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Postado em 09.02.2010 | 18:02 | André Caramuru Aubert
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“I was the shadow of the waxwing slain
By the false azure in the windowpane;
I was the smudge of ashen fluff – and I
Lived on, flew on, in the reflected sky.

(…)

There was the day when I began to doubt
Man’s sanity: how could he live without
Knowing for sure what dawn, what death, what doom
Awaited consciousness beyond the tomb?

And finally there was the sleepless night
When I decided to explore and fight
The foul, the inadmissible abyss,
Devoting all my twisted life to this
One task. Today I’m sixty one. Waxwings
Are berry-pecking. A cicada sings.”

Vladimir Nabokov, Pale Fire




Meu pai em nossa casa, uns tres anos antes do fim

Meu pai em nossa casa, uns tres anos antes do fim

Quanto será que meu pai foi daquela pessoa que eu admirei? Quanto terá sido da que magoou e a mim e a outros? E quanto ele foi, por fim, da pessoa que me envergonhava? Quem era ele, afinal? Quando eu era pequeno e saía com ele, me sentia dono do mundo, orgulhoso, ao lado daquela figura alta e forte. E uma vez ele foi me encontrar, na porta da escola, eu estudava no Palmares, estava no primeiro ou segundo ano do colegial, ele veio andando com aquele estilo desajeitado de pato, os pés abertos, dez pras duas, meio como Carlitos, ele dizia que era uma marca registrada dos Aubert, eu sempre prestei atenção para não fazer igual. Ele vestia uma capa de chuva estranha, camisa xadrez de gringo, e eu me senti constrangido na frente dos meus amigos. Ele teve, durante muitos anos, uma perua Ford Belina, modelo antigo, daquelas que tinham decoração imitando madeira nas portas e nos paralamas laterais. Quando, um dia, uma daquelas placas caiu, ele comprou um rolo de contact, um adesivo que se usava muito, para encapar cadernos e forrar mesas de cozinha, escolheu um com padrão parecido, e colou no lugar. Embora razoavelmente bem feito, porque ele era habilidoso, o remendo saltava aos olhos. Ele se sentia esperto, enganando todo mundo, como se o carro fosse novinho em folha. Já algum filho, que andasse ali, especialmente se estivesse perto da escola, com todos os colegas olhando, queria se enterrar de vergonha... Ele podia ser engraçado e fazer as pessoas rirem, mais pela forma do que pelo conteúdo. Ou, em outras palavras: quando ele contava uma piada e as pessoas davam risada, ele não percebia que, na verdade, a piada era ele, o jeito dele, o sotaque, o pacote todo. Ele era pródigo em viver situações ridículas, como no caso em que, em Washington, nos Estados Unidos, acordou cedinho para ver monumentos históricos nas rotatórias das autopistas e, quando pensou em ir embora, o trânsito era intenso e ele não conseguia atravessar a pista, tendo ficado horas preso. Havia situações, e esta foi uma delas, em que ele era, sem perceber ou admitir, a personificação exata do Monsieur Hulot. Essa era a parte folclórica, que poderia incomodar um filho pelo ridículo que o pai encarnava, mas que depois de um tempo servia para contar causos e dar risada. Essa parte, enfim, não é, não era, o problema.

Começamos a nos aproximar um pouco quando eu já estava na faculdade, no começo dos anos 80. Ele, encontrou, então, alguma interlocução em mim, e vice-versa. Quando vinha a São Paulo para comprar material de trabalho, livros ou visitar clientes, ele tentava passar em casa, às vezes para almoçar, às vezes só para fazer uma horinha. De vez em quando me levava um livro de presente, e a conversa sempre começava com a pergunta: “O que você está lendo atualmente?” Eu, que ainda tinha um respeito enorme por ele, recitava, bem comportado: “para Grécia estou lendo fulano, cicrano e beltrano, para Arqueologia Mediterrânica, estes outros aqui, para Idade Média...” Em algum momento por aí eu comecei a namorar a Clélia e ela, com o olhar de quem está de fora, ficou impressionada. Ela me achava o maior metido, e eu era mesmo, mas perto de meu pai ela via eu me encolher todo, quase que pedindo desculpas, eu virava um menininho, submisso e inseguro.

Aos poucos, então, comecei a me dar conta de um outro traço dele: a extrema competitividade. Logo de cara, percebi que eu não estava autorizado a saber mais história que ele, e o problema é que de fato eu estava sabendo, pois estava desenvolvendo um conhecimento estruturado, acadêmico, enquanto ele tinha aquele saber do amador curioso, e nem mesmo conseguia situar e diferenciar claramente as posições teóricas dos autores que lia, que eram, na maior parte dos casos, obras de divulgação, de história para o grande público. Nessa época comecei também a escrever mais, inclusive a tentar algumas coisas na literatura. Eu passava para ele, ele não comentava o que eu havia escrito, ao invés disso me passava textos dele para saber o que eu achava. Mais recentemente, mas bem antes dele ir para minha casa para morrer, eu falei da Trip e das colunas que estava escrevendo, e ele não leu. No hospital, a Clélia levou uma Trip para ele, e aí ele não teve como fugir: “Non é bem meu estilo de revista, mas o texto está, hum hum, ok”. Esse foi o único comentário que eu jamais receberia dele a respeito de um texto meu publicado em algum lugar, fosse Estadão, InfoExame, Jornal do Brasil, IDGNow ou Trip. Ele não lia o que eu escrevia, mas levou para mim um esboço de memórias, em forma de crônicas, que estava escrevendo, e sempre me perguntava se eu tinha lido. De birra, não li. Acabei pegando o volume encadernado para folhear só depois que ele tinha morrido. Havia ali muitas histórias, a maior parte das quais eu já conhecia de ouvir, que cobriam a viagem a Mato Grosso, a travessia, a pé pela mata, de Parati a Ubatuba, em mil novecentos e cinquenta e poucos, a infância na Europa, como as férias que ele passou com meu avô Jacques na Normandia, (quando ele já morava em Londres na casa do avô materno, e Jacques ainda vivia em Paris), na região que alguns anos depois seria terrivelmente castigada pelo desembarque aliado do Dia D, e cujos anúncios oficiais, em praça pública, ainda eram feitos por um arauto, como na Idade Média, que tocava uma corneta e depois lia, bem alto, a mensagem do prefeito. Mas o que acabou me chamando a atenção, nos textos, foi que, embora decentemente redigidos, eram totalmente carentes de emoção. Não por acaso, havia pouquíssimas menções a mãe, ao pai, a Alzira ou a Marie, a B. ou a mim. E, quando havia, eram tão frias e distantes quanto possível. E curiosamente, eram escritos em inglês, a língua materna, talvez o lugar da eterna busca pelo afeto perdido, mas que, de qualquer forma, não era uma das línguas com as quais ele era mais fluente, o francês de Genebra, da casa do pai, da escola, ou o português dos mais de quarenta anos de Brasil.

oleo de Jean Aubert, da fase geometrica, 1982

oleo de Jean Aubert, da fase geometrica, 1982

Outra coisa que ele prezava muito era uma suposta cultura linguística. Além do seu francês nativo, procurava (e acreditava, embora não conseguisse) falar inglês perfeito e se gabava de dominar o italiano, o alemão e alguma coisa de russo. O mais engraçado, porém, é que afirmava sem qualquer constrangimento que falava o português melhor do que a maioria dos brasileiros, quando na verdade tinha um sotaque fortíssimo, como se tivesse acabado de chegar ao Brasil. Como poderia falar perfeitamente línguas que quase não praticava, enquanto o português do dia a dia saía “non ton bon assim?” Uma muito boa que ele contava é que sempre que comprava pão, numa padaria em Itapecerica da Serra, os funcionários do lugar riam dele: “Eu non entende porque eles don risada de nós, será que por acaso eu fala algun coisa erada, será que nós tem cara estranha?” Jean era muito inseguro, e gostava de se mostrar sempre culto, embora, carecendo de uma formação mais acadêmica (exceto pelas artes plásticas), acabava misturando estações. Consumia livros de maneira voraz, mas gastava sem muito critério tanto na Livraria Cultura quanto na banca de jornais. Das bancas, era viciado em fascículos (que ele comprava até o fim, e depois encadernava) e coleções, incluindo, que eu me lembre, de soldadinhos, aviõezinhos, cristais e dedais, muitas dos quais acabariam nos quartos da Anna e do Pedro.

Desprezava, jurava, a televisão, olhando com desdém quando alguém comentava que tinha assistido a algum programa interessante na telinha, ainda que fosse um documentário bem sério e chato. Nessa hora, ele disparava: “hum, hum, eu nom tem nada contra o televisón, mas eu prefere sempre un bon livro.” E aí, quando ele estava em nossa casa, doente, com TV a cabo no quarto,  antes de sair de manhã, para trabalhar, eu passava por lá. E, bingo, todo dia, estava a Ana Maria Braga e o Louro José tagarelando diante dele. Eu achava que era coisa das enfermeiras, e falava: “pai, você não tem que assistir isso, é só mudar o canal, olha, tem canal só de notícia, tem o National Geographic, tem o Discovery...” e aí eu punha num destes canais para ele, e ele agradecia. Até que um dia ele se cansou de fingir e, quando eu fui mudar, ele falou: “Non, non, non muda. Deixa aí no Ana Maria Braga, o meu amiga de todos os manhãs...” Não, a culpa não era das enfermeiras, não eram elas que mudavam de canal. Quem gostava do Louro José era ele mesmo.

A Marie tinha ciúmes de tudo e, quando, vivendo bastante isolados, não havia mais mulheres em potencial com as quais pudesse se preocupar, ela se voltou contra a obsessão de Jean pelos livros. Então começou um joguinho entre eles, em que ele comprava livros escondido e ela fingia não perceber; ela, por seu lado, pegava cachorros na rua e levava pra casa, e ele também fazia que não via, o que é relativamente fácil quando existem cerca de cem vira-latas espalhados pela casa. O fato é que, numa época em que as entradas de dinheiro estavam diminuindo muito, e eles envelheciam, a prudência dizia que deveriam ter guardado alguma coisa, mas não, torravam a grana aceleradamente, ela alimentando, tratando, sacrificando e enterrando centenas de cachorros, e ele saindo toda semana da Livraria Cultura com três, quatro ou mais livros importados debaixo do braço.

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