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MATAR
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Sabotando a sua cabeça: na onda de induzir
gente nova ao vício, a indústria de tabaco usa cada vez
mais imagens de esportes de ação nas propagandas de cigarro,
tentando convencer que fumar é coisa de atletas ativos e saudáveis.
Um tipo de publicidade proibida nos Estados Unidos e em dezenas de países,
mas que por forças ocultas passa batida por aqui. Quem é
vivo reage. POR
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E
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SPORTE
por José Sacchetta
Com reportagem de Phydia de Athayde |
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Nada define melhor a estratégia de atuação das companhias de cigarro no Brasil do que uma palavrinha curta e grossa: crime. Espantados com a onda antitabagista que se instalou nos países ricos, fabricantes descobriram, mais embaixo, um buraco capaz de salvar-lhes a pele. São os países do Hemisfério Sul, cujas legislações (e legisladores) estão há muito defasadas. E o pior é que vieram com tudo. Num flagrante de propaganda enganosa, estão concentrando esforços na publicidade com esportes de ação - especialmente no Brasil, onde a lei, curiosamente, impede apenas o vínculo do cigarro com os esportes olímpicos. Desta forma, alpinistas, skateboaders, surfistas e outros atletas viraram, da noite para o dia, garotos-propaganda do tabaco. Não se trata de moralismo gratuito nem de meter a colher no
que é assunto dos outros. Vá lá: fuma quem quer.
Mas não dá para deixar de pôr a boca no mundo ao
ver que os empresários do fumo nos têm como idiotas capazes
de acreditar que o cigarro, causador de tantos males, combina com as
coisas boas da vida.
Nas competições de rafting,
pode-se descer um rio por até dois dias, exigindo a plena
forma do atleta. Devido à dificuldade em absorver o O2,
o fumante precisa aumentar o trabalho dos músculos do sistema
respiratório (diafragma e intercostais), o que acaba acelerando
o processo de fadiga. Em outras palavras, o pulmão cansa
mais rapidamente e o atleta é atacado pela chamada 'falta
de arí. Christian Koenenkamp, de 25 anos, pratica rafting
há dois. Fumante desde os 16, Christian largou o fumo alguns
meses depois de iniciar-se no esporte: "Foi só parar de
fumar para sentir a diferença. Hoje, quando estou no bote,
sei distinguir pela remada exatamente quem fuma e quem não
fuma."
No Brasil, somente entre 1985 e 1994, os investimentos em publicidade feitos pela indústria tabagista aumentaram 74,3%, de acordo com os últimos dados levantados pelo Ministério da Saúde. Resultado: enquanto os números internacionais informam que o consumo de cigarro diminui em torno de 1,5% ao ano nos países ricos, sabe-se que entre as nações em desenvolvimento, caso do Brasil, a quantidade de fumantes cresce quase que na mesma proporção. Essa migração da dinheirama do fumo para os primos pobres ao Sul do Equador não é favor nenhum: simplesmente está ficando difícil vender cigarro em países verdadeiramente sérios, em especial nos Estados Unidos. O motivo é simples: fumante lá não tem vez. Enquanto a legislação brasileira só impede efetivamente o fumo dentro dos aviões, o único lugar onde se permite um traguinho por lá é no meio da rua, dentro de carros particulares ou em casa. Pobre de quem acender um cigarro em restaurante, cinema, lobby de edifícios, elevadores, lojas: na maioria dos estados americanos, a infração acaba pesando no bolso. Os anúncios de cigarro em TV - restritos ao horário entre 21h e 6h no Brasil - já foram banidos da telinha americana há mais de 20 anos, o que acabou tornando ilegal, desde o ano passado, o patrocínio de eventos esportivos, geralmente transmitidos pela televisão. Sobrou uma ou outra peça publicitária, dispersa nas revistas, mas nunca ligando fumo a esporte.
MOUNTAIN BIKE
Quando o mountain biker começa a
fumar, tem seu rendimento diminuído no mínimo em
20%. Ele sofre de perda de fôlego com mais facilidade, o
que inibe a ocorrência do chamado fator "explosão".
O atleta perde a capacidade de ace-lerar repentinamente numa pedalada
morro acima, por exemplo, ou apertar o passo carregando a bike
nas costas, prática comum nesse tipo de esporte.
A indisposição da maioria dos americanos em relação ao cigarro acabou gerando, mês passado, um acordo draconiano para os fabricantes, que bem poderia servir de modelo ao governo brasileiro. Para pôr fim à onda de processos judiciais que tenta garantir tratamento médico às vítimas do tabagismo, as empresas Philip Morris, Lorillard e Brown, PJ Reynolds e Williamson terão de depositar U$206 bilhões nos cofres públicos durante os próximos 25 anos. Ficou acertado que acabarão as propagandas em outdoor, veículos de transporte público e artigos de vestuário, como bonés e camisetas. Proibiu-se também o uso de personagens de quadrinhos nos anúncios - a determinação é um tiro de misericórdia em Joe Camel, cuja imagem, revelou uma pesquisa, é tão reconhecida entre as crianças quanto a de Mickey Mouse. O camelo boa praça começou a vestir a carapuça de vilão em janeiro passado. Naquele mês, um deputado tornou públicos dois memorandos internos da Reynolds que alertavam para a necessidade de se aumentar a penetração da marca Camel entre jovens de 14 a 24 anos. Do mesmo modo que toda uma geração de mulheres
foi convencida a fumar por comerciais que mostravam beldades empunhando
a piteira, de uns tempos para cá o marketing do tabaco resolveu
passar por cima da lei brasileira que proíbe comerciais de fumo
dirigidos ao jovem. Não foi por acaso: ninguém começa
a fumar depois de velho. Ao contrário, 90% dos fumantes se iniciaram
antes dos 21 anos. Nada mais natural - e perverso -, portanto, que alguns
publicitários sacassem de suas cartolas o trunfo dos esportes
de ação, ou radicais, como preferem chamá-los os
publicitários que se prestam à cumplicidade passiva. Assim,
além de peças como as da série no limits, que anunciam
a marca Hollywood, a indústria tabagista passou também
a patrocinar campeonatos e aventuras desportivas. Chegou ao cúmulo
de formar equipes inteiras, como a do Marlboro Adventure Team, bancada
pela Phillip Morris para participar de provas de rafting, escalada,
rapel e jipe off-road, em agosto deste ano. "Não tenho condições
financeiras de recusar coisas que são sonhos para mim", defende-se
o triatleta e não-fumante Sérgio Zolino de Sá,
31 anos, um dos participantes do time da Marlboro. "Se tivesse o poder
de mudar o mundo, não escolheria fazer propaganda de alguma coisa
intoxicante."
Fumar antes de andar de skate é
o mesmo que praticar esporte em lugares muito poluídos.
Enquanto o skatista aquece, há um desgaste desnecessário
de energia para manter a oxigenação. Seu organismo
luta contra a hipóxia (baixo nível de O2) e a consequência
disso são reflexos afetados, o que pode resultar em desconcentração,
falta de coordenação ou até mesmo desmaio.
Esse tipo de ocorrência em uma atividade onde é comum
o atleta se colocar em situações de velocidade ou
em vôos altos sem uma superfície macia embaixo, pode
ser fatal. Quem diz isso não é a TRIP: "Eu não
aconselho ninguém a fumar, só piora a performance.
Nas competições eu fumo entre uma volta e outra
pra dar uma acalmada, e no fim, acaba não acalmando. Foi
mais cansativo ganhar o título em 97 do que em 95", confessa
Rodrigo "Digo" Menezes, 21 anos, bicampeão paulista de
skate, fumante desde os 16.
Tudo bem: não dá para culpar os atletas, mas dá para denunciar a cara-dura dos patrocinadores da Marlboro Adventure Team. Procurados pela TRIP, preferiram não se posicionar. Uma organizadora do evento, no entanto, aceitou argumentar em off: "Em hipótese alguma a Marlboro quer ser associada com esporte. As atividades realizadas são apenas aventuras. E você não pode associar isso a esporte, porque não são atividades aeróbicas. Mesmo o rafting, que dizem ser aeróbico, é uma atividade na qual não é obrigatório o condicionamento físico. É tudo uma aventura, assim como o Camel Trophy". Balela, para dizer o mínimo. Ou alguém acha de verdade que um rafting sério, ou até mesmo o jipe off-road, é tarefa para qualquer um que não esteja com o físico em cima? "Discordo completamente da idéia de que não precisa ter fôlego para pilotar um veículo 4X4. Sem preparo você não dá nem cinco voltas", desdenha Marcelo Bettarello, 19 anos, não-fumante, membro do Marlboro Team e praticante de ralis com motos e jipes. "Não é só sentar num carro e dirigir. Se estiver cansado, com o braço cansado, vai acabar errando." Para colocar esta e muitas outras questões a limpo, TRIP convidou executivos da Philip Morris e da Souza Cruz, fábricas que dominam 90% das vendas de cigarro no Brasil, para participar de um debate que reuniria seus respectivos publicitários, além de profissionais críticos ao fumo, como o cancerologista Drauzio Varella. O encontro acabou não acontecendo, pois fabricantes e agências de propaganda acharam por bem não levar a público seus argumentos, se é que existem. Não faz mal. Por mais que seus anúncios insistam em relacionar vida ativa e cigarro aceso, o fato é um só: assim como não dá para assobiar e chupar cana ao mesmo tempo, fumar não combina com a atividade esportiva. Ao contrário, esporte exige pulmão limpo, resistência e força. O que o cigarro faz é afetar as vias respiratórias, diminuir a capacidade pulmonar, aumentar a pressão arterial, a freqüência cardíaca e a quantidade de sangue bombeado pelo coração. Quem dera fosse só isso: a Organização Mundial da Saúde (OMS) registra mais de 60 mil pesquisas publicadas e reproduzidas em diversos países do mundo comprovando a relação causal entre fumo e doenças graves como o câncer de pulmão (90% dos casos), enfisema pulmonar (80%), infarto do miocárdio (25%), bronquite crônica e derrame cerebral (40%). Basta ao fumante subir uns poucos lances de escada para sentir falta de ar e taquicardia. Agora imagine uma coluna de fumaça serpenteando dentro do corpo de um atleta, e pense na performance que terá em qualquer atividade física que se meta a fazer, incluindo o rafting e o automobilismo off-road. Não dá. E tanto não dá, que nenhum cigarro aparece nas cenas mais emocionantes de seus próprios comerciais.
SANDBOARD Apesar de não serem esportes aeróbicos
por definição, os praticantes de ski na neve, snowboard
e sandboard também vêem sua performance afetada pelo
consumo do fumo. Numa prova de snowboard, por exemplo, onde a
decisão se dá durante a descida e qualquer erro
significa a desqualificação imediata - para não
falar nos acidentes -, contam o preparo físico do atleta
e o efeito da altitude da montanha além da pressão
psicológica. Na hora de despencar sobre uma montanha de
neve, o fumante experimentará uma queda de aproveitamento
já que seus músculos têm menos oxigenação
e, por consequência, menos ëexplosãoí.
Isso sem contar os efeitos de grandes altitudes no corpo, que
no caso do fumante, são amplificados.
Para se viciar em tabaco não é preciso muita dedicação. A nicotina gera uma dependência tão feroz que não se aguenta mais que uns poucos minutos para que venha a crise de abstinência, o que obriga o viciado a fumar um, dois, até três maços ao dia. Na maior parte dos casos, basta um cigarro diário durante seis semanas e está-se pronto para fumar por duas décadas. Parar é que são outras. De cada 100 pessoas que fazem a tentativa, cerca de noventa estarão acendendo o cigarro de novo ao final de um ano. No começo é até fácil, mas depois do terceiro mês mais de 60% já desistiram. No sexto, 75% voltaram a fumar. Os donos do tabaco sabem: se a pessoa não se viciar durante a adolescência, tem poucas chances de tornar-se fumante. Por isso, além das peças publicitárias ligadas ao esporte, seus homens do marketing despejam fortunas em patrocínios de shows e festivais de música que atraem público jovem, como o Free Jazz e o Hollywood Rock. A intenção, óbvio, não é promover a cultura, mas estabelecer o vínculo poderoso entre cigarro e prazer. Este é o primeiro passo para que as companhias de fumo garantam seus 2,7 milhões de novos fumantes por ano, número mínimo capaz de compensar as baixas provocadas pelo vício e manter seus ganhos estratosféricos - somente a Souza Cruz, líder de mercado no Brasil, teve um lucro líquido de R$ 308 milhões em 1997, 40% a mais que 1996. Diferentemente do que acontece nos Estados Unidos e na Europa - onde a União Européia determinou que a partir de 2006 a propaganda de cigarros será totalmente banida -, o estímulo ao fumo no Brasil corre solto. Não adianta colocar advertências do Ministério da Saúde no maço de cigarro ao mesmo tempo que se permite a publicidade planejada na ponta do lápis para arrebanhar gente moça. De resto, nada adiantará se não se cumpre a lei que proíbe a venda de fumo para menores de 18 anos. Para comprovar como é fácil transgredi-la, dois professores de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Ronaldo Laranjeira e Jair Mari, fizeram uma experiência com suas filhas, de 8 e 12 anos. As meninas percorreram 70 bares e padarias da capital paulista, alcançando a prodigiosa marca de 100% de sucesso na aquisição de maços de cigarro.
Tirando a falta de fôlego, o surfista
que fuma está exposto a dois males maiores: menos pique
por conta da má oxigenação dos seus músculos
e, pior, o risco de se afogar sem se dar conta do perigo - na
hora de um caldo, a aflição por oxigênio demora
mais para chegar a ele. Isso porque seu sangue está acostumado
a trabalhar com menos O2, o que lhe permite ficar mais tempo sem
respirar. Mas o que parece ser uma vantagem na realidade pode
ser fatal: seu corpo demora mais para "apitar", ou seja, quando
ele sentir a urgência de respirar, pode ser tarde demais.
Ele corre o risco de desmaiar embaixo díágua e ficar
por lá. "Sinto que o cigarro está me atrapalhando.
Tem dias que chego a ficar até duas horas no mar, mas cada
vez com mais dificuldade. Sei que se eu não fumasse ficaria
muito mais tempo na água", diz Josil Mandacaru, 31 anos,
surfista desde os 8 e fumante de meio maço de Marlboro
por dia desde os 15.
Nos Estados Unidos ninguém é santo, mas a diferença é que há atitude. De abril a setembro deste ano, durante a campanha Smoke Out 98, 30 jovens de 14 a 16 anos percorreram 8.200 dos 15 mil pontos de venda de cigarros em Nova York. Comerciantes que venderam o maço sem pedir a identificação dos menores foram flagrados e multados imediatamente por agentes do Departamento de Saúde. O resultado é que a venda de tabaco para crianças e adolescentes caiu 34% na cidade. Mais: mês passado o prefeito Rudolph Giuliani propôs uma lei aumentando de US$ 300 para US$ 1000 a multa aos infratores de primeira viagem, e de US$ 500 para US$ 2000 aos reincidentes, que também perderão a licença para comercializar os cigarros. Ao contrário do que acontece por aqui, lá as coisas funcionam ao menos nesse aspecto. Vai ver é porque os governantes americanos já fizeram as suas contas e sabem que estão no vermelho: enquanto recebem cerca de US$ 47 bilhões de dólares anuais em impostos da indústria tabagista, gastam outros US$ 68 bilhões no tratamento das doenças causadas pelo fumo. O cigarro não pesa só no bolso. Custa o olho da cara - econômica e literalmente falando. |