Revista Trip

 
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Postado em 07.09.2009 | 20:09 | Sabrina Duran
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Quantas vidas cabem num dia? Nos meus dias colombianos couberam tantas que não pude escrever sobre todas. Foram registradas neste blog apenas aquelas que respondiam à questão: esta vida alheia, de alguma forma, imiscuiu-se na minha? Então, quando deixavam de ser alheias, as vidas entravam na lista das trinta histórias que fui buscar em Bogotá. Essa perspectiva auto-referente que o projeto me exigia me fez, contraditoriamente, suspender meus gostos, preconceitos e preferências para ser capaz de ouvir e registrar as vidas como os personagens, consciente ou inconscientemente, queriam que eu fizesse. Eles repetiam palavras e idéias, faziam fincapé em verdades nas quais acreditavam, gesticulavam mais em determinadas partes do relato e não raro me pediam para não dizer tal ou qual coisa. Por meio desses sinais enfáticos, fui entendendo onde eles se enxergavam como mais autênticos. E foi assim que os retratei, afinal, as vidas eram deles, não minhas. As histórias tinham que me tocar, sim, de alguma maneira, mas não necessariamente do jeito que gosto de ser tocada. Essa abertura à história que viesse, fosse o que fosse, deixava-me exposta às dores e alegrias dos outros. No fim, assimilei os sentimentos contraditórios e deixei Bogotá um pouco mais feliz e um pouco mais triste, porque assim é a natureza humana: ninguém sai tábula rasa de nenhuma experiência afetiva, boa ou má. E agora a pergunta é: quantas vidas cabem numa pessoa? Responder pelo mundo não posso. No meu caso, digo que voltei plural.

Plural

¿Cuántas vidas caben un día? En mis días colombianos cupieron tantas que no pude escribir sobre todas. Fueron registradas en este blog solo aquellas que respondían a la cuestión: ¿esta vida ajena, de alguna forma, se inmiscuyo en la mía? Entonces, cuando dejaban de ser ajenas, las vidas entraban en la lista de las treinta historias que fui a buscar a Bogotá. Esa perspectiva autorreferente que el proyecto me exigía me hizo, contradictoriamente, suspender mis gustos, prejuicios y preferencias para ser capaz de oír y registrar las vidas como los personajes, consciente o inconscientemente, querían que yo lo hiciera. Ellos repetían palabras e ideas, hacían hincapié en verdades en las cuales creían, gesticulaban más en determinadas partes del relato y no raramente me pedían para no decir tal o cual cosa. Por medio de esas señales enfáticas, fui entendiendo dónde ellos se distinguían como más auténticos. Y fue así que los retrate, al final, las vidas eran de ellos, no mías. Las historias tenían que tocarme, sí, de alguna manera, pero no necesariamente de la manera en que me gusta ser tocada. Esa apertura a la historia que viniera, fuera lo que fuera, me dejaba expuesta a los dolores y alegrías de los otros. Al final, asimilé los sentimientos contradictorios y dejé Bogotá un poco más feliz y un poco más triste, porque así es la naturaleza humana: nadie sale tabula rasa de ninguna experiencia afectiva, buena o mala. Y ahora la pregunta es: ¿cuántas vidas caben en una persona? No puedo responder por el mundo. En mi caso, digo que volví plural.

Tradução: Carlos Paz

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Postado em 04.09.2009 | 17:09 | Sabrina Duran
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Quer silêncio? Mostra a bunda

Quer silêncio? Mostra a bunda

Antanas Mockus é um filósofo e matemático colombiano - o sobrenome não-latino deve-se à sua ascendência lituana. Seu envolvimento com o ambiente acadêmico e sua excentricidade nata - por exemplo, casou-se num circo, montado sobre um elefante, e vestiu-se como super-herói numa aparição pública - fizeram-no ser um homem de medidas pedagógicas pouco ortodoxas quando ocupou o cargo de reitor da Universidade Nacional da Colômbia e, por duas vezes, o cargo de prefeito de Bogotá. Quando prefeito, instituiu, em meados da década de 90, a até hoje vigente Hora da Cenoura, norma que impõe limite de horário de funcionamento para os clubs de música e para a venda de bebida alcóolica nos mesmos. Outra medida não-ortodoxa de Mockus foi proibir o uso de artefatos pirotécnicos por particulares. Com isso, ele conseguiu reduzir o número de mortes violentas. Aqui não temos nenhuma foto de Antanas Mockus para apresentar. Temos, sim, apenas a foto de um boneco-que-baixa-as-calças produzido em sua homenagem - e que encontrei num mercado de pulgas. Sobre o boneco, explica-se: em certa ocasião, quando ainda era reitor da Universidade Nacional da Colômbia, Mockus foi impedido de discursar pelos alunos que o vaiavam. Para conseguir o silêncio do qual precisava para ser ouvido, o reitor baixou as calças e mostrou a bunda à platéia de alunos. Um pedagogo esse Mockus.

 

Sobre zanahorias, cola y pedagogía

Antanas Mockus es un filosofo y matemático colombiano - el apellido no latinoamericano se debe a su ascendencia lituana. Su envolvimiento con el ambiente académico y su excentricidad nata - por ejemplo, se caso en un circo, montado sobre un elefante, y se vistió como súper héroe en una aparición pública - lo hicieron ser un hombre de medidas pedagógicas poco ortodoxas cuando ocupo el cargo de rector de la Universidad Nacional de Colombia y, por dos veces, el cargo de prefecto de Bogotá. Cuando prefecto, instituyo, a mediados de la década del 90, y aun hoy vigente, la Hora Zanahoria, norma que impone limite de horario de funcionamiento para los clubes de música y para la venta de bebida alcohólica en los mismos. Otra medida no ortodoxa de Mockus fue prohibir el uso de artefactos de pirotecnia por particulares. Con eso, consiguió reducir el número de muertes violentas. Aquí no tenemos ninguna foto de Antanas Mockus para mostrar. Tenemos, sí, apenas la foto de un muñeco-que-se-baja-los-pantalones producido en su homenaje - y que encontré en un mercado de pulgas. Sobre el muñeco, se explica: en cierta ocasión, cuando aún era rector de la Universidad Nacional de Colombia, Mockus fue impedido de hablar para los alumnos que lo abucheaban. Para conseguir el silencio que necesitaba para ser oído, el rector se bajó los pantalones y mostró la cola a la platea de alumnos. Mockus, un pedagogo.

Tradução: Carlos Paz

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Postado em 03.09.2009 | 16:09 | Sabrina Duran
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Rafael, o homem dos amores sóbrios

Rafael, o homem dos amores sóbrios

Os cassinos são cheios de licor e rumba. E foi para eles - e para um rapaz - que Rafael perdeu a mulher com a qual já estava casado há doze anos. Encontrou-a dançando com ele. Aproximou-se, tocou-a no ombro e lhe disse, serenamente: muito trabalho, não? - a esposa havia dito que estaria trabalhando até tarde no cassino. À volubilidade da esposa, Rafael respondeu com a pedra de calma que é e com o amor que sentia. Deixou a casa deles com tudo o que haviam construído e comprado para ela. Ainda tentaram reatar depois disso, mas ela, tropeçando ainda nas garrafas de licor, resistiu. Arrependeu-se depois. Quando a música é alta, a bebida é forte e a carne é débil, só restam em pé os amores arraigados. Os de rumba despencam e ficam na pista até que a faxina do dia seguinte os recolha com uma pá.

 

Amores de rumba

Los casinos están llenos de licor y rumba. Y fue por ellos - y por un muchacho - que Rafael perdió la mujer con la cual estaba casado hacía doce años. La encontró bailando con él. Se aproximó, la tocó en el hombro y le dijo, serenamente: ¿mucho trabajo, no? - la esposa había dicho que estaría trabajando hasta tarde en el casino. A la volubilidad de la esposa, Rafael respondió con la piedra de calmo que es y con el amor que sentía. Dejó la casa de ellos con todo lo que habían construido y comprado para ella. Aún intentaron reanudar tras eso, pero ella, tropezando aún en las botellas de licor, resistió. Se arrepintió después. Cuando la música es alta, la bebida es fuerte y la carne es débil, sólo restan en pie los amores arraigados. Los de rumba se derrumban y quedan en la pista hasta que la limpieza del día siguiente los recoja con una pala.

Tradução: Carlos Paz

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Postado em 02.09.2009 | 18:09 | Sabrina Duran
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Sandra: sua felicidade vem da dor decantada e bem digerida

Sandra: sua felicidade vem da dor decantada e bem digerida

Prato cheio de Estrela

Sandra diz que não alimenta tristeza alguma hoje em dia. Chegou aos 40 anos tendo aprendido que o dia é curto e o coração demasiado grande pra azedar um e outro com rancores. Contradição: Sandra só aprendeu isso depois de muito sofrimento. Mas essa história não é sobre aprendizagens nem malogros, e sim sobre aquela época da vida em que nada dói a não ser joelho ralado, em que aprender é o que menos importa e em que cada segundo se goza. Sandra, aos 10 anos, tinha quatro irmãos e com eles ia pastorear o gado da família. Levava os bichos para comer mato fresco e ela mesma se alimentava do leite quente saído das tetas das vacas quase no mesmo segundo. O touro da manada era Luzeiro, forte e bruto, e com uma parte nos céus: Luzeiro foi vendido pelo pai de Sandra para financiar a primeira comunhão dos cinco filhos. Já Estrela era a donzela do rebanho. Morreu de velha, querida que era. Por nada queriam matá-la. Esperaram que o tempo desse o aval e a sacrificaram. Sandra e os irmãos choraram muito quando Estrela foi pro espaço, mas de tristeza nada sentiram quando a viram em bifes recheando seus pratos de crianças cheias de fome e nenhum ressentimento. Estrela, mesmo morta, era um saboroso motivo de felicidade para Sandra, que desaprendeu a sofrer.

 

Plato lleno de Estrella

Sandra dice que no alimenta tristeza alguna hoy en día. Llego a los 40 años habiendo aprendido que el día es corto y el corazón demasiado grande para fermentar uno y otro con rencores. Contradicción: Sandra sólo aprendió eso después de mucho sufrimiento. Pero esta historia no es sobre aprendizajes ni fracasos, y si sobre aquella época de la vida en que nada duele a no ser las rodillas raspadas, en que aprender es lo que menos importa y en que cada segundo se goza. Sandra, a los 10 años, tenía cuatro hermanos y con ellos iba a pastorear el ganado de la familia. Llevaba los bichos para comer hierba fresca y ella misma se alimentaba de la leche caliente salida de las tetas de las vacas casi en el mismo segundo. El toro de la manada era Lucero, fuerte y bruto, y con una parte en los cielos: Lucero fue vendido por el padre de Sandra para financiar la primera comunión de los cinco hijos. Estrella era la doncella del rebaño.  Murió de vieja, querida que era. No querían matarla por nada. Esperaron a que el tiempo diera el aval y la sacrificaron. Sandra y los hermanos lloraron mucho cuando Estrella fue para el espacio, pero de tristeza nada sintieron cuando la vieron en bifes hinchando sus platos de niños llenos de hambre y ningún resentimiento. Estrella, aun muerta, era un sabroso motivo de felicidad para Sandra, que se olvidó como se sufre.

Tradução: Carlos Paz

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