“Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto
que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte,
... supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte...”
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas
Meu pai nasceu em Neully-sur-Seine, Paris, em 29 de agosto de 1931, sendo registrado como Jean Henry Lear Aubert. O pai dele, meu avô Jacques, era um suíço de Genebra, de família instalada na cidade havia quatrocentos anos. De origem huguenote de Crést, perto de Grénoble, os Aubert eram uma daquelas famílias francesas, de burgueses ou da pequena nobreza, que foi para a então cidade livre de Genebra por volta de 1530, acompanhando Calvino na fuga às perseguições católicas das guerras de religião da França. Os Aubert eram conservadores em 1500 e continuavam assim em mil novecentos e pouco, agora membros do patriciado genebrino e tendo contribuído, para a história do Cantão, e da Confederação, com banqueiros, principalmente, mas também juristas, médicos e até militares, figuras como o Coronel Louis Aubert (1813-1888), tataravô de meu pai, nome de rua em Genebra e comandante de tropas suíças na bem sucedida intervenção contra revoltas populares nas ruas de Viena, em 1848.
Rodolphe Töpffer, autorretrato, 1840
Dentre meus antigos parentes suíços, acho que o mais interessante é um certo Rodolphe Töpffer (1799-1846). Filho de Adam Wolfgang Töpffer, “mestre desenhista” da Imperatriz Josephine, mulher de Napolão, Rodolphe foi artista plástico e professor de arte na Universidade de Genebra, mas seu grande feito é ser considerado por muita gente, hoje, como o inventor das histórias em quadrinhos, que criava originalmente apenas para entreter os amigos. Um destes amigos, porém, gostava tanto daquele trabalho que o convenceu a publicar, e as histórias então se espalharam pelo mundo, ganhando edições até nos Estados Unidos (The adventures of Obadiah Oldbuck, em 1842). O amigo que o incentivou a publicar os trabalhos se chamava Johann Wolfgang Goethe. Tenho em casa, cuidadosamente guardados, cinco primeiras edições das histórias em quadrinhos, além de duas edições facsimilares, impressas na década de 30, que pertenceram ao próprio Töpffer, estão assinadas pela viúva e filhas, que meu avô obteve não sei como e trouxe com ele da Europa. Meu pai uma vez me deu os livros de presente, dizendo que não tinha mais lugar na casa dele para aquelilo tudo, e eu não tinha a menor idéia do enorme valor histórico deles, algo que só fui descobrir muito depois.
Jacques, meu avô, um boêmio que queria ser escritor, voltou um dia do serviço militar e encontrou o pai, um médico obstetra seco e pão duro, esperando-o com as malas dele, Jacques, prontas. “Já o criei, alimentei, eduquei, fiz minha parte. Agora é com você, vá cuidar da sua vida.” Meu avô então, espremido entre a necessidade e a oportunidade, tomou o rumo de Paris e de seus ares bem mais arejados do que os da taciturna e cinzenta Genebra de então. Na capital francesa ele viveu os “anos loucos” do entre guerras, relacionando-se com artistas e intelectuais, embora na verdade mais com a turma do centro, ou da direita moderada, do que da esquerda. Jacques escrevia para os jornais de língua francesa da Suíça, esboçava alguma literatura e livros sobre arte, bebia, fumava, vivia nos cafés. Esse traço boêmio, aliás, ele manteria pela vida toda. Já no Brasil, vivia, agora não mais em cafés de intelectuais, mas em botequins de esquina mesmo. No Rio, quando morou na Glória, era amigo dos motoristas de táxi, porteiros, chaveiros. Em Olinda, onde viveu os últimos anos, me contaram que, quando morreu, o cortejo seguiu pelas ruas da cidade, e nele iam, andando e lembrando o morto, freiras e putas, padres e policiais, encanadores e artistas.
página de Histoire de Monsieur Cryptogame, história em quadrinhos de Töpffer, 1845
E foi na boemia, aquela aparentemente mais glamourosa, da capital francesa dos anos 30, que Jacques conheceu Margaret Ursula Finch, minha avó, uma inglesa, filha de pastor anglicano, da paróquia de Mitcham, em Londres. Também de família tradicional, também culta e esclarecida, ela estava em busca do mesmo oxigênio que meu avô, só que no caso dela quem sufocava, ao que parece, era a mãe. Margaret era bonita, sabia dançar (há uma bela foto dela em pose e trajes de balé clássico), desenhava razoavelmente bem e escrevia poemas que não eram ruins, como este de maio de 1938, dedicado a alguém (You) que eu jamais saberei quem era:
Memories
(To You)
“Beneath the pale moon
We wandered, in the stillness of the night,
And love took us by the hand
And led us through that avenue of trees
Toward the stars.
We spoke of love, but in hushed whispers,
For we feared the shadows,
And our secret seemed so dear.”
[Debaixo da lua pálida
Nós vagamos, na permanência da noite,
E o amor nos pegou pelas mãos
E nos conduziu através daquela avenida de árvores
Até as estrelas.
Nós falamos de amor, mas em sussurrado silêncio,
Pois nós temíamos as sombras,
E nosso segredo parecia tão precioso.]
Ou este outro, sem data:
Song
"My heart, she sang a song for you,
Te tell you my love was true,
But if you heard, I never knew.
I told it to the skies of blue,
I whispered to the wind that blew
And sang it to bird that flew.
O, know you all my love is true
I told it to the flowers that grew,
But O! My hearers were too few
And no one guessed and no one knew
How deep my love was, sweet, for you.
[ Meu coração, ele cantou uma canção para você,
Para lhe contar que meu amor era verdadeiro,
Mas se você ouviu, eu nunca soube.
Eu contei isso aos céus azuis,
Eu sussurrei ao vento que soprou
E cantei ao pássaro que voou.
Oh, saiba você que todo o meu amor é real
Eu contei às flores que cresceram,
Mas, Oh! Os que me ouviam eram tão poucospoesia, Par
E ninguém adivinhou e ninguém soube
Quão profundo era o meu amor, doce, por você]
Margaret e Jacques se conhecem, se casam, têm um único filho, que viria a ser meu pai; ela, ouvi dizer, tem um caso, eles se separam, meu avô fica em Paris e ela parte de volta para a Inglaterra, para a casa dos pais, levando Jean com ela.





















