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Postado em 19.03.2008 | 20:28 | Bruno Torturra Nogueira
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lsd.jpg Juro que não me abalo mais. De uns tempos para cá a sincronicidade virou rotina. A PF ontem bateu um recorde. A maior apreensão de ácido já feita no Brasil. Ao todo foram 10.000 unidades, "pontos" como chamou o delegado, importados de Amsterdã, chegando em Curitiba. Os responsáveis pela dura divulgaram em nota, que a imprensa cuidou de publicar tal e qual, que o "LSD é uma droga alucinógena". Eu estava de saída da redação, de malas prontas, quando vi a notícia e uma profética foto. 10.000 bicicletinhas. Em cada papel apreendido o desenho de uma bicicleta e uma singela homenagem. 100 years. Não se engane, a vigésima quinta dietilamida do ácido lisérgico (o que é de fato o LSD) não tem 100 anos. A data celebra o centenário de Albert Hoffman, Ph.D, ocorrido em 2006. Ele sintetizou o LSD, em 1938. E, por um "acidente", como ele mesmo coloca nas aspas, ingeriu uma quantidade ínfima da substância. Voltando para casa de bicicleta, aqui em Basel, teve a primeira trip de LSD da história. Hoje, vivo e lúcido, está com 102 anos. Por conta dele que embarquei ontem. Para entrevistar o dr. Hoffman acabo de chegar em um elegante hotel em Basel, na Suíça. Coincidência? Você ainda não viu nada... Na terça feira da semana passada chegou uma velha encomenda que fiz pela net. O livro LSD: My Problem Child, do Dr. Hoffman. Estava folheando ele pela manhã quando bate o email. Bia Labate, amiga e antropóloga, me avisa que está a caminho da Suíça para um grande fórum. E me passa um link. Dr. Hoffman é o patrono e o primeiro palestrante do World Pshychedelic Forum, o primeiro da história. Trata-se de um evento impressionante para quem sabe um pouco do riscado. Enquanto as 10.000 doses de LSD (certamente misturados a anfetaminas e aditivos adequados a festas), mais de 100 nomes do mundo todo desembarcam aqui em Basel para tentar tirar substâncias como essa das mãos da polícia e devolvê-las aos cientistas, os originais donos do movimento psicodélico. Psico = mente. Delos = forma, manifestação. Mente manifesta, é como Humphrey Osmond e Aldus Huxley batizaram os efeitos dos tais compostos. Tudo foi estudado à exaustão e os resultados das pesquisas não poderiam ser mais animadores. LSD, Mescalina, Psilocibina apresentaram mais potencial como psicoterapêuticos do que qualquer antidepressivo até hoje. Por um motivo simples: seus efeitos NÃO SÃO ALUCINATÓRIOS quando aplicados de modo seguro e profissional. Como diz o termo, a academia concordou que tais moléculas, de toxidade praticamente nula, calibrava a mente em estados transitórios de profunda atividade sensorial e simbólica. Em última análise, enchia a consciência de metafísica e possibilidades. As imagens, sinestesias, os caleidoscópios, explosões de cores e outras visões não passavam de leituras de uma mente catalisada. Tudo ia muito bem, até que os anos 60 chegaram. E com eles a histeria coletiva. O LSD perdeu a bula, hippies tomavam como chicletes, yippies como arma política, políticos como obra dos comunistas, religiosos como do diabo. Resultado: proibido. As pesquisas cessaram e os traficantes agradeceram. Mais gente se deu mal tomando ácido, feito nas coxas e sem orientação profissional. Até a literatura psicodélica das pesquisas foi banida. O termo, que prometia se tornar um ramo da psicologia, se tornou clichê, sinônimo de hippies ou frequentadores de raves. Para repensar tudo isso, o fórum vai ocupar o centro de convenções de Basel. Lendas vivas dos anos 40, 50 e 60 estão no mesmo hotel que o presente repórter. Novos pesquisadores, xamãs, botânicos, religiosos, ateus, músicos e entusiastas em geral estão chegando dos cinco continentes. Especialistas em LSD, DMT, Mescalina, Iboga, Ayahuasca, Maconha e todo o tipo de composto capaz de levar mentes ao céu e ao inferno como escalas de um mesmo vôo. Falando em vôo... quando acordei no avião da Lufthansa, antes de chegar em Munique, passava Across the Universe, um musical recém lançado com canções dos Beatles. Todos os personagens embebidos em LSD. Desembarquei e esperei 5 horas pelo vôo para Basel. Agora em um avião lindo, verde antigo, movido a hélice. Eu estava exausto e desesperado com o alemão soando pela cabine. Quando o senhor ao meu lado puxa assunto. Um velho elegante e falador que não entendia que eu não queria muito papo. Ele explicava animadíssimo porque aviões a hélice são melhores. Até que, quase pousando, perguntou o que vim fazer em Basel. Eu, que até então disfarçava o livro, escancarei: vim entrevistar o inventor do LSD. E mostrei a capa. Ele me corrige na hora. "Inventor não! Descobridor. Eu conheço o dr. Hoffman!" Meu cokega de vôo chama-se Gundolf Lücke, ele é químico, já batizou substâncias com seu nome e fez seu mestrado na universidade de Bonn. Agora, pega essa: sua pesquisa, em 1968, era para medir a toxidade do LSD. 1968, o verão do amor, o ano exato em que as pesquisas psicodélicas terminaram a coisa desandou. Desembarcamos juntos, felizes pela sincronicidade. Ele pegou minha caderneta e escreveu um bilhete para dr. Hoffman. E me recomendou, inocente mesmo, que eu visite os arredores de Basel. "Alugue uma bicicleta, não tem jeito melhor de conhecer o lugar". Aposto que não, dr. Amanhã começo cedo, e vou por toda a tarde. Vou entrevistar, tomar notas e o que mais tiver. Timming perfeito com a estréia desse blog em que pretendo reportar viagens de todos os tipos. Nos próximos cinco dias mando posts, vídeos, fotos e links úteis. Sei que vai render... as coincidências não falham nunca. BTN, quase ao vivo de Basel para a Trip. Putz... Trip. Logo trip...
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