É a revolução dos bichos, e parece que eles estão levando a melhor. Depois da vaca louca e da gripe aviária, está aí a gripe suína.
Escrevi gripe suína? Perdão, influenza A. A Organização Mundial da Saúde passou a se referir assim à doença causada pela mutação do vírus H1N1 – a pedido, naturalmente, dos criadores de porcos.
Ei, eufemismo é mais contagioso que o vírus: "criadores de porcos" faz pensar no Chico Bento e na Vovó Donalda. Esquece o chapéu de palha e o chiqueirinho. Na real, são megaindústrias do agronegócio. Essas, sim, têm força para provocar mutações também na linguagem. O súbito rigor semântico procura evitar que o pânico contamine desempenho econômico do setor.
Juntar as palavras "gripe" e "suína" não convém mesmo a empresas como a Smithfield Foods, maior produtora de carne suína do mundo. Ano passado, abateu 31 milhões de animais e faturou 12 bilhões de dólares. Porco capitalista talvez seja isso, afinal. Sem ofensa.
O primeiro caso deste surto de gripe-anteriormente-conhecida-como-suína apareceu em La Gloria. Há quem acredite que não foi coincidência. A cidade mexicana fica a poucos quilômetros de uma subsidiária da Smithfield – que já emitiu comunicados afirmando que não tem nada a ver com isso, onde já se viu, sai para lá.
De qualquer jeito, não se trata de encontrar o Lobo Mau da história dos porquinhos virulentos. O problema é que, se a criação intensiva de animais derruba o preço dos alimentos, certamente não acontece em casinhas de palha, madeira ou tijolos.
Ao contrário. Os bichos ficam aos milhares em galpões industriais, espremidos como se já estivessem dentro de uma embalagem de bacon fatiado. De certo modo, estão mesmo. Com a imunidade afetada pelo confinamento e por doses maciças de antibióticos, hormônios e vacinas, o rebanho se transforma em um playground de vírus.
As previsões da gripe estão incertas como as econômicas. Tem quem diga que o pior já passou e que a gripe nem é das mais devastadoras. Outros garantem que ainda estamos nos primeiros 200 metros de uma maratona letal, e uma segunda onda do surto provocaria muito mais fatalidades. Até a manhã de ontem, a pandemia iminente se limitava a 26 vítimas fatais e 1003 ocorrências pelo mundo.
Mas sempre aparece um espírito de porco (opa) para lembrar dos 50 milhões de mortos da gripe espanhola – que, aliás, era um subtipo de gripe aviária.




















