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Postado em 23.03.2010 | 18:03 | André Caramuru Aubert
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“Pai, você não quer voltar para o Embu-Guaçu?” Com um olhar de doente debilitado, sofrido, mas um pouco fingido, vem a resposta: “Non”. “Você quer ir para a minha casa?” “Querr”. “Tudo bem, então, você vai para lá, e ficará lá enquanto quiser.” “Mas o Marie non vai deixar”. “Pai, você está lúcido e tem condições de decidir o que quer fazer. Você tem que dizer para a Marie que não quer voltar para lá, que quer ficar em São Paulo, que quer ir para a minha casa. Eu não quero ninguém achando que eu te sequestrei. Você tem que falar para ela, explicar, você vai?” “Vai”. “Ela disse que vem hoje à tarde te ver, você vai aproveitar e falar para ela, combinado?” “Combinado”. Passam as horas, eu volto ao hospital. “Pai, você falou para a Marie o que nós combinamos?” “Falou”. “O que você falou?” “Eu falou que você non queria que eu voltava para o Embu-Guaçu.” “Ô cacete! O que foi que a gente combinou?! É você que não quer voltar, não sou eu, é isso que você tinha que falar!” E, do lado de lá, esticado na cama, sem qualquer resposta, apenas o olhar frágil de cachorro vira-lata, esperando, malandramente, compaixão e pena do interlocutor. Mais uma vez, pela enésima vez, ele fugia do campo de batalha, jogando uns contra os outros e se fazendo de vítima para todos.

Meu avo Jacques no colo da mae, Genebra, 1907

Meu avo Jacques no colo da mae, Genebra, 1907

Em casa, na verdade, meu pai não cabia. A nossa casa, na Vila Madalena, tinha três quartos e, sendo dessas antigas, eram dois banheiros no corredor, um bem pequeno, nenhuma suíte. Um quarto era nosso, do casal. Os outros, um da Anna, outro do Pedro. A opção óbvia seria deixar os dois juntos e liberar um dos quartos para Jean. Mas seria sacanagem com os dois, ela plenamente adolescente, ele pré, menina e menino, universos, interesses e viagens distintos. Então havia nosso quarto. Mas para onde iríamos? No fim do corredor, uma antiga varanda, mal-transformada em quartinho pelo proprietário, com janela lateral de barraco de periferia, e que chamávamos de muquifo, repositório de livros pouco manuseados, de papéis velhos, de quadros sem parede, o muquifo era nosso destino. Não dava tempo de pintar, o teto meio descascado continuou pairando sobre nossas cabeças, enquanto a cama de casal ocupava o “quarto” quase inteiro. Foi feita uma grande faxina, instalada uma campainha, que acionada em nosso antigo quarto tocaria lá embaixo e lá em cima no muquifo, bem alto em nossa orelha, a qualquer hora da noite (e como tocou). O calor naquele pequeno cômodo, num fim de ano especialmente quente, acabou se revelando, sem exagero, infernal. Não deu, não dava, para instalar, naquele momento, um aparelho de ar condicionado: o ventilador chinês comprado por menos de cinquenta reais na Preçolândia era tudo com o que podíamos contar. Começamos ali, no início de outubro de 2008, uma frenética transformação de nossa casa, a fim de podermos receber Jean, daquele ponto em diante, a qualquer momento.

Também não dava tempo de (e nem havia dinheiro) mexer estruturalmente nos banheiros. As crianças se apertariam no banheirinho, a Clélia e eu dividiríamos o banheiro maior com meu pai. Ali, tirou-se uma das extremidades da “parede” de acrílico do box, para que Jean pudesse entrar, na cadeira de rodas, para tomar banho, e foi instalado um chuveirinho com mangueira. Em nosso antigo quarto, instalamos uma TV com sky e dvd, na parede, no alto, bem em frente à cama. Alugamos cama hospitalar, mesinha retrátil com rodinhas, cadeira de rodas furada em baixo, para as necessidades fisiológicas e os banhos. Foram ainda encaixados, lá, quatro grandes cilindros de oxigênio. Na casa da minha mãe achamos a antiga cadeira de rodas de minha avó e, dela também, uma grande poltrona reclinável, boa para passar as horas da manhã, para ler um livro ou olhar as maritacas e os sabiás lá fora, tagarelando nos galhos do pau-brasil ou de cedro-rosa, junto à janela do quarto. Mesmo com todas as modificações realizadas na casa, ela obviamente continuava pequena e inadequada para esta nova missão.

Outra constatação: meu pai precisaria do cuidado de enfermeiras em tempo integral, solução que seria cara demais. Contratamos a Meire, experiente e repleta de boas referências, que trouxe junto a Silvânia. Um dia uma, outro dia a outra, em regime de doze horas, das sete da manhã às sete da noite. Dessa hora em diante, o serviço seria nosso, pois não havia, mesmo com B. rachando estas despesas, dinheiro para o turno da noite (para a noite, já na fase final, contrataríamos em situações especiais uma terceira enfermeira, a Joana D’Arc, para podermos sair um pouco e, em duas ocasiões, viajar no fim de semana).

Havia até então uma moça trabalhando em casa, a Vilma, que não dormia lá. Logo uma segunda, a Li, teria que ser contratada, pois a necessidade de faxina constante, o número crescente de bocas para alimentar (meu pai incluído. Ainda que respirando mal, ele comia muito bem), e o gigantesco aumento no volume de roupas para lavar exigiam isso. Não pudemos prever em que medida, ainda, a privacidade viria a ser varrida de nossas vidas, numa casa que passaria a viver em regime de 24x7, com duas empregadas domésticas, duas enfermeiras, fisioterapeuta todos os dias, médica eventualmente, chegada de ambulância, em situação de emergência, a cada, em média, duas semanas, trocas de cilindros de oxigênio a cada dois dias (trabalho que exigia dois carregadores), visitas de inspeção do home care, de uns poucos amigos de Jean, de Marie, de B.

Viveríamos dali para a frente, logo nos demos conta, de maneira diferente, muito mais pública, intensa e precária do que antes. Só não sabíamos ainda, naquele momento, o quanto tudo aquilo nos afetaria.

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