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Postado em 28.10.2009 | 13:10 | André Caramuru Aubert
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Brenno Caramuru com a farda de capitão das forças paulistas de 1932

Brenno Caramuru com a farda de capitão das forças paulistas de 1932


O pai de Alzira, meu avô Brenno Caramuru, foi, para mim, um cara imbatível. Me levava aos jogos do São Paulo, passeava comigo à cavalo na fazenda, contava as histórias da fundação do Tricolor e da construção do Estádio do Morumbi, de quando combateu, patente de capitão, na frente sul da Revolução de 32, capturando dois oficiais da cavalaria paranaense e dias depois sendo atingido por um tiro de fuzil, que entrou pelo rosto e saiu pelo pescoço, que quase o matou; foi o avô que me deu minha primeira moto e depois meu primeiro carro, o inesquecível Jeep 66 azul, quando eu mal tinha completado dezessete anos. Em minha primeira infância ele acabou representando a figura paterna que havia ficado vaga. Mas nem todos tinham a mesma impressão dele. Para talvez a maioria das pessoas, ele nada mais fazia do que meter medo. Tinha um vozeirão denso e uma autoridade natural acentuada por anos como juiz de Direito. Contraditório, era ao mesmo tempo amável e autoritário, liberal e conservador. Não que eu nunca tenha visto o lado assustador dele. Teve por exemplo uma vez em que eu devia ter uns seis anos de idade e havia feito uma das raras visitas à casa de Jean. Lá, ele me ensinara a balançar o pinto depois de fazer xixi, para eliminar as últimas gotinhas. Eu ficara muito orgulhoso daquele saber recém adquirido, que me pareceu uma coisa genuinamente masculina, ensinada por meu pai, o que aumentava muito o valor daquela nova aquisição. Na semana seguinte, eu fui passar o fim de semana em Porto Feliz, na fazenda Chapadão, de Brenno. Numa certa hora, à tarde, surgiu a oportunidade ideal para mostrar minha nova competência. Meu avô estava na sala, lendo, junto com sua terceira mulher, Esmeralda, e eu fui fazer xixi no banheiro que ficava lá no fim da sala, o qual, com a porta aberta, dava direto para a poltrona dele. Fiz o xixi e, quando acabei, narrei, com a voz mais alta possível, o processo de eliminar as gotas balançando o pinto. Do outro extremo da sala, não tardou a vir um trovão. Não me lembro bem do conteúdo, algo como “Que porcaria é esta que você está fazendo aí???!!!” Mas a forma, aterrorizante, tonitroante, paralisante, desta eu me lembrarei para sempre, enquanto tiver um único neurônio ativo em meu cérebro.

Minha mãe foi, pelo pai, incentivada a dirigir cedo, a pular de para-quedas, a viajar sozinha, a não ter medo de nada (na verdade, ela foi, literalmente, proibida de ter medo). Isso tudo, é bom lembrar, na provinciana São Paulo das décadas de 40 e 50. Mas enquanto era incentivada a estudar Direito e a buscar sua independência, era ao mesmo tempo empurrada para um casamento com algum rapaz machista e medíocre de família paulista tradicional, onde estaria destinada a desempenhar o papel coadjuvante de esposa e mãe. Será que meu avô Brenno teria sido menos rigoroso com a filha se ela não fosse a única, se houvesse irmãos homens? Acho bem possível. A única irmã de minha mãe, tia Stellinha, nasceria temporona apenas em 1950, na verdade quando o casamento de Brenno e Cleonice dava os suspiros finais. O fato é que toda a expectativa de meu avô a respeito do que deveria ser um filho homem dirigiu-se para minha mãe, o que de certa forma explica a contradição entre ela ser tratada como filha mulher e feminina, ao mesmo tempo em que recebia os incentivos para ousar e não temer, como só se fazia, então, com filhos do sexo masculino. Tão complicada foi para minha mãe esta relação que, passados muitos anos, este continua a ser o assunto central dela nas sessões de terapia (que vão do complexo de electra a aquele detalhezinho de não poder ter medo, algo que aliás respingou em mim, e que por mais de uma ocasião quase me matou, incluindo certa vez, com uns treze anos, em que fui o único a entrar no mar, para surfar, num dia de ressaca monstro na praia Grande, em Ubatuba. A verdade é que é muito difícil, por mais que se tente proibir, que o medo desapareça; o mais provável é que ele fique apenas meio disfarçado, o que pode ser até mais perigoso). Por outro lado, como a loucura nunca produz seus efeitos numa única direção, junto com essa história de não ter medo, minha mãe não consegue, nunca conseguiu, berrar ou correr.

 

 

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