Fizemos a volta na cidade até a Punta Pacífica, estávamos horas atrasados para o almoço.
Era aniversário de uma brasileira, vizinha de um casal que nos recebeu como se fôssemos hóspedes do Trump Ocean Club, o hotel de luxo ao lado da nossa morada temporária. Amigos de um amigo do Zagaia, que nos trataram como se nos conhecessem há anos.
Havíamos acordado às quatro da manhã para ir à fila da inspeção policial obrigatória para o despacho da Kombi à América do Sul. No Albrook, bairro da periferia de Panamá City, cinco carros estavam estacionados em fila, com o capô aberto para resfriar o motor até a inspeção.
Pelas seis estávamos suando, o trânsito movimentado, a poeira das obras da prefeitura no ar. O Zaga precisava de cópias de documentos e a polícia ale rtou para levar somente os centavos necessários no cyber café da esquina. Fomos liberados depois de 12 horas e vários dólares de taxas.
Conversando sobre os dois lados da cidade, subimos ao sétimo andar e tocamos a campainha do único apartamento. Com a porta de três metros entreaberta, conseguíamos ver o mar, o centro histórico e as três ilhas da capital.
Cumprimentei a todos e passei pela sala enquanto o marido da aniversariante, o canadense John Derby, explicava para o Emilio a origem das seis esculturas espalhadas pelo apartamento. Havia comprado cada uma por 30 mil dólares. O artista era um colombiano fascinado pelas formas femininas e a favorita de John era a da entrada: três corpos entrelaçados, feitos com centenas de facas apreendidas pela polícia da Colômbia.
As crianças rodavam pelo terraço com patinetes, levavam alguns minutos para uma volta completa. Quando passei pela sala novamente, John estava em um também. Careca, camisa branca com pequenas flores pretas, sorriso aberto e um olhar de maluco; em um patinete. Um cara muito massa.
Sentei em frente a piscina para conversar com a aniversariante e outros dois canadenses:
“O quê você quer beber, Felipe?”
“O quê tem?”
“Tem tudo.”
E tinha. A geladeira de aço parecia um cofre de banco.
Voltei com minha cervejinha e a empregada me levou um prato de macarrão
Os dois canadenses eram sócios, estavam montando um novo nightclub na cidade. Um deles vive em Panama City há cinco anos, mas não fala nem entende espanhol.
“Meus amigos todos falam inglês, mas eu passo por problemas quando vou em alguns restaurantes”, riu antes de tomar um gole de vodka com suco.
Começamos a conversar sobre a viagem: os gastos com a travessia, combustível, o tema do documentário.
“Mas vocês têm patrocínio?”
“Ainda não.”
“Vocês deveriam jogar poker com o John. Semana passada eu tirei US$ 2000 dele. Já tá me devendo 6000.”
Comecei a rir, no poker com os meus amigos o máximo que se perde é R$ 10.
“Hey, John, eles querem jogar com você!”, gritou o canadense.
“Querem mesmo?”, sorriu entusiasmado.
Poker contra milionários não está no nosso orçamento.
A provocação continuou e cinco minutos depois os dois estavam contando as fichas e ajeitando a mesa. Se John ganhasse, pagaria US$ 1500 e quitaria a dívida. Se perdesse, adicionaria mais 1000 ao que tinha que pagar.
“Mas além disso, John, se eu ganhar você dá US$ 1000 pro projeto deles. Se você ganhar, paga 1000 pra mim e dá 500 pra eles.”
Estávamos juntando dinheiro com amigos para pagar o combustível. Eles estavam brincando com dólares, mas nada ofensivo, só eram jogadores.
Ficamos na torcida para o outro canadense, mas ele perdeu a melhor de três. John tirou do bolso um maço de notas de 100 dólares e deu cinco para o Emilio. Mais que o dobro do salário mínimo no Panamá.
Começamos o dia às quatro, pagando taxas no bairro mais pobre de Panama City. Terminamos o dia às 10 ganhando dinheiro em uma partida de poker que nem jogamos. Voltamos a conversar sobre os dois lados da cidade, a vida é bem mais fácil no sétimo andar. Pessoal do Albrook, sobe lá e toca a campainha do único apartamento.
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FELICIDADE!