Revista Trip

 
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Postado em 18.11.2009 | 17:11 | André Caramuru Aubert
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Até aquele período vivido na Inglaterra, dificilmente se poderia dizer que a infância de meu pai tenha tido algo especialmente traumático, que pudesse de alguma forma justificar o desequilíbrio emocional e o comportamento egoísta dos anos futuros. Ele podia estar separado do pai, podia ter uma mãe um pouco ausente e uma avó ranzinza, mas vivia num lar estruturado, sem preocupações materiais, com um tio por perto e um avô equilibrado e, ao que parece, carinhoso. Nada, enfim, que não seja vivido por milhões de crianças no mundo, a maior parte das quais crescendo em perfeita, ou tanto quanto isso existe de fato, saúde mental.

Mas a paz não duraria muito, para o mundo e para ele. As tensões políticas que se acumulavam na Europa desde havia alguns anos, com a ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha em 1933, desembocaram na invasão da Polônia em setembro de 1939 e no início da Guerra. A Inglaterra, envolvida desde o primeiro momento, passou a ser alvo quase imediato dos bombardeios aéreos alemães. Londres e as maiores cidades britânicas viveriam um permanente pesadelo de bombas até o fim do conflito, mas especialmente entre julho e outubro de 1940, na chamada Batalha da Inglaterra, quando os alemães despejaram todo o poderio aéreo que possuíam contra as ilhas britânicas. Os alemães tentavam destruir a moral e as defesas inglesas para preparar o desembarque e a invasão, o que no fim das contas não conseguiram, naquela que foi a primeira derrota alemã na Guerra, embora não tenha parecido, então, decisiva. Desde o início, diante da iminência dos ataques, a orientação das autoridades britânicas era para que as crianças fossem retiradas das cidades grandes, os alvos primários, e enviadas para fazendas ou vilarejos rurais. Num enorme êxodo infantil, milhares de crianças partiram para casas de parentes ou dos inúmeros voluntários no campo que se ofereceram para hospedar as crianças que não tivessem família em lugares distantes. Para Johnny, havia uma solução aparentemente melhor, que era enviá-lo à Suíça, neutra no conflito e teoricamente a salvo das bombas alemãs, para a casa de seu avô paterno (já que o pai, Jacques, ainda estava em Paris).

Nantes, 1948, óleo de Jean AubertNantes, 1948, óleo de Jean Aubert

 

Então, sem perder tempo, minha avó pegou um avião com Johnny até o sul da França, alugou um carro e dirigiu até Genebra. Lá, procurou o dr. Louis Henry Gustave Aubert, o ex-sogro dela, meu bisavô, o mesmo médico obstetra pão duro e conservador empedernido que pusera o filho para fora de casa na volta do serviço militar. Para piorar, casado pela segunda vez, o velho só tinha olhos para a nova mulher, uma russa emigrada fugida da Revolução Bolchevique. Ela, por sua vez, parece que, entre outros defeitos, e sabe-se lá se por ciúme ou por fetiche mesmo, ficava espiando pelo buraco da fechadura as consultas ginecológicas realizadas pelo marido. E, chegando naquele ambiente tenso e quase abertamente hostil, Margaret falou a Johnny que ele iria conhecer o avô, o avô suíço, que ele não conhecia, que isso seria bom. Ela então avisou que iria resolver algumas coisas na rua e que voltaria logo, deixando o garoto com o avô, que não o queria mas não teve escolha, mas que certamente não há de ter sido caloroso ao recepcionar o neto. E nunca mais. Margaret não preparou o filho, não se despediu. Dali ela pegou o carro, rumou de volta para o sul da França, para o aeroporto, o avião, e Londres. Johnny não a veria mais. Ficaria, para ele, a marca do abandono, uma enorme carência, uma trava emocional sem tamanho. Meu pai seria, vida afora, uma pessoa extremamente centrada e sem a menor capacidade de se dar, de olhar o outro, de ler ambientes estranhos, de conviver socialmente de forma adequada. Um inadequado que, ao longo da vida, em muitas ocasiões se via como um Cary Grant, enquanto se portava como, e parecia, o Monsieur Hulot de Jacques Tatit. A questão que permaneceu sem resposta, contudo, é se este fato teve o poder de realmente causar tantos danos, ou se já havia algo anterior nele, na personalidade, que o teria feito um adulto problemático de qualquer maneira. Ele botou a culpa nesse evento para todos os problemas que ele teve depois. Sem querer minimizar o sofrimento do pequeno Johnny, será que o Grande Abandono não acabou sendo, de certa forma, a Grande Desculpa?

Minha avó participaria ativamente da Guerra, como enfermeira voluntária da Cruz Vermelha, primeiro na Inglaterra e, depois da invasão aliada, possivelmente no continente. O pai dela, o reverendo Finch, morreria em 5 de maio de 1941. Uma pesquisa acabou me levando ao anúncio de sua morte, para efeitos legais de inventário, na London Gazette de 17 de outubro daquele mesmo ano. Causas naturais? Bombardeio? Não sei. O que se pode dizer é que o dia 5 de maio de 1941 foi mais um dia que a Inglaterra foi pesadamente castigada por bombas alemãs, e há o registro neste mesmo dia, por exemplo, da destruição da igreja de St. Luke, em Liverpool. Por outro lado, embora o bairro em que se encontrava tenha sido bastante castigado, a casa paroquial de Mitcham, onde meu bisavô vivia, sobreviveu e está de pé até hoje (embora com outro uso). Mas a casa estar de pé não quer dizer que as bombas não o tenham matado, pois ninguém ficava em casa durante os bombardeios, e boa parte das pessoas foi morta quando estava supostamente em segurança, dentro dos abrigos antiaéreos.

Henry Ormond com o uniforme do Exército Canadense

Henry Ormond com o uniforme do Exército Canadense

Margaret permaneceria como uma sombra abstrata para Jean durante toda a sua vida. Logo que terminou a Guerra ela se casaria com Henry Ormond, morrendo poucos anos anos depois, provavelmente em 1948. Jean não chegou a conhecer este segundo marido de sua mãe, uma figura sem dúvida interessante. Nascido alemão e judeu em 1901 com o nome de Hans Oettinger, era juiz em Manheim na década de 30 e foi afastado do cargo com a ascensão dos nazistas ao poder. Perseguido, fugiu para a Inglaterra via Suíça e, após alguns contratempos, como a suprema ironia de ter que passar um período num campo britânico para prisioneiros alemães, foi libertado, adquiriu cidadania britânica, mudou seu nome para Henry Ormond e juntou-se às forças canadenses, ainda a tempo de participar da invasão aliada à Alemanha. Terminada a guerra, deu baixa no exército e permaneceu na Alemanha, onde se tornou um advogado famoso por seu trabalho nos julgamentos de crimes de guerra nazistas e, posteriormente, de localizar e devolver a famílas judias bens confiscados pelo regime hitlerista. Mas Jean pouco sabia dessa história toda até que, em fins de 1961, os céus mandaram uma surpresa. A barriga de minha mãe já estava enorme, e ela, entre outros desesperos, não tinha nenhum dinheiro para pagar o parto. Eis que chega uma carta de um banco da Alemanha, que passara meses errando por prédios de correios latino americanos, pois fora endereçada a “Praia do Tenório, Ubatuba, Buenos Aires”. Em resumo, alguns anos após a morte de Margaret, o viúvo dr. Ormond conseguira colocar ordem nos poucos bens dela, transformara em dinheiro e enviara ao único filho, Jean, residente naquela cidade de praia de Buenos Aires. Assim, nesse momento, esta minha avó de certa forma apareceu, e ajudou. Mas assim mesmo continuava uma desconhecida.

Até que, em algum momento da década de 80, Thomas Ormond, filho de Henry, “apareceu”. Depois de muita pesquisa, naqueles remotos tempos pré-google, conseguiu localizar Jean já vivendo em Embu-Guaçú. O que houve é que Thomas organizava os arquivos do pai, morto em 1977, quando encontrou uma série de documentos pertencentes a Margaret (que ele, nascido depois da morte dela, não chegou a conhecer). Havia fotos, diários, poemas (incluindo os transcritos acima), agendas com nomes de oficiais e pilotos da RAF da época da Guerra, desenhos e algumas menções ao filho Johnny. Ele escreveu a Jean perguntando se ele gostaria de receber aqueles papéis e, diante da resposta afirmativa, passou a enviar, em intervalos mais ou menos regulares de tempo, pacotes com todos os papéis que ia encontrando. Foi só então que Jean passou a conhecer um pouco mais a respeito de sua mãe. Como era, como escrevia, como desenhava, com quem se relacionava. Mas, como numa obra de ficção mal construída, não dava para saber quem eram, como eram, que papel tiveram, aqueles amigos todos presentes nas agendas. Não dava para saber que timbre de voz ela tinha, como ficava quando sorria, gargalhava, chorava. Ela permaneceria até o fim, para Jean, uma sombra, mas agora, pelo menos, uma sombra com um pouco mais de nitidez e contorno.

A história da relação de Margaret com ele foi, para meu pai, a história do Grande Abandono. Ela o deixou com o avô paterno em Genebra e nunca mais o procurou. Houve a Guerra, é verdade, mas a Guerra não durou para sempre, a Suíça nunca foi invadida e as comunicações entre Genebra e Londres, embora prejudicadas como tudo o mais no período, jamais foram totalmente interrompidas. É verdade também que ela morreu poucos anos depois de terminado o conflito. Mas teve tempo de conhecer, namorar e se casar com Henry. Teve tempo de deixar a Cruz Vermelha e se mudar com o novo marido para a Alemanha. Mas não teve tempo? para procurar o único filho, o garotinho que deixara em Genebra com apenas oito anos, em 1939? e que era agora um adolescente? Não podemos ouvir o lado dela na história, mas não há, em princípio, motivos parta desculpá-la. Por outro lado, essa rejeição dela não parece suficiente, como queria meu pai, para explicar e justificar seus desvios emocionais e sua propensão para, ele próprio, por sua vez, abandonar os filhos. A Guerra, como todas as guerras, esteve repleta de histórias de famílias separadas, massacradas, destroçadas. Mas dentre as milhões de famílias marcadas por histórias de tragédias saíram pessoas de todos os jeitos, inclusive amorosas, carinhosas, bons pais e mães, bons avós, ainda que fossem obrigados a carregar, para sempre, suas marcas e cicatrizes.

 

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Postado em 16.11.2009 | 13:11 | André Caramuru Aubert
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Edward Lear

Edward Lear

Assim, depois de uma primeira infância em Paris, da qual quase não guardaria lembranças, Jean, que nos próximos anos será “Johnny”, cresce na agradável e ampla casa paroquial de Mitcham, em Londres, onde o avô dele era pastor, paredes de tijolos vermelhos, gramado bem inglês na frente. Ele não se recordava de muita coisa. Pouco da mãe, que ao que parece não era mesmo uma pessoa muito maternal. Do único tio materno, Charles, meu pai se lembrava de ter assistido junto, do telhado da casa, ao incêndio que destruiu uma das então principais atrações de Londres, o Palácio de Cristal, no primeiro dia de dezembro de 1936 (e ele se perguntava: como um palácio de cristal pode queimar?). Da avó ele não se lembrava nem do nome; sabia apenas, pelo que seu pai Jacques contava, que ela era amarga e talvez mesmo um pouco má, e parente, certamente do lado “pobre”, da poderosa família Bowes-Lyon (oriunda da clara noção de decadência social é que vinha, provavelmente o amargor, e a amargura). Minha avó Margaret se orgulhava bastante do parentesco com Edward Lear (1812-1888), o que se pode perceber em função da grande quantidade de material que guardou a respeito do parente famoso. Vigésimo primeiro filho de uma família de classe média que empobreceu repentinamente quando o pai, investidor na bolsa, se estrepou em negócios mal sucedidos, Edward Lear teve que se virar. Acabou se tornando um artista plástico respeitado, tendo ilustrado obras de autores famosos, como Tennyson, e se tornado professor de desenho da Rainha Vitória. No entanto, a grande marca que deixou é a fama de ter sido o inventor do non sense, o por assim dizer “estilo” britânico de construir histórias e poemas repletos de jogos de palavras, com duplo sentido, sem sentido ou com sentido surreal. A lista de discípulos é grande, começando por Lewis Carrol e incluindo John Lennon. E, onde aparentemente não há sentido, às vezes sente-se o travo de uma visão amarga do mundo, como se pode perceber neste “Os dois velhos solteirões”, publicado no livro Laughable Lyrics, Fourth Book of Nonsense Poems, Songs, Botany, Music & c., de 1877:

Frontispício do livro mais famoso de Edward Lear

Frontispício do livro mais famoso de Edward Lear

The two old bachelors


Two old Bachelors were living in one house;
One caught a Muffin, the other caught a Mouse.
Said he who caught the Muffin to him who caught the Mouse,--
‘This happens just in time! For we've nothing in the house,
‘Save a tiny slice of lemon and a teaspoonful of honey,
‘And what to do for dinner – since we haven't any money?
‘And what can we expect if we haven't any dinner,
'But to loose our teeth and eyelashes and keep on growing thinner?'

(…)
The Mouse had fled; -- and, previously, had eaten up the Muffin.
They left their home in silence by the once convivial door.
And from that hour those Bachelors were never heard of more.


[ Dois velhos solteirões viviam numa casa:
Um catou um muffin, o outro catou um camundongo.
Disse o que catou o muffin para o que catou o camundongo,--
‘Isso aconteceu em boa hora! Pois nada temos em casa,
‘Guardemos uma fatia fina de limão e uma colher de mel,
‘E o que fazer para jantar – pois se dinheiro não temos nenhum?
‘E o que podemos esperar se jantar não temos nenhum?
‘A não ser perdermos nossos dentes e cílios e seguir emagrecendo?’

(...)

O camundongo se mandou; -- e, antes disso, comeu todo o muffin.

Eles deixaram a casa quietos, por aquela que foi um dia a alegre porta de uma casa.
E daquela hora em diante nunca mais dos velhos solteirões se ouviu falar.]
 

Do avô, o reverendo Charles Aubrey Finch, meu pai trazia um pouco mais de imagens na memória. As poucas fotos que chegaram até aqui, aliás, mostram uma notável semelhança física entre ele e Jean (e, por tabela, comigo). C. A. Finch, como assinava, era um sujeito culto e tranquilo, escrevia textos despretensiosos para a pequena imprensa paroquial e, pelo que eu soube por Pauline Barrell, voluntária recém aposentada na paróquia de Mitcham, cuja mãe foi amiga dele, o reverendo Finch era bastante querido e respeitado pela comunidade. Usei um texto dele, publicado em 1910, para escrever uma matéria para a Trip há algum tempo. O texto, chamado “On going a walking”, que foi para mim uma muito agradável surpresa quando pela primeira vez em que o li, lamentava que os corridos dias modernos estavam tirando das pessoas o tempo disponível e o gosto por caminhadas ao ar livre, e enumerava os benefícios, ao corpo e ao espírito, que tais caminhadas proporcionavam. Na abertura, ele escreve:

“Nos últimos anos, o hábito de andar, em nosso país, infelizmente saiu de moda. A bicicleta e os carros a motor fascinaram as pessoas pela velocidade, e as encantaram pela facilidade, até o ponto de que o charme peculiar da caminhada foi quase que completamente esquecido, e hoje é muito difícil encontrar uma companhia para cobrir umas vinte milhas por dia. Não que companhia seja uma necessidade quando a jornada a ser cumprida é ela em si o objeto do prazer...”

Meu bisavô Charles Finch (assinalado) no exercito de Sua Majestade, fim do século XIX

Meu bisavô Charles Finch (assinalado) no exercito de Sua Majestade, fim do século XIX

Adiante, o texto, que de alguma maneira faz lembrar o Thoreau de Walden e, principalmente, do pequeno ensaio Walking, fecha com um elogio do então ainda menos prestigiado hábito de se caminhar sob a chuva:

“Poucas pessoas andam, por prazer, na chuva. Aqueles que o fazem vêem belezas e experimentam prazeres jamais suspeitados pelos mais medrosos. Lembranças de muitas caminhadas molhadas vêm à minha mente – caminhadas sob as rápidas mudanças de forma de nuvens que se desfazem, com o rugido do vento balançando o topo das árvores entrando pelos ouvidos, enquanto os pingos de água escorrem pelo rosto. Há um gosto de batalha diante da intensidade de um trovão, que faz o sangue se espalhar pelo corpo, numa sensação de regozijo da alma. Pode-se cantar e berrar com todas as forças, num júbilo da tempestade de chuva e vento. E então, ainda, novos esboços de cores mostram-se por todos os lados. Lembro-me de uma cena, em particular, que me impressionou por ter sido tão bela quanto qualquer outra que eu tenha contemplado. Foi numa campina, através da qual um pequeno riacho corria entre linhas de salgueiros aparados, com moitas de espinheiros floridos espalhados pela vegetação rasteira ao fundo. O cinza da chuva que caía, o triste verde acinzentado dos salgueiros e o delicado roxo dos espinheiros balançando se mesclaram na mais bela, sutil e harmoniosa das combinações de cores. É bom, às vezes, caminhar na chuva.”

Há alguns dias aconteceu comigo de ter que caminhar na chuva. Era fim de tarde, eu voltava a pé do escritório para casa e uma chuva forte me pegou em cheio. Atravessei o Cemitério São Paulo com suas lápides e seus pinheiros e me lembrei do texto de meu bisavô. Tentei fruir a situação, sentir a chuva na alma, encontrar prazer naquela situação. Não consegui. Molhado, encharcado, com frio, tentei me abrigar na capela de estilo greco-romana, no alto do cemitério, que estava fechada, e depois corri como um louco, até chegar em casa, sem fôlego, direto para um banho quente. Nesse dia, sem que eu achasse a menor graça em tomar chuva, ficou evidente quanta coisa mudou entre os tempos de meu bisavô e o meu. Mas algumas similaridades entre nós dois persistem. Como eu, ele deixa Deus de fora, o que é curioso se lembrarmos que ele era pastor, publicava num jornal paroquial e a temática era a relação entre os homens e a natureza. E ele não nega as vantagens da tecnologia nem critica o progresso. Apenas ressalta que as modernidades não deveriam eliminar, mas antes conviver, com tudo o que de bom já existia antes.

Jean guardará apenas uma lembrança deste seu avô. Escondido atrás de uma porta, segurando um garfo surrupiado da cozinha, ele observa, espera o Reverendo passar e, num ataque certeiro, espeta o traseiro deste com o garfo. O avô, que era magro e muito alto (especialmente para o neto), vira-se rápido, com o susto e a dor, mas consegue manter o controle e nem mesmo dá uma bronca. Com calma, explica a Johnny que ele não devia fazer aquilo, pois poderia machucar as pessoas. Da ampla casa paroquial de Mitcham, meu pai contava, ainda, ter a nítida lembrança de ver gnomos brincando no jardim. Ele dizia que “é claro que deve ser imaginação minha, mas de qualquer maneira, a cena é nítida, clara, posso vê-los correndo e pulando, rindo, me lembro tão bem como se fosse tivesse acontecido hoje.”

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Postado em 11.11.2009 | 19:11 | André Caramuru Aubert
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“Porque já não preciso de ti. Não importa ao tempo o minuto
que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte,
... supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte...”

Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas

 

 

Meu pai nasceu em Neully-sur-Seine, Paris, em 29 de agosto de 1931, sendo registrado como Jean Henry Lear Aubert. O pai dele, meu avô Jacques, era um suíço de Genebra, de família instalada na cidade havia quatrocentos anos. De origem huguenote de Crést, perto de Grénoble, os Aubert eram uma daquelas famílias francesas, de burgueses ou da pequena nobreza, que foi para a então cidade livre de Genebra por volta de 1530, acompanhando Calvino na fuga às perseguições católicas das guerras de religião da França. Os Aubert eram conservadores em 1500 e continuavam assim em mil novecentos e pouco, agora membros do patriciado genebrino e tendo contribuído, para a história do Cantão, e da Confederação, com banqueiros, principalmente, mas também juristas, médicos e até militares, figuras como o Coronel Louis Aubert (1813-1888), tataravô de meu pai, nome de rua em Genebra e comandante de tropas suíças na bem sucedida intervenção contra revoltas populares nas ruas de Viena, em 1848.

 

Rodolphe Töpffer, autorretrato, 1840

Rodolphe Töpffer, autorretrato, 1840


Dentre meus antigos parentes suíços, acho que o mais interessante é um certo Rodolphe Töpffer (1799-1846). Filho de Adam Wolfgang Töpffer, “mestre desenhista” da Imperatriz Josephine, mulher de Napolão, Rodolphe foi artista plástico e professor de arte na Universidade de Genebra, mas seu grande feito é ser considerado por muita gente, hoje, como o inventor das histórias em quadrinhos, que criava originalmente apenas para entreter os amigos. Um destes amigos, porém, gostava tanto daquele trabalho que o convenceu a publicar, e as histórias então se espalharam pelo mundo, ganhando edições até nos Estados Unidos (The adventures of Obadiah Oldbuck, em 1842). O amigo que o incentivou a publicar os trabalhos se chamava Johann Wolfgang Goethe. Tenho em casa, cuidadosamente guardados, cinco primeiras edições das histórias em quadrinhos, além de duas edições facsimilares, impressas na década de 30, que pertenceram ao próprio Töpffer, estão assinadas pela viúva e filhas, que meu avô obteve não sei como e trouxe com ele da Europa. Meu pai uma vez me deu os livros de presente, dizendo que não tinha mais lugar na casa dele para aquelilo tudo, e eu não tinha a menor idéia do enorme valor histórico deles, algo que só fui descobrir muito depois.

Jacques, meu avô, um boêmio que queria ser escritor, voltou um dia do serviço militar e encontrou o pai, um médico obstetra seco e pão duro, esperando-o com as malas dele, Jacques, prontas. “Já o criei, alimentei, eduquei, fiz minha parte. Agora é com você, vá cuidar da sua vida.” Meu avô então, espremido entre a necessidade e a oportunidade, tomou o rumo de Paris e de seus ares bem mais arejados do que os da taciturna e cinzenta Genebra de então. Na capital francesa ele viveu os “anos loucos” do entre guerras, relacionando-se com artistas e intelectuais, embora na verdade mais com a turma do centro, ou da direita moderada, do que da esquerda. Jacques escrevia para os jornais de língua francesa da Suíça, esboçava alguma literatura e livros sobre arte, bebia, fumava, vivia nos cafés. Esse traço boêmio, aliás, ele manteria pela vida toda. Já no Brasil, vivia, agora não mais em cafés de intelectuais, mas em botequins de esquina mesmo. No Rio, quando morou na Glória, era amigo dos motoristas de táxi, porteiros, chaveiros. Em Olinda, onde viveu os últimos anos, me contaram que, quando morreu, o cortejo seguiu pelas ruas da cidade, e nele iam, andando e lembrando o morto, freiras e putas, padres e policiais, encanadores e artistas.

 

página de Histoire de Monsieur Cryptogame, história em quadrinhos de Töpffer, 1845

página de Histoire de Monsieur Cryptogame, história em quadrinhos de Töpffer, 1845


E foi na boemia, aquela aparentemente mais glamourosa, da capital francesa dos anos 30, que Jacques conheceu Margaret Ursula Finch, minha avó, uma inglesa, filha de pastor anglicano, da paróquia de Mitcham, em Londres. Também de família tradicional, também culta e esclarecida, ela estava em busca do mesmo oxigênio que meu avô, só que no caso dela quem sufocava, ao que parece, era a mãe. Margaret era bonita, sabia dançar (há uma bela foto dela em pose e trajes de balé clássico), desenhava razoavelmente bem e escrevia poemas que não eram ruins, como este de maio de 1938, dedicado a alguém (You) que eu jamais saberei quem era:


Memories
(To You)


“Beneath the pale moon
We wandered, in the stillness of the night,
And love took us by the hand
And led us through that avenue of trees
Toward the stars.
We spoke of love, but in hushed whispers,
For we feared the shadows,
And our secret seemed so dear.”


[Debaixo da lua pálida
Nós vagamos, na permanência da noite,
E o amor nos pegou pelas mãos
E nos conduziu através daquela avenida de árvores
Até as estrelas.
Nós falamos de amor, mas em sussurrado silêncio,
Pois nós temíamos as sombras,
E nosso segredo parecia tão precioso.]

Ou este outro, sem data:

Song

"My heart, she sang a song for you,
Te tell you my love was true,
But if you heard, I never knew.
I told it to the skies of blue,
I whispered to the wind that blew
And sang it to bird that flew.
O, know you all my love is true
I told it to the flowers that grew,
But O! My hearers were too few
And no one guessed and no one knew
How deep my love was, sweet, for you.


[ Meu coração, ele cantou uma canção para você,
Para lhe contar que meu amor era verdadeiro,
Mas se você ouviu, eu nunca soube.
Eu contei isso aos céus azuis,
Eu sussurrei ao vento que soprou
E cantei ao pássaro que voou.
Oh, saiba você que todo o meu amor é real
Eu contei às flores que cresceram,
Mas, Oh! Os que me ouviam eram tão poucospoesia, Par
E ninguém adivinhou e ninguém soube
Quão profundo era o meu amor, doce, por você]


Margaret e Jacques se conhecem, se casam, têm um único filho, que viria a ser meu pai; ela, ouvi dizer, tem um caso, eles se separam, meu avô fica em Paris e ela parte de volta para a Inglaterra, para a casa dos pais, levando Jean com ela.

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Postado em 09.11.2009 | 19:11 | André Caramuru Aubert
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Ubatuba, 1956, guache de Jean Aubert

Ubatuba, 1956, guache de Jean Aubert

 

 

De um jeito ou de outro, o fato é que as visitas dos amigos nos fins de semana eram cada vez mais, ao invés de agradáveis, mais uma fonte de conflitos. No mesmo contexto, as posições políticas de Jean, tendentes a direita, começavam a destoar ali. O grupo não era, majoritariamente, composto por radicais de esquerda, nem havia ali, que eu saiba, membros do PCB. Mas não era, também, um grupo em que a palavra “comunista” fosse palavrão. Para Jean, era. E no momento em que a década de 60 se aproximava, a Revolução Cubana, que triunfara em janeiro de 1959, despertava discussões apaixonadas, polarização que aumentava conforme se aproximavam as eleições que escolheriam, em 1960, o presidente Jânio Quadros e seu vice João Goulart. E no pacote de Jean vinha a ainda a valorização dos ensinamentos morais, disciplinares etc. do escotismo, que para os outros, de uma geração que a cada dia se tornava mais iconoclasta, era nada mais que motivo de piada. Então, com o clima ficando pesado, mesmo as pequenas diferenças entre os dois ganhavam uma crescente dimensão. Jean organizava tudo, Alzira Helena bagunçava. Ele queria a louça limpa, ela sujava e não lavava. Ela queria a casa cheia, ele reclamava das visitas.

Eles ainda fariam uma tentativa de conseguir dinheiro, assumindo em 1959 um decadente hotel, o Ubá, no centro de Ubatuba, em sociedade com um casal europeu vivendo no local, um italiano boa praça, do qual só ficaram boas lembranças, e sua esposa belga, uma, dizem, ex-colaboracionista nazista, da qual as lembranças não são nem um pouco boas. A administração deveria ser compartilhada entre a belga e Jean. Como os sócios não se entenderam, especialmente com a amalucada sócia, Jean e Alzira deixaram o negócio depois de menos de um ano, eliminando uma das derradeiras possibilidades de meu pai exercer uma atividade minimamente rentável por lá.

Não havia dinheiro, as perspectivas eram as piores. Jean continuava a ser o iceberg emocional de sempre, sem cuidar, também, das questões práticas da vida

Foi nesse ambiente, quando minha mãe pensava seriamente em como botar para correr aquele suíço desregulado com o qual se casara, que ela se viu grávida e eu nasci. Não houve festa, não houve regozijo, com exceção talvez de minha avó Cleonice, a eterna otimista, a eterna apaixonada pela vida e pelos vivos. Não havia dinheiro, as perspectivas eram as piores. Jean continuava a ser o iceberg emocional de sempre, sem cuidar, também, das questões práticas da vida.

De onde teriam vindo os traços tão complicados da personalidade de meu pai? Da Guerra na Europa, que ele teve o raro privilégio de, mesmo estando no epicentro, ver e viver apenas de raspão? Da mãe que o abandonou, aliás a explicação predileta dele próprio? De um pai que também não era um modelo de afetividade e presença? Pode ser um pouco de tudo isso junto, mas também pode não ser nada disso, pode ser que nem tudo seja fruto de um meio em desordem, que às vezes os motivos sejam mais frugais e que, nesse caso, tudo tenha tido origem, pura e simplesmente, no acaso, como há muitos outros por aí, de ter surgido ali uma personalidade inadequada e complicada.

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Postado em 06.11.2009 | 15:11 | André Caramuru Aubert
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Ubatuba, fim da decada de 50

Ubatuba, fim da decada de 50

 

Naqueles dias a doutora Alzira Helena, advogada e com um idealismo ainda um pouco adolescente, defendia os caiçaras contra a incipiente, mas inexorável, ocupação das praias por paulistanos ambiciosos e com visão de futuro. O pagamento vinha, em geral, em peixe, banana, farinha de mandioca. E as causas em geral eram postas a perder pelos próprios clientes, saídos de uma sociedade pré-monetária e fascinados por qualquer coisa que o dinheiro pudesse comprar. Assim, posses valiosas de praias como Itamambuca, Toninhas, Tenório, Dura, Fortaleza, eram trocadas por bicicletas, rádios de pilha ou, no melhor dos mundos, por uma casinha no centro. Mas para defender os nativos havia o otimismo irredutível dos jovens que acreditavam que a educação mudaria o mundo, que a verdade traria a justiça. O convívio cotidiano com os caiçaras abriu uma perspectiva completamente nova para minha mãe. Ela, romanticamente e sem quaisquer filtros, incorporou a ideia do bom selvagem, de Rousseau, e caiçaras virou sinônimo de “bom”, e paulistano e outros forasteiros, de “mau”. Os caiçaras ganharam, para ela, o status de sociedade vivendo em harmonia com a natureza, sem grandes desejos materiais, capazes de sobreviver em equilibrio ecológico, sem devastar, e com uma organização social essencialmente democrática e horizontalizada. A realidade, porém, teimava em se sobrepor à ideologia. A cultura caiçara não resistia ao dinheiro novo; era machista e patriarcal; vivia sob constante escassez alimentar, mesmo diante da abundância de peixes e com uma terra razoavelmente fértil, capaz de produzir mandioca, banana, milho, feijão; com amplas áreas que permitiam a criação de galinhas, porcos e outros animais de pequeno porte; com, em último caso, a caça abundante e na época liberada de pequenos animais comestíveis, como gambás, tatus, capivaras e guaiamuns; a fácil coleta de ostras, mariscos, conchas de sapinhauê (vôngole), ouriços do mar e algas, estes dois últimos, aliás, completamente excluídos do cardápio local.

A verdade é que a cultura caiçara não era assim tão tradicional e sólida. O litoral entre o norte de Santos e o sul do Rio de Janeiro, incluindo as cidades de São Sebastião, Ilha Bela, Ubatuba, Paraty e Angra dos Reis, onde viviam sua vida “natural” os caiçaras, foi região rica e desenvolvida até perto do fim da monarquia brasileira, entrando em declínio quando a escravidão foi abolida e o vale do Paraíba cafeeiro, seu gêmeo siamês cultural e econômico, entrou em rápido declínio. Grandes fazendas à beira mar foram abandonadas, as cidades viraram quase fantasmas, famílias inteiras foram tentar a sorte no Oeste Paulista, em Minas, nas capitais de São Paulo ou Rio. Os caiçaras eram descendentes de ex-escravos, colonos ou pequenos proprietários que foram deixados para trás ou não tiveram ânimo para partir. Alguns ficaram para tomar conta das fazendas, “até que as coisas melhorem”, e como as coisas não melhorassem, e os donos não voltassem, acabram por desenvolver uma forma de vida de subsistência, caçando, pescando e plantando mandioca, terminando por obter, em muitos casos, o usucapião de praias e terras. Ora, como o êxodo dos fazendeiros começou por volta de 1870 mas só foi intenso a partir dos últimos anos do século XIX, em 1950 a “cultura caiçara” não tinha mais do que sessenta ou setenta anos. Sob um outro recorte do tempo, no máximo três gerações. Ou seja, um caiçara qualquer, rústico e sábio, que fosse então bem velhinho, encontrado por minha mãe, meu pai ou seus amigos em uma praia selvagem qualquer, teria ele próprio, ou seu pai, no passado, trabalhado, livre ou escravo, numa próspera fazenda de cana ou café, ou numa firma de comércio.



Rancho de canoas em Ubatuba,  porJean Aubert, 1956

Rancho de canoas em Ubatuba, por Jean Aubert, 1956

 

Os nativos seriam as grandes vítimas da rápida marcha do terceiro ciclo de desenvolvimento do litoral, o turístico. Mas apenas em parte a culpa do atropelamento pode ser atribuído aos invasores. Os caiçaras, que tinham outra cultura mas não chegavam a ser índios arredios falantes de uma língua estranha, tiveram tempo e oportunidades para obter vantagens no processo, mas, salvo exceções, não o fizeram. Para Alzira, Jean e seus amigos, porém, eles eram a representação física e atualizada do bom selvagem, puros, ainda não conspurcados pelos vícios da civilização, quase tupinambás, e precisavam ser salvos e preservados da invasão que estava começando. Ilusão romântica, é claro, mas aquela época ainda comportava isso. Como muitas mentes otimistas das décadas de 50 e 60, Jean, Alzira e seus amigos não hesitariam em modificar a realidade se esta não se adaptasse àquilo em que acreditavam. Alguns daquela geração levariam esse tipo de visão de mundo bem longe e acabariam por pegar em armas. Não era o caso do grupo que se encontrava em Ubatuba, na casa de meus pais, em feriados e fins de semana. Eles salvariam os caiçaras, apenas. E por intermédio das, acreditavam, poderosas ferramentas do Direito e da Educação.

“Ainda não me convenci de que posso contar a você tudo o que foi aquele pesadelo, vou pensar, não acho que eu deva"

Os dias de festa na praia, porém, não durariam para sempre. O dinheiro, sempre ele, foi provavelmente o primeiro a produzir atritos. O trabalho de advogada de caiçara não rendia dinheiro quase algum, e Jean, à parte pintar e construir coisas com as mãos (por exemplo, e não foi pouca coisa, a parte nova da casa, na extremidade do terreno oposta à Garagem), nada fazia que rendesse dinheiro. Chegou a trabalhar no posto de saúde, mas os ganhos eram mínimos. Então, como não ganhasse, decidiu poupar. Passou a esconder mantimento das visitas, incluindo aquele eventualmente levado pelas próprias visitas, mesmo minha avó. Os tiques dele se manifestavam mais e a tensão crescia. Ele era autocentrado, moralista e emocionalmente travado. Traços que sugerem ainda uma habilidade sexual, na melhor das hipóteses, sofrível. E tem mais coisa, aí, eu sei, que eu não sei. Interrogo minha mãe mas ela se esquiva, desvia, não fala: “Ainda não me convenci de que posso contar a você tudo o que foi aquele pesadelo, vou pensar, não acho que eu deva...” Ela teima em tentar preservar, para mim, de um modo maternal e ingênuo, a memória de meu pai.

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Postado em 04.11.2009 | 13:11 | André Caramuru Aubert
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arquivo pessoal

Alzira e amigas, Ubatuba

Alzira e amigas, Ubatuba

Jean e Alzira começaram a namorar em fins de 1954 ou começo de 1955. Minha avó não gostou, mas não se opôs abertamente, achou que não duraria. Meu avô, para surpresa (e desgosto, com certeza) de minha mãe, aceitou abertamente o jovem suíço, sem fazer qualquer tipo de oposição. Com o relacionamento se tornando sério, ela percebia que nem tudo era perfeito com ele. Havia rigidez, havia tiques, havia um pão-durismo assustador, especialmente para alguém como ela, que vinha de família quatrocentona de origem rural, em que as mesas eram sempre fartas e as visitas sempre instadas a comer mais, mesmo quando não havia muito a oferecer. É conhecida na família a história de meu tataravô Francisco Rodrigues Barbosa, o Coronel Chico Peroba, líder político do PRP em Itatiba nos primeiros anos da República, que mantinha a porta da frente de casa sempre aberta e a mesa sempre posta, para que cada um que passasse pudesse entrar para comer, prosear, pedir. Peroba, embora não fosse pobre, tinha mais presença física (de onde, aliás, vinha seu apelido) e prestígio do que dinheiro, não tendo sido jamais um dos maiores fazendeiros da região.

Aos poucos, consequência natural das coisas, o namoro de Jean e Alzira virou noivado. Sempre houve dúvida, contudo e, num desses momentos de questionamento, em meados de 1956, Jean decidiu passar uma temporada em Mato Grosso, empregando-se por um ano numa comissão de mapeamento e medição de um trecho de cerca de quinhentos quilômetros do rio Pardo, um afluente do Paraná,  para um possível projeto de hidrovias comerciais. Enquanto Jean se afundava, literalmente quase morrendo na correnteza e no mato, Alzira teve um ano inteiro para se desvencilhar. Mas não o fez. Na volta dele, marcaram o casamento. Por alguma razão inexplicável ela, que não queria ir em frente, ia. Conforme a data fatídica se aproximava, e o casamento ganhava contornos de realidade, ela ia se desesperando. No mínimo, seriam muitas mudanças ao mesmo tempo. Recém formada, ela passaria a trabalhar de verdade, como advogada. Viveria em Ubatuba, que ela frequentava desde adolescente (pois Brenno havia primeiro alugado e depois construído uma casa de praia, e que sempre fora também um dos destinos preferidos para as expedições de acampamento com os amigos franceses do consulado). Mas uma coisa era passar férias e feriados, outra bem diferente era morar num lugar quase selvagem, cheio de cobras, sem vida social, distante pelo menos seis horas de São Paulo, muito longe dos confortos de um lar burguês paulistano. Deixaria de ser filha rebelde e mimada e seria esposa. Esposa, e aí as coisas ficavam bem mais complicadas, de um jovem suíço que era, para os mais otimistas, excêntrico. E para os pessimistas, era maluco mesmo.

Alguns dias antes do casamento, ela teve um arroubo de lucidez e coragem e finalmente decidiu cancelar tudo. Foi falar com Brenno, se abrir, dizer que errara, que precisava consertar as coisas enquanto havia tempo, que o casamento seria um grande, um enorme erro. Mas a reação dele foi a pior possível. Ficou bravo, disse que aquilo não era brincadeira, que era um passo fundamental da vida adulta que ela já havia iniciado, que desistir seria imaturo e irresponsável. E que, finalmente, se algo desse errado, ela sempre poderia contar com ele. O modo como Brenno reagiu foi completamente inesperado por ela, que esperava justamente o oposto. Anos mais tarde, ela julgou compreender o que se passara. Brenno decidira se separar de minha avó  e oficializar a relação que tinha com uma amante, e estava apenas esperando pelo casamento para fazer isso. Um casamento adiado ou cancelado atrapalharia seus planos. Não sei se esse foi o motivo real para a reação dele, mas o fato é que, intimidada, minha mãe decidiu ir em frente. Na véspera, uma sensação de desespero e desamparo, e constantes ataques de choro. No dia do casamento, ela teve outro arroubo de desistência: planejou cair da escada de casa, quebrar o pé e cancelar tudo. De novo, desistiu de desistir e foi em frente.

Foi, pelo que contam, um belo casamento. O ano era 1957, a igreja de São José, no Jardim Europa, signo dos bons casamentos das boas famílias. A família do noivo, de suíços recém chegados ao Brasil, não colocou ali mais do que umas vinte pessoas e devia estar se sentindo completamente perdida. Mas a família e os amigos das famílas de Brenno e Cleonice eram suficientes para lotar a festa. Brenno estava no auge de seu prestígio. Numa época em que o universo judiciário ainda gozava de enorme respeitabilidade no país dos bacharéis, ele acabara de se aposentar do Tribunal de Alçada de São Paulo como o mais jovem desembargador e presidente que a casa já tivera, e suas decisões eram referência e jurisprudência. Abrira junto ao fórum da João Mendes uma banca de advocacia, seu antigo sonho, e já tinha filas de clientes à porta.

Praia do Itaguá, óleo de Jacques Aubert, meu avô, 1962

Praia do Itaguá, óleo de Jacques Aubert, meu avô, 1962

E sim, apesar dos pesares, Ubatuba era um paraíso e, nos primeiros anos, uma festa. Paraíso porque este pedaço de litoral recortado com dezenas de praias dos mais variados formatos, onde a mata vai até a beira de uma mar com infinitos tons de cor, do azul ao cinza, do verde ao lilás, estava inacreditavelmente preservado, por que o acesso por terra era exclusivamente via Taubaté, por uma estrada muito precária, e a imbecilidade desematatória e condominial ainda não tomara conta de tudo. A ocupação turística estava praticamente restrita ao centro urbano, com um ligeiro boom de construções na vizinha praia do Perequê-Açú e na extremidade direita do Centro, depois do Campo de Aviação, hoje rua Guarani; área onde, alguns anos antes, Brenno construíra, de frente para o mar da baía do Itaguá, sua casa de praia. O resto eram praias desertas, ou quase, ocupadas quase que exclusivamente por uns poucos caiçaras, com acesso apenas por mar ou por picadas em meio à mata. Praias hoje lotadas, como Tenório, Praia Grande, Lázaro, Enseada, Itamambuca, Dura, Tabatinga, pareciam, aos que lá chegavam, com o que os portugueses haviam visto quatro séculos

Ubatuba era uma festa porque, antecipando o que gerações posteriores fariam em lugares como Saquarema, Trancoso, Visconde de Mauá, São Tomé das Letras e Gonçalves, Jean e Alzira lotavam a casa, em feriados e fins de semana, de amigos paulistanos loucos por um programa alternativo. Tinha gente dormindo em redes, em sleeping bags, amontoados pelos cantos. Era fim dos anos cinquenta e ainda não circulava a maconha, mas havia caipirinha de limão ou pinga pura mesmo, havia violão e gaita de boca, havia discos de Mozart, jazz, bossa nova, Dorival Caimmy. Por lá passavam pessoas como o futuro dramaturgo Naum Alves de Souza, o cineasta iniciante Luis Sérgio Person, o jornalista e folclorista Luis Ernesto Kawall, a futura jurista Ada Pellegrini, a ex-freira e futura artista plástica Sara de Britto. Iam para lá a irmã bem jovem de minha mãe, tia Stelinha, os também mais jovens meio-irmãos de meu pai, Marc, Nina e Heléne; os primos do interior, Paulo Roberto, Alexandre, Maria do Carmo, Luis Fernando, Luis Horácio. Primos da capital, como Tritão. Os amigos europeus. As amigas brasileiras do tempo da escola. Minha avó ia sempre, e gastava tudo o que podia para abastecer o lar selvagem da filha.

A casa era inicialmente apenas um quarto, um banheiro e uma sala que servia, se fosse o caso, como garagem para carros, na extremidade oeste de um grande terreno de dois mil e quinhentos metros quadrados que ela havia comprado, barato como tudo em Ubatuba, do Janguinho, um caiçara que viveu os últimos anos de vida da venda, pedaço por pedaço, das amplas áreas, entre o Itaguá e o Tenório, que haviam sido de sua família. O terreno, que originalmente não tinha muitas árvores, foi sendo preenchido com alguns abacateiros, laranjeiras, mexeriqueiras, jambeiros, palmeiras, uma lixia e outras árvores das quais não lembro o nome, e acabou comportando até um pequeno galinheiro. Uma das brincadeiras da minha infância era pegar o ovo quase chocado, descascá-lo e fazer o pintinho nascer na mão. Tive mais tarde uma galinha de estimação nascida assim, chamada Titinha, que mataram e comeram, escondidas de mim (Iosa e Rosely), quando eu estava em São Paulo, dizendo que ela tinha fugido. A verdade sobre este crime só foi confessada a mim muitos anos depois. No futuro, a parte original da casa passaria a ser chamada simplesmente de “Garagem”, mesmo que ali, depois dos primeiros anos, jamais um carro tenha sido guardado. Logo foi construído um cômodo único, batizado como “rancho”, no meio do terreno, com paredes de bambu, caibros de troncos de palmeira, telhas coloniais arrumadas em alguma demolição. O rancho imediatamente passou a ser o ponto central dos encontros, e das conversas filosóficas, teológicas, políticas, musicais, praianas. E para aumentar ainda mais o exotismo do lugar, minha mãe ainda arrumou, meio sem querer, uma jaguatirica, a qual, passado o stress herdado da situação de maus tratos em que vivera antes, confinada numa gaiola no Sertão da Quina, passara a conviver (quase) pacificamente com as pessoas por ali.

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Postado em 30.10.2009 | 11:10 | André Caramuru Aubert
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Praia dos Cedros, Ubatuba, 1956, por Jean Aubert

Praia dos Cedros, Ubatuba, 1956, por Jean Aubert

 

Num certo jantar em que um noivado com um destes rapazes brasileiros e adequados seria celebrado, ela começou a levar a sério as ações de revolta: deixou sobre a cama o vestido elegante comprado por minha avó e desceu trajando o macacão jeans e a camiseta sujos que usara a tarde toda enquanto pintava algumas telas a óleo. A partir daí, os atos de rebeldia foram aumentando. Depois, 1954 em diante, na faculdade de Direito, foi a mesma coisa. Uma das poucas mulheres matriculadas na vetusta São Francisco da época, ela exigiu entrar, e entrou, no Centro Acadêmico XI de Agosto, até então área exclusivamente masculina, e passou a usar calças compridas, ao invés de saias, em todas as ocasiões possíveis. Nessa época, quando um dia foi convidada a dirigir o departamento feminino do Centro Acadêmico, perguntou: “E quem vai dirigir o departamento masculino?” Foi nesse período, ainda no primeiro ano de faculdade, que ela decidiu que precisava ter o próprio dinheiro e começou a trabalhar. A irmã de meu avô, tia Lourdes, a escritora e crítica Maria de Lourdes Teixeira, de Raiz Amarga e Rua Augusta, era casada com o também escritor e crítico José Geraldo Vieira, ambos na época, ele ainda mais do que ela, com bastante prestígio no circuito cultural paulista. Ela ainda ganharia dois jabutis e viria a ser a primeira mulher na Academia Paulista de Letras; ele, tradutor de Joyce, Tolstoi, Steinbeck, autor de diversos romances desde a celebrada estréia em 1933 com A Mulher que fugiu de Sodoma (que alguns autores consideram um dos dez melhores romances brasileiros de todos os tempos), entre eles o livro mais vendido de 1950, A Ladeira da Memória, era visto então pela crítica como, ao lado de Jorge Amado e Érico Verissimo, um dos três grandes nomes do romance nacional.  Além disso, respeitado crítico de arte, era um dos principais assessores de Ciccilo Matarazzo nos trabalhos das primeiras edições da Bienal de Arte de São Paulo, desde a inaugural em 1951, a que colocou o Brasil no mapa mundial das artes e trouxe para cá, pela primeira vez, obras de Picasso, Giacometti e Magritte, entre outros. Pois os tios Zé Geraldo e Lourdes usaram seus contatos de grosso calibre e conseguiram para minha mãe, sem dificuldade, o cargo de secretária de Monsier Sylvestre, o adido cultural do Consulado da França em São Paulo. Foi aí que ela começou a ter contato com jovens europeus e com a vida que eles levavam, incluindo viagens de ônibus com mochila e barracas para acampamentos em lugares desertos, coisa que os jovens brasileiros da década de 50 não tinham o hábito de fazer. Nesse meio, com esse grupo, ela conheceu meu pai.


Eles acampavam em praias selvagens, debaixo de goiabeiras ou chapéus de sol junto a casas de caiçaras, discutiam Proust, Sartre, Beauvoir, Truffaut, Saint-Exupery (.afinal, quando era piloto do Correio Áereo, o autor de Voo Noturno fez, ou não fez, pois há diversas versões, um pouso forçado em Ubatuba?”). Minha mãe estava no paraíso. Havia um universo, até então desconhecido para ela, de jovens que gostavam de cultura, se vestiam com simplicidade e amavam a natureza. Jovens que eram completamente diferentes daqueles com os quais ela havia convivido até então, conservadores, provincianos, marcados por uma educação católica/ibérica tão tacanha que parecia muçulmana. Meu pai era um rapaz bonito e, com 1,86m de altura, era alto, esbelto e forte. Atrapalhado, carente, charmoso, podia contar de suas viagens de bicicleta pela Europa, à Itália, Escócia, Holanda, Alemanha e França; das escaladas nos Alpes e de quando se perdeu nos Alpes italianos, quase morrendo de frio e fome; de quando construiu o próprio barco para velejar no Lac Léman; das brincadeiras de criança perto da fronteira suíço-francesa, onde viu ao longo do tempo os soldados franceses sendo substiutuídos pelos alemães e mais tarde pelos americanos. Jean pintava bem, produzindo aquarelas das paisagens litorâneas de Ubatuba, algumas ainda na parede de minha casa, que eram boas sob quaisquer olhares críticos. Podia mostrar os livros escritos ou editados por seu pai na Suíça e contar do parentesco com Edward Lear, o “inventor” do nonsense e guru de Lewis Carroll. Ainda aqui, o tio Zé Geraldo deve ter dado um empurrão involuntário: numa conversa que tiveram certo dia, minha mãe perguntou a ele como fazer para saber se um candidato a namorado era adequado ou não. O tio, com a arrogância que os intelectuais costumam confundir com sabedoria, respondeu: “Leve o rapaz a um museu de arte, deixe-o comentar as obras, e você saberá.” Sim, escolha seu príncipe encantado baseado na bibliografia e nas notas de rodapé que tudo dará certo. e Jean não fazia mesmo feio num museu.


De qualquer forma, dentro desse contexto, não foi difícil para meu pai, em pouco tempo, conquistar o coração de uma moça que estava deslumbrada com tudo aquilo, que por mero sentimento de oposição julgava melhor do que qualquer coisa que dissesse respeito às origens familiares dela. Ela ainda não sabia, adolescente revoltada que era, que o mundo não é preto e branco, é matizado. Nem tudo que vinha da Europa era melhor do que o que havia aqui, algo que ela acabaria descobrindo, apenas um pouco tarde demais. Além de tudo, se relacionar com estrangeiros irritaria, ela pensou, o pai e a mãe. Enfim, os planetas se alinharam e surgiram as condições para que se formasse a tempestade perfeita.

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Postado em 28.10.2009 | 13:10 | André Caramuru Aubert
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Brenno Caramuru com a farda de capitão das forças paulistas de 1932

Brenno Caramuru com a farda de capitão das forças paulistas de 1932


O pai de Alzira, meu avô Brenno Caramuru, foi, para mim, um cara imbatível. Me levava aos jogos do São Paulo, passeava comigo à cavalo na fazenda, contava as histórias da fundação do Tricolor e da construção do Estádio do Morumbi, de quando combateu, patente de capitão, na frente sul da Revolução de 32, capturando dois oficiais da cavalaria paranaense e dias depois sendo atingido por um tiro de fuzil, que entrou pelo rosto e saiu pelo pescoço, que quase o matou; foi o avô que me deu minha primeira moto e depois meu primeiro carro, o inesquecível Jeep 66 azul, quando eu mal tinha completado dezessete anos. Em minha primeira infância ele acabou representando a figura paterna que havia ficado vaga. Mas nem todos tinham a mesma impressão dele. Para talvez a maioria das pessoas, ele nada mais fazia do que meter medo. Tinha um vozeirão denso e uma autoridade natural acentuada por anos como juiz de Direito. Contraditório, era ao mesmo tempo amável e autoritário, liberal e conservador. Não que eu nunca tenha visto o lado assustador dele. Teve por exemplo uma vez em que eu devia ter uns seis anos de idade e havia feito uma das raras visitas à casa de Jean. Lá, ele me ensinara a balançar o pinto depois de fazer xixi, para eliminar as últimas gotinhas. Eu ficara muito orgulhoso daquele saber recém adquirido, que me pareceu uma coisa genuinamente masculina, ensinada por meu pai, o que aumentava muito o valor daquela nova aquisição. Na semana seguinte, eu fui passar o fim de semana em Porto Feliz, na fazenda Chapadão, de Brenno. Numa certa hora, à tarde, surgiu a oportunidade ideal para mostrar minha nova competência. Meu avô estava na sala, lendo, junto com sua terceira mulher, Esmeralda, e eu fui fazer xixi no banheiro que ficava lá no fim da sala, o qual, com a porta aberta, dava direto para a poltrona dele. Fiz o xixi e, quando acabei, narrei, com a voz mais alta possível, o processo de eliminar as gotas balançando o pinto. Do outro extremo da sala, não tardou a vir um trovão. Não me lembro bem do conteúdo, algo como “Que porcaria é esta que você está fazendo aí???!!!” Mas a forma, aterrorizante, tonitroante, paralisante, desta eu me lembrarei para sempre, enquanto tiver um único neurônio ativo em meu cérebro.

Minha mãe foi, pelo pai, incentivada a dirigir cedo, a pular de para-quedas, a viajar sozinha, a não ter medo de nada (na verdade, ela foi, literalmente, proibida de ter medo). Isso tudo, é bom lembrar, na provinciana São Paulo das décadas de 40 e 50. Mas enquanto era incentivada a estudar Direito e a buscar sua independência, era ao mesmo tempo empurrada para um casamento com algum rapaz machista e medíocre de família paulista tradicional, onde estaria destinada a desempenhar o papel coadjuvante de esposa e mãe. Será que meu avô Brenno teria sido menos rigoroso com a filha se ela não fosse a única, se houvesse irmãos homens? Acho bem possível. A única irmã de minha mãe, tia Stellinha, nasceria temporona apenas em 1950, na verdade quando o casamento de Brenno e Cleonice dava os suspiros finais. O fato é que toda a expectativa de meu avô a respeito do que deveria ser um filho homem dirigiu-se para minha mãe, o que de certa forma explica a contradição entre ela ser tratada como filha mulher e feminina, ao mesmo tempo em que recebia os incentivos para ousar e não temer, como só se fazia, então, com filhos do sexo masculino. Tão complicada foi para minha mãe esta relação que, passados muitos anos, este continua a ser o assunto central dela nas sessões de terapia (que vão do complexo de electra a aquele detalhezinho de não poder ter medo, algo que aliás respingou em mim, e que por mais de uma ocasião quase me matou, incluindo certa vez, com uns treze anos, em que fui o único a entrar no mar, para surfar, num dia de ressaca monstro na praia Grande, em Ubatuba. A verdade é que é muito difícil, por mais que se tente proibir, que o medo desapareça; o mais provável é que ele fique apenas meio disfarçado, o que pode ser até mais perigoso). Por outro lado, como a loucura nunca produz seus efeitos numa única direção, junto com essa história de não ter medo, minha mãe não consegue, nunca conseguiu, berrar ou correr.

 

 

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Postado em 22.10.2009 | 12:10 | André Caramuru Aubert
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arquivo pessoal

Praia do Itaguá, Ubatuba, SP, gouache - 1956

Praia do Itaguá, Ubatuba, SP, gouache - 1956

 

 

É assim que termina

 



“Logo enfim vou estar bem morto apesar de tudo.
Talvez mês que vem. Vai ser abril ou maio.
O ano ainda é uma criança, mil sinaizinhos me dizem.”

Samuel Beckett, Malone Morre



Você olha para a parede branca à sua frente, vira a cabeça para o lado direito, olha a porta marrom gasta do armário; agora vira para o lado esquerdo, olha o céu muito azul e a copa da árvore junto à janela, que tem num galho uma maritaca muito verde, mas você não vê a maritaca, apenas ouve. Agora olha de novo para a frente, para a TV (que sempre jurou desprezar) pendurada na parede. Você respira com dificuldade enquanto espera pela fisioterapeuta, e antes dela, o copo de sustagem. Você aumenta o volume da TV para ouvir melhor a Ana Maria Braga, “sua amiga de todas as manhãs”, e deixa de lado os grossos volumes das biografias de Santo Agostinho e Carlos Magno, que jamais acabará de ler. Você tem a alma transtornada e reclama que não gosta de suco de uva. Reclama das enfermeiras, do purê de batatas. Você morre de medo de sua segunda mulher, e o maior pavor que tem, depois da morte, é claro, é que ela venha fazer-lhe uma visita. Você outro dia mesmo sonhou que ela o levava embora, lembra? Embora para aquele sítio no Embu-Guaçú que é um verdadeiro hospício, com os mais ou menos cem cachorros que dividiam a casa com você. Nossa, aquilo foi um pesadelo e tanto, não é mesmo? Você não quer morrer mas começa a desconfiar que não está melhorando e que talvez não se recupere mais, mas faz com que essa idéia passe rápido por sua cabeça, a Ana Maria Braga ajuda nisso. Você tem muitos segredos e uma alma atormentada.

Passa o dia, à noite eu volto para casa e me despeço. Vou viajar. Vou surfar, vou me lembrar que sou, também, marido e pai. Você ficará com as enfermeiras vinte e quatro horas por dia e provavelmente sua filha virá visitá-lo. Você olha para mim e suas últimas palavras, balbuciadas sob a dificuldade respiratória, são: “Não me abandone aqui sozinho”. Fico com raiva, quero berrar que o pai que você foi não lhe dá o direito de me dizer isso, e que ficar em casa com o cheiro de urina, doença e morte que você trouxe é uma tortura, mas me controlo e respondo, sereno, que você não está abandonado, que terá companhia o tempo todo, e que domingo à noite estarei de volta. Eu não sabia, mas quase desconfiei, não nos veríamos mais. Na segunda-feira, logo cedo, tenho uns minutos a sós com você, no morgue do Hospital São Luiz, até que chegue o serviço de remoção de corpos da prefeitura. Um pano amarrado no alto da cabeça segura seu maxilar, você está azulado, você não está bonito, a morte não é bonita. Ali eu penso na nossa história e me despeço. Eu não me despedi no velório, eu me despedi ali, no frio solitário do morgue no segundo subsolo do hospital. Eu estou, sim, triste. A morte é definitiva. Na lembrança mais antiga que tenho com você, eu estou na Vespa prateada, de pé, preso entre suas pernas, segurando o guidão, olhando o velocímetro quebrado à minha frente, e você dirige, devagar, saindo da praia onde nasci e morávamos, em direção à cidade de Ubatuba. Eu não tinha muito mais que três anos, e pouco tempo depois desse dia você e minha mãe se separaram e você voltou para São Paulo. A partir daí, sua figura paterna seria para mim uma quase permanente ausência.

Você morreu às 5:30 da manhã do dia 9 de fevereiro de 2009, no hospital, embora tenha estado em casa até tarde da noite do dia anterior. Depois da infância em Ubatuba, os três meses em que viveu em nossa casa, sofrendo com a fibrose pulmonar terminal, foi o tempo de convívio contínuo mais longo que tivemos. Foi um dos períodos mais difíceis que atravessei, que vejo agora como uma densa, escura e turbulenta nuvem. Você foi ausente por mais de quarenta anos e agora exigia purê de batatas, atenção, amor? Depois daquela conversa em que você pediu perdão pelo pai que foi, e eu perdoei, ambos fingindo ser sinceros, aconteceria, quem sabe, um milagre? Você seria capaz de deixar o egoísmo de lado e olharia para os filhos, para os netos, para as pessoas em volta? Você conseguiria, além de exigir tudo para si, doar-se um pouco, apesar da doença? Você e eu, no fundo, sempre soubemos que não. Você tinha uma alma muito, muito atormentada. E se antes havia pelo menos a casca de um homem alto, culto, desajeitado e com algum charme, agora a doença fizera apodrecer a casca. Nos últimos dias havia apenas o céu muito azul com a maritaca na janela, a Ana Maria Braga, o cheiro de urina, doença e morte. É assim que termina.

 

 

Capítulo 1

 




“. And hand in hand, on the edge of the sand,
They danced by the light of the moon,
The moon,
The moon,
They danced by the light of the moon.”


Edward Lear, The Owl and the Pussycat

 

arquivo pessoal

Jean, Alzira e André, Ubatuba

Jean, Alzira e André em Ubatuba, começo de 1962

Embora Alzira, minha mãe, tenha se esforçado para que isso jamais transparecesse, embora ela sempre tenha me tratado com um enorme carinho, tentando fazer com que eu me sentisse a pessoa mais especial do mundo, a verdade é que a gravidez que me gerou não foi apenas acidental. Foi, para ela, uma verdadeira tragédia. Ela estava numa enrascada. Na época em que engravidou, ela já não suportava meu pai e estava buscando desesperadamente a saída de emergência do casamento no qual tinha, boba e infantilmente, embarcado alguns anos antes. Ela já estava alérgica a Jean, meu pai, havia algum tempo, mas sentia pena dele, da carência dele, com um sentimento de culpa e de obrigação para com os outros (algo que é atávico nela, e que a atrapalharia muito, vida afora), e acabava postergando um desfecho que era inevitável. De adiamento em adiamento, eles acabaram, sem querer, concebendo o bebê que viria a ser eu; afinal de contas eles estavam casados e, bem ou mal, muito provavelmente mais mal do que bem, devia haver algum sexo de vez em quando. Quando soube que estava grávida, minha mãe chorou, chorou e chorou. As coisas tomavam agora um outro rumo, e ela subitamente se deu conta de que perdera para sempre a liberdade de ir e vir, de fazer e desfazer, de viver sem consequências. Não sei se ela pensou ou não em abortar; essa ideia, polêmica e complicada hoje, o era muito mais no início dos anos sessenta. O fato é que estou aqui. As coisas em Ubatuba ficaram, subitamente, muito mais difíceis. Ela estava casada, percebia cada dia mais claramente, com um estranho. O dinheiro era curto, ela não gostava de pedir ajuda a meu avô e Jean, entre outros senões, contribuía em quase nada para o orçamento doméstico.

Por que ela se casou com Jean? Quando pequeno, ela me dizia que havia se apaixonado por aspectos dele, como o gosto pelas artes plásticas, pela música, pela literatura, pela vida ligada à natureza, além de ter sido atraída por ser ele, como ela, pouco adequado às demandas burguesas por dinheiro, sucesso profissional, roupas, convenções. E que depois, com o passar do tempo, ela percebera que isso não era suficiente, que as idiossincrasias dele, o egoísmo, o profundo pão-durismo, a rigidez, acabavam por ocupar todo o espaço. Ela era um pouco hippie antes do tempo e achou que ele também era, mas ele estava mais, na verdade, para um filocalvinista neurótico perdido nos trópicos. Um dia, há uns dez anos, dando carona até Guararema para tia Yolanda, ela me disse que minha mãe só havia se casado com Jean para provocar meu avô. Tia Yolanda, na verdade prima-irmã de minha avó materna, era, além de uma das pessoas mais engraçadas do mundo (especialista em criar frases com duplo sentido, as quais adorava dizer com a cara mais séria do mundo, para confundir o interlocutor, qualquer que fosse este), e impagável imitadora da Inezita Barroso, era muito, muito, inteligente e aguda. Se tia Yolanda tinha aquela opinião, aquela opinião tinha peso. Mais recentemente, apertei minha mãe de novo. “Você se casou com Jean para fazer birra com seu pai, não foi?” Ela então confessou que, embora aquelas outras razões tenham existido, a principal foi esta mesmo.

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