Revista Trip

 
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Postado em 20.11.2009 | 09:11 | Luiz Mendes
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FRASES

 

O que conhecemos de nós é o mesmo que um sopro é para a ventania

                                               - x –

 

De mim só conheço pontas e arestas. Careço de espelhos para reconhecer meu lado de fora. Porque, entre o alvoroço e remanso, não me ouço e nem me alcanço.

 

                                                - x –

 

A vida, de repente, desaparece e só sobram as coisas que nos faltam.

 

                                                - x –

 

Sei que a vida é simples assim, apenas queria que o tempo que me reste seja aquele que espero.

 

                                                - x –

 

Às vezes, gestos contidos remetem a bloqueios que ameaçam violar a hora ainda não existida.

 

                                               - x –

 

No rosto, esse vento moleque com ares de molhado, que faz de meu dia um chinelo largo que descansa em pés cansados.

 

                                                 - x –

 

Liberdade após tantas décadas de prisão é o mesmo que saber, de repente, que se vai morrer. A vida assume uma tal importância, as pessoas e as coisas ficam tão mais belas e tudo ultrapassa o vivido até então.

 

                                                 - x –

 

Às vezes as mãos deslizam calientes carícias qual desorientados ventos a voar borboletas ansiosas...     

 

                                                 - x –

 

Viver é um êxtase que erradica toda dor e torna sem importância a dor que não puder erradicar.

 

                                                  - x –

 

Os que prosseguem não são os mesmos que seguem e ambos não são como os que abrem caminhos.

 

                                                   - x -

 

Tudo que em mim é menor, me compromete a tornar maior.

 

                                                   - x –

 

Um homem com uma história como a minha, não se arrepende de mais nada. Viveu doces ou terríveis paixões. Conheceu mil esperanças que a noite apagava para que a manhã acendesse. Não tem mais mágoas nem tão pouco traumas. Nada mais lhe pertence e a vida nada mais lhe deve.

 

                                                  - x –

 

Reverencio as folhas que o vento rodopia no ar antes de depositá-las no chão para que cumpram seu papel de fertilizar a vida.

 

                                                   - x –

 

Uma árvore florida não tem tempo de observar o mundo de concreto que a cerca. Esta ocupada com seu tempo de amar, de produzir excitações, pois é curto o tempo de fertilização.

 

                                                    - x –

 

A vida que nos cerca já não é mais nossa companheira. Hoje só conhecemos plantas quando semi mortas na banca da feira ou na gôndola do supermercado.

 

                                                     - x –

 

Eu não termino em minha pele. Estendo-me às pessoas, às plantas, aos animais, aos livros, ao espaço sem fim.

 

                                                     - x –

 

Se é que existe quem conheça a si mesmo, provavelmente deve estar muito infeliz, querendo voltar à “santa” ignorância.

 

                                                      - x –

 

Sempre que olho no espelho fico com a maior vontade de rir daqueles que me admiram.

 

                                                      - x –

 

Às vezes acredito que não é possível nos enxergar tal como somos porque não há auto-crítica que ultrapasse o desespero humano por ser feliz.

 

                                                       - x –

 

Luiz Mendes

20/11/2009.

 

 

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Postado em 18.11.2009 | 11:11 | Luiz Mendes
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DROGAS

As drogas na história da humanidade parecem ser tão antigas quanto a busca pelo prazer e satisfação de viver pelo homem. O que é realmente novidade é a proibição que se iniciou a bem menos de um século.

 

A guerra contra as drogas, sem dúvidas, esta falida. Não acabou com o comércio e muito menos diminuiu o consumo, apenas diversificou e construiu um marketing que deu certo. A tal guerra esta desmantelando a confiança que as pessoas tinham nas instituições como a polícia e a justiça. O episódio do roubo dos 22 fuzis e 89 pistolas do Centro de Treinamento Tático no ABC paulista, é bem representativo. É o Centro de treinamento de tiro da polícia e a suspeita é de que policiais participaram do crime. Tanto que as investigações e a formulação do inquérito esta nas mãos da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo. Hoje a manchete nos jornais é que dois desses fuzis, oito meses depois do roubo, foram pegos com traficantes de morros diferentes do Rio de Janeiro. Tudo leva a crer que as vendas foram esparramadas e pulverizadas para resultarem. 

O traficante possui imenso poder de informação sobre as forças oficiais que o ataca. E este não esta nos fuzis, granadas ou soldados (figuras novas também no cenário nacional) que possa ter ou controlar. E sim esta na fragilidade humana e na má formação dos policiais que o atacam. Corrompem e controlam com a facilidade. As armas são para se defender de concorrentes e milícias, ou para atacá-los.

A guerra contra as drogas apenas agregou violência policial, chacinas, torturas, balas perdidas (figura nova que vai gerar muita cena de novelas, filmes e seriados) e barbarismos ao processo. Gerou mortes, assassinatos e todo esse enorme trauma  na espécie humana.

 

Os Estados Unidos é hoje campeão mundial, após décadas de guerra às drogas, em termos de tráfico e consumo de drogas ilícitas. E foram eles que centralizaram e programaram a War on Drugs.

O jornalista James Mills afirma que os habitantes da Terra gastam mais dinheiro com drogas ilícitas do que com alimentação ou qualquer outro item de sua necessidade de sobrevivência.

 

Esta se chegando a um consenso universal de que a proibição às drogas, além de ser um mal pior que as próprias drogas, já que provoca corrupção, extermínio e violento trauma geral, é um enorme desperdício de energias e investimentos.

A legalização das drogas é sim uma solução de mercado porque arruína a economia dessa atividade ilícita. De verdade o que se trafica não são as drogas e sim a proibição.

 

Acredito que a legalização das drogas passa por diferentes motivações além dessas de mercado que sempre levantam suspeitas. Mercado visa lucros e dividendos e não a melhora e aperfeiçoamento do gênero humano.

Acho que a mais interessante delas é a análise lógica dos resultados. Colocar de um lado da balança, as mortes, as prisões lotadas de jovens e esse sofrimento todo. Do outro lado da balança colocar os questionáveis benefícios que traz a proibição. Alguém deixou de usar por causa disso? O inventores dessa guerra poderiam chutar dizendo que se não fosse a proibição deles, o mundo já teria sido dominado pelas drogas. Não sei, porque os cientistas afirmam que o que se vende é a proibição e não a droga mesma. E ai?

Do que sei, a criminalização das drogas jamais resolveu o problema, apenas recrudesceu seus efeitos mais perversos. Os derivados da cocaína que matam muitas vezes mais, como o “crack”, foram inventados a partir da falta de química (acetona ou éter) para a purificação e cristalização daquela droga. E foi o combate às drogas que obrigou os governos a fiscalizarem mais de perto a produção desses derivados do petróleo.

 

Não tenho uma solução para a questão. Acho temerário emitir qualquer opinião sem conhecer todos os problemas que envolvem. Mas a proibição já se provou como solução falida, que não resulta no fim do consumo das drogas. Penso, assim talvez levianamente, que enquanto o homem ainda vagar angustiado e agoniado em seu vir a ser tão complexo e muitas vezes tão sofrido, as drogas existiram. Acho que as drogas existem e são assim tão desesperadamente consumidas pela própria frustração humana em sua busca por uma felicidade inexistente. Há que haver um paliativo, uma muleta, uma escora, uma estrutura qualquer para que possamos nos defender disso para que consigamos ir vivendo. Não podemos esquecer que o álcool é a pior das drogas e que esta ai para qualquer um, ao preço mais acessível possível.

                                                         **

Luiz Mendes

18/11/2009.   

 

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Postado em 16.11.2009 | 10:11 | Luiz Mendes
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DEUS ME PERD0E

        

            Eu corria. Subia calçadas atropelando pessoas, ultrapassando tudo à minha frente. A moto, embora não fosse possante, era rápida e bastante maleável. A polícia vinha atrás. O vento frio trazia o escândalo de suas sirenes. O trânsito estava congestionado. Carros se arrastavam quais baratas tontas pelas ruas e avenidas centrais de São Paulo.

            Suava, as mãos escorregavam nas manoplas. Os soldados chegariam atirando para matar. Estavam preparados para isso. Não me renderia. Morrer era melhor que voltar para prisão. Precisava fugir do trânsito e tomar outro veículo. Carro. Estaria mais protegido e teria maiores chances.

            O assalto fora frustrado. A casa caíra. O segurança do doleiro a quem fôramos assaltar, reagira decididamente. O tiroteio se dera em plena ilha da Avenida Paulista. Meu parceiro caíra baleado no meio da rua. Provavelmente já morto. Policiais militares foram chegando. Fugi na primeira moto que vi por perto, debaixo de chuva de balas.

            Nem tivera chances de atirar e fora ferido. A perna direita queimava, as costas ardiam. Não parecia grave. Não dava para ter certeza. Pelo menos não quebrara nada. Tudo estava funcionando bem. Só me sentia perdendo forças rapidamente.

            Pronto, já saíra do centro novo da cidade. Seguia a Avenida Angélica. As sirenes gritavam ao longe. Qualquer carro já interessava. À direita, um colégio.  Alguns carros estacionados em fila dupla. Escolhi um que manobrava para encostar, o que me pareceu mais veloz.

            Subi na calçada.  Derrubei uma moça que vinha ao meu encontro e prossegui. Nem olhei para trás. A mulher acabara de estacionar o monza branco. Quando foi tirar a chave, quase cai da moto na janela do carro. A arma já estava apontada para sua cara. Ela estava treinada. Quando entendeu que era um assalto, deu com a chave no contato. Insisti veementemente, quase enfiando a arma cara adentro dela. Precisava do carro. Algo iluminou em seus olhos e ela parou, como que transpassada por corrente elétrica de alta voltagem.

            Só então vi o menininho. Tinha cerca de 3 a 4 anos. Estava colado na porta do passageiro. Seus olhos eram redondos, o pavor o dominava. Tremia e parecia querer entrar na porta. Senti meu pé afundar no tênis encharcado de sangue, ao buscar equilíbrio. Meu coração estava explodindo, tudo me doía. A perna, as costas, os olhos daquela criança, a mulher querendo protegê-lo. Desisti, não podia. Não dava.

            Dei no pedal, a cabeça fez uma volta, quase cai, mas acelerei e segui em frente, calçada acima. Sabia que minhas chances haviam diminuído. Perdia forças. Na moto, dificilmente escaparia. Algo me levava, eu me sentia leve, era como uma brisa a me soprar para frente. Quando acordei, estava no hospital, cheio de dores e algemado à cama. Vivo, estava vivo.

            Os anos se passaram. Hoje, década e meia após, depois de transferência abrupta de prisão e seis meses inteiros de saudades, fui receber meus filhos. Haviam vindo me visitar. Ao adentrar à gaiola, formada por barras de ferros, o menor assustou-se. Aproximei-me, sem que pudesse me perceber. De repente, eram aqueles mesmos olhos redondos e apavorados que me perseguiram por dentro da consciência, anos a fio.

            Meu coração apertou, uma mágoa me subiu. Nisso a porta da gaiola foi aberta. Ele me avistou, começou a chorar e correu para meus braços. Recebi-o no ar. Encostei ao rosto e fiquei ali, estupidificado, querendo chorar e sem conseguir, tamanha a dor. Meu filho e aquele menino que eu assustara, eram a mesma criança. Um pai é pai de todas as crianças do mundo. Deus me perdoe.

                                                                                                                     

             Composto por Luiz Mendes em 21\04\2002.   

 

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Postado em 12.11.2009 | 15:11 | Luiz Mendes
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Curtas sobre o amor

 

Considero o amor que vivi (não sei como os outros viveram os seus; novela não vale) muito parecido com o conceito morte. Amar nos faz sair de nós e dar o que há de melhor em nós, até nossa vida, sem sequer pensar em ganhar nada em troca.

 

                                                       - x –

 

Ciúmes não é amor. É posse, é fazer do outro objeto de nossa vontade. A possessão ciumenta é bem ao contrário do amor porque reduz o ser alvo às nossas dimensões. Tende, naturalmente e por pressão, destruir no outro o que há nele de diferente de nós. Amar é fecundação recíproca e não empobrecimento existencial.

 

                                                        - x –

 

Amar um homem ou uma mulher é ir de encontro a um novo e imprevisível futuro. Não sabemos amar sem esperança, sem futuro, porque amar é essencialmente projetar-se.

 

                                                        - x –

 

Felicidade e omelete a gente faz com o que se tem à disposição. Se formos exigir melhores ingredientes, podemos não dar valor ao que temos. O problema é da carência ou da urgência da fome. Claro que se formos capazes de esperar, podemos construir uma felicidade mais segura, assim como aguardar para fazer uma refeição mais completa. Mas quem pode esperar para ser feliz ou matar a fome?

 

                                                     - x –

Luiz Mendes

12/11/2009.      

 

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Postado em 11.11.2009 | 09:11 | Luiz Mendes
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Perguntas

 

Aqui e agora quero fazer seis perguntas que não sei ainda como responderei. Tentarei fazer o melhor, porque acredito nessas perguntas. São dessas que revolvem por dentro, fazem pensar, imaginar e ir longe. Vamos a elas sem mais conversa fiada:

 

1)       O que nos poderia fazer sentir que a vida é boa, bela e digna de ser vivida? 

R.  R.: Acho que nem todo mundo pode dizer isso de sua própria vida. E mesmo não creio que a vida possa ser boa, bela e digna para nós o tempo todo. Ou ainda então: a vida em si é boa e bela, nós é que não sabemos aproveitá-la. Mas o sentimento que desenvolvemos em relação às pessoas, aos animais, às plantas e ao que nos rodeia, creio preenche a vida de significados. Acho que a nossa única chance esta na expansão, em preencher nossa existência de motivos diários, a cada hora e minuto. Talvez desse modo consigamos sentir que a vida é boa, bela e merece ser vivida.

 

2)       A vida que queremos depende do que a gente faz?

R.: Acredito que em uma elevada proporção as coisas se dêem assim mesmo. A nossa vida vai dependendo do que a gente faz de nós. Mas existem as contingências e as convergências. Nem sempre aquele que mais se esforça é o que mais recebe e nossas escolhas nem sempre foram as mais nobres.

   

3)       Qual o melhor conselho que você já recebeu em sua vida?

R.: O de ler e estudar. Quando jovem rejeitei agressivamente. Acabou dando no que deu: a ignorância me levou a mais absoluta estupidez e a conseqüência foi mais de 30 anos aprisionado. Perdi a juventude e, de quebra, ganhei a velhice. Só então pude entender o conselho e segui-lo. Lendo e estudando o que lia, fui adquirindo outros valores, conhecendo novos mundos, costumes, culturas e percebendo a diversidade humana e que eu não era o centro do mundo. Daí a dar o salto triplo mortal para uma vida mais coerente e objetiva, foi rápido. Sempre foi só me ensinar o caminho que eu tenho pernas para andar.

 

4)       De todos os lugares onde esteve, qual o que mais te agradou?

R.: Sem dúvida o lado de fora das muralhas da prisão. Depois um paraíso que o mundo todo admira: as praias do Rio de Janeiro. Faço um passeio (estarei por lá dia 3 de dezembro fazendo palestra na Defensoria Pública) por lá há 5 anos que é a maior delícia. Entro na Praia no Leme, junto às pedras. De lá venho caminhando com os pés dentro da água. Passo Copacabana toda, subo na pedra do Arpoador, tomo banho na praia do Arpoador (a mais limpa) e sigo Ipanema, Leblon até o fim da praia e começo do morro. São cerca de 3 a 4 horas de caminhada. É o lazer que mais me causa prazer. O único problema é que o Rio é caro, inda mais em temporada e eu ando tão duro...

 

5)       De todo os momentos felizes que você viveu, qual o que mais te impressionou?

R.: Já contei em texto anterior. “Lembranças Boas”. É só procurar no Blog. Mas adianto que foi quando, ao cabo de 1 ano trancado em uma cela-forte, fui liberado para o convívio dentro da cadeia. Foi uma liberdade que nem a liberdade mesma foi tão profundamente ansiada. De fato foi impressionante poder respirar o mesmo ar que todos respiravam, sentir-me parte da coletividade humana mais uma vez. Mesmo sendo a comunidade humana aprisionada.

 

6)       Como alguém pode nos fazer mal?

R.: Acho que essa é a pergunta mais fácil de responder. Simples, através nossos defeitos, fraquezas e deficiências. Não somos atacados em nossas fortalezas jamais. Como evitar? Mais fácil ainda: Sendo sinceros conosco mesmos e construindo uma boa capacidade de auto-crítica. Essa faculdade nos levará a enxergar o que somos de verdade e quando estamos errados em qualquer situação. Enxergando nossos defeitos e fraquezas, seremos muito mais capazes de nos defender de qualquer mal que nos queiram causar.

                                                 - x –

Luiz Mendes

10/11/2009.

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Postado em 09.11.2009 | 15:11 | Luiz Mendes
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                        ANSIOSO

 

Cazuza afirmava ser exagerado, digo sempre que sou ansioso. Sim, ansioso. Respiro todo o ar em torno e pergunto-me onde estou se já não consigo estar somente em mim? O que sou nunca me foi suficiente. 

Vivo sempre a ultrapassar sem sequer perceber que estou passando. Ansiedade em mim é voracidade de viver. Uma luta contra o tempo e o espaço nessas minhas trajetórias sem fim. Passo e tenho consciência que é ínfima a parcela que percebo da vida. Ela me foge ao longe ou então desaba, me inundando de repente. Na verdade, tudo é infinitamente maior do que sou capaz e por isso sempre é ontem.

Bato asas desesperado e continuo faminto em minha fome de estar além, naquilo que ainda não estou. Vontade de tomar o tempo, dar passos além de minhas pernas. Vencer o paulatino, o sedimentar, queimar etapas, pular a rotina e o método.

Traio a mim mesmo como um amante perdido entre tantos amores. Erro quando me projeto e ainda me dói a parcela de tempo que perdi sem viver como deveria. Tenho consciência que minha existência poderia ser muito mais significativa se conseguisse absorve-la gomo a gomo, ano a ano, um de cada vez. Não tenho mais tempo. Resta absorver inteiros os pedaços que me são dados aos sentidos; Não sei fazer diferente.

Desespero-me a viajar em outras vidas. Assim alastrado já que o que vou sendo não me satisfaz. Vivo outros clarões, para além da tristeza de não ser muitos e apenas eu. “Onde existo que não existo em mim?” questiona Sá Carneiro, poeta português, que posteriormente se suicidaria.

Ansiedade talvez não seja um mal, embora essa consumição. Há passagens que me enchem de prazer. É quando me movo a caminho do outro espontaneamente, como aquele fosse o único caminho. A outra pessoa e suas grandezas e mesquinharias; suas riquezas e misérias pessoais intransferíveis. Então amo ansiosamente. Um derramamento e uma esponja a absorver a liquidez e todo ar circundante.

Só assim me liberto da angústia, do humano que é dor em mim. Escapo da desconfiança, do orgulho e minhas seguranças. Passo a aceitar cada pessoa no que ela pode ser capaz de revelar-se. Há expectativas, cada um pode vir a ser a esperança de preenchimento que exige o buraco sem fundo de minha ansiedade.

De qualquer maneira, apesar de ansioso, penso e pensar me torna parte do tempo e da paisagem. Pairo, solúvel no ar, compondo, fazendo parte da vida.

 

Composto em 01/07/2004

Reescrito em 07/11/2009.

Luiz Mendes.

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Postado em 06.11.2009 | 15:11 | Luiz Mendes
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QUAL  O  MELHOR  LUGAR  DO  MUNDO?

Onde começa aqui? Onde termina o aqui?

Onde é agora? Onde termina o agora?

Há começo e fim para o tempo e para o espaço?

Já me preocupei com isso e procurei saber. O interessante é perceber que aqui sempre será onde estivermos e só terá fim quando não estivermos. Aqui é relativo a nós, para nós é aqui. Para o outro, aqui será onde ele estiver, é óbvio. E, puxa, não somos a medida do mundo como queriam filósofos antigos antes do racionalismo cartesiano. Tudo parece, de modo muito evidente, existir independente de nós. Embora não haja certezas nesse sentido.  Também, pelo que parece, nada é gratuito. Ou tudo é gratuito. Para mim soa meio quebrado isso de acaso a compor vida assim tão lógica e encaixada. Devemos ser alguma pequena engrenagem que funciona dentro de seus parâmetros, imagino. E esse parâmetro é o aqui contingente, onde estamos situados.

Com o agora a história parece ser a mesma. Para a percepção não existe passado e muito menos futuro. Só existe o que esta para os sentidos imediatos. É parecido com a diferença entre ser e estar sendo. Ser é pedra; fixo e rígido. Estar sendo é fluir. A vida esta sendo, nós estamos sendo, fluindo. Tudo é dinâmico e contínuo. O agora, ao que tudo indica, é este fluir, esse movimento no tempo ou o próprio tempo no que ele tem de perceptível para nós. Sempre será agora, singular para cada um de nós. O poeta Mario Benedetti sintetiza magnificamente: “Há ontens e amanhãs; só não hojes.” Hoje é agora, e só há um que serve para todos.

Estou pensando que estamos em um tempo e um espaço únicos. Só um agora determina este momento como único existente. Só um aqui determina esse espaço como único existente. Aqui e agora, nosso espaço e tempo, sem começo ou fim, indeterminado...

                                                         **

 

O que não pode faltar no melhor lugar do mundo?

Vamos ver se conseguimos enumerar apenas o essencial:

Alimentação vem em primeiro lugar? Acho que sim. Ainda acho válida a máxima marxista: “De todos segundo suas capacidades e a todos segundo suas necessidades.” Num mundo como o nosso a fome é uma vergonha que todos nós deveríamos sentir. Liberdade viria em segundo lugar? Bem, saciada a fome o homem começa a pensar, vai querer continuar sua existência com liberdade. Mesmo que relativa, aquela dentro da qual ele saiba se mover. Alegria deve ser básico em um lugar que se pretenda o melhor do mundo. Alegria de viver, de amar... Amor não pode faltar, não é mesmo? Amar em todos os sentidos, sem limites, a terra, o ar, a água, o fogo, a planta, a pedra, o animal, o homem, a mulher, a criança... Amar, simplesmente existir mergulhado em um sentimento contínuo de bem querer tudo que há. Mario Quintana dizia que nem a morte iguala as pessoas: os defuntos ricos têm todos os dentes. Igualdade acho, é item essencial em lugar assim tão maravilhoso. Em todos os sentidos e nada de diferente seria execrado ou particularizado. Solidariedade deveria ser a base. As pessoas se socorreriam, se cuidariam e seriam felizes. Felicidade. Alguém disse felicidade? É, no melhor lugar do mundo não poderia mesmo faltar felicidade, mas não essa que depende da infelicidade dos outros.

Vamos ver: no melhor lugar do mundo teria que ter alimentação; liberdade; alegria; amor; igualdade; solidariedade; e felicidade. Rapidamente a gente consegue relacionar, experimente e acrescente.

É possível um lugar composto com essas essencialidades? Onde poderia existir isso tudo? Mas a questão mais difícil vem ai: saberíamos viver em um mundo assim? Alimentação farta, liberdade aos borbotões, alegria aos montes, amor pra todo lado, igualdade sem preconceitos, solidariedade completa e felicidade total. Saberíamos? Esquecemos uma coisa essencial, aqui foi proposital. O trabalho. Conseguiríamos viver sem o trabalho? Ou trabalho seria o primeiro mal a ser extinto a pauladas? Marcuse dizia que “o trabalho não dignifica o homem, antes danifica”. Mas quem e como iríamos sustentar tudo isso que compõe o melhor lugar do mundo? Máquinas, perfeito, máquinas. Mas, puxa, isso tudo não ia cansar? Não iríamos nos entediar de sermos tão felizes o tempo todo?

Talvez o melhor lugar do mundo, de repente, seja onde estamos e esses componentes nos faltem apenas porque não sabemos lidar com eles. Nisso somos todos iguais, partilhamos das mesmas necessidades: Alimentação, liberdade, alegria, amor, igualdade, solidariedade e felicidade. E o incrível é que todos conhecemos essas sensações (alimentação ai não se enquadra). Tivemos momentos livres (eu vivi tais momentos, mesmo preso por mais de 30 anos), alegres, amamos, recebemos, demos, estivemos solidários e fomos felizes. Ainda não sabemos exatamente do que somos capazes; constantemente extrapolamos nossas próprias expectativas. E, nossas esperanças são 100% embasadas nessas lembranças e nesses momentos. É possível.

Quem sabe o melhor lugar do mundo não seja no aqui e no agora, que é tudo o que temos da realidade, do que existe de fato? Provavelmente, podemos até ser convencidos que nós é que somos inábeis em fazer do aqui e agora o nosso melhor lugar do mundo.

                                                      **

Luiz Mendes

04/11/2009.

 

 

    

 

 

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Postado em 05.11.2009 | 11:11 | Luiz Mendes
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SER  FELIZ  OU  TER  RAZÃO?

Margarete e Reinaldo, casal de meia idade, seguiam pela estrada no Gol familiar. Visitavam parentes. Diziam que eles se completavam. Ele, sempre afoito, falador, nervoso e correndo atrás de alguma coisa que não se sabia direito o que. Ela sempre tranqüila e ponderada, falando pausadamente, somente quando necessário. Passava a impressão que devia saber da alguma coisa importante sobre a vida que a gente nem desconfiava, por isso aquela placidez.

De repente, na estrada, uma bifurcação. Fazia algum tempo que Reinaldo não passava por ali. Como não parava muito para ver nada, ansioso que era, estava em dúvida por onde seguir. Sabendo a esposa melhor observadora, embora não querendo reconhecer, inquiriu:

 

_  Querida, faz tanto tempo que não visitamos teu irmão que acho mudou até a estrada nesse tempo. Olha, parece que essa bifurcação não existia, estou equivocado por onde seguir. Parece que é pela esquerda, que você acha?

_   Meu bem, o caminho é pela direita. É claro que essas duas saídas já existiam. Você é que não presta atenção em nada, parece que usa viseira de cavalo; só vê na frente, nem olha pros lados.

_   Tá me chamando de cavalo? Quis saber, já se sentindo ofendido.

_  Desculpa, a comparação foi infeliz, mas puxa, você não se liga no que acontece a seu redor, só quer ver lá na frente...

_  Ah é, né? Pois eu acho que é pela esquerda, vou pela esquerda e tá acabado!

_  Tudo bem, vá por onde quiser, mas se não quiser saber, não pergunte.

 

Ao chegar ao final da rua sem saída que dava pela esquerda, Reinaldo teve que admitir que Margarete estava certa. Voltando pelo caminho que viera, ao retornar à bifurcação seguindo pela direita, não agüentou e questionou a esposa novamente:

 

_  Puxa, meu bem, se você sabia com certeza que o caminho era pela direita, porque não insistiu comigo? Fez com que eu fosse pela rua sem saída para depois voltar...

_  Ah! Meu querido se insisto você ia querer discutir e brigar. Eu estava tão bem que quis continuar em paz e ser feliz a ter razão.

                                                     *

Essa pequena história de Margarete e Reinaldo pode levar a várias análises. Deixa um monte de pontas soltas, mas centraliza em uma questão: “Ser feliz ou ter razão”.

Essa estratégia, tão caracteristicamente da cultura feminina de calar e esperar o erro masculino para se expressar sem briga tem dado certo. Dada nossa cultura tão machista, à mulher, muitas vezes, só resta esta atitude, como na história em questão. Não sei se isso é sair por cima ou por baixo. Mas, com certeza quero ter razão. Brigar é uma conseqüência que enfrento com certa tranqüilidade, caso tenha convicção de estar com a razão. Porque tenho que me calar se estou certo? Calar atingiria minha auto-estima. Aprendi algo que foi fundamental para a minha preservação como ser afirmativo: o orgulho é maior que a dor. Amanhã posso fraquejar, não sei. Mas, com certeza, calar jamais me faria feliz. Ficaria remoendo o resto da vida.

Essa é minha posição pessoal. Sei, inclusive, que vou me dar mal por querer resolver tudo e ser tão orgulhoso. Difícil esse processo de reconhecer o correto e saber que mesmo estando errado, você não tem como ser muito diferente. Bem, tenho aprendido um pouco. Já sei me calar um pouco, só não consigo quando pisam no meu calo. Quanto mais velho, mais consigo esperar, se tenho razão.

E você, prefere ser feliz ou ter razão?

 

Luiz Mendes

30/10/2009. 

 

 

 

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Postado em 04.11.2009 | 12:11 | Luiz Mendes
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O  QUE  É  MAIS  IMPORTANTE?

 

O que é mais importante, amar ou ser amado?

Vamos tentar pensar com um poeta, um filósofo e um escritor, para ver como eles encararam esta questão.

Quadrilha

João amava Tereza que amava Raimundo

Que amava Maria que amava Joaquim

Que amava Lili que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Tereza para o convento

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J.Pinto Fernandes que não tinha

                                                                                  nada com a história.

                                                                             Drummond de Andrade.

 

Pobres amores não correspondidos que não vieram a dar em nada. Amar ou ser amado? Claro que amar e ser amado é a glória, mas, como demonstra o poeta, amores são desencontrados. Imediatamente, sem refletir, as pessoas respondem: ser amado. Mas, ao deixar a questão amadurecer na mente, elas voltam atrás. Ser amado é experiência que pouco se participa, caso não houver correspondência. Amar, mesmo não correspondido, dolorido até de lembrar, ainda assim é processo mais enriquecedor. 

Ao ser amado não se vê o tempo passar. O resultado sensorial é bastante parco; muito pouco se aprende. Agora, amar já é grandioso, cósmico. Amar e não ser amado é trágico, concordo. Uma das piores experiências existenciais. Cada milésimo de segundo, no vórtice desse sofrimento, é intensamente vivido. Quem ama atualiza potenciais de sensibilidades extremamente delicados.

Erich Fromm, em “A Arte de Amar”, propõe duas formas de amar. A primeira você ama alguém porque precisa desse alguém. Na segunda você precisa de alguém porque ama esse alguém. Imediatamente nos faz pensar e tomar posição. A maioria concorda que precisar de alguém por amar esse alguém é muito mais satisfatório. Essa é a posição de quem ama e pode ou não ser amado. A primeira posição pode bem ser a de quem é amado, sem amar. Caso deixe de necessitar, provavelmente deixará de amar.

Saint-Exupery, no “O Pequeno Principe”, faz proposições interessantes sobre o amor, duas se destacam a meu ver: “O amor não consiste em olhar nos olhos um do outro, mas olharem ambos na mesma direção”. Deve estar falando em objetividades conjuntas e afinidades. Eu diria que se desviarem da direção que olham conjuntamente, a defasagem será fatal e este é o começo do fim.

“Foi o cuidado que tiveste com tua rosa que fez com que ela fosse tão importante para ti”. Acredito que sentimento é construção. É o cuidado que você tem com alguém que faz com que essa pessoa lhe seja cara ao coração. Somos seres de cuidado. O cuidado que recebemos e damos faz de nós o que somos.

Já vivi esses dois momentos da vida humana e respondo com tranquilidade: prefiro amar a ser amado.

Luiz Mendes

28/10/2009.

 

 

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Postado em 30.10.2009 | 11:10 | Luiz Mendes
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QUESTÃO

Se tiver que escolher um momento único em sua vida para viver nele o resto de sua vida, qual escolheria?

Dá para responder? No meu caso, foram tantos que teria que viver muitas vidas. Não há como dizer que um foi melhor que o outro. Mas dá para afirmar com certeza: todos foram únicos. Comecei a lembrar e fiquei surpreso ao perceber que foram mais alívio de opressões a que estive submetido que outra coisa. Vou tentar resumir alguns.

a)     Quando, após ano em regime de castigo, fui liberado da cela-forte. A cela comum sabia a um paraíso para mim. A alegria foi tamanha que chorei como criança.

b)     Quando assinei o mandato de Prisão Preventiva que o Juiz decretara. Era o fim de mais de 100 dias sob tortura intensa e insustentável. Estava a mercê dos mais cruéis torturadores que já passaram pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais. Meus parceiros assinaram também, mas já haviam iniciado o processo de enlouquecimento. Um deles se suicidaria em seguida. Os outros dois resistiriam, mas saíram da prisão abestalhados. Um virou mendigo e nunca mais tive notícias. O outro é um velho bobo que some às vezes e dá trabalho para a família. Eu sabia que estava assinando um mandato para ficar preso o resto de minha vida. Dalí para a frente teria que vencer um leão por dia, mas o alívio e a paz que senti é uma das lembranças mais doces que guardo em meu coração.

c)      Quando consegui chegar até a rampa de acesso ao prédio novo (hoje já velho) da Pontifícia Universidade Católica e abraçar minha mãe que ali me esperava. Foram três anos de batalha com livros e apostilas, em que sozinho havia vencido. Era o primeiro preso do Estado a prestar um vestibular, e o primeiro colocado em toda a Universidade. A vitória era completa. Minha mãe chorava em meu peito. Era a primeira vez na vida que podia dar notícias boas do único filho que tinha. A vitória era nossa. Jamais me abandonara e me seguira para todos os infernos em que fui enfiado. A satisfação que causava a minha mãe era uma realização maior até que o próprio ingresso na Universidade. Essa é uma grande lembrança que construí com meu empenho e capacidade.

d)     Quando, ao receber meu filho Renato com apenas 40 dias, na entrada do pavilhão 8 da extinta Casa de Detenção de São Paulo. Claro, super emocionante, mas não foi só isso que tornou o momento único ao meu coração. Ao recebê-lo, cheio de ternura, aconcheguei aquele pacotinho azul com aquela minúscula carinha vermelha. Lembro ainda; era quente como febre. Acho que pela minha inabilidade, de repente o nenê escorregou de meu peito por cima. Estava caindo de ponta cabeça, morreria na queda, tive certeza disso. Alcancei-o, não dá para explicar como, porque depois pareceu impossível, a poucos centímetros do chão. Só deu para entregar o bebê à mãe, encostar na muralha e ir descendo, em choque. Acho que tive um pequeno ataque no coração, fiquei mole como uma trouxa de roupa molhada, tamanha intensidade emocional vivida.

e)     Quando, ao cabo de 31 anos e 10 meses de prisão cheguei à casa de minha namorada, no Rio de Janeiro, levado pelo pessoal da Revista Trip. O encontro foi genialmente registrado pelo fotógrafo João Wainer; ela vindo da porta da casa dela e eu do carro a revista. O abraço foi de fundir. Ficamos 25 anos separados e há 3 anos voltáramos. Imaginávamos que agora seria para sempre. Aquela esperança que irradiava dos olhos escuros e brilhantes da namorada tornou único aquele momento. É como fosse um veludo que aliso sempre que quero me sentir bem.

f)        Quando, após três anos de lutas com minha editora escrevendo e reescrevendo o livro “Às Cegas”, fizemos seu lançamento na FENAC da Av. Paulista. Pude levar meus dois filhos e ler em seus olhos o orgulho que sentiam do pai deles. Ainda há algum tempo atrás, Jorlan, meu menino mais novo, disse-me que aquele foi um dos momentos mais felizes de sua vida. Essas palavras do menino, sinceras e espontâneas, engrandeceram aquele momento. Ele tem razão, de fato foi lindo, inesquecível.

g)     Sai da prisão convencido de que o que há por lá é muito mais ignorância que levava à estupidez do que maldade de fato. Sabia que devia lutar para voltar, mas agora em nome de grandes projetos educacionais e culturais. Quando, após quase 4 anos de luta para realizar esse compromisso, consegui montar a minha Oficina de Leitura e Escrita na Penitenciária Feminina de Sant’ana, foi um momento único, grandioso. Minhas alunas eram mulheres aprisionadas, e possuíam a honra e a responsabilidade opcional de serem professoras de suas companheiras. Era um concurso de redação a nível nacional do Instituto Ecofuturo e eu estava ali para passar a elas como funcionava o concurso. Elas repassariam a suas alunas. Minha Oficina era recheada de material que eu havia colhido em toda minha vida de estudos e reflexões sobre leitura e escrita. Mas, minha mensagem era simples: Olha eu aqui, sou igual a vocês, matei, roubei e fiz o diabo, mas dei a volta por cima e cá estou para mostrar que é possível; vamos nessa?

h)            Cheguei na Secretaria dos Assuntos Prisionais e me apresentei à funcionária que fazia segurança da portaria. Havia sido convidado para o lançamento do Guia Dicas. Pediu-me a identidade e telefonou. Demorou, discutia sei lá com quem. Aproximei e percebi que era sobre mim. Alguém obstava meu ingresso. Havia uma portaria que não permitia a entrada de egressos naquele lugar, informou a funcionária. De imediato pequei meu documento de sua mão. Eu não precisava entrar onde não era bem vindo. Virei as costas e fui embora, elegantemente. Próximo ao metrô, o celular toca. Era o Jorge. Estava dentro da Secretaria e pedia que eu voltasse; a cerimônia não teria sentido se eu não estivesse presente. Fora cometido um engano, o próprio Secretário, Dr. Antonio, queria se desculpar. Voltei. Da moça da segurança, que me esperava no portão, até chegar na mesa cerimonial, recebi trocentos pedidos de desculpas. O próprio Dr. Antonio Ferreira, hoje Secretário da Segurança, desculpou-se pela falha, deu-me seu cartão pessoal e disse que podia procurá-lo sempre que precisasse. Então, nos sentamos frente ao público. Conhecia todo mundo. Era o pessoal da FUNAP (gente que conheci quando era professor-preso), da própria Secretaria, parceiros que lutam pelo preso. Estávamos lançando o Guia Dicas, idéia minha para orientar o preso quando este saísse da prisão quanto a documentação, trabalho, processos, educação, saúde, até os albergues de São Paulo foram listados. Momento único, falei para amigos e cheguei até a chorar, foi uma realização enorme. Já foram publicados mais de 200 mil exemplares e vem sendo distribuído a todos os presos do Estado que estão para sair em liberdade.

                                                -x-

Acho que ainda existem outros momentos tão ou quão importantes. Alguns pessoais demais para serem ditos, mas acho que esses são aqueles que mais me acodem à lembrança espontaneamente.

Mas e você? Dá para enumerar muitos, né? Faça-o, não precisa ser por escrito, é muito legal estar diante deles novamente. Experimente.

 

Luiz Mendes

29/10/2009.

Um lembrete: O lançamento da nova edição de meu livros “Memórias de um Sobrevivente” foi adiado do dia 9 como estava combinado, para o dia 24 do mês que vem na livraria da Companhia das Letras no Conjunto Nacional. O adiamento deve-se a problemas que aconteceram com relação à edição da capa, informou a editora.

        

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