Mas a paz não duraria muito, para o mundo e para ele. As tensões políticas que se acumulavam na Europa desde havia alguns anos, com a ascensão dos nazistas ao poder na Alemanha em 1933, desembocaram na invasão da Polônia em setembro de 1939 e no início da Guerra. A Inglaterra, envolvida desde o primeiro momento, passou a ser alvo quase imediato dos bombardeios aéreos alemães. Londres e as maiores cidades britânicas viveriam um permanente pesadelo de bombas até o fim do conflito, mas especialmente entre julho e outubro de 1940, na chamada Batalha da Inglaterra, quando os alemães despejaram todo o poderio aéreo que possuíam contra as ilhas britânicas. Os alemães tentavam destruir a moral e as defesas inglesas para preparar o desembarque e a invasão, o que no fim das contas não conseguiram, naquela que foi a primeira derrota alemã na Guerra, embora não tenha parecido, então, decisiva. Desde o início, diante da iminência dos ataques, a orientação das autoridades britânicas era para que as crianças fossem retiradas das cidades grandes, os alvos primários, e enviadas para fazendas ou vilarejos rurais. Num enorme êxodo infantil, milhares de crianças partiram para casas de parentes ou dos inúmeros voluntários no campo que se ofereceram para hospedar as crianças que não tivessem família em lugares distantes. Para Johnny, havia uma solução aparentemente melhor, que era enviá-lo à Suíça, neutra no conflito e teoricamente a salvo das bombas alemãs, para a casa de seu avô paterno (já que o pai, Jacques, ainda estava em Paris).
Nantes, 1948, óleo de Jean Aubert
Então, sem perder tempo, minha avó pegou um avião com Johnny até o sul da França, alugou um carro e dirigiu até Genebra. Lá, procurou o dr. Louis Henry Gustave Aubert, o ex-sogro dela, meu bisavô, o mesmo médico obstetra pão duro e conservador empedernido que pusera o filho para fora de casa na volta do serviço militar. Para piorar, casado pela segunda vez, o velho só tinha olhos para a nova mulher, uma russa emigrada fugida da Revolução Bolchevique. Ela, por sua vez, parece que, entre outros defeitos, e sabe-se lá se por ciúme ou por fetiche mesmo, ficava espiando pelo buraco da fechadura as consultas ginecológicas realizadas pelo marido. E, chegando naquele ambiente tenso e quase abertamente hostil, Margaret falou a Johnny que ele iria conhecer o avô, o avô suíço, que ele não conhecia, que isso seria bom. Ela então avisou que iria resolver algumas coisas na rua e que voltaria logo, deixando o garoto com o avô, que não o queria mas não teve escolha, mas que certamente não há de ter sido caloroso ao recepcionar o neto. E nunca mais. Margaret não preparou o filho, não se despediu. Dali ela pegou o carro, rumou de volta para o sul da França, para o aeroporto, o avião, e Londres. Johnny não a veria mais. Ficaria, para ele, a marca do abandono, uma enorme carência, uma trava emocional sem tamanho. Meu pai seria, vida afora, uma pessoa extremamente centrada e sem a menor capacidade de se dar, de olhar o outro, de ler ambientes estranhos, de conviver socialmente de forma adequada. Um inadequado que, ao longo da vida, em muitas ocasiões se via como um Cary Grant, enquanto se portava como, e parecia, o Monsieur Hulot de Jacques Tatit. A questão que permaneceu sem resposta, contudo, é se este fato teve o poder de realmente causar tantos danos, ou se já havia algo anterior nele, na personalidade, que o teria feito um adulto problemático de qualquer maneira. Ele botou a culpa nesse evento para todos os problemas que ele teve depois. Sem querer minimizar o sofrimento do pequeno Johnny, será que o Grande Abandono não acabou sendo, de certa forma, a Grande Desculpa?
Minha avó participaria ativamente da Guerra, como enfermeira voluntária da Cruz Vermelha, primeiro na Inglaterra e, depois da invasão aliada, possivelmente no continente. O pai dela, o reverendo Finch, morreria em 5 de maio de 1941. Uma pesquisa acabou me levando ao anúncio de sua morte, para efeitos legais de inventário, na London Gazette de 17 de outubro daquele mesmo ano. Causas naturais? Bombardeio? Não sei. O que se pode dizer é que o dia 5 de maio de 1941 foi mais um dia que a Inglaterra foi pesadamente castigada por bombas alemãs, e há o registro neste mesmo dia, por exemplo, da destruição da igreja de St. Luke, em Liverpool. Por outro lado, embora o bairro em que se encontrava tenha sido bastante castigado, a casa paroquial de Mitcham, onde meu bisavô vivia, sobreviveu e está de pé até hoje (embora com outro uso). Mas a casa estar de pé não quer dizer que as bombas não o tenham matado, pois ninguém ficava em casa durante os bombardeios, e boa parte das pessoas foi morta quando estava supostamente em segurança, dentro dos abrigos antiaéreos.
Henry Ormond com o uniforme do Exército Canadense
Margaret permaneceria como uma sombra abstrata para Jean durante toda a sua vida. Logo que terminou a Guerra ela se casaria com Henry Ormond, morrendo poucos anos anos depois, provavelmente em 1948. Jean não chegou a conhecer este segundo marido de sua mãe, uma figura sem dúvida interessante. Nascido alemão e judeu em 1901 com o nome de Hans Oettinger, era juiz em Manheim na década de 30 e foi afastado do cargo com a ascensão dos nazistas ao poder. Perseguido, fugiu para a Inglaterra via Suíça e, após alguns contratempos, como a suprema ironia de ter que passar um período num campo britânico para prisioneiros alemães, foi libertado, adquiriu cidadania britânica, mudou seu nome para Henry Ormond e juntou-se às forças canadenses, ainda a tempo de participar da invasão aliada à Alemanha. Terminada a guerra, deu baixa no exército e permaneceu na Alemanha, onde se tornou um advogado famoso por seu trabalho nos julgamentos de crimes de guerra nazistas e, posteriormente, de localizar e devolver a famílas judias bens confiscados pelo regime hitlerista. Mas Jean pouco sabia dessa história toda até que, em fins de 1961, os céus mandaram uma surpresa. A barriga de minha mãe já estava enorme, e ela, entre outros desesperos, não tinha nenhum dinheiro para pagar o parto. Eis que chega uma carta de um banco da Alemanha, que passara meses errando por prédios de correios latino americanos, pois fora endereçada a “Praia do Tenório, Ubatuba, Buenos Aires”. Em resumo, alguns anos após a morte de Margaret, o viúvo dr. Ormond conseguira colocar ordem nos poucos bens dela, transformara em dinheiro e enviara ao único filho, Jean, residente naquela cidade de praia de Buenos Aires. Assim, nesse momento, esta minha avó de certa forma apareceu, e ajudou. Mas assim mesmo continuava uma desconhecida.
Até que, em algum momento da década de 80, Thomas Ormond, filho de Henry, “apareceu”. Depois de muita pesquisa, naqueles remotos tempos pré-google, conseguiu localizar Jean já vivendo em Embu-Guaçú. O que houve é que Thomas organizava os arquivos do pai, morto em 1977, quando encontrou uma série de documentos pertencentes a Margaret (que ele, nascido depois da morte dela, não chegou a conhecer). Havia fotos, diários, poemas (incluindo os transcritos acima), agendas com nomes de oficiais e pilotos da RAF da época da Guerra, desenhos e algumas menções ao filho Johnny. Ele escreveu a Jean perguntando se ele gostaria de receber aqueles papéis e, diante da resposta afirmativa, passou a enviar, em intervalos mais ou menos regulares de tempo, pacotes com todos os papéis que ia encontrando. Foi só então que Jean passou a conhecer um pouco mais a respeito de sua mãe. Como era, como escrevia, como desenhava, com quem se relacionava. Mas, como numa obra de ficção mal construída, não dava para saber quem eram, como eram, que papel tiveram, aqueles amigos todos presentes nas agendas. Não dava para saber que timbre de voz ela tinha, como ficava quando sorria, gargalhava, chorava. Ela permaneceria até o fim, para Jean, uma sombra, mas agora, pelo menos, uma sombra com um pouco mais de nitidez e contorno.
A história da relação de Margaret com ele foi, para meu pai, a história do Grande Abandono. Ela o deixou com o avô paterno em Genebra e nunca mais o procurou. Houve a Guerra, é verdade, mas a Guerra não durou para sempre, a Suíça nunca foi invadida e as comunicações entre Genebra e Londres, embora prejudicadas como tudo o mais no período, jamais foram totalmente interrompidas. É verdade também que ela morreu poucos anos depois de terminado o conflito. Mas teve tempo de conhecer, namorar e se casar com Henry. Teve tempo de deixar a Cruz Vermelha e se mudar com o novo marido para a Alemanha. Mas não teve tempo? para procurar o único filho, o garotinho que deixara em Genebra com apenas oito anos, em 1939? e que era agora um adolescente? Não podemos ouvir o lado dela na história, mas não há, em princípio, motivos parta desculpá-la. Por outro lado, essa rejeição dela não parece suficiente, como queria meu pai, para explicar e justificar seus desvios emocionais e sua propensão para, ele próprio, por sua vez, abandonar os filhos. A Guerra, como todas as guerras, esteve repleta de histórias de famílias separadas, massacradas, destroçadas. Mas dentre as milhões de famílias marcadas por histórias de tragédias saíram pessoas de todos os jeitos, inclusive amorosas, carinhosas, bons pais e mães, bons avós, ainda que fossem obrigados a carregar, para sempre, suas marcas e cicatrizes.
































