Era uma vez uma croata chamada Sladjena, vinte e poucos anos, daquelas que vão além da larica, do tipo que tem mesmo fome de viver. Estava de bobeira na margem esquerda do Capibaribe, viagem sem diário de bordo, sob o torpor e a lesa felicidade guerreira dos Tristes Trópicos.
Deixou uma penca de rapazes com os quatro pneus arriados de paixão na aurora dos 90.
Recife ensaiava seus passos de Seattle do Quarto Mundo, mas os mangueboys, chapados de lirismo, groove e psicodelia, faziam um minuto de silêncio para ouvir a saudação gringa:
- Up to the trip! - bradava a croata, com Pernambuco embaixo dos pés e a mente na imensidão. Um dos vidrados na estranja, Francisco de Assis França, futuro Chico Science, pisciano devoto à disciplina amorosa, dono de um parque de diversão na cabeça, parecia seguir, sem muito trabalho, os conselhos de Sladjena. À moda de Salinger (Para Cima com a Viga, Moçada), começou a desentupir as veias da Amsterdã das Américas - como queriam os holandeses chegados ao Recife - com um levante praieiro que marcou a sua vida de malungo: a busca da batida perfeita. Ou melhor, nas palavras de Afrika Bambaata: "Looking for a perfect beat". Tudo isso acompanhado de um slogan que marcou a sua curta passagem por estas plagas: "Diversão Levada a Sério" - como ele definia suas estripulias e atitude.
Este mês faz quatro anos que o homem-caranguejo deu um pitu na vida - o mesmo que "dar um perdido" no dicionário dos paulistas - e deixou este mundo. O choque de um Fiat Uno com um poste, em um viaduto na divisa entre o Recife e Olinda, por volta das 19h do dia 2 de fevereiro de 1997, arrastou precocemente, aos 31 anos incompletos, o homem-caranguejo. O inquérito policial de 174 páginas da Polícia Civil pernambucana calculou que Science corria a 110 km/h - a velocidade média nesse trecho costuma ser alta, pois a avenida que precede o viaduto é uma reta só. Com traumatismo craniano, afundamento no tórax e fraturas múltiplas na face, a maior invenção dos palcos brasileiros pós-suingue de Jorge Benjor foi levada para o Hospital da Restauração, centro de urgência da capital.

Entre vítimas da violência carnavalesca, o seu corpo foi largado nos corredores, enquanto aguardava a vez. Conforme a notícia do acidente corria as ruas do Recife e as ladeiras de Olinda, os tambores dos maracatus e as pequenas orquestras de frevo iam silenciando. Amigos e admiradores, inconformados, maldiziam Deus e o mundo.
Veja aqui:
[Impressionantes esculturas de lama]
e o [último case] do caranguejo.

As histórias que ninguém contou, narradas por dois grandes amigos do Chico, você só lê na edição impressa da revista #86.