Holanda, 1949, oleo sobre cartao de Jean Aubert
Os dias se arrastaram. No dia 31, fizemos um brinde com meu pai lá pelas 8 e meia da noite, ele até tomou um gole de cerveja preta, falamos com as crianças pelo telefone e às dez e pouco já estávamos, no muquifo, dormindo, ou pelo menos tentando.
Pai, você não estava planejando morrer, nem um pouquinho. Você estava pensando em viver bastante, e nossa casa estava, dentro do contexto, até que bem gostosinha, não é? Você de fato, eu penso, morreu antes do que poderia. Claro, a sua doença o mataria, era questão de tempo. Mas, por incrível que pareça, você parecia não acreditar nisso. Aí, nas suas micro-crises, tanto insistiu que chamamos uma nova médica, a dra. Olga, competente, atenciosa, indicada pela B. Ela fez um exame clínico completo e, no final, tentou animá-lo: “sr. Jean, o senhor não tem nada. Para seu quadro, o senhor está ótimo!” “Mas quando eu vou ficarr normal?” “Ora, sr. Jean, dentro do seu quadro, que o senhor sabe, é grave, sua situação é excelente”. Foi nesse momento, paradoxalmente, eu penso, que você se entregou, e começou a morrer. Você percebeu que aquele estado, em que estava, e considerava péssimo, era o ponto alto, a melhor situação possível para a sua realidade futura. “Entón eu non vai melhorar?” “Claro que pode melhorar, sr. Jean. Vai poder andar um pouquinho, do quarto até o banheiro, até o quarto do seu neto...” É, estava dito ali, nas entrelinhas, que nem mesmo descer as escadas você iria. “Eu non vai voltarr a ter um vida normal?” Caiu a ficha. Não tinha volta e você entendeu. Ali, naquela hora, naquele diálogo. Conflito de expectativas. A médica, otimista, achando que o animava. E você, percebendo que o ânimo dela era para uma possibilidade que, para você, significava Morte. Não mais andar, não mais pintar, não mais comprar escondido livros na Livraria Cultura. Não mais, nem mesmo, descer as escadas e se deixar ficar na sala, à toa, lá embaixo. Era o fim mesmo, e você se deu conta. A realidade era aquela ali, era defecar na cama, era ser mesmo tratado como velho senil (e não como Homem) pelas enfermeiras, era morrer. Era o fim, mesmo. Você estava acabando e, pela primeira vez, enxergou isso com clareza.
O fato é que você piorou muito depois da visita da dra. Olga. Começou a entregar os pontos. Isso não deve ser confundido, sejamos honestos, com as crises que você inventava, e que davam muito trabalho. Você fazia aquele banzé todo, fazia chamar a ambulância, o povo todo queria interná-lo no hospital, e só a Clélia e eu resistíamos. Até porque os médicos tinham sido claros: naquele seu quadro, se entrasse no hospital, não saía. Chegamos a dizer isso a você. Com todas as letras. Assim: “Pai, se você for para o hospital, você não sai mais. Você tem certeza de que quer ir? Não é melhor resistir aqui, esperar melhorar?” Depois a Clélia fez um acordo com você, para acalmá-lo, dizendo que, se o nível do O2 baixasse de um certo ponto, a gente internaria você, e isso o deixou mais tranquilo. Mas o pessoal das ambulâncias, lembra? era sempre doido pra internar. Talvez porque fosse o trabalho deles. Saem correndo, vão de sirene ligada, atendem a uma emergência e, na hora H, a família não quer deixar levar o paciente? Eles faziam uma pressão enorme na gente. Diziam que se você morresse em casa a coisa seria muito pior, que teríamos uma burocracia enorme pela frente, com autopsia e tudo. Nos obrigavam a assinar documentos, nos ameaçavam. Mas nós segurávamos, pois sabíamos que o hospital seria o fim. E, por mais difícil que estivesse nossa vida, nós adiaríamos seu fim tanto quanto fosse possível.
Alguma coisa definitiva estava para acontecer com você. Não haveria, e agora era mesmo para sempre, Paris, Londres, Genebra, São Paulo. Mato Grosso, Paraty, Ubatuba. Você me carregando na Vespa, me empurrando no caminhãozinho de madeira que construiu para mim, chutando para longe, e eu corria atrás, aquela bola de plástico colorida no caminho da praia do Tenório. Sumiriam para sempre as lembranças do seu avô Charles Finch e dos duendes no jardim da ampla casa paroquial londrina. Da sua mãe. Do seu tio inglês, no telhado, olhando ao longe, enquanto o abraçava firme junto a ele, o incêndio do Palácio de Cristal. Virariam nada as imagens do mesquinho e anti-semita avô suíço. Do seu pai, de Donana, dos irmãos, das viagens pela Europa de bicicleta, dos acampamentos nos Alpes, da travessia do Atlântico em um vapor. De ser marido, pai, avô. Dos livros, das biografias de Carlos Magno e Santo Agostinho, de leitura jamais terminada, na cabeceira da cama, empilhados em meio àquela bagunça dos enfermos, entre lenços de papel, óculos de leitura e copo de água. Não mais o som da música e a visão das telas e das esculturas. Não haveria mais manhãs e tardes, as horas passando, os meses chegando e indo embora.
No começo de fevereiro, decidimos passar um fim de semana em Ubatuba. Você estava ótimo, na sexta-feira, e a Joana D’Arc foi convocada. Foi antes de viajarmos, quando fui me despedir, que você me dirigiu a última frase: “Volta logo. Non me deixa aqui sozinho” Caramba, como aquilo me irritou. Eu me controlei e respondi, calmo, que voltaria logo. Mas desci a escada bufando. Afinal, você não iria ficar sozinho, teria as enfermeiras Meire e Silvania, de dia, a Joana D’Arc à noite, sem falar nas empregadas, a Li em tempo integral, inclusive dormindo em casa, e a Vilma, que passaria o sábado trabalhando. E a B. seguramente iria visitá-lo, talvez no sábado e no domingo, mas com certeza em pelo menos um dos dois dias.
Roma, Forum Romano, 1950, oleo de Jean Aubert
Não tinha muita gente no velório, nenhum amigo seu, com as exceções do generoso e fiel Louis Arnoux e da Nicole, amiga lá de trás, dos tempos dos acampamentos nas praias de Ubatuba com a turma francesa do consulado, e que você não via há anos. Marie esteve lá, atormentada, temendo ser mal recebida, temendo por um futuro incerto, levada por uma amiga de aparência pós-hippie de Embu-Guaçu. Marc, em Olinda, não tinha como vir. Estiveram ali parentes meus do lado da minha mãe, da Clélia e do marido de B; alguns amigos, os colegas de trabalho de B. Você foi velado na segunda-feira a partir do meio-dia, no Araçá, as coroas de flores de praxe, que mandamos preparar; e cremado no fim da tarde, ao som da Gymnopedie nº 1, de Satie, na Vila Alpina, uma cerimônia meio trágica, meio cômica, quando o tempo por vezes se arrastava, quase parava, e por vezes parecia estar voando (é curioso como, na cremação, queima-se tudo junto, o caixão, o morto, as roupas, embora eles retirem, é claro, as partes metálicas, como as alças do caixão, pontes e obturações; então as cinzas, que se você quiser pode buscar depois de dois dias, ou se não quiser, eles lançam no gramado do cemitério, não são do morto, ou apenas do morto, mas dele e de todo o invólucro que é queimado com ele).





