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Postado em 28.07.2009 | 18:07 | Fernando Luna
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´"Sozinho, pobre infeliz?"

Nem sexo anal, nem as farras do Berlusconi, nem os atos secretos do Sarney. O último tabu a resistir nestes dias libertinos é comer sozinho num restaurante.

Tudo bem, é ótimo dividir a mesa e jogar conversa fora entre uma garfada e outra. Só que, na correria nossa de cada dia, todo mundo está sujeito a um almoço ou jantar solo de vez em quando.

E o que deveria ser uma coisa normal parece mais a última ceia, a derradeira refeição. Com uma desvantagem clara: você não é executado em seguida e, por isso, fica condenado a carregar pelo resto de seus dias essa mácula. O comensal solitário é o dalit dos restaurantes, um intocável com fome, um sem-casta crente que é gente.

O problema começa logo na entrada. O maître, a hostess ou quem quer que esteja por ali dispara: "É só você?". Veja bem, a questão obviamente não se refere à quantidade de lugares à mesa. O subtexto, o cochicho mental é outro: "Pobre infeliz solitário, além de não conseguir companhia ainda faz questão de tornar pública sua humilhação".

Logo depois, aparece o garçom para a estocada definitiva: "Está sozinho?". Diante da confirmação, só falta lavar as mãos com álcool em gel, vestir uma máscara descartável e trocar o cardápio por uma edição de “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”.

Não demora e alguém propõe uma lei federal que obrigue cada estabelecimento a criar uma área exclusiva para desacompanhados. Um cantinho qualquer para isolar os isolados, para tirar esses pervertidos da frente das crianças.

Até aquele casal que passa a refeição inteira brigando ou, pior, sem trocar uma única palavra costuma ser mais tolerado. Não importa se eles nem se olharam durante a entrada, o primeiro prato, o segundo prato, a sobremesa, o cafezinho ou enquanto esperavam o manobrista trazer o carro. Solidão a dois é mais aceita socialmente do que solidão a um.

É como se comer sozinho fosse uma espécie de antecedente criminal, sintoma de algum desajuste grave. Depois, ninguém estranha se descobre que o ermitão mantém a família presa no porão de casa ou envia cartas-bomba de sua choupana em Montana. Está na cara.

De acordo com essa lógica torta, Nelson Rodrigues errou. A pior solidão não seria a companhia de um paulista, mas ficar sozinho num restaurante. Bom, nessa hora em que os 274 amigos do Facebook e os 442 seguidores do Twitter não servem para muita coisa, vale lembrar: você pode ser uma boa companhia para você mesmo.

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