Revista Trip

 
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Postado em 13.03.2009 | 05:28 | Bruno Torturra Nogueira
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Outro dia o sempre bem penteado Elohim, xará de Deus, me mandou uma prova de que Ele, Deus, existe. Um vídeo de Willard Wigan. É um negão inglês de 51 anos que passou necessidades na vida. Tímido, meio doidinho, cresceu analfabeto em uma família problema. Tudo jogando contra, ele ganhou de todo mundo. É o ser humano mais preciso que existe.
Com ferramentas feitas em casa e um microscópio decente, e ele fez uma coleção de esculturas delicadas e do tamanho de uma célula. Uma lasca de um grão de areia. O cara entalha partículas com agulhas, pinta detalhes usando fios de cabelo. Uma asa de mosca vira moldura. Tem as mãos mais precisas do que o olho. Para ver a obra de Wigman, você também precisa de um microscópio.



Ele é de pensamento frio e fluente, tem um claro sentimento de orgulho e o olhar de um homem vingando. Seu talento é um extremo autocontrole, um mestre autodidata. Para aumentar o drama, pega essa: ele só ataca seus grãos entre um batimento cardíaco e outro. Para o pulso não tremer sua mão na exata hora do toque. Ele diz que é "deprimente", "terrível", produzir as peças. Muitas se perdem, se quebram, ou, simplesmente... "Estava esculpindo a Alice, do país das maravilhas, e ela sumiu. Eu acho que a inalei".

"Meu trabalho é pequeno, mas tem um impacto colossal", diz com razão e consciência de que há um decreto espiritual no que faz. Foi o que senti quando vi o sujeito e sua obra. Que algo evidente demais para ser visto cobre tudo. Que sem algum esforço não conseguimos ver a beleza dissimulada das coisas. Enquanto hoje a ciência mergulha mais fundo na essência do vácuo e decreta que não existe espaço vazio, foi um artista sem estudo, tratado como atração de circo por muitos, que melhor definiu a nova fronteira da compreesão com a seguinte frase: "Eu só quero provar que nada não existe".


Hoje, nosso nano Rodin - como não, Wigan também esculpiu "O Pensador" - está com um macro saldo. Quando o vídeo abaixo foi veiculado, David Loyd, um ex-tenista e empresário britânico pagou vinte milhões de dólares por todas suas esculturas. Seus trabalhos podem ser vistos em microscópios em museu todo dedicado a ele.


Willard Wigan continua produzindo. Sua última escultura foi a família Obama de mãos dadas em cima da cabeça de uma agulha.


Espia isso e tente não tremer.
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Postado em 11.03.2009 | 03:41 | Bruno Torturra Nogueira
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O chapa Bressane postou em seu blog a capa da Economist de março. A mais importante publicação capitalista, poderosa reportera do staus quo, enche a capa de vermelho e declara o fracasso da Guerra às Drogas. Hoje comprei aqui em San Francisco uma delas. Não declaram o fracasso apenas, o que é mais importante. Economist abre um editorial pedindo realismo ao poder. "Legalização", afirma a revista, "é a menos pior das soluções".
Expressão besta e, em si, careta. Mas talvez necessária para que os votos passem em congressos pelo mundo. "Menos pior" assume a feiúra que certamente virá com a a legalização de todas. TODAS as drogas.
A questão, que a Economist finalmente reconhece sem papas na língua, não é simplesmente definir quais são as drogas seguras o suficiente para vender na farmácia. A grande ficha que precisa cair é simples: proibir qualquer droga é fazê-la, necessariamente, menos segura.

Um google (em inglês) rapidamente lhe dará estatísticas e estudos o suficiente para provar a o dito acima. O que me espanta, na verdade, é a velocidade com que o assunto está avançando na media mainstream aqui nos EUA.
Todo dia, em qualquer jornal ou noticiário, alguém levanta a lebre do fracasso da proibição, citam a lei seca como exemplo equivocado, e apontam o que todos os até ano passado radicais bradavam: droga mata muito menos do que as balas da guerra às drogas.
CNN deu algumas matérias ultimamente reconhecendo o valor espiritual dos cogumelos mágicos e sua praticamente nula toxidade. Aqui:

BBC foi longe ao abrir espaço para uma pesquisa que demonstra que MDMA não faz metade do mal que se supunha. LSD vem sendo revisto em artigos e em confissões de gente de bem.  A maconha, então, já parece causa ganha. Uma ordem meio secreta vazou na imprensa no fim de semana. Eric Holder, procurador dos EUA, mandou o DEA parar de pertubar os clubes e jardineiros de canabis da Califórnia.
O realismo pausado de Obama parece ter contagiado, senão a população cristã, os colunistas e repórteres. Há uma estranha onda de tolerância às drogas que não parece tão fácil de ser contida no meio de uma crise esfarelante e um partido republicano fedendo de mofo.

Amanhã, aqui no blog, informações novas em folha, coletadas por mim direto dos pesquisadores em Oakland. Um outro componente da maconha, o CDB, pode ser a chave para desvendar a diferença entre tantas variedades de erva, para explicar paranóia ou tranquilidade em diferentes usuários. Além disso, talvez seja um dos mais importantes compostos medicinais para estudos hoje em dia. Sem dependência ou efeitos sedativos, puro CDB parece ser o mais eficaz e seguro antídoto para ansiedade.

E nas bancas, corre lá, matéria sobre o mercado e os pacientes de maconha medicinal da Califórnia.
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Postado em 01.03.2009 | 04:56 | Bruno Torturra Nogueira
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Purple Kush cresce solto no condado de Trinity, norte da Califórnia
Acabei de terminar uma reportagem para a Trip de março, e sugiro que leiam. Sobre como funciona e o que pretende o mercado de maconha medicinal na Califórnia. Matéria de seis páginas, muito curta para o tanto de material.
Boa notícia para o blog. Vou postar o que não coube na revista por aqui e ao longo do mês. Álbum de fotos, entrevistas com os principais personagens e os resultados da proposição 215.
Visitei jardins de canabis no norte da Califórnia, dispensaries, associação de pacientes, advogados, policiais e ativistas. Tento explicar um nó mal dado de leis sobrepostas. Uma esquizofrenia americana que não deixa clara a relação do DEA (a PF das drogas) e os envolvidos no mercado verdinho do estado de Schwarzenegger. Esse ano, dias depois da posse de Obama, 5 batidas estouraram em estabelecimentos de maconha médica, em San Francisco e LA. Obama, apoiado por todo bom maconheiro, não gostou, e mandou recado para o DEA deixar isso de lado.
Esse jardim pertence a quatro pessoas. Uma colheita ao ano e os quatro vivem com razoável conforto pelos 12 meses. Mas tudo vai depeder do rendimento da colheita, das malditas lagartas que não vão embora e de quanta maconha vai definir o preço no mercado. Recentemente está caindo rápido de quase 8 para 6 mil dólares o kilo
Eric Holder, o advogado da união daqui, já avisou que não quer o nome general da Guerra às Drogas em cima das políticas estaduais de maconha. A comunidade da Califórnia está muito feliz e cautelosamente otimista. Em dois dias, três das pessoas com quem conversei nessas 4 semanas de apuração estiveram em programas de TV em reportagens muito favoráveis à legalização da canabis.
É rápido o avanço político do bloco da fumaça medicinal. Parece inevitável que em alguns anos, 3?, 6?, 10?, a maconha seja legalizada nos EUA e em boa parte do mundo. A crise econômica ajuda bastante e a Califórnia está tentando.
Essa semana Tom Ammianor, tipo um deputado estadual daqui, apresentou uma proposta para a legalização da maconha por essas bandas também para fins recreativo. Seu argumento final para pescar os pragmáticos é fiscal. Para cada 25 gramas de maconha recreativa da Califórnia, 50 dólares de imposto. Ele calcula mais de um bilhão de dólares extra verdes nos cofres ao ano. Gente do mercado diz que pode ser bem mais. A tendência, no entanto, é o preço cair e estabilizar. Espero que isso aconteça quando eu voltar pra casa também, sinceramente.
Quero ajudar no bloco apitando daqui: precisamos legalizar a maconha no Brasil. Descriminalização é pouco e não resolve o maior problema, tráfico, violência e má qualidade. E a razão para a total legalização é clara. Como a Califórnia provou nos últimos 13 anos, maconha é um remédio. Antes de qualquer coisa, medicalize já.


Charlie, com Parkinson e um sorrindo fácil, é um dos pacientes atendidos pela Wamm, a revolucionária associação de Santa Cruz. Valerie e Mike Corral, os diretores, distribuíam maconha para doentes terminais anos antes da lei do estado permitir. Enfrentaram os tribunais três vezes e participaram da elaboração da lei atual. Ambos na Trip de março e em breve nesse blog
Há quem tenha medo da legalização por um motivo legítimo. Seria muito fácil comprar e consumir a droga, sairia do controle e isso não é bom. Concordo. Só quero lembrar que é exatamente esse sistema que temos hoje. Maconha fácil, barata e sem controle. Controle significa legalizar, não reprimir. Proibição é a mãe do caos das drogas, não são necessárias mais provas do que as existentes. A regra é uma só: lucidez para dizer sim ou não às drogas.

Lugar de droga é na drogaria. No Harborside, dispensary-modelo de Oakland, um balção de finos produtos. Pólem de maconha, haxixe e extratos e suas respectivas potências. Os pacientes podem participar de questionários sobre a eficácia de cada variedade para diferentes doenças.
Na minha opinião, um plano lúcido seria mais ou menos assim:
- Plantio condicionado à receita médica individual, com limite de plantas por paciente. Para uso recreativo há um limite menor de cultivo.
- Todos que plantam podem e são incentivados a compartilhar ou vender o excedente.
- A venda é permtida entre plantadores e pacientes e entre plantadores e distribuidores. O ideal é que não haja comércio entre usuários recreativos diretamente.
- Apenas distribuidores podem comercializar canabis para a população adulta sem receita médica.
- Os distribuidores são entidades sem fins lucrativos que vendem maconha no varejo. Preferencialmente organizações locais e voltadas para apoio médico, podem comprar, estocar e vender diferentes variedades e formas de se ingerir maconha. Os produtos passam por testes clínicos e carregam níveis de THC no rótulo.

Venda de mudas acompanham um detalhado relatório sobre diferenças entre espécies e seus respectivos índices de THC e outros canabióides como CDB. Aqui, no Harborside, pacientes são incentivados a cultivar. A loja oferece diversas variedades de mudas a preços reduzidos e aulas gratuitas sobre cultivo de maconha. Quem produz mais do que precisa, pode vender de volta ao Harborside
- Toda a entrada e saída de maconha em distribuidores é auditada e recolhe imposto. Na venda entre plantadores e pacientes, em quantidades limitadas, não há taxação.
- A renda dos distribuidores, tirando compensações para funcionários, deve ser voltada para o amparo a pacientes e projetos de jardins coletivos.
- Taxação recolhida em dinheiro e produto. O governo ajuda a fornecer maconha medicinal para pacientes sem renda.
- Eventualmente autorizar a venda de enteógenos e plantas de uso tradicional religioso nos distribuidores.
O que não pode:
- Utilizar canabis ao volante.
- Fornecer canabis para menores de idade.
- Transportar grandes quantidades sem um registro fiscal e médico.
- Arma de fogo ou venda de drogas ilegais em um distribuidor. Será punido de acordo com as leis para tais crimes, não pela maconha.

O excesso de produção de maconha medicinal na Califórnia significa encalhe para Richard, jardineiro de canabis que visitei recentemente. Ele produz quatro ou cinco safras por ano em dois quartos adaptados da sua casa alugada em uma cidade rural. Boa renda e todo o tempo do mundo para ele se deicar a pintura e meditação. Seu armário cheio não é bom sinal. Vai precisar apertar os contos por um tempo e dar destino aos 12 kilos que tem estocado mais o que vai chegar logo. Abaixo, um de seus jardins indoor

Então volte logo que mais detalhes logo vão entrar por aqui.
E sei como é complicado para comentar nos blogs da Trip, então quem quiser discutir escreve para bruno @ trip.com.br que eu respondo pelo blog

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Postado em 27.02.2009 | 03:22 | Bruno Torturra Nogueira
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É com prazer que apresento dois vídeos formidáveis. Acredito que ambos tem muito a dizer sobre o ser humano.

O primeiro é de Bill Hicks.

Assim como Zappa, Bill é um cadáver indignado de 1993. Morreu de câncer e jovem demais, 32 anos. Comediante é a alcunha, mas não exatamenre. Hicks não chega a ser engraçado, digamos. É muito hábil quando desabafa e seu discurso provoca risos e prazer porque a metáfora e o tom são perfeitos. Mas o recado é claro: isso não tem graça nenhuma.
Ar de gênio, arrogância de quem sabe e declara ser mais inteligente do que os outros.
Ele não avacalha, ele espezinha. Ele não imita, ele humilha seus alvos. Ele não se gaba de nada a não ser de seu gosto pessoal e de seu terceiro olho, "bem lustrado", ufana, por cogumelos mágicos e outros psicodélicos em altas doses.
"Ame todo mundo" é a sentença de todo show. Sem qualquer ironia, apenas fúria de um texano pacifista em guerra declarada contra os cretinos anos 80 de Reagan e os 90 que se anunciavam dementes. Acabou sendo o melhor cronista dos EUA dos anos 2000. E sua utopia suja de piadas vai se tornando mais inspiradora à medida que o mundo despenca.
Meio desconhecido até aqui nos EUA, era muito pesado para o sucesso na TV em seu tempo. Mas cada vez mais seu nome é citado em tempos de temporais de autocríticas na América. E o youtube cuidou de dar a Bill Hicks o estrelato que merece.

Aqui, dois vídeos dele, para quem entende algum inglês. Um sobre de drogas e o sentido da vida. Um final de número espetacular. O outro é uma campanha para publicitários e homens de marketing. Tem horas de vídeo dele por aí, só procurar no youtube. Recomendo muito.


"Porque não tem notícia positiva sobre droga na TV se quase todas as vezes que uso droga é tão positivo?", Bill não sabe responder


"Se mata. Não, não, sério! Se mata mesmo", aconselha Bill

O segundo... bem o segundo vídeo é mais profundo. Trata-se do desfile de uniformes do campeonato alemão de futebol 1970. Um apresentador, um estilista, um sambinha no alto falante para a mais bizarra e desandada demonstração do ridículo humano. Alemães tentando sambar em trajes esportivos. Pega essa:


Pensei na data, 1970, e na segunda guerra mundial. Alguns desses bailarinos estavam vivos enquanto a alemanha assava judeus nos campos. Eis a loucura alemã, a total capacidade de ignorar completamente a barbárie das próprias ações. É o que prova a cara da platéia depois do espetáculo: nenhuma gargalhada, nenhum constrangimento ou comentário: apenas palmas educadas diante do absurdo.
A realidade cuidou de esculpir o nome do requebrado na alcunha germânica do torneio: BUNDESLIGA,
Quer uma dica? Chama a família pra ver. E veja se você não concorda com essa verdade metafísica: o ser humano é o único aninal capaz de ser cafona.

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Postado em 27.02.2009 | 03:21 | Bruno Torturra Nogueira
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H. Psychedelica
, eis o nome científico da mais nova espécie descoberta no mundo. Um peixe que faz jus ao nome - pela estampa formidável e pela descrição de personagem do Yellow Submarine.
Ele não nada, pula entre os corais. Tem ventosas e solta jatos de água para navegar. Tem os olhos para a frente como os humanos e nunca foi visto até hoje porque, bem... estava muqueado. Contemplai antes que se extinga.



A propósito: obrigado, Nosso Senhor, por mais essa.

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Postado em 21.01.2009 | 10:32 | Bruno Torturra Nogueira
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Depois da posse do Obama, afogado de patriotismo alheio, tirei um cochilo. E eu tive um sonho. Sim, eu tive um sonho. De que a inauguration foi bem melhor do que a encomenda. Um dia ainda mais histórico, com mais assunto para a quarta feira e mais material para a dura pedra da história.
Sim, eu tive um sonho estranho pra caramba. E foi meio assim:

Aretha Franklin abre a cerimônia com uma clássica canção


Surge um líder com palavra e sensatez


Descontraído até sob a mais intensa das pressões


Que preza a tradição e as lições dos antepassados


Para juntar vozes em nome do bem comum


O homem certo para encerrar a questão racial na América


Que luta pela igualdade, e sem medo de apontar o inimigo


Que inspira milhões de jovens com discurso edificante


Orgulhoso de suas raízes


Deixa a América todo excitada


Articulado e culto, se revela um cidadão do mundo


Cortês com seus maiores rivais



Com chame de Kennedy, mantém boas relações com todos os lados


Sempre atento aos compromissos e a eficiência orçamentária


Sabe exatamente quais as prioridades


Gentleman, desfruta sua grande noite tirando a esposa para uma dança


E sempre provando ao povão que ser presidente é servir a todos
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Postado em 18.12.2008 | 06:07 | Bruno Torturra Nogueira
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Na van natalina do Little Joy, Rodrigo Amarante e a polariod de Rodrigo Amarante na van natalina do Little Joy
Muita gente sabe que Rodrigo Amarante está de banda nova - Little Joy. Mas não muitos se deram conta que, desde a imprevisível pausa dos Hermanos, Rodrigo mal parou no Brasil. Apenas 5 meses nos últimos dois anos. Estava por aqui, na Califórnia, criando novas raízes e parceiras. Sem planejar, “apenas sonhando”, como gosta de explicar, se tornou um poderoso adubo em um dos terrenos mais férteis da música americana. Apresentou Devendra Banhart a Fabrizio Moretti e Nick Valensi dos Strokes, compôs e ajudou a compor muitas canções e pariu, com a tal turma, um dos melhores discos do ano. Little Joy, 11 faixas para deixar no repeat e marcar época.

Fabrizio Moretti e Rodrigo no camarim a céu aberto do Conservatory

"Little Joy" é simples o bastante manter o frescor do improvável encontro. Forte o suficiente para arrancar qualquer rótulo de “projeto-paralelo”. E, resumindo, um disco lindo demais para ser só mais um na estante. Aqui nos EUA saiu em CD e vinil pela Rough Trade, clássico selo do underground de larga escala. No Brasil vai sair pela Som Livre, o que mata a mofada alcunha indie e escala as chances de uma das faixas virar tema de novela.
NME elogiou, Rolling Stone deu quatro estrelas e apontou Brand New Start como uma das 100 melhores músicas de 2008. Hoje mesmo, Nick Hornby, o papa das listas do pop, colocou o álbum com um dos top 5 de 2008. Minhas favoritas: Shouder To Shoulder, Unattainable e Evaporar.


Back to basics, pronto para montar o palco fuleiro em Oklahoma City

Tive a sorte de trombar com Rodrigo no meio da turnê de lançamento do disco nos EUA. 30 shows em 29 cidades e 40 dias. Apenas a banda, sem roadie, produtor ou motorista. 12.000 milhas dirigidas pelos 3 que gravaram o disco mais Matt, o boa praça baterista, e a doce Karine Carvalho - mulher de Rodrigo, cantora e atriz no Brasil, que, na estrada, cuida de vender camisetas, Lps e Cds do novo ganha pão do casal.
Tudo foi bem corrido. Cheguei apressado em Oklahoma para pegar Rodrigo entre a passagem de som e o show propriamente dito no Conservatory, um bar fuleiro em um bairro sem recursos da cidade. A banda mesmo descarrega o equipamento, monta o palco e se vira para jantar às pressas. Nada de camarim, nada de cerimônia - a entrevista aconteceu no meio fio em quase duas horas de conversa sobre tudo, menos bobagens.
Detalhes e longas 10 páginas na Trip de dezembro. Capa e Páginas Negras com Rodrigo, merecidas. Lá você vai saber como anda a cabeça do sujeito depois de largar o conforto da fama no Brasil, como dois dos mais bem sucedidos músicos de seus países (Rodrigo e Fabrizio) se juntaram para recomeçar do zero, vai saber que Los Hermanos não deu um pé de meia ao desprendido pop star, que ele vive de favor nos EUA, e que está cada vez mais feliz de ser quem é.

Aqui posto um vídeo do show de Oklahoma. Dá para sentir o som rachado e o clima lá-em-casa das primeiras aparições das grandes bandas.


10 dias depois, encontrei o pessoal de novo aqui em San Francisco. De coincidências vivem os felizes: no mesmo dia Kassim, Moreno Veloso e Domenico estavam em San Francisco para um show mais cedo. Acompanhei Karine, Rodrigo e Devendra Banhart para uma parada rápida no Ioshi's. O club meio chique, mesas ns pista para a classe média alta, fãs de música brasileira. Bom show, lindas músicas, mas meio frio para quem os viu em terra nativa, com gente sambando na pista e cantando junto. Americano até gosta, bate palma, mas não sabe do que se trata... A visita não passou batida, e Karine e Rodrigo subiram para uma canja no fim do primeiro set.

Perdidos até com GPS, chegamos meio atrasados no Slim's, onde Rodrigo subiu da pista direto à ribalta. Ligou a guitarra e começou... Palco maior, mais alto, som potente e, principal, público afiado. Casa cheia, gente cantando as canções. E inevitáveis brasileiros, fãs de Los Hermanos, que tratam Amarante como ídolo.

Rodrigo está com 32 anos, fuma cigarro e vinha sobrecarregado de shows... mas a voz gasta e curtida virou seu lastro, um trunfo ao microfone. Assim como suas novas letras, a voz e a guitarra de Amarante estão puxando experiência. Domina o palco e o público sem cruzar nunca a fronteira que separa o estilo da pose, o carisma do deslumbramento. O show acaba logo, menos de uma hora, com uma canja de Devendra Banhart e amigos da costa oeste.

Há 4 dias as 12.000 milhas chegaram ao fim em Portland, debaixo de uma cruel nevasca. E Rodrigo se deu um presente de natal: um clarinete de 200 e poucos dólares, uma pechincha. Vai embarcar com ele para a Europa dia 8 de janeiro para uma tour mais estruturada e, dia 23, chega ao Brasil.
Certamente o hype vai tratar de deixar o Little Joy embaixo de holofotes que não brilharam em Oklahoma ou em San Francisco. Você vai escutar todo o tipo de comparação com Marcelo Camelo, vai ler todo o tipo de resenha e tentativas de rotular o novo trabalho do rapaz, e hordas vão chamá-lo de gênio e outras vão destilar um crônico desdém a tudo que remeta aos Los Hermanos, a Strokes ou ao pegajoso hype.
Então faz o seguinte: espia a Trip de dezembro, leia a entrevista, mas depois esquece. Esquece esse post. Esquece a Folha, a Rolling Stone, o Nick Hornby, o Marcelo Camelo e a tour heróica pelos EUA. Faz a lição de casa: escuta bem o disco. Escuta de novo. Guarda o refrão. E não perca o show que passar perto de você. Como poucos talentos no tão mapeado pop global, Little Joy não cabe bem em resenhas ou poses. Justamente porque não tem tese, referência, nem proposta: apenas lindas canções recém nascidas, compostas e tocadas no capricho por gente talentosa que ama o que faz. Melhor não fica.

Mais fotos do Little Joy no meu flickr: http://flickr.com/photos/brunotorturra/

Aqui a entrevista : http://revistatrip.uol.com.br/173/negras/home.htm

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Postado em 10.11.2008 | 18:33 | Bruno Torturra Nogueira
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Dois motivos estancaram os posts por aqui. Uma pane no sistema dos blogs da Trip que durou mais do que meu ânimo, e uma pane no sistema dessa terra mesmo. Tempos tão estranhos e intensos que eu simplesmente não sabia por onde começar. Agora ficou fácil...

Voei na terça feira de San Francisco para Chicago e fui ao park Grant me juntar a festa da vitória do Obama. Quando a CNN fechou a conta da übereleição, o skyline serviu para retumbar o grito da polida multidão.

Meu vídeo da hora O

Chorei, não deu. Velhinhas brancas abraçadas com negões do sul de Chicago, soldados de uniforme passado e um tênue cheiro de maconha. Todos chorando também. Eu estava sozinho, e agora reparo que não há uma boa palavra para definir o oposto de arrependimento. É o sentimento que carreguei por muitos dias – de verdadeiro prazer por ter me colocado naquela situação.
Pouco antes do discurso, entre McCain admitir a derrota e o começo do hino americano, meditei sobre meus 3 meses nos EUA até então. Uma sucessão de viagens de ida atrás de gente e histórias em que nada parecia fazer sentido fora da metafísica. Os EUA não encaixam - porém estão lá, imóveis e patriotas, sob a mesma bandeira, a mesma que está na mão de milhares pelo parque. Gente embrulhada, vestida, erguendo, chacoalhando, usando como ridículas bandanas. O estandarte que enxerguei como nazista por alguns dos últimos 8 anos e pelo qual sinto um amor quase fetichista nesse momento.
Eles inventaram a primeira bandeira neurótica – complexa demais para caber na razão, oscilando entre opostos, indivisível, e feita de nada mais do que abstrações. Uma símbolo dado a marés. Quando a CNN foi cortada dos telões, o circuito interno no parque cuidou de preparar a extasiada multidão para os Obamas. Ficou claro para onde a corrente estava indo. Stevie Wonder nas caixas do parque, “Signed, Sealed and Delivered (I'm Yours)”. Sweet Home Chicago na sequência. E uma inesparada e quase obscura “Your Love Has Lifted me Higher”, do Otis Redding encerra o playlist antes do “Star Spangled Banner”, o hino deles, no gogó de Kim Stratton.
Obama entra com a família e a coisa desanda no gramado. Gente lavando com lágrimas a tal bandeira tão suja de sangue. Obama a esfrega no pódio, invocando justamente as abstrações da América e do ser humano. Apelou para os “melhores anjos” de que Lincon falava, para um futuro construído com imaginação, calma e otimismo.
Confesso que fui para Chicago não apenas para estar no lugar certo, mas para festejar mesmo. Ingênuo, não aprendi depois de 3 meses que aqui não existe micareta. Mal acabou o discurso e o povo seguiu sorrindo para casa. O Obama ganhou, catso. E ninguém vomitou na rua!Meia noite e meia o parque Grant estava praticamente evacuado. Ainda tinha uma longa noite. Encontraria em pouco tempo Alexandre Youssef, chapa e colunista da Trip para procurar uma festa mais etílica. Por enquanto me rendi ao peso da leveza interior e me joguei na grama, debaixo de uma árvore de folhas perfeitamente amarelas do outono que despencavam sobre mim. Depois de 8 anos indignados, esperando o pior de um poder decrépito, os ventos de Chicago traziam ecos do futuro. Entregue ao clichê, liguei no iPod Mahalia Jackson, a favorita da Martin Luther King Jr., arrepiando em “We Shall Overcome”.
Fechei meus olhos para tentar fazer sentido daquele dia. De como a ascensão de Bush em 2000 – e o império do medo que aflorou em 2001 – conservou em mim raiva e desilusão, dos 22 aos 30 anos de idade. E da mesma forma que meu cinismo guiou meu caminho para fora de uma vida tediosa, as desastrosas eleições de 2000 e 2004 americanas acordaram o mundo de uma sólida apatia.

Fui cutucado por um policial tocando meu pé com o cacetete. Abri os olhos e um batalhão deles andava em marcha pelo parque. Não vi nenhum outro civil no Grant Park quando saí pelos portões pensando em George W. Bush. Sem ele não haveria tanto sangue, tanta crise. Não seria tão explícita a farsa da Nova Ordem Mundial – termo deflagrado pelo papai George H. Bush. Sem o Jr. também não haveria Obama, e certamente a maioria do planeta seguiria rumo a 2012 de cabeça baixa - ou empinada, tanto faz. Sem Bush, talvez todos estaríamos debaixo da raiz da doutrina Bush: a alucinada devoção à realidade. E tudo se resume a isso: realidade. Essa cruz para a qual os cegos rezam, e que Obama, e todo o resto, vai ter que carregar.

 

O vídeo aqui prova o que quero dizer com alucinada devoção à realidade. E prova como nossa década já parece um passado distante. Ano 2000, James Brown abre o bloco ao vivo para a entrevista com o então governador do Texas George W. Bush. Plena campanha presidencial dos EUA contra o então vice-presidente Al Gore.
Um simpático e imparcial Letterman entrevista o sujeito. A platéia trata de aplaudi-lo quando ele diz que traria as piores consequências aos terroristas que acertaram o USS Cole no Iêmen. Ele não diz, mas hoje sabemos que foi Osama quem mandou bomba naquele navio militar. Também faz pouco de Al Gore e sua bandeira ambiental dizendo que ele, Bush, é um homem prático, que precisa explorar petróleo no Alasca e que carros elétricos são delíros. Ganha mais aplausos. Prepare o estômago e diga lá se não tenho razão que foi Bush o padrinho de Obama.


__________________________


Embolado nessa boa onda, fui, sem dormir, para Washington D.C. no dia seguinte. Trouxe para a Trip de dezembro uma entrevista de primeira. Wade Davis, escritor, cineasta e um dos mais viajados antropólogos do mundo.


Wade Davis no escritório puxadinho de sua casa

O bicho já fez o diabo, de penetrar nas sociedades secretas do Haiti para desvendar como é feito um zumbi, até morar no gelo com os mais reclusos esquimós. Wade é daqueles que falam como um texto. E pouca gente melhor do que ele para, já na quinta feira, dar sua leitura da vitória de Obama. Explicou com autoridade porque chamamos o ocidente de “mundo”, e porque a economia, travestida de ciência, está matando culturas, línguas e possibilidades de existência. Depois da conversa, ainda emendamos em um show de Bob Weir e Rat Dog, a nova banda do vocalista sobrevivente do Grateful Dead. Good vibes hippies no último em plena capital do império. Tempos interessantes para viver na América...

E para provar que “Change” é mais do que um slogan, confesso que acabo de voltar da igreja. Mea culpa: a única igreja que fui capaz de frequentar na vida. A Igreja Africana Ortodoxa de São John Coltrane. Não é piada. Serviço semanal, glorioso, comandado por uma comunidade negra, mas cheio de brancos na larga banda, com o melhor jazz da Califórnia retumbando em glória do senhor. Repito sem exagero. O melhor jazz ao vivo disponível.




Lá, John Coltrane é tratado como verdadeiro santo que, depois de um renascimento espiritual, trouxe a mensagem de Deus através do som. Na Trip de dezembro, além de Wade Davis, uma reportagem sobre o poder do jazz de batina.
Na missa de hoje o sermão, naturalmente, foi sobre Obama. Brother Obama, melhor falando, e apocalipse, e Babilônia, e de toda a via crucis que os EUA vão ter que passar para merecer um presidente messiânico como esse. Bispo King estava exultante, mas cauteloso.
Disse que espera para ver como Deus vai agir. Como o grande todo, o grande paradoxo, vai agir no salão oval. Seu otimismo, ao contrário dos padres, não está na fé simplesmente, ou na promessa confortante do paraíso. Citando seu argumento final: “Podemos estar orgulhosos porque, e isso eu sei por fontes próximas, que elegemos um presidente que escuta John Coltrane.” E isso, aí sim, é histórico.

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Postado em 19.08.2008 | 16:12 | Bruno Torturra Nogueira
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seq_depp.jpg Seqüóia Gigante da Califórnia, ou a Dercy, como a chamo Sei, melhor do que meus seis leitores, que esse blog anda com a periodicidade de equinócios. Mas é com pompa, vergonha e a promessa de que agora vai que retomo as atividades. Em primeiro, explico a ausência: para um blog que evoca a deportação à espreita, não fazia muito sentido emendar boletins de São Paulo mesmo. Mas há mais nesse atraso. Os últimos meses na Trip, na seqüencia da viagem abaixo descrita, foram de incubação e burocracias necessárias para as novas que agora ponho na rua. Há cinco dias cheguei na Califórnia, em San Francisco, para uma temporada de seis meses. Uma idéia, ou quase uma necessidade, vinda das andanças e relações nascidas em Basel e no Havaí, entre sinconicidades psicodélicas e possibilidades oníricas. Embarquei para ser o correspondente da Trip nos EUA e batucar um livro que pretendo levar na bagagem de volta. Conto com os ares novos e a distância de casa para botar de pé a disciplina e o texto. San Francisco é, de longe, a cidade que mais gosto nos Estados Unidos. E, ingenuamente, alimento há tempos no imaginário a mítica da Haight St., do Fillmore, das casas vitorianas que abrigaram alguns dos meus heróis: Grateful Dead, Frank Zappa, Robert Crumb, Tim Leary e a idade de ouro (coisa de seis meses) do LSD. Como em qualquer lição, a primeira a cair é a ingenuidade. Em milhas de caminhada, fui do bairro de North Beach até o meio do Golden Gate Park. Avenidas de comércio voraz, gente sem saco de ajudar um brasileiro perdido e a Haight meio triste, carregada de carcaças hippies e uma estética de parque temático lisérgico. Uma molecada largada oferece ácido e metanfetamina na mesma frase e jovens endinheirados vão enchendo sacolas em lojas de griffe e brechós de primeira. Novidade? Nem tanto... Crumb e Zappa dedavam com genial cinismo a hipocrisia do lado B da geração Haight já nos anos 60. Mas foi chegando no Golden Gate que a ansiedade de uma vida zerada, de um idioma ainda pegando no tranco, foi-se de uma vez. Já estava combinado por email, há uns 15 dias, uma conversa com o diretor do Strybing Arboretum, ou o Jardim Botânico de San Francisco. O adendo do GG é o mais exuberante e completo jardim botânico dos EUA, mais de 8000 espécies de plantas, a maioria semeada por ali mesmo, nas estufas. Em 15 minutos de entrevista, eu como entrevistado, fui aceito como voluntário. Uma vez por semana vou servir pelas manhãs como assistente de jardineiro e catalogador de plantas. Quando deixei a sala, o arboretum já estava próximo de fechar, 4 da tarde, mas Tom, o sujeito, me deixou ficar ? sozinho. seq-dep2.jpg Foram quatro horas até anoitecer completamente no verão americano - e não tem muita metáfora para descrever o passeio. O jardim mais espetacular da América sem uma alma humana para a primeira trip, propriamente dita, em San Francisco. No headphone a favorita de dr. Hofmann, quinteto para cordas em dó maior do Schubert. E uma cama perfeita em um galho colossal de uma sequóia. Foi quando descobri que o sol não se põe nessa cidade. Antes um fog denso e gelado entra pelas ruas e penteia os carvalhos centenários. A exata hora em que um bando de marrecos se aproxima, me cerca e se encolhem de frio na grama. Foi quando o tempo deu aquele pause, a sinfonia terminou, e, sozinho no melhor acre do Golden Gate, cercado de patos, San Francisco, puxa vida, me deu as boas vindas.
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Postado em 30.04.2008 | 10:20 | Bruno Torturra Nogueira
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bicicleta2.jpg Peço aos meus cinco leitores que voltem ao primeiro post desse blog. Lá foi o começo de uma longa viagem, que será publicada em detalhes nas próximas edições da Trip. Lá falo de um sujeito, o motivo pelo qual embarquei para Basel há mais de 40 dias. Albert Hofmann. Explico ali quem é ele. E narro no post o começo de uma sucessão de sincronicidades psicodélicas que, nas últimas semanas, se tornaram rotina. Não vou entrar em detalhes, porque a data é séria. Hoje a viagem acabou. Ou por enquanto. Foi o último dia do curso de sonhos lúcidos aqui na big island do Havaí. Na aula da manhã, onde contamos nossa noite, dividi com LaBerge e a rapaziada a entrevista onírica que fiz com Albert Hofmann em meu primeiro sonho lúcido. A aula prosseguiu normalmente. Como conclusão, LaBerge elaborou uma longa e muito bonita tese sobre sonhos com falecidos. Como eles são não apenas uma porta para nosso inconsciente e lições que a superfície mental revela, mas também uma forma de comunicar-se com o sentimento oceânico, com o indizível. Voltando do almoço um email bate à minha caixa. Aos 102 anos, Albert Hofmann morreu. LaBerge ficou passado. E eu buscando palavras. No meu sonho, e o post abaixo que não me deixa mentir, Hofmann me recebeu para uma entrevista que, em Basel, não consegui fazer. Ele se desculpou, disse que estava velho e cansado demais. Falamos sobre a vida, psicodélicos e consciência. E, antes do sonho acabar, Hofmann foi encolhendo até tornar-se um feto e sumir. Hoje ele morreu, o curso acabou, semana que vem aterriso em São Paulo. Não fiquei exatamente triste, pois nunca o conheci. Mas senti vivo o espírito que Hofmann despertou no mundo. Graças a sua visão da consciência, da beleza manifesta para dentro e para fora da mente, tudo mudou completamente. E ele nunca assumiu, menos ainda pediu crédito. Mas foi um mestre, um profeta cuja mensagem ainda está para florescer. Fui escrever um pouco nas falésias de lava recente do Havaí. Duas milhas para o sul, via-se lava brotando e caindo no mar. Vapores furiosos subiam aos céus e viravam nuvem. Havaianos me disseram que hoje Pele, a deusa do magma, estava com fome. Um sentimento estranho de melancolia e felicidade me encheu completamente por todo o dia. Derramei lágrimas estranhas ao perceber que esse foi o acorde final de uma sinfonia. E que sou, de alguma forma, parte dela. Ou sonho ser. Adeus, Dr. Albert Hofmann. Continue nos céus.
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