Postado em 23.09.2008 | 12:35 | Arthur Veríssimo

O trânsito frenético de caminhões, jipões militares, motos e corvos dificultavam o raciocínio. Éramos os primeiros na fila da saída dos estrangeiros e fomos os últimos. Ficamos de castigo durante 3 horas.
Nossos documentos de saída (várias folhas de autorizações) estavam adulterados. Tínhamos que voltar para Lhasa e conseguir um avião. Ate Lhasa seriam mais 4 dias de viagem. Sufoco. Caos. Que nada. Um capitão do exército chinês aproximou-se. Mister Cheng. Deixou-nos tranqüilos.
Disse que as agências sempre fazem estas burradas e que teriam que pagar uma multa.Resumo da "ópera chino-tibetana-brazuca-nepalesa": o vacilão dono da agência foi localizado e as autoridades nos liberaram.
Katmandu está um pardieiro. O primeiro ministro maoista não liberou nenhuma verba para as festividades religiosas-populares desta temporada. Seria como não ter subsídios para o carnaval da Bahia e do Rio. Sintonizou-se?
Muita pancadaria pelas ruas. Aproveitei e andei mais de 10 km do meu hotel até outras quebradas.
*PS - As fotos são uma amostra da grande jornada que fizemos com os peregrinos ao redor o monte Kailash. O André como sempre encontrou um amigo das antigas em Pasupatinath.
Inté Arthur V.
Postado em 19.09.2008 | 13:45 | Arthur Veríssimo

A estrada como sempre seduz, atrai e magnetiza a vida. Percorrer cenários lunares e desconhecidos revigora o equilíbrio e harmoniza a inquietude.
Vivo intensamente neste exato momento ao lado da minha barraca de nômade. O frio é de apavorar. Haja meditação e trekking religioso.
Durante o início estava cabrero diante da possibilidade de acampar nesta friaca tibetana.Com o tempo meu corpo foi criando um campo de força de proteção. Banho é algo impossível. Para vocês terem uma idéia, os nômades nesta área lavam seus corpinhos queimadíssimos de sol, apenas uma vez por ano.
O espírito flana com o vento e os imponentes cachorros tibetanos devoram o resto de comida dos nossos anfitriões.
A tranqüilidade e o gelo aquieta os preconceitos arraigados. Lanço ao espaço tudo aquilo que não vale mais a pena carregar, neste final de tarde a 4.900 metros de altitude.
O frio promete nesta madrugada uma temperatura de apenas 7 graus negativos. Tá fácil.
Tashi Delek.
Postado em 15.09.2008 | 16:36 | Arthur Veríssimo
A cidadela se chama Saga. Ficamos uma eternidade aguardando a autorização para entrar nesta região cheia de segredos e militares.
Um hotel espelunca, com dezenas de hindus nos chamou a atenção. Paramos o veéculo e resolvi trocar uma idéia com os indianos. Todos estavam muitos queimados de sol. Um senhor extremamente educado aproximou-se. Contou que haviam acabado de chegar do parikrama (a volta do Kailash).
Senhores, velhinhas, jovens com pesados casacos e um saddhu com um mala (rosário) de ouro lançou um olhar solene para o André. Queria saber quais eram nossas intenções religiosas. Ficamos conversando e tomando chá de jasmin durante um par de horas. Aquele homem ja havia feito a volta por mais de 20 vezes na vida, a circumanbulação ao redor do Kailash.
Postado em 12.09.2008 | 13:32 | Arthur Veríssimo

Ponham fé
Estou na última fronteira da água quente, cama confortável e informações via TV e internet. A partir de agora a estrada nos destina uma vida crua, selvagem e nômade.
Acabamos de chegar em Lhatse, um fim do mundo, distante 420 km de Lhasa e 780 km de nosso destino final de 4x4, o Lago Manasorovar. Nosso guia Mima insistia que, a partir da próxima cidade, não teríamos mais chuveiro, água quente e outras mordomias. Iríamos para uma autêntica guest-house tibetana. Que medo.
Conheço muito bem os hábitos dos tibetanos em estadias prolongadas em Dharamsala. Não gostam de banho e os quartos de hotéis são um pavor. Eu e o André ficamos encanados. Resolvemos imediatamente dar um giro na única rua neste canto esquecido no mundo e restaurado pelos chineses. Encontramos uma internet 24 horas com chineses, uigures e tibetanos possuídos. Fumavam um cigarro atrás do outro. (neste exato momento que escrevo para vocês, inalo toneladas de substâncias tóxicas). Na frente do fumódromo, um baita hotel onde se hospedam engenheiros, políticos e turistas antenados.
Não é por nada não, mas optamos pela limpeza e água quente do que a guest-house ensebada com banheiro coletivo fedido e comida duvidosa.
Lhatse e o fígado do faroeste tibetano. Muita gente bêbada pela rua principal. A partir de amanhã iremos acampar em locais inóspitos no plato tibetano. Mudanças climáticas bruscas e ventanias cósmicas fazem parte do dia-a-dia.
Nossa meta será realizar a peregrinação de três dias ao redor da montanha mais sagrada do planeta, o monte Kailash
(6.714 metros de altitude). O Kaialash é reverenciado por hindus, budistas, jainistas e bonpas.
Voces entenderam nossa situação, seremos nômades nesta fronteira ao desconhecido.
Tashi Delek
Arthur Verissimo
Postado em 12.09.2008 | 13:26 | Arthur Veríssimo

Saio do dark room com uma miriade de pensamentos sinistros. Nos fundos do Pelkor Chode Monasterio está uma sala repleta de divindades iradas e nefastas. Para quem pensa que budismo tibetano é paz e amor e free tibet, a relação com o lado negro é bastante aquecida. Na escuridão do local detecto duas divindades que conheço das antigas, Mahakala e Yamantaka com suas dezenas de braços e carrancas poderosas absorvem meu espírito.
Dois monges enormes aparecem como por encanto de um quebrada da sala e com um sorriso de outras esferas perguntam se desejo alguma prece. Saúdo e me reverencio a Mahakala. Vejo ao lado da estátua alguns ossos e um punhado de pele e gordura. Minha dedução é que os dois monges haviam feito um despacho da pesada e eu estava ali como intruso. Deixa quieto.
O complexo do monastério é constituído por três ordens diferentes do Budismo Tibetano. Nove são da seita Gelupa, três dos Sakyapas e três de uma obscura ordem de monges com chapéus negros. Faço uma romaria ao maravilhoso Gyantse Kumbum com seus mirabolantes 35 metros.
Kumbum significa 100 mil imagens. Dentro deste imenso Chorten com seus 5 andares estão pintados 100 mil imagens de Buda. Porém, alguma coisa ficou massageando minha mente depois da visita ao Dark Room.
Obrigado Sara e Isabella pelas mensagens positivas.
Arthur V.
Postado em 10.09.2008 | 13:58 | Arthur Veríssimo

Agradeço as saudações dos leitores que destilam um pouco desta minha jornada nos confins do Himalaia.
Ao caríssimo Armando Nogueira, sobre visto e permissões, é fundamental fazer contato com uma boa agência de viagens no Brasil que esteja sintonizada com o Nepal e Tibete. Foi desgastante retirar os documentos em Katmandu mesmo tendo excelentes contatos. Depois , conhecer as entranhas de Lhasa é um prazer inigualável.
A viagem propriamente dita começou hoje. Minha equipe é composta por dois motoristas, guia, cozinheiro, e dois ajudantes além do Andre Meyer e este escriba oxigenado. Viajamos em dois veículos: um Toyota Land-Cruiser 4x4 e um caminhão turbinado. Temos nos veículos 6 tubos de oxigênio para nos esbaldar.
Pela manhã atravessamos vales e penhascos e atingimos, numa determinada passagem, a altitude de 4.900 metros. Cenários maravilhosos, lagos azul-turquesa, camponeses com suas idumentárias e muitos yaks.
Aquele mundo distante dos livros de Lobsang Rampa explode diante da minha retina. Óculos escuros são imprescindíveis, como dizia Raul Seixas. Paramos na cidade Gyantse, onde iremos descansar. Nosso destino pela manhã é mergulhar nos corredores do mosteiro do Panchen Lama.
Isso é só o começo
O Kailash me aguarda.
Tashi Delek
Postado em 09.09.2008 | 13:30 | Arthur Veríssimo

A tarefa de decifrar esta colméia que se transformou o Tibet é exaustiva. Segundo as autoridades chinesas, foram investidos 15 bilhões de dólares em infra-estrutura e melhoramentos. O que vemos pelas ruas é a riquissima cultura tibetana diluída e pasteurizada. Como diz o Dalai-Lama, "um genocidio cultural".
Na visita que fiz ao museu da história do Tibet, o acervo da instituição é insignificante e sem graca. Quem organizou? Os chineses. A maoiria dos tibetanos vivem marginalizados diante do monunental "boom" econômico que borbulha por todos os cantos da cidade. A nova Lhasa é recheada de edifícios, lojas de grife, concessionárias de carros e uma infinidade de produtos que encontramos nos shoppings bacanudos das metrópoles brasileiras. Aquela cidade misteriosa dos filmes, livros e historias parece não existir.
Estou hospedado no gueto tibetano com uma dúzia de turistas russos. Pela tarde, tive o privilégio de ter uma aula sobre a medicina tradicional tibetana. O DR. Tse Wang Tan Pa explicou detalhadamente o processo desta milagrosa medicina que tem como origem o reino mineral, vegetal e animal. Saí do instituto carregado de poções mágicas para a altitude.
Amanha sigo em direção a Shigtase. A saga continua.
Postado em 08.09.2008 | 17:51 | Arthur Veríssimo

Caríssimos amigos, sentadinho diante deste teclado mando minhas primeiras impressões desta viagem no teto do mundo.
Katmandu foi apenas um pit stop para aguardar visto e permissões. Nossa intenção é percorrer a região de Lhasa e fazer a romaria ao Kailash, a montanha mais sagrada do planeta.
Nosso contato no Nepal passou o maior sufoco para conseguir os respectivos documentos para nossa jornada ao Tibete. Com pensamentos nostálgicos de encontrar uma Lhasa (capital do Tibete) medieval, deparei com uma megacidade chinesa recheada de edifícios e todo tipo de negócios. Existe uma intervenção militar na cidade antiga, onde milhares de soldados fazem ronda 24 horas exibindo metralhadoras, fuzis e cara amarrada.
A repreensão existe e sufoca os tibetanos. Ninguém quer falar sobre assuntos políticos. É igualzinho à lei do silêncio que impera nas favelas brasileiras. Hoje estive no maior palácio do planeta, o maravilhoso Potala, com seus mais de 1.000 cômodos recheados de estátuas, tronos, tumbas e textos sagrados. Durante séculos foi a residência oficial do Dalai Lama, agora passa por uma reforma depois de décadas de destruição. Por essas bandas você tem que andar pianinho. A altitude de 3.600 m deixa os apressadinhos ocidentais de língua de fora.
Continuo na fase de aclimitação. Dentro de dois dias partirei para a rota de peregrinação do Kailash.
Saudações.
Abraçãooooooooooooooo
Arthur.
Postado em 02.09.2008 | 11:06 | Arthur Veríssimo

Estou a caminho do aeroporto tendo como destino a cidade de Katmandu no Nepal. Recentemente o pequeno reino encravado no Himalaia foi declarado República. O acordo para a abolição da monarquia nepalesa foi assinado pelos líderes dos sete partidos políticos, juntamente com a monarquia e os rebeldes maoístas. Para quem não sabe, esta atual monarquia foi criada em 1769 e deu início a uma dinastia em que os reis são considerados nada mais que reencarnações do deus Vishnu.
Recordar é viver: no dia primeiro de junho de 2001, o príncipe herdeiro Dipendra em um acesso de fúria, drogas e descontrole, dizimou a família real em um jantar de confraternização da realeza. Na carnificina morreram o venerado Rei Birendra, a rainha Aishwarya, dois irmãos, tios e tias. O Nepal ficou em estado de choque. Com o país no caos, foi coroado Gyanendra, irmão de Birendra, como décimo primeiro Rei da dinastia Shah. Muitas hipóteses e versões desencontradas foram investigadas sobre o que aconteceu nos bastidores do jantar macabro. Rumores de conspiração, borbulham até os dias de hoje. Os astrólogos da corte ficaram em péssima situação por não terem detectado ou prevenido o episódio fatídico.
O que observo depois de muitas investigações é que com o fim da monarquia existe muita esperança de uma reviravolta na qualidade de vida e paz entre os nepaleses.
Chegando em Katmandu mando mais notícias.
C'est la Vie
Arthur V.
Postado em 21.08.2008 | 13:18 | Arthur Veríssimo
Se liga nos olhos da estatua MEDOOOOOOOOOOOOOOOOOOO.
As imagens continuam gravadas como icebergs quase eternos trafegando diante dos meus sentidos.
A viagem para a Islândia e Groenlândia fez-me entrar como noviço no portal das sagas dos vikings. Deixo para trás as montanhas, elfos, banhos termais, vulcões e dias polares e mergulho novamente no caos urbano de São Paulo. Mal cheguei do Circulo Ártico e inicio a preparação para a maior de todas as aventuras pelo Himalaia. Fazer à peregrinação a montanha mais sagrada do planeta, o Monte Kailash. Não estou de bromas. Tenho realizado diariamente treinamentos para superar os obstáculos e dificuldades de altitude. A caminhada promete. Como é bom retornar a boa e poluída São Paulo.