CAI
UM
GRACIE

Por Phydia de Athayde 

Com um golpe chamado relógio, que estrangulou o pescoço de seu oponente, o desacreditado Wallid Ismail finaliza o tricampeão invicto de Ultimate Fighting Royce Gracie e pede US$ 200 mil por uma revanche

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Nos dois primeiros minutos, ainda de pé, não trocaram mais que uma ou outra pegada. Até que, num contra-ataque eficiente, Royce levou Wallid ao tatame. Entre os quase 7.000 espectadores que lotaram a arena montada em Copacabana para o II Oscar de Jiu-Jitsu Contra a Violência - um festival de lutas casadas realizado na praia em 17 de dezembro passado -, ninguém se espantou. Afinal, Royce é um Gracie, tricampeão do Ultimate Fighting e recordista em lutas invictas (foram 12 sem perder), filho do patriarca Hélio e irmão do lendário Rickson.

É verdade que seu adversário, o amazonense Wallid Ismail, de 30 anos, aluno do primo e dissidente da família, Carlson Gracie, já havia vencido dois medalhões do clã, Ralph e Renzo. Mas Wallid não passava de um atleta de boa expressão no jiu-jitsu brasileiro, com seis vitórias e duas derrotas em vale-tudo, muito longe de ostentar a aura mítica dos Gracie.

O que eram favas contadas, no entanto, transformou-se numa zebra sem igual. Como que por obra divina, o pequeno Ismail safou-se do crucifixo - no jiu-jitsu, um golpe de finalização - imposto por Royce, enroscou-se na habitual confusão de pés, braços e troncos, e conseguiu inverter as posições. Enquanto um tentava se infiltrar para imobilizar o oponente, o outro se defendia torcendo-se e escapulindo a cada investida. Quase cinco minutos de luta, e Wallid obrigava o adversário a se virar de quatro. Num golpe básico conhecido como relógio, o pescoço de Royce foi pressio-nado de forma insuportável pela gola do seu próprio quimono. A platéia, aí incluída a presença de personalidades ilustres como o próprio Hélio Gracie, que dificilmente é visto nos dias de hoje em qualquer competição no Brasil, custou a acreditar no que via: Royce tenta resistir não acreditando na pegada do chamado "paraíba", foi sufocado, chacoalhou as pernas em convulsão e "dormiu" por alguns segundos. Enquanto sua equipe tentava reanimá-lo desesperadamente, Wallid corria em disparada como se tivesse feito o gol do título. Ele não tinha vencido uma luta qualquer. Wallid se transformou em celebridade, virou capa das revistas especializadas, foi para os EUA gravar dois vídeos e agora pede US$ 200 mil para voltar ao tatame.

 

SEM ENROLAÇÃO

A queda de Royce Gracie foi o desfecho de um desafio lançado meses antes. Aos 32 anos, ele nunca tinha lutado como faixa preta de jiu-jitsu. Queria que esse combate acontecesse no Brasil para, em casa, conforme dissera antes da luta, "aquecer antes de enfrentar Mark Kerr", um dos mais senão o mais completo e temido dos lutadores de vale-tudo da atualidade (invencibilidade de 10 lutas), ainda este ano. Mas a versão que corre nas academias do Rio conta outra história. Diz que o irmão mais novo de Rickson Gracie estava preocupado em desmentir boatos de que sua destreza no octagon não seria a mesma sobre um tatame enfrentando especialistas em sua própria arte.

Seja como for, Royce passou a procurar um adversário "que fosse homem para topar uma luta sem tempo e sem contagem de pontos". "Assim não tem enrolação", justificou-se. "Vence aquele que de fato finalizar o oponente." Demorou para aparecer quem se dispusesse a estar a sós com ele no tatame sem um gongo por perto. Até que surgiu Wallid, que não vestia um quimono havia dois anos. "Sou muito louco, nasci para lutar e não tenho um medo racional," explica-se. "Lutaria com Royce por três, quatro, cinco horas, o que fosse."

Naturalmente, o resultado da luta despertou inúmeros comentários. Para Rórion, empresário e irmão de Royce, " A vitória de Wallid foi como a derrota do Brasil para a França na final da Copa do Mundo". "A diferença é que eu entrei para treinar e o Wallid para lutar", disse Royce. Hélio Gracie também desdenhou a luta: "Não foi uma luta, foi um acidente", disse ele, em entrevista à TRIP. "Wallid não tinha condições técnicas para aquilo. Ele ganhou um bilhete de loteria pela sua dedicação ao esporte." Flavio Behring, que também foi ouvido pela reportagem, apontou a luta como exemplo de uma tendência do jiu-jitsu atual: "Hoje em dia, não basta dominar totalmente a técnica, como é o caso do Royce. É preciso uni-la a um preparo físico e a uma força fora do comum. É invejável a evolução técnica e física do esporte".

 

BRIGA DE BASTIDORES

O resultado da luta, além de soar meio vexaminoso para Royce Gracie, trouxe de brinde uma difícil negociação para a revanche, a melhor maneira do supercampeão se recompor - o que tem pegado, na verdade, é a grana. "Wallid está impondo um valor absurdo para ir ao combate, assim não vai existir promotor que pague, e ele não terá de lutar", acusa Royce. "Não vou jogar o jogo dele, ele não quer voltar a lutar." Wallid Ismail está pedindo US$ 200 mil, porque, segundo ele, "é o mesmo valor que Royce levou na primeira luta, e agora as posições simplesmente se inverteram". Conforme apurou a TRIP, Wallid está equivocado: Royce não ganhou mais que US$ 30 mil para entrar no tatame em dezembro passado. "O fato é que agora quem dá as cartas sou eu", provoca o lutador. "Se o Royce quiser, tira do próprio bolso e luta comigo até de graça. É ele quem tem de correr atrás do prejuízo."

A verdade é que, se as coisas continuarem assim, pode ser que a negra jamais aconteça.