Porteiro em seu bunker de trabalho
Nem vaga demarcada, nem raia de natação, nem espaço gourmet. O que faz mesmo diferença em um prédio é o porteiro.
Se ele for ruim, o edifício vira uma combinação de Torre de Babel com Balança, Mas Não Cai. Se for bom, a conta é entregue antes do vencimento, a revista chega no seu apartamento ainda no sábado, o carro está sempre fácil de manobrar e a porta se abre quando você chega com as mãos ocupadas.
Ainda que ele praticamente não abra mais porta alguma. Pelo menos, não como antigamente. Por conta da violência, sempre ela, o porteiro agora trabalha em um bunker, isolado como um laboratório de biossegurança máxima. Lá de dentro, aciona os comandos que abrem e fecham portas e portões.
E, naturalmente, acena para quem chega ou sai. Acena o dia todo, a noite inteira, o turno completo. Essa é a principal função do porteiro moderno: produzir um balanço de cabeça ou um gesto com a mão que faça o morador se sentir acolhido e, quiçá, um pouco menos aborrecido com a cota extra do condomínio.
Se não houver isolamento acústico em sua casamata, ele pode ainda pronunciar um "oi" ou um "tchau". Em condições excepcionais, mas sem tirar os olhos das câmeras de vigilância, até informa o resultado do futebol. E olhe lá. Aquela conversinha na portaria caiu em desuso.
E não só por conta da segurança, mas também por causa do telefone celular. Ninguém mais fica esperando lá embaixo. Agora só se toma o elevador – mais conhecido como "o mesmo" nas plaquinhas ("antes de entrar, verifique se o mesmo se encontra neste andar") – quando sua carona liga avisando que já está em frente ao edifício.
E, sem a conversa com o porteiro, a rede social do condomínio fica mais lenta. É ele quem sabe o que você e os outros moradores fizeram no verão passado, e no resto do ano também. Se informação é poder, ele está em vantagem. E você, o que sabe do porteiro? Além do nome? Ou, vá lá, do time para que ele torce? Nada.
Provavelmente, sua conversa mais longa com ele acontece pelo interfone, quando chega a pizza – é, porteiro sempre anuncia uma pizza, ainda que você tenha pedido um sushi ou qualquer coisa da farmácia.
Graças a essa ausência de diálogo, você demora meses para saber de coisas básicas para sua existência, como o casamento da filha da mulher do quinto andar ou a reforma no apartamento 72.
Ninguém mais conhece o vizinho? É porque ninguém mais conversa com o porteiro.

































