Minha avó (de vermelho) e tia Yolanda, Guararema, 31 de dezembro de 96, ambas ainda em boa forma
Minha primeira lembrança de tia Yolanda foi o de uma vez em que minha avó foi visitá-la, na casa em que morava no Pacaembu, e me levou junto. Eu estava com um macacão azul, com zíper de alto a baixo, e não usava cueca. Fui fazer xixi e, ao fechar o zíper, prendi o prepúcio, ficando um pedaço de pele para fora. A dor era terrível, eu chorava e berrava, as duas vieram correndo e minha avó, que não queria me machucar mais, tentava, nervosa, abrir o zíper. Então João Grandão resolveu assumir. Tirou a hesitante Cleonice da frente, pegou o zíper e, com toda a força que tinha (e ela tinha), abriu aquilo, causando muita dor, mas um imediato e indescritível alívio. Nos últimos anos de vida, em Guararema, acho que tia Yolanda, que vivia sempre às turras com irmãos e filhos, mas sempre em paz com a prima Cleonice, foi feliz. Lá ela perdeu o marido, Paulo, mas lidou bem com a morte dele (assim como minha avó perdeu, para um sofrido enfisema pulmonar, a irmã Edith, a Yá, que viveu com ela por tantos anos). Ela e Cleonice se viravam, enchiam o tempo inventando necessidades, problemas e soluções, se divertiam. Até que, em 2000, morreu uma neta, minha prima Cynthia, de aids. Um ano depois, a filha da tia Yolanda, Ana Maria (mãe da Cynthia), não aguentou a perda e se foi. Aí foi demais para João Grandão. Ela estava sozinha (minha avó já estava de volta a São Paulo, doente, um pouco gagá, morando com minha mãe) e começou a minguar. Então, dois anos depois da neta, e um depois da filha, ela foi embora. Morreu dormindo.
Das pessoas daquele tempo, e que já se foram, tia Yolanda é quem mais vejo, mais visito, com quem eu mais falo. É que ela está no Cemitério São Paulo, meu caminho, quando vou a pé, entre minha casa e o escritório. Então, sempre que dá, passo por lá. Não fico muito, um ou dois minutos, mas me lembro dela, da Velhinha (que está no cemitério de Itatiba, para onde ela sempre quis voltar, com seus pais e avós), das tardes quentes e preguiçosas em Guararema, com rio Paraíba passando na frente da casa, enquanto o domingo ia escorrendo entre os dedos, barulho de mosca voando de um lado para o outro, de gente passando de carro, à cavalo, dos almoços que a Bete preparava, comida mineira, ou de quando preparávamos um churrasco para as velhinhas gulosas (e tia Lily costumava vir também), dos passeios à Santa Branca, dos cachorrinhos de tia Yolanda, todos sucessivamente, idênticos, poodle, chamados Pingo, tratados como se fossem um só, reencarnados ou imortais, não sei, e cercados de um cuidadoso hipocondrismo dela, que provavelmente os matava de tanto dar remédio.
Minha mãe, que ainda se adaptava à volta a São Paulo, tinha agora que segurar a barra da mãe dela, da própria dor pela perda da irmã, da culpa por ter incentivado tia Stellinha a descer, e do filho, que não entendia bem o que estava acontecendo, mas que via muita, muita tristeza em volta. Teria sido um excelente momento para que Jean desse as caras, assumisse alguma coisa, ficasse comigo por uns tempos. Nada. Ausência. Dessa época, me lembro de ter saído com ele duas, talvez três vezes. A que ficou na memória foi quando ele me levou para a casa dos pais dele, Jacques e Donana, em Santo Amaro, de bonde, e uma outra vez, quando ele me levou para um parque de diversões, onde o carrinho de bate-bate, momentaneamente dirigido por mim, acabou batendo de frente em uma pilastra, e como as condições de segurança dessas coisas fosse em meados dos anos sessenta bem mais precárias do que hoje, na batida acabei enfiando a testa com muita força na frente do carrinho, fazendo um corte grande, que fez sair muito sangue. Jean teve que correr a um pronto socorro comigo, e quando me devolveu, à noite, no apartamento da rua Maranhão, teve que passar pelo constrangimento de entregar o garoto, com quem ele raramente saía, com a cabeça toda enfaixada.




















