistan”. Claro, em meio a essa geografia toda, fica o “Central Parkistan”, porque ninguém é de ferro. Enquanto isso, Osama circula por algum metrô da cidade, fazendo o que ele mais gosta: ser anônimo e morar em caverna.

tags

Por Tania Menai - 12:00 am 6 Comentários »