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Postado em 10.12.2009 | 12:12 | André Caramuru Aubert
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Meu avô Brenno era considerado um rapaz bonito. Recém formado em Direito, funcionário do Instituto do Café, parecia ter um futuro promissor. Era, também ele, de boa, “tradicional” família. Por parte de pai descendia dos Teixeira de Barros, uma antiga família de bandeirantes e tropeiros originários de Itu que desbravaram a região da Serra de Itaqueri, seguindo a trilha do Picadão, que desde 1725 ligava São Paulo às minas de Cuiabá. Ali, no pé da serra, os irmãos Joaquim, José (meu tetravô) e Luiz Teixeira de Barros fundaram a cidade de São Pedro. Gente rústica, tranquila, teve em meu bisavô Avelino um bom descendente: fala mansa, amante de um cigarrinho de palha e uma boa pinga, envelheceu olhando a vida passar, na varanda, sentado na cadeira de balanço de palhinha e madeira clara.

O Poeta da Roça, meu tio bisavô Gustavo Teixeira

O Poeta da Roça, meu tio bisavô Gustavo Teixeira

Deste lado, um parente simpático é Gustavo Teixeira (São Pedro, 1881 – 1937), primo irmão e muito amigo de meu bisavô Avelino, um poeta ora romântico, ora parnasiano, ora simbolista, mas sempre arcaico. Solteirão, muito tímido e reservado, eleito para a Academia Paulista de Letras, morreu pouco tempo após receber a notícia, não chegando a tomar posse. Gustavo Teixeira publicou apenas dois livros em vida, Ementário, em 1908, e Poemas Líricos, em 1925. Em 1959, a Editora Anhambi publicou um grosso volume de mais de quinhentas páginas de Poesias Completas, com muito material até então inédito e prefácio de Cassiano Ricardo. Gustavo Teixeira, rigorosamente esquecido em todo o planeta, é ainda hoje uma celebridade em São Pedro. Lá, ele tem, com seu nome, uma praça (nada menos que que a antiga praça da Matriz), uma escola e um museu, e celebra-se a cada ano, em setembro, o mês de sua morte, a “Semana Gustavo Teixeira”. Na última, a de número, é difícil crer, cinquenta e seis, o cartaz foi desenhado por Paulo Caruso e a programação incluiu teatro adulto (Gustavo Teixeira, o Poeta da Solidão), infantil (Cadê Kika?, Cidade Azul), baile para a terceira idade, volta ciclística, aula de tai chi chuan, show dos Trovadores Urbanos, concurso de poesias inéditas e de poesias gustavianas (bem curiosa esta modalidade) e muito, muito mais... Talentoso, mas conservador, ele deixaria o movimento modernista passar em segurança ao longe, mantendo-se firmemente fincado no século XIX. Tia Lourdes conta, em suas memórias, que durante umas férias que passou em São Pedro, adolescente, levara na mala diversos livros dos modernistas, entre os quais o Paulicéia Desvairada, de Mario de Andrade, o Juca Mulato, de Menotti del Picchia, e O Livro de Horas de Sóror Dolorosa, de Guilherme de Almeida. Lá, o tio Gustavo pediu todos emprestados, só devolvendo no fim das férias. Vez por outra ele aparecia, e mostrava um ou outro verso, discutindo, comentando. Ela se lembra de uma das tiradas dele sobre os versos modernistas: “Interessante... interessante...”

O relativo sucesso de que sua obra desfrutou, até pouco depois dos meados do século XX, deve-se talvez ao fato de que, na maioria das escolas, não existia poesia moderna, e autores como Bandeira, Drummond, Mário e Oswald de Andrade não podiam passar nem perto das salas de aula. Assim, não poucas crianças, especialmente as meninas, ao copiar poemas de amor, ou religiosos, ou de fundo histórico, em seus álbuns, recorriam a Gustavo Teixeira, assim como a Vicente de Carvalho, Olavo Bilac, Emilio de Menezes e outros do mesmo calibre. Se não fosse pelo panegírico patriotismo municipal de São Pedro, é provável que Gustavo Teixeira, hoje, estivesse completamente esquecido, enterrado no passado. Não é fácil atingir com poemas os adolescentes do início do século XXI, carregados com MP3 players, celulares e internet, ainda mais se os poemas forem parnasianos, românticos ou simbolistas. Veja-se, de meu tio-bisavô, Cleópatra, um de seus poemas mais conhecidos:


Sob o pálio de um céu broslado de cambiantes,

Poesias Completas de Gustavo Teixeira, catatau de 532 páginas do mais ininteligível parnasianismo

Poesias Completas de Gustavo Teixeira, catatau de 532 páginas do mais ininteligível parnasianismo


a galera real, de tírias velas têsas,
avança rio a dentro, arfando de riquezas,
cheia de um resplendor de pedras coruscantes.

Sob um dossel de bisso, entre espirais ebriantes
de incenso, a escultural princesa das princesas
cisma... Remos de prata, à flor das correntezas,
deixam móbeis jardins de bolhas terpidantes...

Soluçam harpas dóiro às mãos de ancilas belas;
Branda a aragem enfuna a púrpura das velas
E à tona da água alveja um espumoso friso.

E a Náiade do Egito, ao ver a frota ingente
De Marco Antonio, ri, levando unicamente
Contra as lanças de Roma a graça de um sorriso...


Vou e volto ao longo das mais de quinhentas páginas de Poesias Completas, procuro, mas não encontro algo de que realmente goste. Outra época, outro estilo, outra estética. Na página 397, enfim, me deparo com Noite de Inverno, e fico feliz, pois quase consigo gostar do que leio:

...

Dorme a cidade, gelada.
Na longa rua deserta
Nem uma janela aberta,
Nem um rumor na calçada!

Das árvores semimortas
Vão-se as folhas, amarelas.
O vento, embuçado nelas,
Tirita batendo às portas.
...

Penso em ti. Fico pensando...
Nesta hora de um frio horrendo,
Talvez estejas sofrendo!
Talvez estejas chorando!



De qualquer forma, parece que o tio bisavô Gustavo era boa pessoa, sossegado, pouco ambicioso, e merece todo o respeito por ter conseguido, em arquiteturas verbais tão complexas, construir sólidos sonetos que tanta gente leu e que nós hoje, com algum esforço, conseguimos até compreender. A ironia do destino é que quem estava a seu lado, na cabeceira da cama, quando morreu, era Oswald de Andrade. O mais ácido e iconoclasta dos modernistas tinha, por algum motivo, respeito pelo caipirão parnasiano Gustavo Teixeira. E foi Oswald quem comunicou ao Brasil, via agência Havas, a morte do Poeta da Roça.

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Por André Caramuru Aubert

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