Revista Trip

 
tamanho da letra
aumentar fonte
diminuir fonte
icone postado
Postado em 19.01.2010 | 13:01 | André Caramuru Aubert
divisão

Minha avó (de vermelho) e tia Yolanda, Guararema, 31 de dezembro de 96, ambas ainda em boa forma

Minha avó (de vermelho) e tia Yolanda, Guararema, 31 de dezembro de 96, ambas ainda em boa forma

Nessa época, no rescaldo da tragédia de tia Stellinha, quem se materializou, para mim, foi a tia Yolanda. Prima irmã de minha avó, as duas foram, desde meninas em Itatiba, as melhores amigas uma da outra, a ponto de sempre ter havido um ciúme velado, dos irmãos de uma e outra, do relacionamento das duas. Tia Yolanda, escrevi antes, era uma pessoa extremamente aguda, inteligente e rápida. Piadista implacável, tinha uma aparência externa de grande dama, com enorme e tradicional dignidade (uma persona que ela gostava de cultivar), que em geral se desvanecia com as trapalhadas que fazia. Ela e minha avó se chamavam mutuamente de Mimi e Nenê, mas um dos apelidos perfeitos, de minha avó para ela (que fisicamente era mesmo imponente), era João Grandão, usado em situações corriqueiras como uma em que estávamos, em Guararema, sentados em volta da mesa, à tarde, comendo um bolo e tomando café, e tia Yolanda falando, animada, enquanto brincava, com as mãos, com um suporte de guardanapos de minha avó. De repente, claro, enquanto ela se empolgava, o suporte se quebrou em dois irremediáveis pedaços. Tia Yolanda então fazia aquela cara desanimada, pedindo desculpas, e minha avó sorria, os olhinhos brilhando, e falava: “Ah, João Grandão”. Tia Yolanda tinha tantas histórias engraçadas que merecia um livro só para ela. Como sobre os acessos de riso nervoso que tinha em velórios. Num deles se agarrou à viúva, gargalhando, e a viúva achando que ela chorava convulsivamente, e ela não podia largar a viúva para não mostrar o riso, e a viúva a consolava, e a consolava, coitada, não imaginara que sofreria tanto assim aquela morte... Ou num outro velório, em que entrou com nariz em pé, com toda a sua dignidade de grande dama, e logo na porta tropeçou no sapato, se desequilibrou e foi caindo, caindo, até parar de quatro, debaixo de caixão, é claro, gargalhando. Ela adorava falar errado, de propósito, e cinicamente esperava a reação do interlocutor. E era imbatível nas frases de duplo sentido, que pronunciava com seriedade monástica, coisas como “chamei um homem para limpar meus fundos”, para designar o jardineiro que cuidaria da parte de trás do quintal dela. Por trás da casca besteirenta, porém, tia Yolanda era na verdade extremamente moralista e conservadora, mas não podia impedir que seu lado debochado às vezes levasse a interpretações erradas. Uma vez, em Ubatuba, ela achou que uma empregada da minha avó estava meio desanimada e resolveu perguntar o que estava acontecendo. “Ah, não posso falar, dona Yolanda”. “Fale sim, de repente eu posso ajudar”. E depois de alguns minutos de “não devo falar” e “fale sim”, a moça se abriu: “É que conheci um homem na praia e ele quer me comer. A senhora acha que eu dou, Dona Yolanda?”. E aí o João Grandão, de forma alguma preparada para aquela situação, teve que engolir em seco e tentar aconselhar a moça... Até o fim da vida, minha avó e tia Yolanda estiveram, o quanto puderam, juntas. Um certo dia, irritada com São Paulo, minha tia vendeu seu apartamento na cidade e comprou uma casa em Guararema, em frente ao rio. Cleonice gostou da idéia e comprou a casa ao lado. Elas abriram um portão entre as duas casas e, enquanto tiveram saúde, foram vizinhas.

Minha primeira lembrança de tia Yolanda foi o de uma vez em que minha avó foi visitá-la, na casa em que morava no Pacaembu, e me levou junto. Eu estava com um macacão azul, com zíper de alto a baixo, e não usava cueca. Fui fazer xixi e, ao fechar o zíper, prendi o prepúcio, ficando um pedaço de pele para fora. A dor era terrível, eu chorava e berrava, as duas vieram correndo e minha avó, que não queria me machucar mais, tentava, nervosa, abrir o zíper. Então João Grandão resolveu assumir. Tirou a hesitante Cleonice da frente, pegou o zíper e, com toda a força que tinha (e ela tinha), abriu aquilo, causando muita dor, mas um imediato e indescritível alívio. Nos últimos anos de vida, em Guararema, acho que tia Yolanda, que vivia sempre às turras com irmãos e filhos, mas sempre em paz com a prima Cleonice, foi feliz. Lá ela perdeu o marido, Paulo, mas lidou bem com a morte dele (assim como minha avó perdeu, para um sofrido enfisema pulmonar, a irmã Edith, a Yá, que viveu com ela por tantos anos). Ela e Cleonice se viravam, enchiam o tempo inventando necessidades, problemas e soluções, se divertiam. Até que, em 2000, morreu uma neta, minha prima Cynthia, de aids. Um ano depois, a filha da tia Yolanda, Ana Maria (mãe da Cynthia), não aguentou a perda e se foi. Aí foi demais para João Grandão. Ela estava sozinha (minha avó já estava de volta a São Paulo, doente, um pouco gagá, morando com minha mãe) e começou a minguar. Então, dois anos depois da neta, e um depois da filha, ela foi embora. Morreu dormindo.

Das pessoas daquele tempo, e que já se foram, tia Yolanda é quem mais vejo, mais visito, com quem eu mais falo. É que ela está no Cemitério São Paulo, meu caminho, quando vou a pé, entre minha casa e o escritório. Então, sempre que dá, passo por lá. Não fico muito, um ou dois minutos, mas me lembro dela, da Velhinha (que está no cemitério de Itatiba, para onde ela sempre quis voltar, com seus pais e avós), das tardes quentes e preguiçosas em Guararema, com rio Paraíba passando na frente da casa, enquanto o domingo ia escorrendo entre os dedos, barulho de mosca voando de um lado para o outro, de gente passando de carro, à cavalo, dos almoços que a Bete preparava, comida mineira, ou de quando preparávamos um churrasco para as velhinhas gulosas (e tia Lily costumava vir também), dos passeios à Santa Branca, dos cachorrinhos de tia Yolanda, todos sucessivamente, idênticos, poodle, chamados Pingo, tratados como se fossem um só, reencarnados ou imortais, não sei, e cercados de um cuidadoso hipocondrismo dela, que provavelmente os matava de tanto dar remédio.

Minha mãe, que ainda se adaptava à volta a São Paulo, tinha agora que segurar a barra da mãe dela, da própria dor pela perda da irmã, da culpa por ter incentivado tia Stellinha a descer, e do filho, que não entendia bem o que estava acontecendo, mas que via muita, muita tristeza em volta. Teria sido um excelente momento para que Jean desse as caras, assumisse alguma coisa, ficasse comigo por uns tempos. Nada. Ausência. Dessa época, me lembro de ter saído com ele duas, talvez três vezes. A que ficou na memória foi quando ele me levou para a casa dos pais dele, Jacques e Donana, em Santo Amaro, de bonde, e uma outra vez, quando ele me levou para um parque de diversões, onde o carrinho de bate-bate, momentaneamente dirigido por mim, acabou batendo de frente em uma pilastra, e como as condições de segurança dessas coisas fosse em meados dos anos sessenta bem mais precárias do que hoje, na batida acabei enfiando a testa com muita força na frente do carrinho, fazendo um corte grande, que fez sair muito sangue. Jean teve que correr a um pronto socorro comigo, e quando me devolveu, à noite, no apartamento da rua Maranhão, teve que passar pelo constrangimento de entregar o garoto, com quem ele raramente saía, com a cabeça toda enfaixada.

divisão

A Trip se reserva o direito de excluir comentários ofensivos

Deseja comentar?

 usuário Trip



» Esqueci minha senha

» Conheça as vantagens de ser cadastrado

» Cadastre-se na Trip para obter uma conta gratuita

 convidado

CATEGORIAS

 


ARQUIVO



TAGS