No estacionamento do parque, reencontro Serguei todo pimpão fazendo o make up. Como um polvo, o mestre da longevidade aplicou-me um fortíssimo abraço. Com 75 anos de idade, Serguei é um Peter Pan. Admiro sua energia. Usa um modelito de lã fina, com faixas coloridas. Pergunto qual a poção mágica que bebericara. “Não envelheci e jamais envelhecerei, estou sempre consertando esta máquina quente que é o meu corpo.” Busco seus olhos por detrás da juba leonina. Seu olhar tem o brilho da retina de Albus Dumbledore, o diretor da escola dos bruxos de Harry Potter. O druida de Saquarema afirma viver neste mundo da carne, da matéria, mas cultiva seu espírito. Para ele a morte é o final de uma etapa, e a sequência é uma esfera fora daqui.
Certíssimo, Albus, ou melhor, Serguei.Suas respostas são objetivas como o erotismo que borbulha por sua epiderme. Explico que nossa tarefa é fazer Theo Becker relaxar e meditar no ambiente de paz e tranquilidade do Jardim Botânico. Uma mistura de perfumes exalava daquele éden, enquanto eu flanava com Serguei pelo arboredo. Esse verdadeiro elfo galopante abraçava palmeiras imperiais, jatobás, jacarandás, ipês-amarelos, perobas, sumaúmas e outras. O ato telúrico de abraçar as árvores, para Serguei, é como enlaçar o José, a Ana, o Antônio, o Elohim, o Lino, a Carla ou a Renata e entrar em contato mediúnico com a natureza.
Homem-cobra da Record
Tudo muito bonito, contudo o tempo se escoa e nada de Theo Becker aparecer. Ligo para o ex-homem-cobra da novela Os mutantes da Record, que avisa já estar pelo parque. Sua voz é tensa. Tento apressar Serguei, que em êxtase beijava um ipê-roxo. Marco na escultura da mulher com a cornucópia. Meu olhar rastreia as cercanias quando, como uma fênix, vejo saindo de um caramanchão a figura solar de Theo Becker. Imediatamente convoco Serguei, que, como uma sílfide, hipnotiza Becker instantaneamente.
Volto a Theo, pergunto se ele não encana de sumir quando a poeira baixar. “Se acontecer é porque o meu personagem não deu certo. Tenho certeza de que foi um sucesso a minha participação, como serão também minha banda de rock e as próximas novelas que farei.” De repente para e manda, emocionado: “Poxa, estou me sentindo muito bem com vocês. O Serguei é demais, e você passa essa energia incrível. Sou fã do Serguei desde moleque, ele parece uma mistura de Ney Matogrosso da época dos Secos e Molhados com a melhor fase do Mick Jagger”.
Compreendi minha ignorância
Theo, você já abraçou árvores antes? “Cara, abraçar árvores é uma atitude totalmente rock’n’roll. Percebi imediatamente que faço parte deste ambiente.” Clamo para darmos um tempo na conversa e fazermos alguns exercícios de ioga e meditação. Encontramos um bom local e, no exato momento em que eu praticava um shirsasana (pouso sobre a cabeça), Serguei incorporava um pavão e Becker fazia mudras (gestos simbólicos do ioga).
Ao final, com o sol já se pondo, Becker, relaxado, solta esta: “Agradeço profundamente por este encontro. Cheguei à compreensão da minha ignorância. Andressa foi importantíssima na minha vida, mas consegui perdê-la. O que tenho a dizer é para que cada homem cuide da melhor forma possível da sua mulher e que não se deixe cair em tentação. Não sei o que aconteceu, mas este nosso encontro aqui no Jardim Botânico está sendo um divisor de águas em minha vida”, diz, sério. “Percebi que a Andressa não vai voltar para mim.”
Agradecimento: Jardim Botânico do Rio de Janeiro


































