Enfim, me chamo Yurgem, tenho 25 anos e estou em um restaurante a beira do mar do norte. Estou com Ana, uma garota que conheci no trem ontem e que será a mulher da minha vida por alguns dias. Temos na nossa frente almofadas vermelhas, paredes amarelas, velas, garrafas com flores e um casal de amigos. São bonitos os dois.
Ana e eu acordamos tarde e saímos por aí. Pegamos o bonde e comemos bombom e depois passamos o tempo entre bater pernas e fotos. Não lembro de nenhuma. Ficamos horas dizendo merdas. Ana diz que gosta de chupar meu pau enquanto filosófo sobre qualquer coisa. Andando pelas ruas de Amsterdam, entro em uma livraria. Compro um Livro com capa vermelha, ali, prometo a mim escrever alguma história. Algo que eu sonhara, um escritor outsider, esperando a hora de ganhar uma grana com literatura barata on the road para poder fazer mais.
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Além do livro vermelho de couro, com folhas de papel reciclado, com escritos em arábe na capa, parecendo um livro de orações, compro também um jornal inglês onde leio a notícia que um comediante entrou na festa de aniversário do príncipe Willians. Foi o maior susto da família real inglesa nos últimos 20 anos. Antes um homem havia conseguido entrar no quarto da rainha. Acho uma grande bobagem, porque não tenho a mínima curiosidade em saber dessa nobreza ou melhor, realeza. Eu que sou brasileiro, que viajo com nada, com passaportes comprados, com uma maladragem de 200 anos de povo. Sei o que sei e aprendo com os olhos. Aprendo a ficar calado e ouvir sempre alguém que mente bem mais que eu.
Ana perde um tempo enorme, sentada ao sol de um dos canais esperando um barco de turísta que jamais irá passar. Sei que temos um encontro e cá estamos então, recuperando-se da chapadeira nesse restaurante colorido. Na nossa frente esse casal. Estão felizes, mas não sabem que logo logo, quando a festa acabar, quando os tambores cessarem e os djs recolherem o último bebado do lugar, eles irão brigar e não se verão jamais.
Assim é o mundo. Um descuido e já foi. Sobra apenas fotos e uma ou outra lembrança quando um cheiro faz reviver o passado. Assim é e será. Então gasto o que não tenho. Penso em transar com Ana ali mesmo, na frente dos amigos e sei que ela pensa o mesmo, mas não vai ser hoje que a Holanda irá conhecer nosso show. Hoje nós só vamos comer carne pagando 20 euros, comer batatas por mais 10 euros e mais 5 para cada cerveja.
Agora começa a festa na outra sala. Música eletronika, tambores, gente dançando com roupas de cowboys e apitos de uns gays frenáticos que se beijam na boca e riem um bocado de algo que não consegui pegar. Vejo Ana e ela está bebada, falando em holandes com umas mulheres bem maiores que ela. Ana é morena. Tem cabelos longos e escuros, com pele eternamente queimada de sol. Eu, não. Mesmo nascido no Brasil, sou branco desses que não adianta passar uma vida na Bahia deitado em Itapuã. Ela cre na paz do espírito se elevando em Buda. Eu acredito no poder dos Orixas, embora prefira não mexer com eles. Sei que existe mais entre céu e terra, e sei que se cada um ficar na sua, pouca coisa vai dar errado. A gente gosta demais de trepar. De dia, de noite, em banheiros sujos, elegantes, em aviões. Sei bem as minhas obrigações de macho e ela das dela. Para mim um homem deve muito.
A grandeza de um homem é estar sossegado consigo mesmo. Saber escutar o silêncio e entender o que dizem os sonhos. É sempre possível saber o que passa e o que vai passar. Não precisa olhos para isso, só é necessário esvaziar a mente e deixar brilhar a luz de dentro. Então, assim, vem dinheiro, trabalho, amigo, mulheres. Tive todas que quis. Tenho amigos e deixo o dinheiro sair do meu bolso escorregando porque assim ele entra também. Tenho aprendido a ser bom e dar. Sem esperar receber e tudo tem vindo de maneira tão ordenada e singela que parece fácil essa vida nesse tempo. E olha que é um tempo difícil, pouco emprego e muita gente. Gente que tem fome que confunde sexo com amor e gente que não sabe amar. O homem tem que aprender a amar e ser amado também. O homem deve ter determinação e coragem e não deve se preocupar em envelhecer. Deve o homem fazer exercícios físicos diariamente e trepar ao acordar e ao deitar, pelo menos. O homem deve carregar peso, abrir portas e ficar de pau duro sempre que a mulher quiser. O homem não deve peidar em público, embora muitos acham isso mito engraçado. Deve também respeitar os mais velhos, brincar com as crianças e plantar árvores, nunca derrubá-las. Um homem deve saber deixar as marcas, curar as feridas. Um homem ama e tem orgulho das cicatrizes, se um homem não tem cicatriz não é um homem. Porque de tanto fazer um dia a gente se quebra e devemos ficar quietos e calmos para que tudo cure. Saber curar-se a si e aos outros e passar segurança para todos que estão ao redor. Um homem deve saber mentir, ocultar as verdades, mas quando questionado deve ter a honra e a responsabilidade de dizer o que fez e por que doa a quem doer. Um homem deve saber cozinhar, deve saber lavar e não ter vergonha de chorar. Mas não deve nunca demonstrar medo. Um homem doma medos e cavalos. Bate em cães e solta passarinhos. Só deve matar para comer ou se defender. Um homem jamais pode deixar que lhe cortem o saco. Deve amar seu pênis como alguém amigo que vai lhe conseguir boas coisas. As mulheres amam os homens, mas sobretudo o pênis deles. Se um homem comer uma mulher como deve ser feito essa nunca vai deixá-lo. Do contrário vai viver triste, inseguro e humilhado. Então é melhor viver sozinho. Um homem deve conferir se as portas e janelas estão fechadas sobretudo a noite, deve saber trocar pneus e ir ao supermercado. Um homem não deve esquecer as chaves, nem os amigos e deve ser grato e retribuir aqueles que o ajudam. Então um homem deve saber sentar ao sol, tirar a camisa e não ter pressa. Um homem deve fazer muitas coisas, mas uma de cada vez. Um homem deve deitar a cabeça no travesseiro e dormir. Não deve fazer dívidas e deve ter a consciência do tamanho das pernas. Deve saber calar, falar e olhar. Um homem não precisa dizer o que tem, nem como conseguiu. Deve apenas sorrir e agradecer quando alguém elogia. Um homem deve saber distinguir um homem de um filho da puta e de uma mulher e uma aproveitadora. Deve saber que as mulheres devem ser putas na cama mesmo que não recebam dinheiro. Um homem não deve pagar para ter sexo. Um homem deve seduzir, descobrir os pontos fracos e fortes de uma mulher e deve saber escolher entre todas. Um homem deve separar a mãe e a mulher. Não deve procurar mãe nunca, mas deve querer ser pai e deve ter orgulho de tudo o que conseguiu e do que vai conseguir. Um homem deve reconhecer uma derrota e deve levantar assim que cair, assim o homem estará completo até para jogar futebol com os amigos. Um homem, enfim, deve saber dizer sim e não e ver que quanto mais sozinho, mais pronto estará para ser realmente quem é.
Mas agora o que importa é a festa. O desejo de ver a noite chegar. É verão na Europa, são quase dez horas e é dia. Uma fogueira é acesa do lado de fora. A música aumenta, o sol se coloca no mar, as pessoas gritam, tiram a roupa, deixam de estar parados para ser só um movimento de um grande corpo de baile fazendo coreografias ao redor do fogo. Se beijam duas mulheres, brigam nesse instante o tal casal e nunca mais se encontram. Saio com Ana caminhando até o estacionamento. A noite chegou. Está na hora de buscar um abrigo para dormir. Uma barraca, uma ducha. Amanhão sigo para Copenhagem e é provável que nunca mais a veja. MAs no fim, marcamos um encontro na quinta-feira, as 4 da tarde na ponte de candew town deveremos nos encontrar. Dormimos e no outro dia, com cara esmagada, amasada, sai cada um para o destino próprio. Sei que esse encontro nunca vai acontecer.
Então amanhece um dia terrivel, cinza. Pegamos os bonde até a estação central, mas descemos no meio do caminho para comprar cake. Comemos e terminamos nosso trajeto a pé até a estação. No trem para o aeroporto a gente transa no banheiro e saímos prontos para a viagem.
Ana está em Londres. Foi parar no bairro de Angel. Comeu Pizza por 5 pounds, bebeu cerveja por 4, desceu do metro e dormiu numa casa de amigos. Choveu muito todos os dias.
Tempo horrível, pub lotado e já disse: é verão. Alguns latinos jogam bola em hyde park onde Ana se entretem vendo as flores. Odiou os ingleses frios. Bebeu com os trabalhadores e acabou a tarde na tate galery vendo as obras de Pollack. Passou bem a vagabunda. Com pinta de intelectual, seduzido os londrinos, mas eles mal olhaval, porque a cidade é assim, só se encaram através dos vidros refletidos dos metros.
Eu acordei faminto. O café do hotel barato, perto da estação de trem de Copehagem havia acabo e saí vagando pela cidade. Caminhei zonzo, com dor nas costas e muito frio. Faz frio , mesmo no verão. Tem um grande festival rolando perto. Não tenho a mínima idéia do que fazer. Não sei bem como vim parar na Dinamarca. Tipos esquisitos passam por mim, velhos e crianças. Estou sentado no banco de um parque. Não sei que parque. As pessoas usam pouca roupa. Vem um vento gelado. Acabei de comer um sanduíche. Hoje tomei uma ducha quente nas costas. Fico pensando na capacidade de que o homem tem em se adaptar. A gente se adapta a tudo. Até a prisão. A falta de banho, a pouco comida, a viver sozinho.
Hoje é um dia que não falei com ninguém. Esses dias me são peculiares. Dias de silêncio e solidão. Dia de vento e alegria. Sinto uma profunda alegria por tudo. Por existirem velhos e crianças a passarem por mim, alegria por não saber o que fazer aqui e estar escrevendo passando frio no parque de Copenhagem. Vejo um lago e patinhos há uma grande estufa ao longe.
Acabei me esquentando num café. Estou lendo um livro de um cubano. Gosto dos personagens que estão famintos vivendo em uma Havana decadente. Não tem mais questões políticas a serem discutidas. Aliás, a política morreu. Vejo nosso caminho em direção ao caos. Cada vez mais tem gente sem emprego, sem comida. Cada vez mais tem gente nesse mundo e mesmo assim eu continuo amando as crianças, todas. Sonho muito em ter filhos. De perpetuar a praga humana nesse planeta. Esse planeta vai explodir de gente, vai faltar até água e mesmo assim vai existir gente que planta flores, que escreve poesia, que dança. Especialmente a dança e a música. A música feita pelas máquinas misturando os tempos. Lembro de pouco tempo atrás ter ido numa casa de santo ver o que havia acontecido com meu espírito e o preto velho me disse que meus pés estavam amarrados e ele desamarrou e falou coisas do tipo que eu sinto mas não expresso. Sim, não quero ser mais uma formiga a andar na fila. Quero deixar marcada minha passagem pelo planeta.
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Estava um dia um tanto chato, peguei um barco como um turista estúpido, visitei os canais e cruzei as pontes. Ao passar por uma área a guia falou alguma coisa como vender marijuana. Cheguei em christiana, um território livre de energia, música e viciados. Maconha, haxixe estavam expostos em bancas e havia um som do mais puro e antigo rock and roll. O pub ao lado chamava-se obvio, woodstock então fiquei ali um bom par de horas. Só levantei porque enchi o saco de ouvir um cara que plantava o próprio baseado e uma loira amiga dos vagabundos da rua que diziam gostar de dinheiro.
Caminhei e sentei num restaurante natureba. Então deitei num gramado ao lado dos muito loucos. Parece que aqui o tal sonho do mundo livre da juventude eterna, não acabou. Os velhos queimam enormes baseados ao lado das crianças que passeiam com os professores. Começa uma música africana, um freak loiro toca tambor. Tem uma pedra enorme escrito algo em alguma língua saxã. São saxões esses. Sujos, livres, bonitos. Fumam e não se importam. Cada um na sua e foda-se porque realmente eles não pensam ou não falam sobre isso. É bem provável que amanhã eu volte para cá. A não ser que amanheça um lindo dia de sol e eu vá até a praia nadar e colocar a energia do sol no corpo. Mas por hoje é isso. Caminhar pelas ruas da cidade estranha a mim e eu tão estranho a ela.
Sinto como se fosse uma mosca. Mas não incomodo, sou como um cão deitado em uma porta de escritório, tolerado pelo gerente só por se inofensivo. Leio meu livro de Fernando Pessoa, faço malabaris com devil stick e faço uns trocados assim, no meio da rua bancando o viajante mambembe. Juntei uma grana, o suficente para tomar uma tequila, comer um cahorro quente e voltar para o hotel dormir de novo.
No outro dia acordo cedo, o sol entra forte pela janela. Banho, bom café, trocar dinheiro, estação, trem. Estava indo para praia. Não sei porque acabo fazendo a mesma viagem. Sempre acabar na praia. Sim, esta talvez seja a praia mais distante que jamais cheguei. Não sei como é, mas deve ter mar e sol. Não importo em ficar lá mesmo se não houver mais ninguém, bem verdade é que se assim estiver melhor. Nadar mesmo que a água seja gelada e eu realmente penso que seja. O trem está no túnel não se vê o sol.
Desço do trem, caminho até a praia por muitos quilometros e durmo. Não existe areia aqui. Acordo enterrado sobre um pano indiano no meio de um gramado. Chapei no sol, olhei o mar. Que cara louco esse. Vem de tão longe para ver esse mar. Me sinto como um viking. Primeiro por ser loiro, ter barba clara, a pele branca e por ser alto, corpo de guerreiro, ariano, segundo pela história de ser muyen e eu inventei que muyen é meio viking. Solto no mundo, sonhador, conquistador de amigos, mulheres e dinheiro.
Claro que não significa ter uma vida bandida. Só que o lobo existe dentro da gente. Dormindo na espreita, só cuidando com meio olho acordado. Se precisar o lobo acorda então saia da frente porque o lobo parece manso, mas é brabo que só vendo. Não morre, pode levar muito, fingir de morto até, mas quando menos espera é ele que te levanta. Mas é bom mantê-lo assim quieto, calmo, sinal que não estamos precisando dele agora então o relacionamento fica manso como um cachorro mimado. Faz tudo o que pedem,gosta de boa cama, comida e o amor fiel e grato da cadela. A cadela é como o lobo, tem em si o lobo, por isso o cachorro a respeita. Agora minha dúvida é se a água esta gelada, embora esteja bem quente, vem uma brisa gelada do mar. Agora pude ver o outro lado da baia. Tem uma geografia linda, visto daqui parecem fileiras das falésias. Caminhei até o trapiche. Encontrei um marujo da Suécia. Disse que lá é melhor que aqui e me explicou caminhos por canais até chegar o mediterrâneo. Acho que essa deve ser uma boa viagem. O cara parecia legal, mas era tímido e esquisito. Vejo mães e filhos ao redor, é um lugar mesmo calmo, para relaxar. A água é fria, mas não gelada, é bem fria, mas vou nadar. Existem muitas maneiras de ficar alterado: álcool, drogas, sexo, fome, falta de sono, mas água gelada é uma das mais fortes.
Entrei no mar da Dinamarca e foi bom, mas foi horrível. A água era bem mais gelada do que parecia, mas os velhos entraram, uns quantos antes de mim. Notei que as mulheres sofriam menos com o choque das temperaturas. Os homens eram bem mais fiasquentos. Agora estou no trem de volta. São 1h15 da tarde de uma quinta-feira de junho, a última deste. Mas começo o verão aqui e a partir de agora começo a voltar a encontrar Ana. Onde foi parar aquela malua? Penso que com certeza essa realidade não existe. Então resolvo voltar para christiania e ficar deitado na beira do lago, olhando cisne com o sol forte, encravando no meio da relva. Flores e abelhas e muitos pássaros compondo o cenário para o cisne macho chegar. Coordenou os filhotes e fez a fêmea se inflar para ser notada. E eu escrevendo num livro vermelho, que parece mais um livro de orações e sim esse espaço é um livro sagrado já pelo que foi vivido e muito pelo que irá viver.
Chego outra vez em Christiana. Reflito sobre essas pessoas. Elas não sabem que o sonho acabou, ninguém avisou, ninguém contou que o dinheiro dominou o mundo e que tudo que diziam sobre o comunismo era mentira e tudo que diziam sobre o capitalismo era verdade. Agora esse lugar. Com gente que ainda se permite sonhar desde que você mergulhe na droga e deite chapado pensando o que era sonho mesmo? Acordo de novo num susto. Em duas horas está saindo meu avião para Londres e não quero perder meu encontro com Ana. As 4 da tarde, na ponte de Cawden Town.
Chego em Londres. Entro no trem. Desço na traguer square, tomo uma cerveja, pago 5 ponds. Vou até o Soho, passo por Picadilly Cirus. Como num mercado onde se vende sushi por 10 pouds Confiro as horas e pego a linha preta do metro. Londres é um metro para mim. Só me dou conta que estou na cidade quando sinto o cheiro do metro. Nào adianta olhar os parques, os palácios . Londres é um metrô e eu sou apenas mais um vagabundo do terceiro mundo procurando uma piranha que sumiu pela cidade dos reis de séculos e dos pretos de Brixton.





















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