CALIL VERÓN, O MESTRE
A semelhança com o craque argentino não está apenas na testa avançada, mas principalmente na habilidade de conduzir e passar a bola. Diretor de redação à moda nova, mas com antiga elegância, Calil não grita nem bate a mão na mesa, não intimida nem pressiona. Mas está sempre presente, com firmeza que faz modesta questão de colocar em dúvida. Não à toa, Calil é também unanimidade no quesito simpatia, o que lhe rendeu um merecido troféu Shoiti no fim do ano. Pai de duas adoráveis meninas, ele é atencioso com amigos e colegas na mesma medida em que dá cuidadosa atenção ao trabalho. E, mesmo que fale e pense com educada ponderação, não se furta a ideias ousadas, originais, sempre recebidas nas reuniões de pauta com entusiasmo, polêmica, risadas.
Com tudo isso, fiquei surpreso de saber que ele tirou diploma de nerd num colégio conservador. Mas logo soube que construiu seu proverbial equilíbrio ao ser submetido a alguns raios de badauera e porra-louquice nas faculdades de jornalismo e cinema. Fez também cursos por três anos “sabáticos” em Nova York e aprendeu muita coisa na marra em várias redações, algumas delas cariocas. Crítico de cinema dos mais convincentes (mas ele insiste que “há controvérsias”), Calil colocou uma enorme telha de vidro sobre a cabeça e partiu pro outro lado: está com um documentário fresquinho na mão, pronto pra enfrentar o teste da telona.
Mas chega de conversa e vamos à conversa de fato, que aconteceu numa padoca aqui perto, em meio à balbúrdia de copos e talheres e o cheiro reconfortante de café. Muito bem casado com a bela Flor, Calil é meio reservado, não gosta muito de falar de si mesmo. No começo, respondeu a minhas perguntas casuais com relutância, com um gestual agitado, diferente de sua calma costumeira, certamente efeito colateral de uma verdadeira modéstia (que ele nega veementemente). No fim, mais desencanado, me deu uns bons dribles, mas também deixou generosamente que eu fizesse um golzinho ou outro. Coisa de craque.
*Por Daniel Benevides
Imagem: Arquivo Pessoal
1.No casamento com a Flor, em 2003. 2.Entrevistando David Lynch, um dos meus ídolos, para a Trip em 2008. 3.Cafuné das filhas Teresa e Julieta. 4.Reencontrando os amigos Alex, Marcello e Lia, que foram meus roomates em Nova York.
Fala um pouco da sua família. Da Flor, das suas filhas... Como você conheceu a Flor? Você já tinha casado antes, né?
Eu morei junto com duas mulheres. A Flor eu casei, com tudo, papel, religioso, tudo! Mas já tinha morado junto com duas namoradas.
O que para um tímido até que é um score razoável.
É que eu sou aquele monogâmico clássico. Tenho várias relações, mas várias longas relações. Com a Flor é a mais longa, vai completar oito anos agora. Quando eu consigo falar alguma coisa para uma mulher, eu tento comprometer ela. Para eu não ter que falar de novo [risos]. A segunda namorada com quem eu morei estudava na PUC e era muito amiga da Flor na época, que também tinha namorado; então eu conheci a Flor como dois casais. O menino com a namorada da PUC e a amiga dela com o namorado dela. Depois a gente se separou, fui morar nos Estados Unidos e tudo mais, mas eu continuei me correspondendo com a Flor por e-mail. Quando eu voltei para o Brasil percebi que estava apaixonado por ela. Começou na amizade e durou alguns anos antes de virar uma paixão, um amor.
E, durante essa amizade, nunca te passou pela cabeça a ideia?
Eu acho que em Nova York, quando a gente começou a trocar e-mail começou a me passar pela cabeça, sim. Mas eu só concretizei que queria aquilo quando voltei a morar no Brasil e daí encontrei ela de novo e me pareceu logo natural, daqueles amores interessantes que você já conhecia razoavelmente bem, e foi um encontro muito feliz, tive duas filhas com ela, fruto da felicidade desse encontro: a mais velha chama Teresa, fez 3 anos agora. E a mais nova chama Julieta, fez 1 ano há dois meses.
O que chama mais atenção nas duas?
Além do fato de que elas são adoráveis de qualquer maneira, é que elas são muito diferentes entre si, desde o tipo físico até a personalidade. Teresa, aquariana, muito doce, muito poética... Julieta é decidida, parte forte, sabe o que quer. E é sensacional a ideia de ver elas crescendo. E embora eu me cuide para não enclausurá-las em um estereótipo, não marcar muito as diferenças, para mim parece muito óbvio desde muito cedo.
A Flor é jornalista também, né?
Ela é jornalista de origem, trabalhou muito em TV, trabalhou muito tempo na Cultura. Mas ela deu uma virada na carreira de uns tempos para cá. Ela abriu uma loja de roupa infantil. Admirei muito a coragem dela de dar essa guinada. É uma coisa muito da vida, que é o desejo de ter mais tempo para as nossas filhas, que essa vida de mãe e pai trabalhador hoje em dia não é uma coisa simples, como você sabe.
Hoje eu almocei com Ana Paula Wehba e ela lembrou uma história muito curiosa, que a sua família e a dela têm origem na mesma cidadezinha no Líbano...
Toda minha família é do Líbano, eu sou puro-sangue, não tenho cruzamento até aqui. O meu avô era de uma cidadezinha muito pequena, uma vila, chamada Marjaium, e o avô da Ana Paula era de lá também; eu acho que a gente frequentava o mesmo clube de Marjaium quando a gente era criança. Por alguma razão, uma boa parte de Marjaium veio para São Paulo.
E o que é ser libanês?
Boa pergunta. É uma sensação que eu não sei descrever muito bem. Mas, por exemplo, quando fui para o Marrocos, senti uma coisa muito familiar na língua, uma coisa meio atávica, de você reconhecer as coisas que te são contadas. Mas acho que tem uma coisa muito ligada a família, uma coisa de se reunir em torno da mesa, mesa farta, e valores talvez meio antigos, eu acho que é por aí.
E essas coisas se refletem na sua vida pessoal? Você, que já tem a Teresa e a Julieta, pretende ter mais filhos, ter uma família grande?
A melhor coisa que me aconteceu foi a paternidade, eu adoro minha vida familiar, minha vida de pai. Mas meu lado racional diz que dois é suficiente. Não é por falta de vontade. Se eu ganhasse na loteria eu teria mais filhos com certeza, mas a razão me diz para segurar a onda.
Você tem muitos irmãos?
Não, tenho dois irmãos, mais velhos. Um que deve ter mais ou menos 43 e uma irmã que vai fazer 42. Eu sou o caçula.
E o que eles fazem?
Um é advogado, e minha irmã... Ela se formou em publicidade, mas trabalhou em TV na maior parte da vida dela.
Caçula tem sempre uma síndrome de ou ser muito mimado ou pouco mimado...
Até que eu tive uma vida boa, no sentido de ter menos o peso das expectativas, menos cobrança. Você acaba sendo naturalmente mais independente, não tem aquele medo de quebrar que os pais têm com o primeiro filho. Então você fica mais solto. E isso acaba se refletindo na sua vida depois. Você fica acostumado a estar sozinho e fazer as coisas sozinho.
Uma coisa que me surpreendeu muito quando eu te conheci é você ter estudado no Bandeirantes, que é um colégio muito conservador. É engraçado imaginar você partindo do Bandeirantes e chegando na Trip...
Ah! Sim, eu passei sete anos da minha vida no Bandeirantes, da quinta série ao terceiro colegial. Foi uma época fundamental da minha vida, não tem como não deixar marcas. Eu acho que era um colégio conservador em vários aspectos, especialmente na importância dada ao desempenho etc. Mas era também liberal em outros aspectos. Se você faltasse em 25% das aulas, ninguém ia falar nada, se você passasse disso você ia repetir de ano. Mas eles não se preocupavam muito com a tua vida fora da escola, contanto que o desempenho fosse bom. Era meio que uma educação de resultados. Eu acho que eu associo muito o Bandeirantes com uma certa timidez que eu tenho. Porque da quinta à oitava série eu estudei em classe só masculina – as classes eram separadas entre homens e mulheres –, e numa época que eu tava justamente descobrindo o sexo, o amor e tal. E acho que isso ajudou a aprofundar uma timidez natural da minha parte e que permanece até a vida adulta. E é curioso, porque realmente não faz muito sentido sair do Bandeirantes e terminar na Trip. Mas acho que isso aconteceu porque a vida foi feita de vários acasos depois disso...
Você falou que era tímido. Você era um adolescente daqueles sofridos, que leem poesia?
Eu era bem esse tipo [risos]. A adolescência foi uma fase muito difícil da minha vida, eu sofria por questões existenciais, sofria desde a menina que não me dava bola até a guerra, a fome na Etiópia. Era época em que eu me refugiava muito no cinema, mas também nos livros. E tive sempre um comportamento mais pro introspectivo, introvertido, do que para o extrovertido, expansivo. Acho que isso vem da infância, mas na minha adolescência se aprofunda de uma maneira bem radical. Mas, claro, tinha meus amigos, tinha as pessoas com quem eu tinha certa afinidade. Meus melhores amigos vêm dessa época de colégio, até hoje.
E você escrevia nessa época?
Escrevia, escrevia. Escrevia poesia, conto, essas coisas... Eu não reli muito depois, mas eu tenho certeza que eram coisas bastante ruins, não tinha nada de promissor ali. E eu acabei fazendo jornalismo depois, porque eu achava que jornalismo ia dar uma disciplina de escrita que eu não tinha muito. E acabou não dando essa disciplina e me afastou um pouco dessa ideia de ficção, de poesia.
O que você ouvia nessa época?
Nos anos 80, quando foi minha adolescência, eu ouvia muita músicas dos anos 60 e 70: Led Zeppelin, Pink Floyd, o básico. E são músicas que embora eu não ouça com muita frequência tocam algumas cordas afetivas, nostálgicas, até hoje.
E livros?
Putz, tem certas coisas que eu lia na época, que me marcaram muito, mas que eu não reencontrei. Tipo Herman Hesse. Eu, como vários adolescentes, era enlouquecido por Herman Hesse. Peguei uma fase Herman Hesse muito pop. Mas eu não reli. Eu não sei dizer se vou considerar uma coisa juvenil, mesmo hoje, ou se vou achar uma coisa bacana. Não sei se você releu.
Não, não reli. Mas talvez nestes tempos de cinismo ele faça sentido de novo, não sei. E os filmes?
Os filmes que aprendi a amar na adolescência eu amo até hoje. Dos clássicos americanos até nouvelle vague. Revi todos eles e acho que estava certo na adolescência de gostar dessas coisas, quando as outras pessoas estavam vendo outros tipos de filme.
Leio muito seus textos de crítica de cinema. E uma coisa que me impressionou é que você julga com a mesma atenção tanto um filme autoral da Claire Denis quanto um blockbuster ou filme infantil. Pensei: “Pô, tai um cara que gosta realmente de cinema”.
Já me perguntaram de que gênero eu gosto mais e eu não sei responder isso. Provavelmente eu posso ter prazer em um filme de kung fu e eu posso ter prazer em um filme alemão, vindo da década de 20. Prazeres diferentes, mas com a mesma intensidade. E isso acho que vem desde sempre. Minha formação foi muito TV, Sessão da Tarde, Corujão... Então tudo é natural para mim, desde quando você está namorando, você convencer a mulher a ver ou um blockbuster animado ou às vezes um filme parado, e tudo mais. Mas aí você vai se adaptando. Engraçado, que eu já tenho essa fama na revista de gostar de filmes chatos, parados.
Imagem: Arquivo Pessoal
5.Entrevistando o rei para o documentário que estou fazendo. 6.Eu sou o do meio, com 1 ano, entre meus irmãos, Elias Jorge e Isabela. 7.Vestindo o manto sagrado do Gigio Futebol Clube ao lado dos craques da Trip. 8.Com meu saudoso cabelo, que ainda e
E tem algum herói ou heroína?
Putz. Sabe que eu já me fiz essa pergunta? Porque eu não sou o tipo de comprar pôster, camiseta, esse tipo de coisas. Mas tem umas pessoas que eu admiro muito. Tipo, Paulinho da Viola é meio que meu herói, aquela coisa muito complexa disfarçada de simplicidade, muito elegante, tem um comportamento muito nobre, são virtudes que eu admiro. Um herói de cinema é o François Truffaut. Tom Jobim é um cara que eu admiro pra caralho. Tenho admirações principalmente. Mas não converto para essa coisa de colecionador.
Você partilha daquela ideia de que ética e estética são a mesma coisa?
Andam muito juntas às vezes, e nos casos mais interessantes são indissociáveis.
Como você chegou na Trip?
O Gui [Werneck] me convidou. A gente não se conhecia pessoalmente, mas temos muitos amigos em comum. Porque os dois passaram pela Folha, a gente passou por redação de jornal, eu passei pelo Jornal da Tarde e ele passou pelo Estadão. Eu não sei exatamente quem sugeriu meu nome para ele. Mas foi uma surpresa, uma coisa inesperada que caiu do céu. Um dia ele mandou um e-mail me chamando pra conversar e gostei dele de cara... Tava no UOL na época. Tinha muito pouca experiência em revista, trabalhava muito mais como colaborador em redação. Mas já gostava da revista, daí tive a intuição de que era a coisa certa a fazer, e até agora estou certo [risos].
Você lembra qual foi a sua primeira impressão ao chegar na Trip?
Tive a impressão desse ambiente mais informal, menos carregado. Com uma disposição visual mais solta, pessoas jovens. É uma redação muito jovem, e eu venho de redações com pessoas mais velhas. Me senti confortável, embora eu não seja uma pessoa informal.
Tem algum trabalho na Trip do qual você se orgulhe mais?
Tem edições, desde que eu cheguei, de que gosto muito. Mas, em termos de matéria que eu escrevi, gostei muito de fazer o Chimbinha e a Gloria Perez, porque tenho muita curiosidade de conhecer o universo de pessoas que eu desconheço. Universos distantes do meu. Às vezes eu tenho mais curiosidade sobre essas pessoas do que de pessoas próximas. E uma entrevista com o David Lynch, que aí é um ídolo pessoal, mas ídolo em relação à obra mesmo, porque pessoalmente ele é maluco demais [risos].
Você tem algum pensamento que te dirige de alguma maneira?
Não tenho um pensamento, não sou muito disso. Mas ultimamente tem uma frase do Niezstche que me vem à cabeça volta e meia e que é muito confortável para uma pessoa indecisa e insegura como eu. Ele fala que: “O maior inimigo da verdade não é a mentira, é a certeza”. Uma frase que tenho pensado muito. Mas pode ser uma desculpa com relação às minhas dúvidas em relação a tudo, sou muito confuso.
Engraçado, porque já acompanhei algumas reuniões de pauta e você é um cara bastante firme nas suas decisões.
Você acha isso?
Acho.
Eu disfarço bem, porque embora o pessoal colabore, e você pode colocar isso na matéria, eu tenho que enganar a equipe [risos]. Mas eu acho que no fim das contas eles não caem, eles sabem que eu sou um pouco inseguro. Fique à vontade para colocar isso.
Já que você se definiu pouco, eu queria que você se definisse um pouco mais.
Você só faz pergunta difícil [risos]. Mas acho que é isso. Eu usei alguns adjetivos em relação a mim, que acho que depois de 37 anos já dá para dizer isso, que é que eu sou introspectivo, extrovertido, inseguro, indeciso, eu sou “in”, para dentro. E para mim estar nesse cargo da Trip é um desafio, por me colocar para fora, me exteriorizar, mostrar o que eu sinto. Uma função, não nova, porque eu já passei por essa situação em outros lugares, mas mais intensa. É isso, tenho que ficar tapeando as pessoas o dia inteiro de que eu sou uma pessoa mais segura, mais expansiva do que eu realmente sou. E eu acho que a maioria não cai no truque, mas vou continuar tentando por algum tempo.
Você estudou jornalismo?
Jornalismo e um pouco de cinema. Fiz ECA, jornalismo, na USP e depois comecei a fazer cinema na ECA, mas não consegui. E estudei um pouco de cinema em Nova York.
Quanto tempo você ficou em Nova York?
Três anos.
E o que você achou dessa experiência?
Foi uma experiência muito enriquecedora, de uma realidade muito diferente, de uma quebra de vários confortos básicos que eu tinha aqui. A maior parte do tempo eu morei no Brooklin, em um apartamento térreo, uma casa muito menor, onde não tinha faxineira, eu fazia comida. Os mimos que eu levava da infância tinham desaparecido lá e com muito menos grana, vivendo muito mais contado. E em uma cidade em que as pessoas tendem a ser muito duras. Mas eu também tinha ótimos amigos: por acaso, alguns desses meus amigos do Bandeirantes estavam morando lá na época. Eu acabei conhecendo gente do mundo inteiro, fazendo amizade com todo mundo. E no meu último ano de NY acabei tendo uma experiência profissional muito legal, como correspondente de cultura da Gazeta Mercantil. E já com salário bom, eu era pago para passar a semana vendo filmes, exposições, passar escrevendo sobre elas. Foi um período muito legal da minha vida, que durou pouco tempo porque a Gazeta depois meio que faliu.
Você sempre escreveu sobre cultura?
Quando eu entrei na faculdade, eu lembro que numa classe, numa das primeiras aulas, perguntaram “O que você quer fazer?”, e eu falei “Eu quero ser crítico de cinema”. E sempre tentei me encaminhar um pouco para essa área, minha área de maior interesse. Eu adoro cultura e adoro esporte, mas nunca trabalhei com esporte. Fui me encaminhando rápido, tipo, comecei a trabalhar no primeiro ano de faculdade, com 19 anos, na rádio Jovem Pan, fiquei quatro meses lá. Fui para a Folha, trabalhei em uma área meio geral na Agência Folha durante dois anos. Daí, já fui para a Ilustrada, quando eu tinha 20 anos já estava no caderno de cultura. Desde então, já trabalhei em muitos lugares, mas os períodos que eu não trabalhei com cultura foram períodos de exceção.
Você chegou a fazer alguma grande cagada que acabou servindo como ensinamento?
Muitas. Não sei nem por onde começar... É em ordem alfabética [risos]. Mas no cinema, por exemplo, eu acho que fui muito duro e muito injusto, muitas vezes, e fico até mais chateado quando é com filme brasileiro, tipo, estão meio desprotegidos. E acho que ultrapassei a linha do criticar o filme e atacar o diretor... Então, tem algumas críticas que me arrependo muito de ter feito, não faria hoje; hoje acho que eu sou um pouquinho mais sensato na hora de criticar, escolho mais as palavras. Mas já fiz muito besteira, que foram muito instrutivas, mais instrutivas do que os acertos.
Imagem: Arquivo Pessoal
9.Meus pais, Jorge e Evani, na Confeitaria Colombo, no Rio, na época em que eu morava lá. 10. Teresa e eu fotografados pela Trip para uma matéria sobre trabalho em casa. 11.Teresa e Julieta em Olinda, meus tesouros, no último Ano-novo. 12.Com a Flor
O que você diria que são as qualidade necessárias para um bom jornalista?
Difícil responder, porque eu não me considero um bom jornalista.
Você acha essencial estudar jornalismo na faculdade?
Não, não acho essencial.
O que é essencial?
Eu não me considero um bom jornalista na visão clássica do bom jornalista, do cara que quer ir para a rua e jogar o sapato e não consegue ficar parado e tal. E eu acho que nunca fui esse tipo de jornalista. Sempre fui mais contemplativo, e tudo mais. Acho que bom jornalista é aquele que tem muita curiosidade. Que eu tenho por alguns assuntos, mas não correspondo a essa imagem clássica. Pergunta difícil essa. Acho que tem que ter um desejo de olhar o mundo mais a fundo, não se contentar com as verdades dadas. Acho muito importante uma coisa que é muito rara na profissão, que é você não ser cínico. Acho que tem que ter o desejo de você entender o outro. E eu gosto muito de bom texto, eu sou bem antiquado nesse sentido, acho que um texto sofisticado feito com estilo, que não seja feito nas coxas... É isso, mas é um tipo de pergunta que acho difícil. Acho que não ser um cínico é uma batalha diária importante.
Você sempre quis ser jornalista?
Não. Não quis ser jornalista. Foi aquilo que eu te falei, na adolescência quis ser escritor, trabalhar com arte, porque tinha o lado romântico de artista ser bacana. E aí eu usei o jornalismo para tentar ter a disciplina da escrita, mas não funcionou. Quando eu quis ser jornalista quis ser uma coisa específica que era crítico de cinema. Mas a vida me levou para vários lugares, alguns em que eu fui feliz – estou feliz na Trip hoje. E outros em que eu fui infeliz. Eu acredito no acaso, que o acaso tem um papel grande nas nossas vidas. Acho que estar na Trip é um acaso bom.
De todas as suas funções do jornalismo, qual aquela que te dá mais tesão?
Eu queria ser pago para ver o filme, assistir e não ter que escrever [risos]. Escrever é muito sofrido. Mas a melhor parte do meu trabalho é ver filmes. Eu tenho uma satisfação, também, agora como editor, quando você faz uma boa edição de uma revista. Redondinha. Forte. Que eu desconhecia antes porque eu sempre estive em áreas muitos específicas, muito estreitas. Então é um prazer interessante também.
Queria que você falasse do seu filme...
Fui estudar para fazer cinema mesmo, não para escrever sobre cinema. Mas conhecendo esse universo sabia como era difícil entrar, se você não quer galgar todos aqueles degraus, backstage, produtor e tal, até você realizar um filme. Mas há cinco anos um estudante chegou para mim e disse: “Fiz um trabalho de faculdade sobre a era dos festivais e queria que você fizesse um filme comigo”. E me pareceu um convite tão ingênuo da parte dele, que tinha 20 e poucos anos, que foi encantador! E eu falei: “Eu vou nessa, ver no que vai dar, EMBORA eu ache que não vai dar certo”. Mas as coisas foram dando certo, demoradamente, como tudo no cinema nacional. Quem produziu foi a Vídeo Filmes, uma produtora grande, que trabalhou com Walter Salles, que conseguiu ir atrás de recurso, que ficou muito tempo preparando, captando e tal e no ano passado a gente filmou. Um filme sobre uma coisa muito específica, que é o final do Festival da Canção da Record de 67. Nessa final, que é considerada um dos momentos mais fortes da música brasileira, o primeiro lugar ficou com “Trigo” do Edu Lobo; segundo lugar foi “Domingo no Parque” do Gil; terceiro lugar foi “Roda Viva” do Chico; quarto lugar foi “Alegria, Alegria” do Caetano; o quinto lugar foi Roberto Carlos, com uma música que hoje em dia é pouco conhecida. O Sérgio Ricardo quebrou o violão nessa final. Ainda estavam participando Elis Regina, Geraldo Vandré e Jair Rodrigues. Acabei conhecendo, entrevistando pessoas que eu admirava muito, admiro muito, pessoas muito diferentes entre si. Entrevistei: Caetano, Chico, Gil, Roberto Carlos. Uma experiência prima do jornalismo em certo sentido e com coisas muitos específicas também... foi tudo muito novo para mim. Se tudo caminhar bem, acho que estará no cinema em maio.
Você ficou satisfeito com o resultado?
Eu sou muito próximo do filme para dizer se fiquei satisfeito ou não, mas acho um filme muito digno. Muito simples, também, tem um pouquinho de entrevista e imagem de arquivo, não tem firula, não tem muita ilusão de revolução ao cinema e tal. Saiu totalmente diferente do que eu tinha imaginado na minha cabeça. Mas todo mundo diz que isso é absolutamente natural.
Você tinha imaginado com mais firula?
É, com um pouquinho mais de firula [risos]. Mas acho bom, acho a simplicidade muito boa, em tudo na vida, queria ser mais simples e que as coisas fossem mais simples.
Você torce para que time?
São Paulo.
Tinha que ter alguma coisa ruim...
Várias coisas ruins... Essa não é uma delas. Mas de uns tempos para cá eu tenho me arriscado em novas coisas, quando morava no Rio tentei surfar e era prego. Tentei jogar vôlei de praia e era ruim. Hoje eu jogo tênis e sou ruim. Jogo meio tudo, sou muito coerente na minha ruindade em todos os esportes e no meu prazer com todos os esportes. Eu adoro jogar, fazer qualquer esporte, gostaria de fazer muito mais, em uma vida menos corrida eu faria mais coisas.
Você tem uma preocupação com a saúde? Fica meio paranoico com a forma?
Eu tenho preocupação, mas não o suficiente para ter a disciplina de fazer alguma coisa. A idade tá chegando...
Você ta com quantos anos?
37... Então, eu me preocupo sim! Mas me inscrevo em academia e não vou, clássico. Esse fim de ano fui para a praia e aí eu vi uma foto e pensei: caramba! Eu tenho que fazer alguma coisa urgentemente. E ai comecei a correr, mas eu já comecei a correr dez vezes na minha vida e durante um mês. Eu tô na segunda semana, lutando bravamente. É uma preocupação, infelizmente, desproporcional ao meu esforço.
Por falar em preocupação, sua família vem de uma zona de conflito, né? É o sul do Líbano, você acompanha a questão israelense e palestina? Você se sente pessoalmente atingido?
Não. Tem uma herança da coisa árabe, clássica que eu te falei, que eu fico muito triste com o que acontece na Palestina, espero que as coisas se resolvam rápido. E embora eu não goste, não apoie o terrorismo, eu não gosto e não apoio as atitudes do Estado de Israel, o que não tem nada a ver com minha relação com judeus. Uma coisa curiosa, quando teve o 11 de setembro, eu ainda morava em Nova York, mas estava de férias no Brasil. Nova York, especialmente o pouco tempo que eu passei depois do atentado, me fez me sentir muito árabe, porque eu era visto muito pelo meu tipo físico, que é muito árabe. Fui muito provocado na rua, fui barrado em aeroportos... Então, esse sentimento aflorou um pouco lá.
Você tem algum posicionamento político?
Eu não definiria tão claramente. Porque eu já votei em partidos de esquerda e de centro-esquerda. Mas estou muito animado com a candidatura da Marina Silva, neste momento posso afirmar que vou votar nela. Mas eu admiro muito algumas figuras que eu vejo como figuras independentes da política. Como a Marina, como o Gabeira... Não sou necessariamente partidário, mas eu tenho tendência mais para o pensamento de esquerda, mas já votei no PSDB algumas vezes. Covas, essas coisas...
Eu não conhecia o Daniel antes de ele vir trabalhar aqui na Trip, mas nós tínhamos vários amigos em comum, e todos diziam que ele era um cara muito especial. A opinião dos amigos foi totalmente confirmada quando finalmente conheci o Daniel ao vivo. Grande sujeito, grande texto. Foi um privilégio tê-lo como entrevistador. (Por Calil)





