Revista Trip

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Postado em 29.09.2010 | 09:09 | Luiz Mendes
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HUMANIDADE

 

Há tempos atrás fui a uma prisão feminina. Lá estavam as mulheres aprisionadas que se tornaram mães enquanto presas. A lei dizia, na época, que elas tinham o direito de ficar com seus filhos por seis meses. Havia 56 mães e 56 nenês, sem gêmeos. Compúnhamos uma equipe do Instituto Ecofuturo. Estávamos ali para, dentro do projeto “Brincar de Ler”, oferecer livros para as crianças e as novas mães. Era dia de visitações e lá estavam seus outros filhos e familiares, além, é claro, dos nenês.      

Ao chegar, fiquei inseguro. As companheiras da Ecofuturo, como mulheres e mães, rapidamente encontraram caminhos de aproximação, segurando nenês. Logo já estavam atraindo a criançada toda para o nosso pequeno núcleo. Esparramamos livros, cada um mais interessante e bonito que o outro. Os pequenos foram se servindo, sem cerimônias.

Vencido o primeiro impacto, peguei um menininho e o livro que ele folheava: seus olhos pediam que alguém lesse. A gente vai aprendendo a ler para criança a cada dia. Exige apenas sentimentos claros e sorriso sincero. É absolutamente necessário esquecer os problemas da vida. A criança observa atentamente. Mesmo que não nos olhe, estamos muito importantes para ela naquele momento.

Logo já vieram outros com os olhos abertos como doces girassóis. O universo infantil é comovente: há luz muito forte e uma lucidez única. Foi difícil me dirigir até as mesas. Não podia invadir. Por serem mães, deduzia-se que seriam mulheres comprometidas. Havia regras, particularmente para mim que as conhecia sobejamente. Não tenho direito de errar em uma prisão. Mas, estava ali para realizar meu trabalho e a curiosidade era maior que a prudência.

Queria conversar com as mulheres. Convencê-las da importância de ler para seus filhos desde nenês. Falar das pesquisas atuais que demonstram que as crianças que entraram em contato com o livro desde pequenas aprenderam a ler com prazer. A vontade era tamanha que consegui ultrapassar o bloqueio e destravar.

Então ficou fácil convencê-las. Todas tiveram imensas dificuldades para aprender a ler. São provenientes das faixas mais pobres da população. Ninguém se preocupou em ler ou apresentar livros para elas. Foi só dizer: se não querem que seus filhos sofram as mesmas dificuldades que tiveram, leiam para eles desde já. Eles não entendem a linguagem das palavras, mas conhecem a linguagem do coração. Ainda fazem parte do coração da mãe. Sentem o que elas sentem ao ler e registram para o futuro.

Estávamos com muitos Passaportes da Leitura. É um livrinho muito interessante. Orienta sobre a importância da leitura para crianças e como fazê-lo. Entusiasmei, criei coragem e fui de mesa em mesa. Pedia licença, distribuía o Passaporte e conversava sobre a importância do que ali estava escrito. Os visitantes pediam mais para levar para parentes e amigos com filhos pequenos. É muito fácil convencer mães sobre qualquer coisa que possa beneficiar seus filhos.

Saímos de lá definitivamente abençoados. Fizemos nosso trabalho, participamos, rimos e choramos com as mães e seus nenês. Algumas delas com seus bebês já chegando ao tempo de entregar para a família ou para os abrigos do Estado... Estas ultimas, se demorarem muito presas, seus bebês serão encaminhados para adoção. Oferecemos o ombro, os olhos e a lágrima, nesse breve momento humano, para chorarmos juntos.

A verdade se faz de fatos e não de palavras, já ouvi dizer. Mas são as palavras sempre carregam os fatos para frente.

                                   **

Luiz Mendes

28/09/2010.

         

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Postado em 27.09.2010 | 10:09 | Luiz Mendes
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FICÇÃO

 

Faz algum tempo que cheguei. Dias inteiros de vivências enormes. Sonhamos mais trinta anos juntos e agora aconteceu. Esta acontecendo realmente. Não mais amo solitário no canto de minha cela. Amo aqui, agora e a todo momento.

O último pensamento antes de dormir e o primeiro ao acordar sempre foram teus. Agora você não é mais apenas emoção que me alimenta. É verdade que sinto com todos os meus sentidos. De manhã, seu calorzinho me acorda. Um leve torpor me toma, meus olhos se fecham de prazer.

Não foi nada fácil. Foram trinta anos de angustiosa espera. Construindo caminhos, apesar dos destinos, querendo voar até você, sem ter asas. A claridade revela o rastro de dor que fui deixando para trás. Vivi como se não pudesse desistir. Ficou no passado, embora tão presente, porque sofremos tanto para alcançarmos essa alegria...

Cada momento juntos tem significação especial. Eu te olho e enxergo o que sonhei. Seus olhos me sorriem o brilho de sua alma aberta. Você abriu a casa, a vida, o corpo e, como lua cheia, derramou tua luz por sobre minha vida. E quando enfio os dedos pelos teus cabelos, você pede que não o faça. De tanto que ponho a mão, já acabei com o caimento natural. Não consigo resistir. Meus dedos são sóis digitais a te comunicar a alma de dentro. E fico a olhá-la, abobalhado, seduzido pela tua figura tão amada. 

Um dia perguntei: até quando o destino terá paciência com essa nossa mania de amar de longe? Percebo que se soubesse que um dia seria como tem sido, não doeria tanto. Esse pouco tempo de convivência recuperou décadas de desamores. Hoje tenho a alma viva. Sofrer foi brinquedo de aprender. Já é difícil pensar que um dia houve dor. O que resta é vontade lutar na certeza de que tudo esta ao alcance de meu esforço, como sempre esteve.

Meus parabéns! Você tem sido o que disse que seria. Aqui fica grafada minha promessa de, em troca, construir o melhor de mim para você. Não tenho sido tudo o que esperava. O coração diz que poderia ser melhor. Prometo a você que me esforçarei mais, você merece o melhor.

                      *

Bem que eu queria que fosse assim. Liso, branco e fácil. Mas são apenas sonhos de uma alma só e perquirida.

                      **

Luiz Mendes

27/09/2010.                

           

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Postado em 24.09.2010 | 17:09 | Luiz Mendes
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Salve a Vida!

 

Neurocientistas dinamarqueses provaram que, durante o orgasmo, as mulheres desligam as partes do cérebro que regulam o medo, a ansiedade e o controle emocional.

Há quem defenda que esses estudos e pesquisas estão provando o contrário. Que o desligamento dessas áreas cerebrais pode condicionar o orgasmo feminino. Não é o orgasmo que leva ao desligamento. É o desligamento que possibilita o orgasmo.

Afirmam que nada podem dizer sobre os homens, por conta da rapidez do orgasmo masculino. Seriam necessários pelo menos dois minutos de clímax para captar alterações no cérebro durante o orgasmo.

Elas são diferentes, não há como negar. O tesão delas esta diretamente vinculado aos sentimentos. O orgasmo feminino é muitas vezes superior, em tempo de duração e explosão físico-emocional, que o masculino.

Sabe-se lá ao que esta vinculado o orgasmo masculino. Há quem afirme que apenas à rigidez. Excitou, o sangue corre para as paredes cavernosas, ensandecido. Com aquilo pressionando, só nos resta a busca desesperada do orgasmo. Todo homem vivido tem histórias escabrosas para não contar.

Claro, sabemos que com amor as diferenças são resolvidas com absoluta tranqüilidade. O eixo da relação é a completude, tudo tende a estender e casar. Mas quem tem amor de verdade e até quando? A necessidade de amar é tamanha que às vezes engana. Que nada é para sempre, foi a grande sacada da segunda metade do século passado. Resta saudar: Viva a individualidade e a diversidade dos relacionamentos!

                             **

Luiz Mendes

24/09/2010.

 

 

 

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Postado em 23.09.2010 | 16:09 | Luiz Mendes
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Nosso Professores

Quando afirmo que as crianças são nosso professores algumas pessoas torcem o nariz. “Lá vem o Luiz com seu romantismo...” E só me ouvem porque se iniciei, vou falar mesmo. Não tem perdão. Identifico-me como escritor mesmo por isso: tenho necessidade de falar, esmiuçar e saber tudo. Como ninguém tem tempo ou paciência para me escutar, escrevo. É triste de admitir, mas ler o que escrevo é mais legal do que me escutar. Eu mesmo sinto isso.

É óbvio que não seria pelas “aulas” que as crianças possam nos dar que enuncio que elas são nossos professores. Se bem que os meus me saem com cada uma, às vezes... Fico esnucado no canto da mesa. Disfarço, faço cara de pensador e peço para refletir a respeito. Isso quando não jogo as cartas na mesa e digo que não sei, fazendo cara de espanto.

Mas o ensinamento ao qual me refiro não parte delas. Elas são o alvo. Ensinam, principalmente, que a vida carece de cuidados e delicadeza para se desenvolver. Ficamos delicados. Estendemos a sensibilidade para a ponta dos dedos, da voz, do olfato, dos ouvidos e outros sentidos que nem sabemos como nominá-los de tão surpreendentes. Ficamos graciosos, pagamos micos aos montes e com prazer. As mães então nem imaginam o quanto podem estar sendo ridículas “imitando”, dando voz ao nenê.

A gente não fuma, evita beber perto de criança. Droga então não combina com criança, pai, mãe, essas coisas. Só os “nóias” insistem. Acabam perdendo direito aos filhos e tudo o mais. Conselho Tutelar talvez seja uma das poucas coisas que podemos aplaudir nesse país. Não se discute na frente de criança. Só quem não tem noção do que esta fazendo, na hora da raiva, comete tal despautério. Conversamos em código perto de crianças para que não entendam as besteiras que nós adultos falamos.  

As pessoas buscam estarem calmas e paciente perto de crianças. Evitamos até falar palavrão perto delas. Observamos as crianças com olhar protetor. Talvez não tanto para aquelas crianças que dormem nas calçadas da cidade. Provavelmente por isso elas estejam naquelas condições de descuido absoluto, apagadas como seres sociais e humanos.

Diante tantas formas de ensinamento que a vida nos cerca, preocupo-me em como ainda posso estar tão estúpido, ignorante e deselegante. É exasperante!

                                   **

Luiz Mendes

23/09/2010.

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Postado em 22.09.2010 | 09:09 | Luiz Mendes
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Não  Esqueça!

 

Esses dias ouvi algo assim: “Não confie em ninguém. Mas se encontrar alguém em que possa confiar, compre-o: ele vale ouro!” O pensamento se contradiz: como encontrar se nos aconselha a não confiar, logo de cara? Que tal as pessoas não confiarem em nós? Não é nem um pouco legal, não é mesmo? Às vezes passo por tal desrespeito. Pessoas não confiam em mim pelo meu passado de bandido. Não gostam de me levar na casa delas. E eu, puxa, sei que sou um homem firme. Luto insanamente para cumprir com meus compromissos e minha palavra. Nem sempre consigo. Meus parabéns quem consegue. Sou apenas humano.

Sei que tenho algum valor. As pessoas que realmente me conhecem estão sempre comigo. Só não aceito que queiram me comprar. Não estou à venda. Também não valho tanto assim, não se engane. Ouro é muito caro, gosto mais de prata. Tem mais a ver comigo.

                               *

Outra coisa que não posso deixar de dizer é sobre essa máxima dos tempos atuais: “Tempo é dinheiro”. Não podemos esquecer que ela foi produzida ficcionalmente pelo marketing. A intenção era criminosa, tem algo a ver com aqueles famosos e quase inacreditáveis contos do vigário. Os vigaristas vendiam o Viaduto do Chá, a Estátua da Liberdade e até o ar que respiramos. Alguns marqueteiros, vigaristas do século XXI, querem, com tal enunciado, nos vender o tempo.

O que ocorre é que, na verdade, tempo é ausência de dinheiro. Não temos tempo pra quase nada além do que já fazemos. Fomos, mais uma vez, vilmente enganados. Porque não temos mais tempo para negociar com dinheiro. Nosso tempo foi vendido à nossa revelia e nós nem vimos a cor do dinheiro. Geralmente quem tem tempo não tem dinheiro, salvo raras exceções. Quem nos terá vendido?

                               *

Aqui em nosso país, infelizmente, usamos mais a palavra para esconder do que para mostrar. Escrevo para revelar, para esclarecer e para refletir junto. Para mim, conseguir um bom texto é quase como ganhar uma batalha, ser vitorioso de repente. Vivo me surpreendendo com o que escrevo. Sou meu leitor admirado. Claro, consciente de que a luta continua; amanhã é outro texto, outra batalha.

De repente um bom texto é como um sorriso assim meio de lado, velado de satisfação comigo mesmo. Um prazer todo pessoal e intransferível. Principalmente quando tenho consciência de que acertei a mão. Fica um vago olhar, daqueles que se perdem na degustação do que se fez.

                                 **

Luiz Mendes

20/09/2010.  

 

 

//Mundo livre

Por Luiz Mendes

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