Revista Trip

 
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Postado em 14.05.2012 | 15:05 | Luiz Mendes
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Escola antiga x Escola moderna

 

Há pessoas que vivem falando mal da escola atual e se referem às escolas anteriores como melhores e até superiores. Um absurdo. A função da memória é essa mesmo: “esquecer” e tirar de pauta tudo o que for desagradável e “lembrar” ou colocar em pauta, somente aquilo que é do interesse imediato.

Jamais aceitei que me torturassem ou me maltratassem sem me manifestar. Talvez por isso as lembranças ainda estejam vivas em minha memória. Não consegui esquecer as desumanidades praticadas contra mim. Odiava a escola. Odiava os professores. Nunca me ensinaram nada. O que sei aprendi sozinho ou com amigos.

Tentavam me domesticar com agressões físicas, morais e torturas. Uma criança obrigada a ficar de joelhos sobre milho cru ou tampinhas de garrafas caracteriza tortura, ou não? Éramos forçados a aprender na marra. Com tapas na cara, coques e reguadas na cabeça. Tudo era decoreba sem sentido. Exercitávamos a memória e não o raciocínio. Não lembro quase nada do que tenha aprendido na época.

Há uma controvérsia sobre liberdade ou igualdade. Como se liberdade só fosse possível em sacrifício à igualdade e vice-versa. Não aposto em nenhum dos lados. Para mim se não houver igualdade não haverá liberdade e se não houver liberdade não haverá igualdade. A exclusão de uma dessas nossas “pernas” existenciais nos deixa trôpegos, coxos, a mancar em direção errada.

Aposto na liberdade também. As escolas atuais podem não produzir pessoas que sabem de cor e salteado a taboada e as dez classes gramaticais. Hoje temos calculadoras e os corretores gramaticais são muito eficientes. Mas é um espaço mais socializado e democrático.

Os professores precisam lidar com a nova realidade. É dura como dura esta a vida. Não dá para modificar instantaneamente. Os pais das crianças, em geral, trabalham e não têm como preparar os filhos para a escola. As creches que ficam com essas crianças durante o dia são ineficientes nesse sentido. Saudosismos e comparações não vão resolver. É preciso que se adaptem ao que há no momento para que possam propor algo melhor. A missão, meus caros professores, heróis de minha terra, continua...

Hoje é possível questionar e discutir sobre tudo. O tempo da adolescência cresceu. Agora abrange dos 12 até os 24 anos. Há mais tempo para aprender, outros veículos e meios de ensinar. No meu tempo não havia nem televisão, quanto mais computador e internet.

É preciso inventar novos meios. Incorporei Power point, aparelho de DVD e som, internet, experiências teatrais e dinâmicas que fui criando para prender o interesse dos participantes de minhas Oficinas de leitura. Mas, conversar sobre o dia a dia e a vida em si ainda acho que seja o melhor método. Integrar a educação, o ensino e a cultura ao cotidiano das pessoas.

                                             **

Luiz Mendes

13/05/2012.

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Postado em 11.05.2012 | 15:05 | Luiz Mendes
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Sexo

 

De repente algo provoca e mexe com tudo por dentro e vai se alastrando por todos nossos músculos e nervos, até onde alcançamos os olhos. Sobe um calor insuportável que chega a nos deixar sem ar. Qualquer um que nos conheça percebe no vago de nosso olhar. E é preciso confessar porque não dá para dissimular de modo convincente. A quase taquicardia nos denuncia, sufoco medonho aperta o peito, estreita a garganta e nos faz esquecer de respirar. A partir daí não dá mais para separar o certo do errado porque não é mais possível recusar. E não dá para saber o quanto dura ou em que medida crescerá. É mal que cura o bem que mata. Não há receitas. Cada qual tem dentro de si seu tamanho e seu tempo. E não dá para bater de frente porque não sacia jamais. Esta sempre pronto e querendo o impossível, ou seja: o diferente do mesmo. É quase uma doença que só terá fim com a extinção da espécie. Dessas febres tropicais sem origem conhecida que queimam como a lua incandescente de verão. Nada, absolutamente nada vai aliviar. Senão os gemidos e o almíscar dos desejos praticados. E não para. Talvez essa seja a única ação da existência que o tempo não irá amenizar. O descanso substitui o cansaço e o sono nunca vem. Vira pra lá e vira pra cá; tremores, ardores e suores. Uma aflição que chega a doer nos músculos da barriga e é melhor não segurar. “Sobe pra cabeça”, dizem. E é bem possível mesmo já que tudo é desatado e vai jorrando sem permissão e nós teimamos em querer controlar...

                                             **

Luiz Mendes

10/05/2012.

 

 

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Postado em 09.05.2012 | 13:05 | Luiz Mendes
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Perguntas sem respostas 

Quantas pessoas que a gente amou de paixão, parecia que não podíamos mais viver sem elas; chegávamos até a imaginar que fosse para sempre... E, se fora, passaram. Quantos segredos foram guardados inutilmente e agora, exatamente agora, não interessam a mais ninguém? Em quantas bobagens acreditamos e que hoje nos parecem tão idiotas que temos até vergonha de lembrar que um dia acreditamos naquilo? Quantos ideais sonhamos e deixamos para depois e o “depois” que nunca chegou? E todos aqueles limites, vícios e fraquezas que derrotamos, implacáveis, e que hoje nos fazem falta? Hoje nos sentimos tão menos humanos sem alguns deles... O pior foram todas aquelas mentiras, aquelas traições e covardias que a gente tanto censurou e que, de repente, cometemos sem perceber ou até para sobreviver. Quantas vezes enchemos a cara até nos esborrachar no chão e hoje censuramos nossos filhos por não saber o que fazer quando eles fumam um baseado. Amigos que foram tão fundamentais para nossa existência; sentíamo-nos capazes de matar ou morrer por eles, e que agora a gente não vê há tanto tempo... Havia tanto mistério, tanta magia, os tempos pareciam outros e nós também outras pessoas. Já não nos reconhecemos em fotos, vídeos ou espelhos. Tudo o que conseguimos preservar foi o que somos. E somos todas essas lembranças, essas ideias e esses sonhos. Fracassos, decepções, ausências, angústias, depressões, ansiedades e abandonos nos constituem. Nada foi em vão e nada foi perdido. Somos tudo o que vivemos e vivemos imersos na memória do que nos formou. Ao fim e ao cabo somos os conhecimentos, sentimentos e experiências que desenvolvemos desde que nascemos.

 

 

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Postado em 07.05.2012 | 12:05 | Luiz Mendes
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O Barqueiro

 

O que me contaram foi o seguinte:

Roberto Bomtempo, o ator e diretor de teatro, cinema e televisão, ao fazer uma devassa em sua imensa biblioteca, encontrou vários livros em duplicata. Sabendo que sua mãe, a atriz Regina Sampaio, é grande leitora, deu-lhe alguns daqueles livros. Um deles, assim maçudo, 478 páginas, desanimava só de sentir o peso. Seria uma jornada de muitos dias e ela não tinha esse tempo todo. Aos 73 anos de idade, o tempo nunca foi tão pouco tempo para ela. Então cedeu o livro para um jovem barqueiro que também era grande leitor e a conduzia da Ilha Primeira da Barra da Tijuca, onde reside, ao continente.

Passado algum tempo, esse mesmo barqueiro perguntou se ela havia lido o livro que havia dado a ele. Não, não tivera tempo de ler. Então ele lhe devolveu o livro e recomendou para que ela o lesse. Era importante. No mínimo era estranho o fato do barqueiro haver devolvido o livro, ainda mais recomendando daquele jeito. Sentindo-se desafiada, encarou a tarefa de ler o tal livro.

Antes de passar da metade, já não conseguia mais largar do livro. Dormia e acordava lendo. A história a absorveu inteiramente. Tanto que me procurou por e-mail. Era o meu primeiro livro “Memórias de um Sobrevivente”. Foi instantâneo. Nos primeiros e-mails já éramos amigos; havia coisa demais em comum. Depois a amizade cresceu ao ponto em que a gente não conseguia mais ficar sem se ver, sem se falar, sem estar juntos.

Convidou-me para passar uns dias em sua casa. Rio de Janeiro me interessava vivamente. Amo aquele pedaço de céu e mar. Logo já me imaginei andando com os pés na água do Leme ao Leblon como queria Tim Maia. Demorou! Ainda mais que a novíssima amiga me arrumou carona. Os pais e a irmã do namorado de sua neta iriam visitar o filho e a nora que moram com ela. Nem pensei; claro que iria quase que já estava lá.

A viagem foi cansativa. Não estava preparado para tantas horas sentado e contido, mas enfim, chegamos à Barra da Tijuca. Havia ainda que tomar um barco para chegarmos à ilha. Regina nos esperava no cais. Uma alegria imensa conhecê-la de perto. A casa era muito bonita e espaçosa, fui acomodado em um quarto.

Comecei a conversar com Regina sexta à tarde quando chegamos e só fui parar ontem, quarta-feira quando voltamos. Claro com intervalos para dormir. Sábado fomos ao Projac para Regina gravar suas apresentações em Malhação. Depois à noite ela me levou a festa de aniversário de um dos seus netos, Miguel, filho de Roberto Bomtempo e Miriam Freeland. O garoto fazia um ano de vida feliz com toda aquela paparicação. Uma festa memorável. 

Choveu o tempo todo e não pude ir à praia. Saímos de casa somente para compras e algumas necessidades. Passamos os 5 dias conversando e não lamento nem um pouco. Aprendi muito, ela me fez entender muito de minha vida e meus rumos.

A mulher aos 73 anos esta estudando teclados; dança; faz musculação; esta em uma escola de teatro e não tem tempo para pensar que tem idade. Não é nem um pouco velha; é apenas idosa. Sua alegria é contagiante, sua vontade de viver embriaga qualquer um. Seu empenho no que faz é estimulante, sua arte é fina e recheada de conheceres. Faz tudo como se fosse viver para sempre, sem reclamações ou concessões. É excelente motorista e faz tudo muito bem feito, além de ser uma grande mãe e avó. É uma mulher bendita por todos que a conhecem: simpática, agradável, bem humorada e com uma espiritualidade incomum.

Bebi dessa fonte sofregamente. Sai de lá já morto de saudades. Quando sua neta falou que a casa estava à minha disposição, só não pedi para ficar porque ela vai ter visitas neste fim de semana. Dá vontade ficar para sempre.

Amei Regina. Não por isso ou por aqui, mas por tudo. Eis um ser feito da matéria que eu gostaria de ter sido construído. Não há como agradecer o fato dela ser como é. Faz parte dela a gentileza, a generosidade e a boa vontade. Resta admirar e mesmo por isso, tentar chegar perto.

Agradeço do fundo de minha alma ao barqueiro Josias, responsável por toda essa alegria em meu coração.

                                 **

Luiz Mendes

03/05/2012.

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Postado em 04.05.2012 | 22:05 | Luiz Mendes
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Balanço Geral

Será que estamos onde nos colocamos e somos o que fizemos de nós? Hoje, 4 de maio de 2012, quando completo 60 anos de idade, posso, de dentro de minha experiência pessoal, responder que sim.

Reconheço que estou onde me coloquei, por meus limites, humanidades e capacidades. Não me custa dizer: fui eu quem me empurrei para o abismo. Custa-me sim dizer que fui eu também quem, depois de passar por cada buraco imundo da existência, escalei esse abismo e dobrei essa montanha.

Não seria justo creditar-me toda culpa pelo passado inglório. Houve um pai alcoólatra, opressivo e violento. As ruas e suas duras calçadas onde derramei meu sangue. A desumana indiferença da maioria. Assim como não seria justo assumir todo o mérito de meu crescimento. Há algum tempo eu dizia que os livros me salvaram e salvam ainda. Hoje sei que os livros sozinhos não fariam nada. Sequer os enxergaria na correria desesperada em que vivia. Hoje sei: foram as pessoas que me apresentaram aos livros e me incentivaram a ler que deram chances para que eu me salvasse. Muitas pessoas colaboraram com o meu desenvolvimento enquanto ser humano. Citá-las seria impossível. Foram tantas e em tantos momentos que, com certeza, deixaria de mencionar alguém. O que seria imperdoável.

Sim, sou o que fiz de mim. É obvio que não estou ainda nem um pouco satisfeito com o produto. Não passa pela minha inspeção de qualidade. Estou em processo ativo. Mas avancei bastante se compararmos àqueles que iniciaram comigo o caminho das pedras. Não sei de nenhum deles. Pelo menos não os vejo nem próximos de onde venho tentando me colocar.

Não creio que nascemos para sermos felizes. O motivo último de nossa existência não pode ser essa coisa tão efêmera na vida da gente. Do pouco ou quase nada que sei da vida, me parece que nascemos para aprender. De acordo com o que aprendemos sobre o mundo, entendemos acerca da complexidade que é o ser humano e soubermos lidar com a vida, poderemos nos tornar satisfeitos ou não com a qualidade de nossa existência.

Provavelmente um dia terei até que agradecer àqueles que colocaram obstáculos em minha vida. Foi o esforço de vencer tais barreiras que me tornou capaz de enfrentar com coragem e conhecimento as que viriam depois. Por enquanto, para ser verdadeiro, só dá para agradecer, e do fundo de meu coração, àqueles que apoiaram, contribuíram e acreditaram em mim. Não fosse vocês eu não conseguiria chegar aos 60 anos estando onde me coloquei e sendo o que fiz de mim. Meu abraço mais apertado, meu mais doce carinho a cada um de vocês: eu os amo!

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Luiz Mendes

04/05/2012.

 

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