

Dois motivos estancaram os posts por aqui. Uma pane no sistema dos blogs da Trip que durou mais do que meu ânimo, e uma pane no sistema dessa terra mesmo. Tempos tão estranhos e intensos que eu simplesmente não sabia por onde começar. Agora ficou fácil...
Voei na terça feira de San Francisco para Chicago e fui ao park Grant me juntar a festa da vitória do Obama. Quando a CNN fechou a conta da übereleição, o skyline serviu para retumbar o grito da polida multidão.
Meu vídeo da hora O
Chorei, não deu. Velhinhas brancas abraçadas com negões do sul de Chicago, soldados de uniforme passado e um tênue cheiro de maconha. Todos chorando também. Eu estava sozinho, e agora reparo que não há uma boa palavra para definir o oposto de arrependimento. É o sentimento que carreguei por muitos dias – de verdadeiro prazer por ter me colocado naquela situação.
Pouco antes do discurso, entre McCain admitir a derrota e o começo do hino americano, meditei sobre meus 3 meses nos EUA até então. Uma sucessão de viagens de ida atrás de gente e histórias em que nada parecia fazer sentido fora da metafísica. Os EUA não encaixam - porém estão lá, imóveis e patriotas, sob a mesma bandeira, a mesma que está na mão de milhares pelo parque. Gente embrulhada, vestida, erguendo, chacoalhando, usando como ridículas bandanas. O estandarte que enxerguei como nazista por alguns dos últimos 8 anos e pelo qual sinto um amor quase fetichista nesse momento.
Eles inventaram a primeira bandeira neurótica – complexa demais para caber na razão, oscilando entre opostos, indivisível, e feita de nada mais do que abstrações. Uma símbolo dado a marés. Quando a CNN foi cortada dos telões, o circuito interno no parque cuidou de preparar a extasiada multidão para os Obamas. Ficou claro para onde a corrente estava indo. Stevie Wonder nas caixas do parque, “Signed, Sealed and Delivered (I'm Yours)”. Sweet Home Chicago na sequência. E uma inesparada e quase obscura “Your Love Has Lifted me Higher”, do Otis Redding encerra o playlist antes do “Star Spangled Banner”, o hino deles, no gogó de Kim Stratton.
Obama entra com a família e a coisa desanda no gramado. Gente lavando com lágrimas a tal bandeira tão suja de sangue. Obama a esfrega no pódio, invocando justamente as abstrações da América e do ser humano. Apelou para os “melhores anjos” de que Lincon falava, para um futuro construído com imaginação, calma e otimismo.
Confesso que fui para Chicago não apenas para estar no lugar certo, mas para festejar mesmo. Ingênuo, não aprendi depois de 3 meses que aqui não existe micareta. Mal acabou o discurso e o povo seguiu sorrindo para casa. O Obama ganhou, catso. E ninguém vomitou na rua!Meia noite e meia o parque Grant estava praticamente evacuado. Ainda tinha uma longa noite. Encontraria em pouco tempo Alexandre Youssef, chapa e colunista da Trip para procurar uma festa mais etílica. Por enquanto me rendi ao peso da leveza interior e me joguei na grama, debaixo de uma árvore de folhas perfeitamente amarelas do outono que despencavam sobre mim. Depois de 8 anos indignados, esperando o pior de um poder decrépito, os ventos de Chicago traziam ecos do futuro. Entregue ao clichê, liguei no iPod Mahalia Jackson, a favorita da Martin Luther King Jr., arrepiando em “We Shall Overcome”.
Fechei meus olhos para tentar fazer sentido daquele dia. De como a ascensão de Bush em 2000 – e o império do medo que aflorou em 2001 – conservou em mim raiva e desilusão, dos 22 aos 30 anos de idade. E da mesma forma que meu cinismo guiou meu caminho para fora de uma vida tediosa, as desastrosas eleições de 2000 e 2004 americanas acordaram o mundo de uma sólida apatia.
Fui cutucado por um policial tocando meu pé com o cacetete. Abri os olhos e um batalhão deles andava em marcha pelo parque. Não vi nenhum outro civil no Grant Park quando saí pelos portões pensando em George W. Bush. Sem ele não haveria tanto sangue, tanta crise. Não seria tão explícita a farsa da Nova Ordem Mundial – termo deflagrado pelo papai George H. Bush. Sem o Jr. também não haveria Obama, e certamente a maioria do planeta seguiria rumo a 2012 de cabeça baixa - ou empinada, tanto faz. Sem Bush, talvez todos estaríamos debaixo da raiz da doutrina Bush: a alucinada devoção à realidade. E tudo se resume a isso: realidade. Essa cruz para a qual os cegos rezam, e que Obama, e todo o resto, vai ter que carregar.
O vídeo aqui prova o que quero dizer com alucinada devoção à realidade. E prova como nossa década já parece um passado distante. Ano 2000, James Brown abre o bloco ao vivo para a entrevista com o então governador do Texas George W. Bush. Plena campanha presidencial dos EUA contra o então vice-presidente Al Gore.
Um simpático e imparcial Letterman entrevista o sujeito. A platéia trata de aplaudi-lo quando ele diz que traria as piores consequências aos terroristas que acertaram o USS Cole no Iêmen. Ele não diz, mas hoje sabemos que foi Osama quem mandou bomba naquele navio militar. Também faz pouco de Al Gore e sua bandeira ambiental dizendo que ele, Bush, é um homem prático, que precisa explorar petróleo no Alasca e que carros elétricos são delíros. Ganha mais aplausos. Prepare o estômago e diga lá se não tenho razão que foi Bush o padrinho de Obama.
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Embolado nessa boa onda, fui, sem dormir, para Washington D.C. no dia seguinte. Trouxe para a Trip de dezembro uma entrevista de primeira. Wade Davis, escritor, cineasta e um dos mais viajados antropólogos do mundo.
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Wade Davis no escritório puxadinho de sua casa
O bicho já fez o diabo, de penetrar nas sociedades secretas do Haiti para desvendar como é feito um zumbi, até morar no gelo com os mais reclusos esquimós. Wade é daqueles que falam como um texto. E pouca gente melhor do que ele para, já na quinta feira, dar sua leitura da vitória de Obama. Explicou com autoridade porque chamamos o ocidente de “mundo”, e porque a economia, travestida de ciência, está matando culturas, línguas e possibilidades de existência. Depois da conversa, ainda emendamos em um show de Bob Weir e Rat Dog, a nova banda do vocalista sobrevivente do Grateful Dead. Good vibes hippies no último em plena capital do império. Tempos interessantes para viver na América...
E para provar que “Change” é mais do que um slogan, confesso que acabo de voltar da igreja. Mea culpa: a única igreja que fui capaz de frequentar na vida. A Igreja Africana Ortodoxa de São John Coltrane. Não é piada. Serviço semanal, glorioso, comandado por uma comunidade negra, mas cheio de brancos na larga banda, com o melhor jazz da Califórnia retumbando em glória do senhor. Repito sem exagero. O melhor jazz ao vivo disponível.
Lá, John Coltrane é tratado como verdadeiro santo que, depois de um renascimento espiritual, trouxe a mensagem de Deus através do som. Na Trip de dezembro, além de Wade Davis, uma reportagem sobre o poder do jazz de batina.
Na missa de hoje o sermão, naturalmente, foi sobre Obama. Brother Obama, melhor falando, e apocalipse, e Babilônia, e de toda a via crucis que os EUA vão ter que passar para merecer um presidente messiânico como esse. Bispo King estava exultante, mas cauteloso.
Disse que espera para ver como Deus vai agir. Como o grande todo, o grande paradoxo, vai agir no salão oval. Seu otimismo, ao contrário dos padres, não está na fé simplesmente, ou na promessa confortante do paraíso. Citando seu argumento final: “Podemos estar orgulhosos porque, e isso eu sei por fontes próximas, que elegemos um presidente que escuta John Coltrane.” E isso, aí sim, é histórico.
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