Não sei porque este texto demorou tanto para ser escrito. Talvez seja uma prova de que deixamos de lado o que amamos pelo trabalho ou então preguiça. Talvez eu não quisesse que esta viagem terminasse e às vezes eu sinto que ela não terminou. Cruzamos a fronteira do Uruguai com o Brasil no dia 31 de julho, a chegada não foi como prevíamos.
***
Acordei, abaixei o teto retrátil e guardei os lençóis. Coloquei dois casacos, saí da Kombi e o Zagaia estava agachado, sem camisa, mexendo no motor. Limpou a testa com o pulso e mostrou a vareta do óleo.
“Quanto a gente tem de grana, Felipão?”
“Quase nada, talvez o suficiente para uns dois dias.”
“Tenho que comprar óleo. Mas tamo chegando irmão, tamo chegando.”
Metade do dinheiro que usamos nessa viagem veio de doações ou parcerias, a outra metade foi dinheiro do Zaga, que ele juntou por dois anos organizando festas em Londrina, em um salão na chácara dos pais, o lar mais feliz que eu conheço. Sei porque fui em uma festa, e vi a mãe do Emílio, Dona Léa, passar para ver o que o filho estava fazendo e ganhar um abraço e um beijo. Ele segurou até ela começar a rir e gritar um “toma jeito, moleque!”. Largou para ir até a cozinha dar um beliscão na bunda da prima-irmã Thais, que devolveu um tapa na mão e alguns xingamentos, se segurando para não rir. Seu Dácio recém tinha voltado da capela e parou na porta com seu copinho de cachaça para falar com o sotaque mineiro: “esse moleque não toma jeito mesmo”.
Zagaia trocou o óleo e ligou a Kombi. Bati a tampa do motor e entrei. Câmera na mão para gravar o final de dia quando estivéssemos chegando a Montevidéu. Dormiríamos lá, mas só estacionamos, caminhamos pela rua principal e voltamos para a Caipirinha.
“Vamos tocar direto até Punta Del Leste.”
Giramos pelo asfalto da cidade estilo-Miami até encontrar um lugar para estacionar e dormir. A Kombi ficou em frente à lanchonete onde usamos internet por umas duas horas. Meu computador estava com problemas, então esperei o Emilio falar com os pais para eu aproveitar o final da bateria para dar o recado para a minha família: “Estamos chegando”.
Sempre fui grudado na minha mãe. Sou o mais novo de três homens, acho que é normal o caçula ser mimado. Pareço com ela e tem muito dela em mim, e pensei nela sempre que me faltou conforto durante a viagem. Me Lembro de um almoço que meus irmãos rasparam o prato de arroz e carne e eu nem toquei na comida, queria comer na lanchonete daquela rede onde a Kombi estava estacionada. Como bom pai, o meu ficou contrariado porque minha mãe me levou. Ela assistiu eu comer um hambúrguer e disse: “Come hoje o que tu gosta, eu sempre gostei de arroz e carne e às vezes na casa da vó não tinha”.
Acordamos e fomos de Kombi gravar nas praias de Punta. Me senti em casa quando encontrei uma amiga em frente ao Monumento ao Afogado, a famosa mão saindo da areia. A Bruna e o namorado foram correndo até a Kombi para tirar uma foto: estávamos ao alcance das viagens de namorados. E a minha estava me esperando, eu queria chegar.
Conversamos com o casal por meia hora. Queríamos saber um lugar barato para comer e uma praia no caminho para dormir. Enquanto eu tirava fotos deles no monumento, me disseram para ir a La Paloma e Punta Del Diablo. O Zagaia quis ir a La Paloma, já tinha ouvido falar que seria um lugar tranquilo para estacionar na beira da praia. Nos despedimos do casal, gravamos mais umas cenas com a Kombi passando por uma ponte com duas subidas e descidas, e fomos comprar mais atum.
O cartão de viagem estava zerado. O indicador de gasolina do painel não funciona, e só paramos para calcular que ficaríamos sem combustível no meio do caminho. Estava anoitecendo e havíamos pegado o desvio para a praia quando a Kombi parou.
“Acabou a gasolina?”
“Não, vamos voltar e tocar direto, senão amanhã não vamos ter como abastecer nem comer.”
Zagaia fez a volta, diminuiu o volume e começou a dirigir concentrado. Não era a primeira vez: no dia do aniversário de 40 anos dele, no Perú, já havia ficado assim.
“Reza, Felipão, reza!”
Juntamos moedas e colocamos dois dólares de gasolina. Chegamos ao Chuy, última cidade do Uruguai.
O Chuy uruguaio é misturado com o Chuí brasileiro, com placas em espanhol e português. Conseguimos chegar a tempo antes dos bancos brasileiros fecharem. Saquei dinheiro para comermos bem em um restaurante, tínhamos que decidir o que fazer, não teríamos dinheiro para levar a Kombi até Londrina. Eu estava acabando de comer e o Zagaia não tinha nem tocado na comida.
E mais uma vez, uma família nos acolheu. Agora uma família brasileira. Guardamos a Kombi na garagem e dormimos na casa da Nadima e Ulisses Gonzalez. Almoçamos e jantamos com pessoas que não nos conheciam e nos ajudaram. A chegada não foi como prevíamos, não teve festa, não teve Kombi, mas mesmo assim foi incrível.
A família Gonzalez ficaria com a Kombi até que juntássemos dinheiro para terminar a viagem. Eles nos levaram até a rodoviária, voltaríamos mesmo sem ela. No caminho, o Emilio dormia e eu pensava em comer arroz e carne com a minha mãe, em abraçar minha namorada, conversar com meus avós, brigar com meus irmãos. Refiz toda a viagem na minha cabeça, de Tulum ao Brasil. Conhecemos pessoas incríveis. Queria voltar e compartir um peixe com o Renê, no México; comer no chino com o Ty, em Belize; andar de Fusca com Karlita e Panchete, me emocionar com Victor, Wendy, Junior e ver que a Cidade da Guatemala nem é tão perigosa assim; jogar poker com John na casa do Remi e da Ana Cecília, conversar com um pirata no Panamá; reunir as Kombis na Colômbia; conhecer a história do Seu Alfredo, no Equador; ir para o bar com um motoqueiro mucho loco, no Peru; fazer turismo com a Maranhão, em Santiago; fazer festa com Diego e Paola, na Argentina; comer um assado com o William, no Uruguai; ir no cinema com a Mariana, no Brasil. Depois, seguir viajando com Emilio Zagaia, um cara que entende muito sobre ser feliz.
Reuni todos em uma só foto, na minha cabeça. Entendi o que é felicidade. Ainda sinto que a viagem não terminou.
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FELICIDADE!