Tem programas de televisão tão ruins, mas tão ruins, que acabam sendo bons. Outros são tão ruins que, bem, são ruins mesmo. "A Fazenda" é desses.
Só tem um problema: televisão ruim é irresistível.
E você fica ali, horas e horas diante da tevê, sabendo que não deveria perder tempo com aquilo, que seria melhor, sei lá, ler o novo romance do Philip Roth, ligar para sua mãe ou organizar a gaveta de talheres.
Não adianta. É mais poderoso que você. Mesmo que seus Mutantes favoritos sejam Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee, não encontra forças para deixar de lado as aventuras de Theo Becker, o homem-serpente da novela "Os Mutantes".
Não ligou o nome à pessoa? Ele é uma das celebridades-anônimas do reality freak show da Rede Record. Hum, nada? Theo Becker é alguém que faz Dado Dolabella parecer um embaixador do Itamaraty.
O ibope está aí para provar que não estou sozinho nisso. Aliás, tenho outras evidências. Provas materiais, inclusive – se é que SMS é prova material. A mensagem apareceu no meu celular no começo da madrugada, semana passada. Menor que um Twitter: "A Babi acaba de errar um arremesso de um galo de pano num estilingue de Itu. Seguida da Danni Carlos. Please."
Estranhei. A remetente, cujo nome protejo no anonimato, costuma se interessar mais pela BBC do que por BBB e seus derivados. É verdade que o please, por favor, indicava algum desconforto com a pataquada toda. Nada, porém, que a fizesse mudar de canal.
O que faz seres humanos razoáveis se dedicarem a espiar futricas de um bando de marmanjos? O sociólogo Zygmunt Bauman, um dos pensadores mais respeitados de hoje, absolve consciências culpadas e reconhece o apelo universal dos reality shows: "Tem alguma coisa para muitos, talvez para a maioria – não importa o gênero, a tonalidade da pele, a classe ou o diploma escolar."
Ou seja, ninguém zapeia incólume por "A Fazenda" e shows de realidade em geral. No fundo, todos esses programas tratariam da questão fundamental da existência – a morte. A eliminação seria um jeito de morrer.
Bauman continua, em seu livro Medo Líquido. "O que os reality shows expõem é o destino. A eliminação é um destino inevitável", escreve. "É como a morte, que você pode tentar manter à distância por algum tempo, mas nada do que faça poderá detê-la quando finalmente chegar."
Daí os telespectadores em volta da telinha, como curiosos em torno de um corpo estendido no chão.





