Revista Trip

 
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Postado em 01.09.2009 | 10:09 | Fernando Luna
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Esta coluna vai se autodestruir em 2.376 toques, com espaços. Pois é, depois de um ano no jornal Destak toda terça-feira, é hora de dar tchau. Difícil é, diante de tantas possibilidades, decidir como fazer isso:

"Fui." A apresentadora Xuxa mandou essa, anunciando sua saída do Twitter. Ainda completou: "vcs não merecem falar comigo nem com meu anjo". Ela se aborreceu quando puseram reparo em um erro ortográfico de Sasha – a baixinha da rainha escreveu "cena" com "s".

"Vai pela sombra." Um dos adeuses mais intrigantes, especialmente quando pronunciado à noite.

"Juízo, hein?" Mais que uma despedida, é uma advertência: olha lá, não vai fazer bobagem. Deve ter sido mais ou menos isso que os doze auditores da Receita Federal queriam dizer para o ministro Guido Mantega, quando pediram demissão em solidariedade à Lina Vieira e contra as pressões políticas na fiscalização.

"Vai com Deus." Redundância. Afinal, Deus não seria onipresente?

"Boa sorte." A versão laica do "vai com Deus". Se Deus é um delírio, resta apelar ao acaso.

"PT Saudações." Usado no final de telegramas e pela senadora Marina Silva, que deixou o Partido dos Trabalhadores. Aloizio Mercadante até tentou fazer a mesma coisa, renunciando à liderança do partido – mas o presidente Lula não deixou, na-na-ni-na-não.

"Volte sempre." Um "tchau" que, no fundo, quer virar um "oi". Você ainda nem saiu da loja, e o vendedor já antecipa sua próxima visita. Aliás, suas próximas visitas. Ele não quer apenas que você volte, quer que volte sempre. Sempre que tiver dinheiro, claro.

"Desculpa qualquer coisa." Expressão incrivelmente irritante. Como assim "qualquer coisa"? Do que exatamente está falando? Quer dizer então que não era brincadeira?!

"Obrigado eu." É o superlativo de "de nada".

"Te ligo sem falta." Clássico daqueles encontros casuais, no meio da rua, com aquele conhecido que você não via há anos – se é que dá para chamar de conhecido alguém que teve três filhos sem que você soubesse. É a maneira de um dizer que gosta do outro, embora não o suficiente para realmente telefonar.

"(.)" O estilo Belchior, que vai embora sem palavras, sem aviso.

Antes que alguém vá me procurar no Uruguai, queria saudar o povo e pedir passagem. Muitíssimo obrigado aos leitores e ao jornal Destak. Bom, como dizem os profetas de praça pública, o fim está próximo. Opa, chegou. A gente se lê na Trip e na Tpm – e, claro, aqui nesta CoLuna.

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Postado em 25.08.2009 | 13:08 | Fernando Luna
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Porteiro em seu bunker de trabalho

Porteiro em seu bunker de trabalho

 

Nem vaga demarcada, nem raia de natação, nem espaço gourmet. O que faz mesmo diferença em um prédio é o porteiro.

Se ele for ruim, o edifício vira uma combinação de Torre de Babel com Balança, Mas Não Cai. Se for bom, a conta é entregue antes do vencimento, a revista chega no seu apartamento ainda no sábado, o carro está sempre fácil de manobrar e a porta se abre quando você chega com as mãos ocupadas.

Ainda que ele praticamente não abra mais porta alguma. Pelo menos, não como antigamente. Por conta da violência, sempre ela, o porteiro agora trabalha em um bunker, isolado como um laboratório de biossegurança máxima. Lá de dentro, aciona os comandos que abrem e fecham portas e portões.

E, naturalmente, acena para quem chega ou sai. Acena o dia todo, a noite inteira, o turno completo. Essa é a principal função do porteiro moderno: produzir um balanço de cabeça ou um gesto com a mão que faça o morador se sentir acolhido e, quiçá, um pouco menos aborrecido com a cota extra do condomínio.

Se não houver isolamento acústico em sua casamata, ele pode ainda pronunciar um "oi" ou um "tchau". Em condições excepcionais, mas sem tirar os olhos das câmeras de vigilância, até informa o resultado do futebol. E olhe lá. Aquela conversinha na portaria caiu em desuso.

E não só por conta da segurança, mas também por causa do telefone celular. Ninguém mais fica esperando lá embaixo. Agora só se toma o elevador – mais conhecido como "o mesmo" nas plaquinhas ("antes de entrar, verifique se o mesmo se encontra neste andar") – quando sua carona liga avisando que já está em frente ao edifício.

E, sem a conversa com o porteiro, a rede social do condomínio fica mais lenta. É ele quem sabe o que você e os outros moradores fizeram no verão passado, e no resto do ano também. Se informação é poder, ele está em vantagem. E você, o que sabe do porteiro? Além do nome? Ou, vá lá, do time para que ele torce? Nada.

Provavelmente, sua conversa mais longa com ele acontece pelo interfone, quando chega a pizza – é, porteiro sempre anuncia uma pizza, ainda que você tenha pedido um sushi ou qualquer coisa da farmácia.

Graças a essa ausência de diálogo, você demora meses para saber de coisas básicas para sua existência, como o casamento da filha da mulher do quinto andar ou a reforma no apartamento 72.

Ninguém mais conhece o vizinho? É porque ninguém mais conversa com o porteiro.

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Postado em 18.08.2009 | 15:08 | Fernando Luna
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Dilma ou Lina? V ou F?

Dilma ou Lina? V ou F?

Qualquer semelhança com a polêmica entre Dilma Rousseff e Lina Vieira é mera coincidência, mas o assunto aqui é mentira.

Só uma pergunta. Seja sincero. Você mente?

( ) Sim ( ) Não

Se respondeu "não", por que mentiu? Pensando bem, é melhor nem tentar se justificar. Seria difícil acreditar em qualquer coisa depois dessa primeira resposta falsa. Mas, ei, não fica assim. Todo mundo mente. Quem disser que não, bem, está mentindo. Viu?

Um estudo da Universidade de Massachusetts, nos EUA, revelou que as pessoas mentem o tempo todo. Numa conversinha à toa, coisa de dez minutos, um detector de mentiras bem calibrado apitaria três vezes - ou melhor, 2,92 vezes, para dizer a verdade.

A mentira é língua franca, esperanto universal. Aqui, lá, em todo lugar, é usada para lubrificar as relações humanas. Um antídoto contra o "sincericídio", essa combinação de sinceridade e suicídio social. Ou você acha que alguém quer realmente saber se está "tudo bem?" durante um papo no cafezinho?

Em média, mulheres e homens misturam ficção e fato com a mesma frequência. Mas as razões que motivam umas e outros são muito diferentes. A revista Tpm deste mês, onde esse texto foi publicado, mostra que, enquanto as mentiras masculinas contam vantagem ("O meu é maior que o seu"), as femininas chegam a carregar uma dose de generosidade.

É aquela história do "me engana que eu gosto". Ora, se o outro gosta de ser enganado, ela mui desavergonhadamente o engana. Para ficar na mais clássica e arfante mentira de mulher: "Foi inacreditável, nunca senti isso antes!". Assim, ele fica feliz - e ela fica feliz porque ele está feliz.

Toda esta felicidade, porém, esconde uma estratégia de sobrevivência. A antropóloga Mirian Goldenberg resume a relação entre mulher e mentira. "A mentira é um sinal de submissão", diz. "Precisamos dela por ainda vivermos numa sociedade machista."

Mais ou menos como aquela em que se passa a história de Dom Casmurro, talvez o melhor romance já escrito sobre a mentira - e sobre muitas outras coisas, também. Machado de Assis descreve Capitu como aquela de "olhos de cigana oblíqua e dissimulada". Nem podia ser diferente. Imagina se, lá pelas tantas, ela confessa que o filho era mesmo de Escobar, e não daquele papa-moscas do Bentinho? Arruinava de uma só vez a própria reputação e o livro.

Bem, o espaço deste texto chegou ao fim. Foi bom para você? Tudo bem, não precisa responder.

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Postado em 11.08.2009 | 13:08 | Fernando Luna
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O noticiário sobre o senado parece aquele alarme que volta e meia dispara por aí: "ATENÇÃO! ESTE VEÍCULO ESTÁ SENDO ROUBADO!". Todo mundo escuta e ninguém faz nada.

A voz metálica berra num volume que se faz ouvir a quarteirões de distância. "Atenção! Este veículo está sendo roubado!". E você ali, como se nada estivesse acontecendo. Não deve ser nada, na certa disparou acidentalmente. De qualquer jeito, alguém já deve ter tomado alguma providência, telefonado para a polícia, para o disque-denúncia, para a Car System que seja. Daqui a pouco para.

De fato, sempre para. Demora, mas para. Enquanto isso, você até tem vontade de destruir aquela engenhoca produtora de decibéis, ou de enquadrar o cara que esbarrou (de novo!) na moto e deflagrou o ataque histérico eletrônico, ou de ajudar o ladrão a escapar dali o mais rapidamente possível, levando junto a barulheira. Qualquer alternativa parece irresistível. Só parece.

Você escuta e não faz nada.

É mais ou menos o mesmo tipo de inércia generalizada que se vê quando José Sarney diz que "não tenho tido nenhum ato que desabone minha vida", Fernando Collor recomenda ao outro que "engula [suas palavras] e as digira e faça delas o uso que achar conveniente", Tasso Jereissati define Renan Calheiros como "cangaceiro de terceira categoria" e Calheiros retribui o cumprimento com um "coronel de merda".

Cada declaração dessas é um alarme gritando que, atenção!, o país está sendo roubado. Gritando e sendo ignorado. Olha, não quero apontar o dedo sujo para ninguém, mas este veículo é seu. A manutenção é por sua conta, paga com seus impostos – e sem IPI reduzido. Foi seu voto que o estacionou, por assim dizer, em Brasília.

Ano que vem, tem revisão. Aliás, eleição. Inclusive para o senado. Dois terços das cadeiras devem ganhar novos ocupantes. Na hora de apertar os botões da urna eletrônica, não esquece: "Atenção! Este veículo está sendo roubado!". E faz alguma coisa, aperta as teclas certas.

Agora, se os coronéis e os cangaceiros conseguirem se eleger mais uma vez, não adianta ninguém se fazer de desentendido quando escutar a outra gravação. Aquela.

É, a outra voz metálica comum nas ruas de São Paulo – mas que faria sentido no Rio ou em qualquer cidade brasileira. Na hora em que passar o caminhão vendendo o puro creme do milho, vai ser da gente mesmo que ele está falando: "Pamonha, pamonha, pamonha!".

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Postado em 04.08.2009 | 14:08 | Fernando Luna
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Spam: indigesto

Spam: indigesto

Meu e-mail acha que tenho pau pequeno, sou impotente e estou ficando careca.

Acha não, tem certeza. Não sei de onde tirou isso. Juro. É, não acredite em tudo o que dizem por aí. Bom, o fato é que todo dia minha caixa de entrada é invadida por dezenas de spams – aquelas mensagens indesejadas vindas sei lá de onde. A maioria insiste em três subjects: "aumente seu pênis", "comprimidos de Viagra em promoção" e "problemas capilares?".

De vez em quando, aparece uma variação sobre o tema. De uns tempos para cá, o comprimido azul começou a ser ameaçado pela "acai berry diet". Assim mesmo, em inglês. Mesmo sem cedilha e acento, a dieta do açaí promete aumentar seus "níveis de energia" – um eufemismo para "melhorar sua performance sexual".

Tento não me deixar impressionar pela opinião alheia, mas essa fixação está começando a me deixar preocupado. E não, não adianta bloquear os endereços remetentes e nem atualizar os filtros de rede. Quer dizer, até ajuda um pouco, mas não resolve. Sempre aparece mais do mesmo. Uma pesquisa calculou que nada menos de 97% dos e-mails que circulam por aí são spams.

Noventa e sete por cento. Sabe o avanço tecnológico, a capacidade dos processadores dobrando a cada dois anos, a cauda longa, a democratização da informação com a internet, as fronteiras rompidas pelas redes sociais? Então, tudo isso acaba com alguém tentando dar um jeito na minha, na sua, na nossa vida sexual – e isso inclui as poções mágicas contra queda de cabelo, ou alguém imagina que essa obsessão masculina é meramente estética?

Quem, afinal, responde esses spams? Em uma palavra: eu. Quer dizer, respondi uma vez. Peraí, não é o que você está pensando. Foi só curiosidade. E não aconteceu nada. Nadinha. Nenhum novo contato pedindo o número do meu cartão de crédito ou meu CPF. Nenhum novo vírus no meu computador. Nenhum cataclisma no meu disco rígido.

Para não abusar da sorte, nunca mais repeti o teste. O que não acontece com 12% dos usuários da internet, de acordo com o levantamento do Grupo de Trabalho Contra Abuso de Postagem (MAAWG, em inglês), uma organização global que combate os spams. Um número mais que suficiente para fazer valer a pena o trabalho dos hackers.

Até alguém descobrir um jeito de acabar com isso, o melhor antivírus que existe é ser mulher. Um ser evoluído, desinteressado em aumentar o pênis ou comprar Viagra, açaí e tônico capilar.

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