Revista Trip

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Postado em 08.04.2010 | 11:04 | André Caramuru Aubert
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Holanda, 1949, oleo sobre cartao de Jean Aubert

Holanda, 1949, oleo sobre cartao de Jean Aubert


Os dias se arrastaram. No dia 31, fizemos um brinde com meu pai lá pelas 8 e meia da noite, ele até tomou um gole de cerveja preta, falamos com as crianças pelo telefone e às dez e pouco já estávamos, no muquifo, dormindo, ou pelo menos tentando.

Pai, você não estava planejando morrer, nem um pouquinho. Você estava pensando em viver bastante, e nossa casa estava, dentro do contexto, até que bem gostosinha, não é? Você de fato, eu penso, morreu antes do que poderia. Claro, a sua doença o mataria, era questão de tempo. Mas, por incrível que pareça, você parecia não acreditar nisso. Aí, nas suas micro-crises, tanto insistiu que chamamos uma nova médica, a dra. Olga, competente, atenciosa, indicada pela B. Ela fez um exame clínico completo e, no final, tentou animá-lo: “sr. Jean, o senhor não tem nada. Para seu quadro, o senhor está ótimo!” “Mas quando eu vou ficarr normal?” “Ora, sr. Jean, dentro do seu quadro, que o senhor sabe, é grave, sua situação é excelente”. Foi nesse momento, paradoxalmente, eu penso, que você se entregou, e começou a morrer. Você percebeu que aquele estado, em que estava, e considerava péssimo, era o ponto alto, a melhor situação possível para a sua realidade futura. “Entón eu non vai melhorar?” “Claro que pode melhorar, sr. Jean. Vai poder andar um pouquinho, do quarto até o banheiro, até o quarto do seu neto...” É, estava dito ali, nas entrelinhas, que nem mesmo descer as escadas você iria. “Eu non vai voltarr a ter um vida normal?” Caiu a ficha. Não tinha volta e você entendeu. Ali, naquela hora, naquele diálogo. Conflito de expectativas. A médica, otimista, achando que o animava. E você, percebendo que o ânimo dela era para uma possibilidade que, para você, significava Morte. Não mais andar, não mais pintar, não mais comprar escondido livros na Livraria Cultura. Não mais, nem mesmo, descer as escadas e se deixar ficar na sala, à toa, lá embaixo. Era o fim mesmo, e você se deu conta. A realidade era aquela ali, era defecar na cama, era ser mesmo tratado como velho senil (e não como Homem) pelas enfermeiras, era morrer. Era o fim, mesmo. Você estava acabando e, pela primeira vez, enxergou isso com clareza.

O fato é que você piorou muito depois da visita da dra. Olga. Começou a entregar os pontos. Isso não deve ser confundido, sejamos honestos, com as crises que você inventava, e que davam muito trabalho. Você fazia aquele banzé todo, fazia chamar a ambulância, o povo todo queria interná-lo no hospital, e só a Clélia e eu resistíamos. Até porque os médicos tinham sido claros: naquele seu quadro, se entrasse no hospital, não saía. Chegamos a dizer isso a você. Com todas as letras. Assim: “Pai, se você for para o hospital, você não sai mais. Você tem certeza de que quer ir? Não é melhor resistir aqui, esperar melhorar?” Depois a Clélia fez um acordo com você, para acalmá-lo, dizendo que, se o nível do O2 baixasse de um certo ponto, a gente internaria você, e isso o deixou mais tranquilo. Mas o pessoal das ambulâncias, lembra? era sempre doido pra internar. Talvez porque fosse o trabalho deles. Saem correndo, vão de sirene ligada, atendem a uma emergência e, na hora H, a família não quer deixar levar o paciente? Eles faziam uma pressão enorme na gente. Diziam que se você morresse em casa a coisa seria muito pior, que teríamos uma burocracia enorme pela frente, com autopsia e tudo. Nos obrigavam a assinar documentos, nos ameaçavam. Mas nós segurávamos, pois sabíamos que o hospital seria o fim. E, por mais difícil que estivesse nossa vida, nós adiaríamos seu fim tanto quanto fosse possível.

Alguma coisa definitiva estava para acontecer com você. Não haveria, e agora era mesmo para sempre, Paris, Londres, Genebra, São Paulo. Mato Grosso, Paraty, Ubatuba. Você me carregando na Vespa, me empurrando no caminhãozinho de madeira que construiu para mim, chutando para longe, e eu corria atrás, aquela bola de plástico colorida no caminho da praia do Tenório. Sumiriam para sempre as lembranças do seu avô Charles Finch e dos duendes no jardim da ampla casa paroquial londrina. Da sua mãe. Do seu tio inglês, no telhado, olhando ao longe, enquanto o abraçava firme junto a ele, o incêndio do Palácio de Cristal. Virariam nada as imagens do mesquinho e anti-semita avô suíço. Do seu pai, de Donana, dos irmãos, das viagens pela Europa de bicicleta, dos acampamentos nos Alpes, da travessia do Atlântico em um vapor. De ser marido, pai, avô. Dos livros, das biografias de Carlos Magno e Santo Agostinho, de leitura jamais terminada, na cabeceira da cama, empilhados em meio àquela bagunça dos enfermos, entre lenços de papel, óculos de leitura e copo de água. Não mais o som da música e a visão das telas e das esculturas. Não haveria mais manhãs e tardes, as horas passando, os meses chegando e indo embora.

No começo de fevereiro, decidimos passar um fim de semana em Ubatuba. Você estava ótimo, na sexta-feira, e a Joana D’Arc foi convocada. Foi antes de viajarmos, quando fui me despedir, que você me dirigiu a última frase: “Volta logo. Non me deixa aqui sozinho” Caramba, como aquilo me irritou. Eu me controlei e respondi, calmo, que voltaria logo. Mas desci a escada bufando. Afinal, você não iria ficar sozinho, teria as enfermeiras Meire e Silvania, de dia, a Joana D’Arc à noite, sem falar nas empregadas, a Li em tempo integral, inclusive dormindo em casa, e a Vilma, que passaria o sábado trabalhando. E a B. seguramente iria visitá-lo, talvez no sábado e no domingo, mas com certeza em pelo menos um dos dois dias.

Roma, Forum Romano, 1950, oleo de Jean Aubert

Roma, Forum Romano, 1950, oleo de Jean Aubert

Viajamos. Você revoltado, daquela sua revoltazinha que eu já conhecia bem, e decidiu dar uma das suas. Não no sábado, quando quem estava era a enfermeira Meire, mais experiente, que não caía nas suas histórias. E de fato, quando liguei de Ubatuba e falei com ela, estava tudo na mais perfeita ordem. Você, esperto, esperou o domingo, que teria a Silvania, um pouco mais propensa às suas manhas. E aí você aprontou mesmo. Fez chamar a B., fez chamar a ambulância. E, claro, ficou todo mundo assustado. Eu não estava lá, nem a Clélia, estávamos, nessa hora, na estrada. B. me ligou no celular, assustada, estávamos entre a Tabatinga e o Sapé: “Interna ou não interna?” Era difícil dar opinião assim de longe, mas falei que, em princípio, não devia, era besteira internar. Que já haviam ocorrido outras crises, que a pressão para internar era sempre grande, mas que no fim as coisas acabavam melhorando. E, lembrei, todos os médicos tinham sido, todas as vezes, unânimes: se internasse, não saía. Optaram por internar, pelo que soube, com enfática concordância sua. Difícil ter certeza de algo, estávamos a duzentos quilômetros de distância. Foi então, no domingo à noite, que você desceu (carregado) a escada de casa pela última vez.

Não tinha muita gente no velório, nenhum amigo seu, com as exceções do generoso e fiel Louis Arnoux e da Nicole, amiga lá de trás, dos tempos dos acampamentos nas praias de Ubatuba com a turma francesa do consulado, e que você não via há anos. Marie esteve lá, atormentada, temendo ser mal recebida, temendo por um futuro incerto, levada por uma amiga de aparência pós-hippie de Embu-Guaçu. Marc, em Olinda, não tinha como vir. Estiveram ali parentes meus do lado da minha mãe, da Clélia e do marido de B; alguns amigos, os colegas de trabalho de B. Você foi velado na segunda-feira a partir do meio-dia, no Araçá, as coroas de flores de praxe, que mandamos preparar; e cremado no fim da tarde, ao som da Gymnopedie nº 1, de Satie, na Vila Alpina, uma cerimônia meio trágica, meio cômica, quando o tempo por vezes se arrastava, quase parava, e por vezes parecia estar voando (é curioso como, na cremação, queima-se tudo junto, o caixão, o morto, as roupas, embora eles retirem, é claro, as partes metálicas, como as alças do caixão, pontes e obturações; então as cinzas, que se você quiser pode buscar depois de dois dias, ou se não quiser, eles lançam no gramado do cemitério, não são do morto, ou apenas do morto, mas dele e de todo o invólucro que é queimado com ele).

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Postado em 06.04.2010 | 13:04 | André Caramuru Aubert
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Edinburgo, 1949, oleo de Jean Aubert

Edinburgo, 1949, oleo de Jean Aubert

Pai, o mais curioso é que você, de repente, ficou totalmente à vontade. O que, não me entenda mal, em um certo sentido era o que desejávamos. Mas não da maneira como ocorreu, pois você se tornou O Senhor dos Seus Direitos e do Dever Nenhum. Era como se tudo o que todos estavam fazendo fosse algo perfeitamente natural, obrigação nossa, sagrada, obrigação de cada um de nós. De repente, no meio do dia, na rua, tocava o celular: era uma das enfermeiras, dizendo que tinha acabado o isso, o aquilo, o aquilo outro. Então, na sequência, uma entrada numa farmácia, e uma conta de trezentos, quinhentos, seiscentos reais. Chegava em casa, entrava no quarto, entregava os remédios, você não agradecia, nem mesmo olhava, se fazia de morto. Isso, também, começou a me fazer mal. Você fingia que dinheiro não era problema, que você não tinha nada a ver com isso. Eu então tentei falar com você. Eu disse: “Pai, eu o acolhi em casa, eu cedi meu quarto, eu não estou cobrando nada, você vai ficar aqui por quanto tempo quiser, o quanto precisar. Mas, por favor, as coisas que você já pagava, os remédios, é justo que continue pagando. Eu não posso, a B. não pode, nós não podemos arcar com mais estas despesas.” “Mas eu non tem dinheirro”. “Como, não tem? Você tem a aposentadoria da Suíça, você já comprava os remédios antes, porque não pode comprar agora?” “Eu non terr, eu deixou o talón de cheques com Marie”.

[O que acontecia, na verdade, é que meu pai, de novo, queria seguir pela sombra, fugindo de problemas e conflitos. Se saísse de sua casa deixando o dinheiro todo lá, ele, dissimulado por trás da aparência moribunda, pensava: Marie ficaria mais calma, e o deixaria sossegado. Ele olhava em volta e, feliz, concluía: tudo estava dando certo, as coisas estavam acontecendo. A comida chegava quentinha, saudável, na hora certa; os remédios eram ministrados nas doses corretas, sem surpresas. Havia banho, roupas lavadas, assistência profissional e dedicada, inclusive para as necessidades fisiológicas]

Havia sim, Pai, a questão do dinheiro. Pão duro atávico, egoísta contumaz, não seria agora, em situação tão precária, que você iria agir diferente. Agora você tinha um álibi, uma formidável desculpa. Quem vai criticar um moribundo? Moribundos são, por definição, perdoados, inocentados de todo e qualquer crime que tenham cometido em vida. E você, espertamente, embarcou nessa. Ora, no Embu-Guaçu, mesmo doente, sem qualquer mobilidade e dependente, você nunca deixou de cuidar, pessoalmente, do dinheiro. Era você quem fazia os cheques para pagar as contas, quem fechava o câmbio para mandar trazer a aposentadoria suíça, quem (ainda semi-analfabeto no uso da internet) pegava, todos os dias, o extrato do banco por fax. E agora, vinha com essa de não sei de nada, não tenho nada? O problema é que, num certo ponto, a grana estava ficando realmente curta. Cortes drásticos em casa, menos com você. E você, impassível. Aí teve um dia que eu decidi incluí-lo nos cortes orçamentários. Claro, com as necessidades periféricas, pois remédios e coisas assim eram intocáveis. Você percebeu: “Clélia, acabou o iogurte”. Ela, constrangida, sem saber o que responder, mandou falar comigo. E ela ainda me implorou que não cortasse o seu iogurte. A questão não era mais de custo, eu respondi. Iogurte, ainda mais os que você comia, sem sabor, não são coisa cara. A questão era simbólica. Se todos na casa estavam abrindo mão de coisas, pai, e por sua causa, você deveria abrir também. E era hora de termos uma conversa definitiva sobre dinheiro. Mas dessa você escapou, a morte chegou antes, você acabou escapando.

[Naquele momento, a renda do casal Jean et Marie provinha de quatro fontes: a maior parte era a aposentadoria suíça de meu pai. Em segundo lugar, as receitas, muito variáveis, do canil-hotel, naturalmente melhores nos meses cheios de feriados e no fim do ano. Depois, a aposentadoria do INSS brasileiro. E, por último, quase simbólica, a renda das vendas de bijouterias, na feira hippie de Embu, que Marie teimava em não largar. Nos últimos anos, para complicar a situação deles, a aposentadoria suíça vinha pagando cada vez menos, por causa da progressiva valorização do Real frente às moedas estrangeiras. Nesse ponto, embora eu nunca tenha sabido detalhes, parece que meu pai pediu socorro a diversos amigos de infância, na Suíça.]

A bisavo suica de meu p ai

A bisavo suíça de meu pai

E, Pai, teve o problema da Marie. Você não queria que ela fizesse visitas, morria de medo dela. Ok, não vou discutir. Mas, caramba, vocês estiveram casados por mais de quarenta anos, ela merecia, pelo menos, alguma satisfação. Mas não. Você “non atendia o telefone”, o celular exclusivo que demos para você, para ter com você na cama. Ah, non, você fazia as enfermeiras, a Meire e a Silvania, atenderem. E dizerem que você não podia atender. Ora, a Marie achava que você estava prisioneiro em alguma masmorra medieval, e que nem mesmo falar ao telefone os carcereiros deixavam. As enfermeiras, mais a Vilma e a Li, todas achavam que Marie fosse o capeta, elas compraram sem descontos sua versão da história. Ok, de novo, não vou entrar no mérito, o casamento era seu, não meu. Mas você acha mesmo que a Marie não tinha direito a uma explicação sua? Isto, bem sabemos, você não teve coragem de fazer.

Sua rotina, de qualquer forma, seguia tranquila. As manhãs tinham banheiro, banho, fisioterapia. Tinham a Ana Maria Braga, que eu no começo desconfiava ser opção das enfermeiras, e depois descobri ser sua mesmo. Tinham, as manhãs, a calma de  se deixar ficar sentado na poltrona do quarto lendo jornal, ouvindo e vendo os passarinhos na janela, pousados no pau-brasil, no cedro-rosa, no pau-ferro, as folhagens do maracujá tentando entrar quarto adentro. As tardes eram piores, ficava mais quente, a face sudoeste de seu quarto cobrava o preço do calor abafado daquelas tardes de verão, embora as árvores na janela e os ventiladores ajudassem um pouco. No fim, dava para suportar, não é mesmo? E quanta comidinha gostosa: café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar...

[O ano de 2008 ia terminando de um jeito especialmente triste para nós. Meu pai ocupava, com sua presença, humores, odores e fim de vida, o andar de cima inteiro. Foi um verão especialmente quente, ensolarado, abafado. E por causa do clima, nos dois sentidos da palavra, estava muito penoso ficar em casa. A casa era densa e tensa, o ar era parado e pesado. Nós, que tínhamos que estar de volta à noite, pois as enfermeiras iam embora, viramos especialistas em happy hours nos botecos da Vila Madalena, preferencialmente no bom e barato Sachinha. Mas acabamos gastando um bom dinheiro assim, fugindo de voltar, gastando o que não poderíamos estar gastando. Prometíamos que no dia seguinte não iríamos, mas no dia seguinte não conseguíamos resistir. As crianças sentiram o peso de ficar em casa assim que entraram em férias. Não ficavam. Inventavam programas, dormiam na casa de amigos, dos avós. O Natal chegou. Iríamos, como todos os anos, para a casa dos pais da minha mulher. Jean não podia sair, pensamos em fazer um mini Natal com ele antes, ele, categórico, disse que não queria. Combinamos com a enfermeira noturna free lancer Joana D’Arc, e ela às oito e pouco já estava em nossa casa, à disposição. Meu pai, que aliás nunca ligou muito para Natal, disse que não se incomodava em ficar, mas mesmo antes de sairmos ele já manifestava seu descontentamento, com um enorme mau humor aquele pseudo-sono que tenta significar um “não estou passando bem”. Fomos, mas é claro que o celular tocaria, com a Joana D’Arc, que não conhecia a peça tão bem quanto as enfermeiras do turno do dia, assustada com os sintomas de crise que ele apresentava. Já experimentados com o comportamento de meu pai, conseguimos driblar a situação de longe, sem ter que voltar para casa. Os natais na casa dos sogros são sempre exemplares, em comida, decoração, clima leve. Mas aquele, pelo menos para mim, foi pura angústia. Aquele verão estava muito, muito abafado. Estava tudo sufocante. Logo no dia seguinte o Pedro viajaria, e viajou, para Ubatuba, para nossa casa, com a tia Bia e os primos, e deixou um buraco enorme. A Clélia e eu não podíamos ir. Isso foi doído, pois o curto período de cerca de dez dias, entre o Natal e o Ano Novo, costumava ser, em todos os anos, o único momento em que conseguíamos fechar o escritório e ficarmos juntos, nós quatro, na praia. Esse período era sagrado, para nós. Mas agora o sagrado estava sendo implodido, sem qualquer piedade.

E depois do Pedro, a Anna: ela viajaria para Camburi, para passar o ano novo na casa de uma amiga, no dia 26 de dezembro de manhã. Ficamos juntos no dia 25. Almoçamos e, à tarde, ela foi para o piano e começou a compor uma música. Eu estava cochilando no sofá da sala, ressaca, tristeza e calor, e ficava, entre dormindo e acordado, ouvindo aquela canção, que ia e vinha, se repetia, voltava, se reelaborava. Naquele estado de vigília, eu acreditava, vagamente, ouvindo aquela melodia em inglês, que ela estava tirando, de ouvido, a música de alguma cantora americana. Não: ela estava compondo. Quando, lá por umas cinco da tarde, acordei de vez, perguntei de quem era aquilo. “De ninguém, estou inventando”. Caramba, mas isso está bom! Ná, para com inglês, vamos fazer isso em português. Nisso, a Clélia, que dormia lá em cima, desceu. Pegamos cadernos, canetas, abrimos umas cervejas inglesas (Fuller’s ‘London Pride’, ‘Honeydew’, ‘1845’) que estavam havia tempos na geladeira esperando ocasião, e começamos nós três a brincar, escrevendo e reescrevendo a letra criada pela Anna:


Toda vez que eu vejo você
Fico sem saber, eu quero sumir, eu quero correr
Me sinto invisível, você não me vê
Quase sem saber, fico sem chão, você não me vê
Tudo o que peço é pra você ver
Eu e você, a gente podia se dar tão bem
Vejo uma foto nossa num apartamento
Juntos tudo parece melhor
E como saber? o que nos espera
Uma chance pra ele, uma chance pra ela


Mais tarde peguei meu notebook e fizemos uma sessão de gravação caseira, a Anna no piano e eu na gaita. A gravação não ficou assim tão boa, nem um pouco, na verdade, mas foi uma tarde/noite inesquecível, muito feliz, muito triste (transferida para um pen drive, foi muito ouvida nos dias seguintes, trazendo um sentimento, todas as vezes, de lembrança doce com travo amargo). Enquanto gravávamos, Jean estava lá, no andar de cima, inerte, mergulhado em seu inferno astral, esperando a morte, pilotando o controle da TV, alheio à tudo. Eu mais tarde perguntei a ele se ouvira nossa jam session lá embaixo: “non ouviu nada”. Mentira. Se houve um sentido que ele manteve funcionando intacto até o fim, este foi o auditivo. Não importa. Lá embaixo, eu curtia cada segundo daquela tarde, sabendo que o tempo escorria pelos dedos, que aquele momento era um dos mais mágicos de minha vida, mas que logo acabaria, logo seria o outro dia de manhã, quando levaríamos... levamos, manhã chuvosa, quente, melada, a Anna para a rodoviária, esperando o ônibus para São Sebastião na plataforma com ela, felizes por ela que, como Pedro, teria um fim de ano gostoso, com amigos, mas acabados por dentro, nós dois, a Anna feliz pois ia para a praia, para a casa de uma amiga, e estaria lá um garoto de quem ela estava a fim, mas estava triste por nós, com culpa por viajar e nos deixar, e nós não querendo transmitir tristeza, não querendo que ela sentisse aquela culpa. E depois, nó na garganta, lágrimas escondidas nos olhos, dando adeus enquanto o ônibus dava marcha a ré, e depois primeira, segunda e tchau, e o ônibus sumindo na saída da rodoviária em direção a Marginal Tietê, e era a nossa hora de voltar pra casa, a hora que eu mais temia, voltar pra casa, para a vida de fim de vida que nos aguardava, e tentar manter a sanidade num momento de férias gerais, de cidade deserta, em que nem trabalho teríamos para enganar o tempo.

 

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Postado em 06.04.2010 | 13:04 | André Caramuru Aubert
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Edinburgo, 1949, oleo de Jean Aubert

Edinburgo, 1949, oleo de Jean Aubert

Pai, o mais curioso é que você, de repente, ficou totalmente à vontade. O que, não me entenda mal, em um certo sentido era o que desejávamos. Mas não da maneira como ocorreu, pois você se tornou O Senhor dos Seus Direitos e do Dever Nenhum. Era como se tudo o que todos estavam fazendo fosse algo perfeitamente natural, obrigação nossa, sagrada, obrigação de cada um de nós. De repente, no meio do dia, na rua, tocava o celular: era uma das enfermeiras, dizendo que tinha acabado o isso, o aquilo, o aquilo outro. Então, na sequência, uma entrada numa farmácia, e uma conta de trezentos, quinhentos, seiscentos reais. Chegava em casa, entrava no quarto, entregava os remédios, você não agradecia, nem mesmo olhava, se fazia de morto. Isso, também, começou a me fazer mal. Você fingia que dinheiro não era problema, que você não tinha nada a ver com isso. Eu então tentei falar com você. Eu disse: “Pai, eu o acolhi em casa, eu cedi meu quarto, eu não estou cobrando nada, você vai ficar aqui por quanto tempo quiser, o quanto precisar. Mas, por favor, as coisas que você já pagava, os remédios, é justo que continue pagando. Eu não posso, a B. não pode, nós não podemos arcar com mais estas despesas.” “Mas eu non tem dinheirro”. “Como, não tem? Você tem a aposentadoria da Suíça, você já comprava os remédios antes, porque não pode comprar agora?” “Eu non terr, eu deixou o talón de cheques com Marie”.

[O que acontecia, na verdade, é que meu pai, de novo, queria seguir pela sombra, fugindo de problemas e conflitos. Se saísse de sua casa deixando o dinheiro todo lá, ele, dissimulado por trás da aparência moribunda, pensava: Marie ficaria mais calma, e o deixaria sossegado. Ele olhava em volta e, feliz, concluía: tudo estava dando certo, as coisas estavam acontecendo. A comida chegava quentinha, saudável, na hora certa; os remédios eram ministrados nas doses corretas, sem surpresas. Havia banho, roupas lavadas, assistência profissional e dedicada, inclusive para as necessidades fisiológicas]

Havia sim, Pai, a questão do dinheiro. Pão duro atávico, egoísta contumaz, não seria agora, em situação tão precária, que você iria agir diferente. Agora você tinha um álibi, uma formidável desculpa. Quem vai criticar um moribundo? Moribundos são, por definição, perdoados, inocentados de todo e qualquer crime que tenham cometido em vida. E você, espertamente, embarcou nessa. Ora, no Embu-Guaçu, mesmo doente, sem qualquer mobilidade e dependente, você nunca deixou de cuidar, pessoalmente, do dinheiro. Era você quem fazia os cheques para pagar as contas, quem fechava o câmbio para mandar trazer a aposentadoria suíça, quem (ainda semi-analfabeto no uso da internet) pegava, todos os dias, o extrato do banco por fax. E agora, vinha com essa de não sei de nada, não tenho nada? O problema é que, num certo ponto, a grana estava ficando realmente curta. Cortes drásticos em casa, menos com você. E você, impassível. Aí teve um dia que eu decidi incluí-lo nos cortes orçamentários. Claro, com as necessidades periféricas, pois remédios e coisas assim eram intocáveis. Você percebeu: “Clélia, acabou o iogurte”. Ela, constrangida, sem saber o que responder, mandou falar comigo. E ela ainda me implorou que não cortasse o seu iogurte. A questão não era mais de custo, eu respondi. Iogurte, ainda mais os que você comia, sem sabor, não são coisa cara. A questão era simbólica. Se todos na casa estavam abrindo mão de coisas, pai, e por sua causa, você deveria abrir também. E era hora de termos uma conversa definitiva sobre dinheiro. Mas dessa você escapou, a morte chegou antes, você acabou escapando.

[Naquele momento, a renda do casal Jean et Marie provinha de quatro fontes: a maior parte era a aposentadoria suíça de meu pai. Em segundo lugar, as receitas, muito variáveis, do canil-hotel, naturalmente melhores nos meses cheios de feriados e no fim do ano. Depois, a aposentadoria do INSS brasileiro. E, por último, quase simbólica, a renda das vendas de bijouterias, na feira hippie de Embu, que Marie teimava em não largar. Nos últimos anos, para complicar a situação deles, a aposentadoria suíça vinha pagando cada vez menos, por causa da progressiva valorização do Real frente às moedas estrangeiras. Nesse ponto, embora eu nunca tenha sabido detalhes, parece que meu pai pediu socorro a diversos amigos de infância, na Suíça.]

A bisavo suica de meu p ai

A bisavo suíça de meu pai

E, Pai, teve o problema da Marie. Você não queria que ela fizesse visitas, morria de medo dela. Ok, não vou discutir. Mas, caramba, vocês estiveram casados por mais de quarenta anos, ela merecia, pelo menos, alguma satisfação. Mas não. Você “non atendia o telefone”, o celular exclusivo que demos para você, para ter com você na cama. Ah, non, você fazia as enfermeiras, a Meire e a Silvania, atenderem. E dizerem que você não podia atender. Ora, a Marie achava que você estava prisioneiro em alguma masmorra medieval, e que nem mesmo falar ao telefone os carcereiros deixavam. As enfermeiras, mais a Vilma e a Li, todas achavam que Marie fosse o capeta, elas compraram sem descontos sua versão da história. Ok, de novo, não vou entrar no mérito, o casamento era seu, não meu. Mas você acha mesmo que a Marie não tinha direito a uma explicação sua? Isto, bem sabemos, você não teve coragem de fazer.

Sua rotina, de qualquer forma, seguia tranquila. As manhãs tinham banheiro, banho, fisioterapia. Tinham a Ana Maria Braga, que eu no começo desconfiava ser opção das enfermeiras, e depois descobri ser sua mesmo. Tinham, as manhãs, a calma de  se deixar ficar sentado na poltrona do quarto lendo jornal, ouvindo e vendo os passarinhos na janela, pousados no pau-brasil, no cedro-rosa, no pau-ferro, as folhagens do maracujá tentando entrar quarto adentro. As tardes eram piores, ficava mais quente, a face sudoeste de seu quarto cobrava o preço do calor abafado daquelas tardes de verão, embora as árvores na janela e os ventiladores ajudassem um pouco. No fim, dava para suportar, não é mesmo? E quanta comidinha gostosa: café da manhã, lanche da manhã, almoço, lanche da tarde, jantar...

[O ano de 2008 ia terminando de um jeito especialmente triste para nós. Meu pai ocupava, com sua presença, humores, odores e fim de vida, o andar de cima inteiro. Foi um verão especialmente quente, ensolarado, abafado. E por causa do clima, nos dois sentidos da palavra, estava muito penoso ficar em casa. A casa era densa e tensa, o ar era parado e pesado. Nós, que tínhamos que estar de volta à noite, pois as enfermeiras iam embora, viramos especialistas em happy hours nos botecos da Vila Madalena, preferencialmente no bom e barato Sachinha. Mas acabamos gastando um bom dinheiro assim, fugindo de voltar, gastando o que não poderíamos estar gastando. Prometíamos que no dia seguinte não iríamos, mas no dia seguinte não conseguíamos resistir. As crianças sentiram o peso de ficar em casa assim que entraram em férias. Não ficavam. Inventavam programas, dormiam na casa de amigos, dos avós. O Natal chegou. Iríamos, como todos os anos, para a casa dos pais da minha mulher. Jean não podia sair, pensamos em fazer um mini Natal com ele antes, ele, categórico, disse que não queria. Combinamos com a enfermeira noturna free lancer Joana D’Arc, e ela às oito e pouco já estava em nossa casa, à disposição. Meu pai, que aliás nunca ligou muito para Natal, disse que não se incomodava em ficar, mas mesmo antes de sairmos ele já manifestava seu descontentamento, com um enorme mau humor aquele pseudo-sono que tenta significar um “não estou passando bem”. Fomos, mas é claro que o celular tocaria, com a Joana D’Arc, que não conhecia a peça tão bem quanto as enfermeiras do turno do dia, assustada com os sintomas de crise que ele apresentava. Já experimentados com o comportamento de meu pai, conseguimos driblar a situação de longe, sem ter que voltar para casa. Os natais na casa dos sogros são sempre exemplares, em comida, decoração, clima leve. Mas aquele, pelo menos para mim, foi pura angústia. Aquele verão estava muito, muito abafado. Estava tudo sufocante. Logo no dia seguinte o Pedro viajaria, e viajou, para Ubatuba, para nossa casa, com a tia Bia e os primos, e deixou um buraco enorme. A Clélia e eu não podíamos ir. Isso foi doído, pois o curto período de cerca de dez dias, entre o Natal e o Ano Novo, costumava ser, em todos os anos, o único momento em que conseguíamos fechar o escritório e ficarmos juntos, nós quatro, na praia. Esse período era sagrado, para nós. Mas agora o sagrado estava sendo implodido, sem qualquer piedade.

E depois do Pedro, a Anna: ela viajaria para Camburi, para passar o ano novo na casa de uma amiga, no dia 26 de dezembro de manhã. Ficamos juntos no dia 25. Almoçamos e, à tarde, ela foi para o piano e começou a compor uma música. Eu estava cochilando no sofá da sala, ressaca, tristeza e calor, e ficava, entre dormindo e acordado, ouvindo aquela canção, que ia e vinha, se repetia, voltava, se reelaborava. Naquele estado de vigília, eu acreditava, vagamente, ouvindo aquela melodia em inglês, que ela estava tirando, de ouvido, a música de alguma cantora americana. Não: ela estava compondo. Quando, lá por umas cinco da tarde, acordei de vez, perguntei de quem era aquilo. “De ninguém, estou inventando”. Caramba, mas isso está bom! Ná, para com inglês, vamos fazer isso em português. Nisso, a Clélia, que dormia lá em cima, desceu. Pegamos cadernos, canetas, abrimos umas cervejas inglesas (Fuller’s ‘London Pride’, ‘Honeydew’, ‘1845’) que estavam havia tempos na geladeira esperando ocasião, e começamos nós três a brincar, escrevendo e reescrevendo a letra criada pela Anna:


Toda vez que eu vejo você
Fico sem saber, eu quero sumir, eu quero correr
Me sinto invisível, você não me vê
Quase sem saber, fico sem chão, você não me vê
Tudo o que peço é pra você ver
Eu e você, a gente podia se dar tão bem
Vejo uma foto nossa num apartamento
Juntos tudo parece melhor
E como saber? o que nos espera
Uma chance pra ele, uma chance pra ela


Mais tarde peguei meu notebook e fizemos uma sessão de gravação caseira, a Anna no piano e eu na gaita. A gravação não ficou assim tão boa, nem um pouco, na verdade, mas foi uma tarde/noite inesquecível, muito feliz, muito triste (transferida para um pen drive, foi muito ouvida nos dias seguintes, trazendo um sentimento, todas as vezes, de lembrança doce com travo amargo). Enquanto gravávamos, Jean estava lá, no andar de cima, inerte, mergulhado em seu inferno astral, esperando a morte, pilotando o controle da TV, alheio à tudo. Eu mais tarde perguntei a ele se ouvira nossa jam session lá embaixo: “non ouviu nada”. Mentira. Se houve um sentido que ele manteve funcionando intacto até o fim, este foi o auditivo. Não importa. Lá embaixo, eu curtia cada segundo daquela tarde, sabendo que o tempo escorria pelos dedos, que aquele momento era um dos mais mágicos de minha vida, mas que logo acabaria, logo seria o outro dia de manhã, quando levaríamos... levamos, manhã chuvosa, quente, melada, a Anna para a rodoviária, esperando o ônibus para São Sebastião na plataforma com ela, felizes por ela que, como Pedro, teria um fim de ano gostoso, com amigos, mas acabados por dentro, nós dois, a Anna feliz pois ia para a praia, para a casa de uma amiga, e estaria lá um garoto de quem ela estava a fim, mas estava triste por nós, com culpa por viajar e nos deixar, e nós não querendo transmitir tristeza, não querendo que ela sentisse aquela culpa. E depois, nó na garganta, lágrimas escondidas nos olhos, dando adeus enquanto o ônibus dava marcha a ré, e depois primeira, segunda e tchau, e o ônibus sumindo na saída da rodoviária em direção a Marginal Tietê, e era a nossa hora de voltar pra casa, a hora que eu mais temia, voltar pra casa, para a vida de fim de vida que nos aguardava, e tentar manter a sanidade num momento de férias gerais, de cidade deserta, em que nem trabalho teríamos para enganar o tempo.

 

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Postado em 29.03.2010 | 10:03 | André Caramuru Aubert
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“... Naquela altura ele [pai] ficou distante, transmudou-se
na coisa além das afeições, das convenções, dos contratos,
das reciprocidades. Não podia dar mais nada.
Receber mais nada. Nada. Não ser. Não ter.
As expressões automáticas ainda lhe atribuíam, irrisoriamente,
as últimas possibilidades de posse. O caixão dele,
o enterro dele, a sepultura dele – mas nem isso!
porque ele é que era do caixão, do enterro,
da sepultura perpétua. Perpétua? Perpétua é a Morte.
A dona da terra... Eu vagava, extraordinariamente só naquela casa.
Vi ainda o quarto revolvido, como depois dum crime ou orgia,
com roupas caídas, vidros no chão, toalhas e algodões
sobre as cadeiras – até que alguém veio, fechou as janelas
e passou a chave nas portas...”


Pedro Nava, Baú de Ossos



Na manhã do dia 9 de novembro de 2008, um domingo quente e abafado, uma ambulância veio do hospital até nossa casa com você dentro. A coisa foi tumultuada desde a saída do São Luiz, fazendo justiça ao seu estilo de toda a vida, pois Marie não sabia de nada, nem da alta e nem, muito menos, que você estaria indo para a minha casa, e não para o sítio em Embu-Guaçu. Tratou-se de, sim, quase um sequestro, pelo menos do ponto de vista dela. Marie só iria descobrir isso pelo método difícil, na segunda-feira, ao tentar entrar no quarto não mais ocupado por você, quando chegou ao hospital para a visita matinal. Houve escândalo e berros, soubemos pelas enfermeiras, ela representou uma vez mais o papel de louca, algo de que, pelo menos naquele dia, teria sido uma acusação injusta.

Meu terrivel bisavo suico Louis-Henry, que surrou meu  pai por ter levado um amiguinho judeu para casa

Meu terrivel bisavo suico Louis-Henry, que surrou meu pai por ter levado um amiguinho judeu para casa

Ainda no domingo, eu fui no meu carro, à frente da ambulância, e B. seguiu dentro dela, amparando você. Em casa, a operação complicada foi levá-lo escada acima, até seu próximo (e último) aposento. Você não tinha idéia (eu também não), mas só viria a descer aquelas escadas uma única vez, três meses depois, na noite em que morreu. Como você, mesmo muito magro, era grande, havia a necessidade de pelo menos dois homens fortes para carregá-lo sentado na cadeira. Mas sendo a escada apertada, e em “U”, a operação ficava muito mais difícil, dificuldade agravada por sua fragilidade física e pela tensão que seus gritos de dor causavam.

Naquele domingo abafado de novembro estavam começando os três meses que seriam o último pedacinho de sua vida, uma vida que começou em Paris nos anos loucos do entre-guerras, passou por Londres, na ampla casa paroquial de seu avô, que escapou das bombas alemãs, perdeu sua mãe, prosseguiu em Genebra com seu outro avô, o calvinista, e depois seu pai e sua boa madrasta, passeou de bicicleta e trem por uma Europa arruinada no imediato pós-guerra, atravessou num vapor o Atlântico, tentou se adaptar a São Paulo, mergulhou na mata em Mato Grosso, se casou, fixou-se em Ubatuba, se separou, voltou a São Paulo, se casou de novo e se enterrou num sítio em Embu-Guaçu. Uma vida, você há de convir, com muita geografia, muita história, e pouco afeto. Vidas. No fim da sua, como no começo da minha, estávamos de novo morando juntos, sob o mesmo teto. Havia, por parte da minha (sua?) família, uma sincera disposição em fazer as coisas darem certo, e em tentar extrair daquela convivência forçada com você o máximo de prazer possível. Seus netos queriam um avô. Eu queria, eu tentaria, embora descrente, desconfiado, uma última chance de ser seu filho.

Nos primeiros dias, dentro do que podia ser possível, você parecia feliz. Tomava banho diariamente, tinha as roupas bem lavadas e cheirosas, os lençois trocados com freqüência, se alimentava bem, era cuidado. Mas, mais do que tudo isso, sejamos honestos, você estava feliz porque era o centro das atenções, porque era o umbigo do mundo e havia um monte de gente orbitando em sua volta. Não vou condená-lo por isso. Quem não gosta de ser o centro das atenções? Ainda mais quando se passou tanto tempo de privações, isolado do mundo, num sítio? E você podia, um dos supremos prazeres de toda a sua vida, fazer fofoca, gerar cizânia e colocar uns contra os outros.

Apesar de todo nosso empenho para que tudo desse certo, você forçava a barra, esticava a corda, nos testava os limites. Nas primeiras noites, adorava apertar a campainha no meio da noite, sempre em horários “bons”, tipo três ou quatro da madrugada. Eu ou a Clélia, em revezamento, pulávamos da cama, lá no muquifo, e voávamos para o seu quarto. Levava não mais do que quatro passos, muito rápidos, para estarmos ao seu lado. Aí, com aquela cara em parte moribundo, em parte cachorro vira-latas, você soltava algo do tipo: “está com calorr, pode tirrar esse manta do meu pé?” Ou então, com um tom mais dramático: “eu está sufocando, eu não consegue respirrar”, e daí medíamos o nível de oxigenação e, quando era o caso, alterávamos a mistura no cilindro de O2. O curioso é que, com o tempo, perceberíamos um padrão: em dias em que dávamos a você menos atenção, por ter chegado do trabalho mais tarde, ou por ter esticado o happy hour num boteco (isso, em termos, pois às sete da noite estaríamos, invariavelmente, em casa), ou por outro motivo qualquer, você tocava mais a campainha à noite. Verdade seja dita, você não estava mesmo respirando bem. Inclusive, nos primeiros dias, o pessoal do home care tentou usar um concentrador, um aparelho de oxigenação elétrico, que teoricamente substitui os cilindros de O2, pelo menos nos casos menos graves. Mas com você, no ponto em que estavam seus pulmões, aquele aparelho não fez nem cócegas. O caso era de O2 de cilindro mesmo, e você era um heavy user. O quadro complicado, porém, não deveria servir de desculpa para que você fizesse onda, charme, e nos chamasse, no meio da noite, sem a menor necessidade. O mesmo “quadro difícil”, para agravar as coisas, nos impedia de estrilar, mesmo quando percebíamos claramente que o chamado era apenas para chamar a atenção, para se vingar de nossa ausência durante o dia, nos testar ou de tudo isso um pouco. Deitados num quartinho apertado, abafado, com muito calor, era difícil manter o bom humor quando, finalmente dormindo, soava estridente a campainha, e o motivo era nada.

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Postado em 23.03.2010 | 18:03 | André Caramuru Aubert
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“Pai, você não quer voltar para o Embu-Guaçu?” Com um olhar de doente debilitado, sofrido, mas um pouco fingido, vem a resposta: “Non”. “Você quer ir para a minha casa?” “Querr”. “Tudo bem, então, você vai para lá, e ficará lá enquanto quiser.” “Mas o Marie non vai deixar”. “Pai, você está lúcido e tem condições de decidir o que quer fazer. Você tem que dizer para a Marie que não quer voltar para lá, que quer ficar em São Paulo, que quer ir para a minha casa. Eu não quero ninguém achando que eu te sequestrei. Você tem que falar para ela, explicar, você vai?” “Vai”. “Ela disse que vem hoje à tarde te ver, você vai aproveitar e falar para ela, combinado?” “Combinado”. Passam as horas, eu volto ao hospital. “Pai, você falou para a Marie o que nós combinamos?” “Falou”. “O que você falou?” “Eu falou que você non queria que eu voltava para o Embu-Guaçu.” “Ô cacete! O que foi que a gente combinou?! É você que não quer voltar, não sou eu, é isso que você tinha que falar!” E, do lado de lá, esticado na cama, sem qualquer resposta, apenas o olhar frágil de cachorro vira-lata, esperando, malandramente, compaixão e pena do interlocutor. Mais uma vez, pela enésima vez, ele fugia do campo de batalha, jogando uns contra os outros e se fazendo de vítima para todos.

Meu avo Jacques no colo da mae, Genebra, 1907

Meu avo Jacques no colo da mae, Genebra, 1907

Em casa, na verdade, meu pai não cabia. A nossa casa, na Vila Madalena, tinha três quartos e, sendo dessas antigas, eram dois banheiros no corredor, um bem pequeno, nenhuma suíte. Um quarto era nosso, do casal. Os outros, um da Anna, outro do Pedro. A opção óbvia seria deixar os dois juntos e liberar um dos quartos para Jean. Mas seria sacanagem com os dois, ela plenamente adolescente, ele pré, menina e menino, universos, interesses e viagens distintos. Então havia nosso quarto. Mas para onde iríamos? No fim do corredor, uma antiga varanda, mal-transformada em quartinho pelo proprietário, com janela lateral de barraco de periferia, e que chamávamos de muquifo, repositório de livros pouco manuseados, de papéis velhos, de quadros sem parede, o muquifo era nosso destino. Não dava tempo de pintar, o teto meio descascado continuou pairando sobre nossas cabeças, enquanto a cama de casal ocupava o “quarto” quase inteiro. Foi feita uma grande faxina, instalada uma campainha, que acionada em nosso antigo quarto tocaria lá embaixo e lá em cima no muquifo, bem alto em nossa orelha, a qualquer hora da noite (e como tocou). O calor naquele pequeno cômodo, num fim de ano especialmente quente, acabou se revelando, sem exagero, infernal. Não deu, não dava, para instalar, naquele momento, um aparelho de ar condicionado: o ventilador chinês comprado por menos de cinquenta reais na Preçolândia era tudo com o que podíamos contar. Começamos ali, no início de outubro de 2008, uma frenética transformação de nossa casa, a fim de podermos receber Jean, daquele ponto em diante, a qualquer momento.

Também não dava tempo de (e nem havia dinheiro) mexer estruturalmente nos banheiros. As crianças se apertariam no banheirinho, a Clélia e eu dividiríamos o banheiro maior com meu pai. Ali, tirou-se uma das extremidades da “parede” de acrílico do box, para que Jean pudesse entrar, na cadeira de rodas, para tomar banho, e foi instalado um chuveirinho com mangueira. Em nosso antigo quarto, instalamos uma TV com sky e dvd, na parede, no alto, bem em frente à cama. Alugamos cama hospitalar, mesinha retrátil com rodinhas, cadeira de rodas furada em baixo, para as necessidades fisiológicas e os banhos. Foram ainda encaixados, lá, quatro grandes cilindros de oxigênio. Na casa da minha mãe achamos a antiga cadeira de rodas de minha avó e, dela também, uma grande poltrona reclinável, boa para passar as horas da manhã, para ler um livro ou olhar as maritacas e os sabiás lá fora, tagarelando nos galhos do pau-brasil ou de cedro-rosa, junto à janela do quarto. Mesmo com todas as modificações realizadas na casa, ela obviamente continuava pequena e inadequada para esta nova missão.

Outra constatação: meu pai precisaria do cuidado de enfermeiras em tempo integral, solução que seria cara demais. Contratamos a Meire, experiente e repleta de boas referências, que trouxe junto a Silvânia. Um dia uma, outro dia a outra, em regime de doze horas, das sete da manhã às sete da noite. Dessa hora em diante, o serviço seria nosso, pois não havia, mesmo com B. rachando estas despesas, dinheiro para o turno da noite (para a noite, já na fase final, contrataríamos em situações especiais uma terceira enfermeira, a Joana D’Arc, para podermos sair um pouco e, em duas ocasiões, viajar no fim de semana).

Havia até então uma moça trabalhando em casa, a Vilma, que não dormia lá. Logo uma segunda, a Li, teria que ser contratada, pois a necessidade de faxina constante, o número crescente de bocas para alimentar (meu pai incluído. Ainda que respirando mal, ele comia muito bem), e o gigantesco aumento no volume de roupas para lavar exigiam isso. Não pudemos prever em que medida, ainda, a privacidade viria a ser varrida de nossas vidas, numa casa que passaria a viver em regime de 24x7, com duas empregadas domésticas, duas enfermeiras, fisioterapeuta todos os dias, médica eventualmente, chegada de ambulância, em situação de emergência, a cada, em média, duas semanas, trocas de cilindros de oxigênio a cada dois dias (trabalho que exigia dois carregadores), visitas de inspeção do home care, de uns poucos amigos de Jean, de Marie, de B.

Viveríamos dali para a frente, logo nos demos conta, de maneira diferente, muito mais pública, intensa e precária do que antes. Só não sabíamos ainda, naquele momento, o quanto tudo aquilo nos afetaria.

//É assim que termina

Por André Caramuru Aubert

Um livro em pedaços

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